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| Marcelo da Silva Araújo* Introdução Atualmente, é indiscutível a ampla participação da juventude nos rumos da nação brasileira e do globo. Tendência mundial, o “rejuvenescimento” populacional caminha em igual passo com a maior taxa de envelhecimento, ambos motivados pelos avanços médicos e tecnológicos que possibilitam melhor expectativa de vida. São vários os campos do conhecimento que se debruçam na investigação deste segmento detentor de tão ricas particularidades. Dentre estes, a antropologia, enquanto área fundada na compreensão da diversidade, se afigura como ciência que pode contribuir de modo singular. Nesse sentido, afirma-se especialmente o papel da etnografia enquanto técnica que proporciona fundamentais direções para uma investigação qualitativa, visando ao entendimento da diferença. Sem dúvida, é particularmente fértil deter a atenção na problemática do universo jovem urbano. Considerando principalmente os centros com alto grau de urbanização e contrastes sociais evidentes, não é difícil verificar que eles, ao se organizarem em grupos, põem em marcha uma plural e dinâmica gama de estilos e de formas de (auto) apresentação. Sua intenção, via de regra, é diferenciar-se dos demais, sobretudo os de outras faixas etárias, particularizar-se produzindo e implementando um tipo de vanguarda que se faz perceber a partir de seus aspectos de intensa exposição e de exploração visual.[1] Determinados comportamentos têm um intenso grau de aceitação, configurando um modo de ver e de participar do mundo, e mais especificamente da cidade. Tudo isto gerou e tem gerado importantes transformações na sociedade. Assim, as administrações mais atentas têm sido responsáveis por fundamentais políticas públicas voltadas para este segmento, instrumentalizando-o cada vez mais para a inevitável competição, em todos os campos, do mundo moderno. É neste horizonte que se desenvolveu o evento observado. Com a chancela da Prefeitura local, um campeonato de skate ocorreu no recente ano de 2002, em um movimentado bairro do município de São Gonçalo/RJ. Este fato torna-se importante, pois dá uma mais ampliada visibilidade ao mesmo, informando aos passantes não somente de sua existência, mas também, como já afirmei, de sua riqueza cultural. Este texto é baseado num relato etnográfico ocorrido no processo de investigação de um grupo de grafiteiros em atividade no município referido, tendo sido originalmente parte integrante de minha dissertação de mestrado (ARAUJO, 2003:116-24, prelo). Para tanto, é necessário tecer alguns comentários explicativos sobre o campo a fim de contextualizar a ação desenrolada naquele espaço e suas especificidades. ‘Andando na cidade’O município de São Gonçalo afigura-se como uma localidade ao mesmo tempo rica em recursos agrícolas, como a horticultura e a fruticultura, e carente em relação a diversos campos da vivência diuturna de seus habitantes. Faltam aparelhos de lazer e de entretenimento (teatros, cinemas, praias, parques e áreas verdes) e veículos de educação e cultura formais ou informais (rádios comunitárias, projetos institucionais de caráter educativo e cultural, ONG’s) que poderiam funcionar como espaços de expressão e de intercomunicação populares. Aparecendo entre as cidades mais populosas do país, São Gonçalo apresenta crescimento acelerado e desordenado, carecendo de uma visível organização do espaço urbano para as manifestações ligadas ao lazer. Tal conformação espacial e, por conseqüência, tais limitações acabam por influenciar as manifestações humanas individuais ou grupais em seus formatos. Assim, acompanhar um grupo urbano que se manifesta neste ambiente significou aproximar-me de sujeitos sociais que, embora próximos geograficamente, estão, em contrapartida, distantes em termos de hábitos, gostos e comportamentos. Tal situação configurou, para mim, um paradoxo. Isto é, o de tentar tornar o que parece habitual e ‘normal’ em estranho, exótico (VELHO, 1978).[2] Por vezes, irei utilizar-me, para dar substância a este relato, da transcrição de significativos trechos de falas de informantes, colhidas durante o evento ou posteriormente, a título de posicionamento quanto ao mesmo. Juvenização
