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Capítulo Primeiro

Capítulo I


Domingo, à tarde, chovia. Alice estava confortavelmente jogada no sofá pensando em tudo que lhe acontecera nos últimos tempos, no que ela foi e no que ela é agora: Uma mulher triste, afogando-se em suas lágrimas e sufocada violentamente pelos longos soluços amargurados que lhe traziam a lembrança de um passado próximo, muito próximo.
Jovem rica, porém de atitudes simplórias, Alice vivia praticamente enclausurada entre as grades de sua própria casa, onde morava com o pai, viúvo ranzinza, e os empregados.
Vivia cercada de festas e reuniões, de amigos e de todos os mimos que alguém pode querer. Mas, Alice sentia-se só, e como se pertencesse a ela toda solidão do mundo, às vezes se encontrava chorando como se aquelas lágrimas pudessem amenizar todo o seu sofrimento. Mergulhou nas suas lembranças, por mais que elas a ferissem: 12 de novembro, aniversário de Alice. Os convidados estavam na sala de visitas esperando-a, enquanto ela se vestia no seu quarto. Desceu. Bela, arrancou olhares de todos que tanto a aguardavam. Seu noivo, Fernando, enquanto tirava um gole de seu copo de uísque, fitou-a com toda atenção antecipando-se para recebê-la estirando-lhe a mão direita, e Alice, cedendo ao galanteio, deixou que sua mão deslizasse pela dele.
Dançou-se e bebeu-se durante toda a noite em casa de Arruda, pai de Alice, que logo foi deitar-se devido à insistente prostração que o acometia, pois bebera demasiadamente em companhia de seu sócio, o Sr. Freitas.
Todos tinham-se ido, e, ficaram apenas Alice, Paula ("uma amiga") e Fernando. Conversavam animadamente sobre muitos assuntos, e Alice notou que a garrafa de uísque sobre a mesa de mármore estava vazia e logo levantou-se a fim de ir buscar outra, deixando assim Fernando e Paula sozinhos na sala. Cinco minutos depois, e ela já estava de volta trazendo em uma das mãos a garrafa de uísque que caiu como reflexo do seu susto ao presenciar a conversa que se desenrolava com certa intimidade. Com o barulho estridente que a garrafa fez ao cair, Alice chamou para si a atenção dos dois que a olharam com espanto seguidamente caindo numa estrondosa gargalhada. Alice, atônita, ficou sem ação diante daquela cena, e caminhou à passos contados em direção aos dois, deixando transparecer todo o seu constrangimento:
- O que é isso? O que está havendo aqui?
- Estávamos conversando sobre você. Quer ir lá fora e ver a conclusão desta conversa? - Disse Fernando engolindo à força a última gargalhada.
E foram os três em direção ao portão de entrada, que abriu-se sob ação do porteiro enquanto eles se aproximavam, deixando à mostra a "conclusão". Era um tílburi, como os do século XIX.
O cocheiro os esperava, mas, Paula pediu as rédeas para conduzir os noivos por um romântico passeio coberto pela luz da lua. Alice ficou confusa, logo se desculpando com os amigos, e, emocionada, notou uma lágrima rolar pela sua face. Chorava de alegria por saber que era amada.
O tílburi partiu pelas ruas da cidade conduzido por Paula, que tinha como passageiros Fernando e Alice. Seguiram cantando por todo o passeio, e, Paula sugeriu descerem a serra. Todos concordaram.
Seguiam pela estreita estrada dos tempos do império quando uma chuva torrencial despencou subitamente sobre a serra. Eles, por intensidade do susto, puseram-se a rir, quando, repentinamente, a encosta ao lado da estrada desmoronou imperceptivelmente mas o bastante para derrubar uma árvore na frente do tílburi, o que amedrontou os cavalos, os quais saíram em disparada. Paula já estava em pânico, pois não sabia o que fazer para controlar os animais e, juntamente com Alice, constituía um coro espantosamente assombrado. Diante disso, a atitude de Fernando foi erguer-se para ajudar Paula a segurar as rédeas e, neste momento, uma das rodas do veículo partiu-se, devido o atrito desta com uma pedra, e o tílburi virou, jogando seus ocupantes no penhasco. Buscas foram feitas, e, um dia depois do acontecido dois corpos foram encontrados sobre as pedras. Dois metros acima estava Alice, desacordada e horrivelmente machucada. Ficou setenta e duas horas em coma. Dois dias depois esteve presente na missa de sétimo dia da morte dos amigos, indo de encontro às recomendações médicas e conseqüente proibição do pai, numa cadeira de rodas. Lembrava-se de Paula como a "amiga entre aspas" pois, havia lhe roubado alguns namorados. De Fernando como o homem que mudou a sua concepção de amor, que a fez sentir-se a maior mulher do mundo e que lhe dedicou os quatro últimos anos de sua vida. Ao pensar assim, bateu-lhe uma profunda depressão e chorou violentamente. As lágrimas teimavam em brotar de seus olhos que mais pareciam duas brasas incandescentes de tão vermelhos por permitir desatar o pranto.

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