de uma praça: observando um evento - sociabilidade e entretenimento
Espaço de celebração, a praça visitada, Praça Chico Mendes, possui um dos símbolos do entretenimento, do lazer e da sociabilidade juvenis: uma pista de skate ou half.[3] Nesse cenário, realizou-se um campeonato que seduziu o meu olhar para a forma como se desdobram as suas práticas e gestual específicos. Estas comparecem à percepção não sem certo incômodo, em virtude de seu caráter fragmentado e enigmático para os não-iniciados. Na ocasião, cerca de Enquanto os astros do evento evoluíam em suas manobras, os presentes dividiam sua atenção entre os três componentes básicos de seu interesse naquele ambiente: a letra e o ritmo da música que tocavam, os movimentos do skate e as possibilidades de efetuar parcerias amorosas. Quanto a este último aspecto, percebi que alguns jovens já chegaram acompanhados, mas a grande maioria estava só e interagindo inicialmente com pequenos grupos. A todo o momento, os grupos procediam a formas ritualizadas de apresentação e de inter-reconhecimento: os rapazes dão três beijos na face da moça, começando, deste modo, o estabelecimento de diálogo, visando a uma aproximação a partir da verificação de afinidades, cujo desfecho pode resultar em ligação amorosa – nesse sentido, meus interlocutores não se diferenciam muito de outros grupos nesta prática, em tempos e lugares diversos (tais como o meu quando mais jovem), o que não confirma um exotismo inerente e radical tampouco um “nós” e “eles” antropológico profundo. Tais ‘enlaces’ amorosos têm por característica essencial a efemeridade. Duram enquanto durar o evento; e, não raro, troca-se numerosas vezes de parceiros no decorrer do mesmo evento, sem nenhum constrangimento, inibição ou mágoa do(a) ex-parceiro(a). Posicionados, ou melhor, concentrados em torno da pista, a observarem o desempenho dos esportistas, os jovens compartilham símbolos de várias micro-culturas, que se transformam em modos de estilização individual. A coexistência destes estilos qualifica o ambiente como um espaço de sociabilidade: havia jovens completamente vestidos de preto, adeptos do rock ‘n’ roll, outros com adereços que lembram praticantes do funk music (imensos colares de metal, bonés voltados para trás ou para o lado) e, como não poderia deixar de ser, membros da cultura hip hop. Essa multiplicidade observada pode também ser confirmada no universo do grafite, conforme a ocupação principal ou secundária dos entrevistados ou conforme suas atividades paralelas, como curtir rock ou funk.[4] Considerar as palavras de Fênix e Kotó: “Hoje em dia tem tudo quanto é tipo de cara no grafite... Não tem preconceito”.[5] “O grafiteiro, ele só curte hip hop, ele só quer curtir hip hop... Isso aí é a visão das pessoas de fora, mas cada um tem sua vida, cada um tem seu gosto... Eu curto de tudo, sou muito alternativo. Eu vou pra forró, pra samba... e não deixo de curtir o que é a cultura do grafite, que é o hip hop, saqualé?...”[6] Essa postura baseada na diversidade, presente no discurso de Kotó, é semelhante à dos participantes e espectadores, particularmente os adeptos da estética hip hop, independentemente de suas possíveis ‘filiações’ concomitantes[7] , viabilizando a construção de uma gramática exercitada e bem comum em eventos dessa natureza. Dentre os presentes no campeonato de skate, os ornamentos corporais assumem uma grande importância comunicativa. Os piercings dos ‘moderninhos’, os grandes e enfeitados anéis de chumbo, com entalhes representando caveiras dos roqueiros, as tatuagens, as correntes penduradas ao corpo dos funkeiros, entre outros adereços, constituem formas de comunicação visual que veiculam mensagens de natureza semelhante à linguagem oral. Estes ornamentos são discursos, símbolos visíveis de identificação e de diferenciação, e se expressam em termos amplos, através da utilização do corpo (postura física, gestos), da sua articulação com a fala e com as roupas, elementos que sintetizam o comportamento dos indivíduos observados. Na formação destes grupos urbanos, na aparente uniformidade de sua existência grupal, as roupas parecem ter uma crucial importância. Elas significam algo e, deste modo, podem ser usadas como instrumentos de mediação entre o indivíduo e o sentido que elas imprimem em suas ações. Os agrupamentos contatados comungam da preocupação de vestirem-se no maior rigor e conformidade possível com a estética hip hop ou com as mesmas que regem as suas outras filiações culturais. Com isso, dão forma a um interessante paradoxo: na busca da singularidade nos mais variados campos, eles se massificam e essa massificação é a maneira mais fácil de conquistar (forjar?) uma identificação e um pertencimento. Esses jovens, entretanto, tendem a expressar não um sinal de distinção social, mas, ao contrário, um sinal de distinção pessoal, em que o corpo, as roupas, o discurso, as preferências, etc., são transformados em indicadores da individualidade do gosto e senso de estilo do proprietário-consumidor. Há uma vinculação explícita entre um perfil considerado para cada uma das personagens e a roupa como referência direta para sua composição. A combinação de determinadas peças de roupas, de uma maneira específica, é o elemento expressivo de uma demarcada atitude no mundo do hip hop. Ao que tudo indica, isso significa uma postura de coragem perante a sociedade, ou, em outros termos, uma postura de enfrentamento, capaz de suplantar uma ordem social e sobre ela impor-se. Constituem uma crítica, que se completa no uso particular de um tipo de roupa e, independentemente de qual seja o caráter da crítica, ela precisa, enfatizo, necessariamente expressar (ou ser expressiva de) um posicionamento de coragem perante a sociedade.[8] Naquela multiplicidade, o ponto de contato e de congregação era a música. Duas figuras são emblemáticas na composição do cenário em que se desenrolou o evento: o DJ (Disk Jockey), que comandava a pick up - um aparelho de toca-discos, que constitui um elemento material da ‘cultura’ hip hop - e o MC (Master of Cerimony), a quem cabia a apresentação do evento. Para este, cabia também a atribuição de proferir palavras de ordem, tais como ‘conscientização’, ‘atitude’, ‘crítica’, entre outras e de exaltação dos performáticos, na intenção de embalar e de dar ritmo ao evento. A música, nestas manifestações juvenis e urbanas, é uma espécie de cimento que une todas estas expressões sob e em torno da órbita da linguagem celebrada (no caso, o hip hop). O poder de irmanar os observadores de todas as ‘tribos’ num ambiente de convivência, independentemente de seus engajamentos musicais mais específicos, é uma de suas importantes características: “Porque, assim, é muito diferente, o hip hop, de tudo que se ouve aí. Não tem como você gostar [de hip hop] e gostar de música clássica, que é um som totalmente diferente. O hip hop só te influencia [para] você curtir mais aquilo ali, ser mais violento, você. Não agressivo, mas... assim, você ter um estilo mais, saqual é?, mais de rua mesmo. Deixar de ser um mauricinho, saqual é?... Você passa a falar com gírias, muda seu estilo de se vestir... [É] a música que faz a pessoa, saqual é? Eu acho assim... você identifica a pessoa pela música...” [9] (Grifo meu). Com esta ambiência formada em torno da fruição da música, dois outros aspectos devem ser ressaltados no evento da Praça Chico Mendes: o gestual dos participantes e as suas gírias. O gestual dos integrantes e simpatizantes da cultura hip hop observados apresenta-se de forma espetacularizada. Como um balé de pequenas contorções, uma coreografia de uso expressivo (micro-culturalmente) dos braços, mãos (dedos) e corpo, o gestual dos espectadores aproxima-se nitidamente do gestual quase padronizado de rappers norte-americanos. Estes são veiculados em videoclipes musicais, tais como os das bandas Ciprest Hill, Beastie Boys, Rage Against the Machine, todas norte-americanas e Racionais Mc’s, Pavilhão 9, estas nacionais, segundo diversos informantes. Coreografia que também é apontada na feitura do grafite: “Tem uma dinâmica, um jogo. Não que você se preocupe em fazer [a referida dinâmica] mas, p..., aquela ‘parada’: o cheiro da tinta, a lata, o peso, o balançar, o esticar o braço, têm aquela dinâmica...”[10] Já as gírias, juntamente com os neologismos e termos técnicos, são postas em ação para formar uma comunicação hermética e circunscrita ao momento e lugar. Isto é, que não é utilizada quando o grafiteiro chega no balcão do bar para comprar uma bebida mas sim quando, por exemplo, ele comenta com outro sobre uma manobra ‘gringa’ ou sobre um tênis ‘irado’.[11] Voltando a considerar o motivo básico da plural reunião de jovens, o campeonato de skate, já podemos ter uma constatação. Desenha-se uma convergência, um aspecto que aproxima, pelo menos, parcialmente os gostos: a transgressão das regras estabelecidas. Constituindo um esporte que simboliza uma das vertentes do hip hop, o skate, que se liga à mobilidade dos praticantes do espaço urbano, atrai pela radicalidade de seus movimentos. Estes, não se prendem ao desempenho lógico e habitual do movimento humano, prescrito a partir das limitações impostas pelas leis da gravidade. Eles prefiguram, por outro lado, um caráter alternativo e crítico do funcionamento baseado na velocidade dos veículos urbanos, massificadores e portanto contrários à singularidade auto-atribuída dos atores urbanos pesquisados. [12] Há uma transgressão desse quadro, onde o skate segue o fluxo do universo do hip hop, que é estar em constante movimento, singularizando pela não fixação em uma só realidade, mas sim transformando-a pela sua intensa mobilidade. Se o hip hop é música em movimento, o skate é a sua vertente esportiva por excelência. A interação entre os jovens que assistiam ao evento tem uma inscrição cultural circunscrita e hermética, a despeito de sua pluralidade, se não se domina o caráter contextual de seu desenrolar. Os sujeitos participantes como espectadores do campeonato observado não são todos praticantes do hip hop, como já mencionei. Isto certamente enriquece a investigação, na medida em que permite ver até que ponto os gostos e comportamentos podem se mesclar, até que ponto configura-se uma concreta sociabilidade. Cito, a título de exemplo, um casal de jovens namorados portando, cada um, roupas, adereços e símbolos de culturas diferentes (ela, hip hopper, ele, roqueiro). Entretanto, ambos experimentavam a atmosfera do ambiente, partilhando a companhia de dançarinos, grafiteiros e rappers e suas respectivas performances, que diversificavam qualitativamente a paisagem. Esta riqueza parece ser, nesta intensidade e horizonte múltiplos, exclusividade do espaço urbano. Todo esse conjunto de elementos visuais (posturas, gestos, roupas, gírias) ganha certa materialidade enquanto se desenrola, na duração do evento. Ganha ainda uma outra visualidade, esta pictórica, na forma do grafite, exercitado naquele ambiente, encaminhando todo esse rol de manifestações para um dado básico, levado a efeito pela necessidade de singularizar suas pessoas e práticas. Aqui, interessa observar que um determinado estilo de vida perpassa e costura todas essas questões.[13] Em síntese, os sujeitos envolvidos nestes grupos se deslocam, fundamentalmente, a partir do ideário da linguagem musical. Tendem a agregar um conjunto específico e até certo ponto individualizado de posturas, comportamentos, discursos e visões de mundo que, longe de serem estáticos, podem se transformar circunstancialmente, conforme variam os gostos e os desejos. Em outras palavras, a questão da identidade influencia a noção de sociabilidade aqui tratada. O estilo de vida dos agentes envolvidos no acontecimento não configura identidades no sentido tradicional do termo, mas sim vínculos identitários que são datados e potencialmente efêmeros, demonstrando não uma coerência e uma consistência maciças do tipo clássico, mas sim rupturas, incongruências e muitas vezes inconstâncias. Estes vão ocasionar inevitáveis e constantes rearranjos nos processos culturais e, conseqüentemente, a redefinição sempre mutável do espaço urbano no qual transitam. Notas * Professor de História da SME/RJ e de Sociologia da SEE/RJ. Mestre em Artes Visuais pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais/EBA/UFRJ. [1] Este detalhe particular e muito acionado por estes grupos urbanos é denominado pelo termo “espetacularização” em alguns autores. Esta seria uma característica preconizada pelas turmas de jovens tanto na construção de sua identidade como também na tentativa de se incluírem e de estarem ‘antenados’ com os movimentos e posturas da moda. Cf. ABRAMO, H. W. (1994). [2] A propósito do exótico e do familiar no ambiente urbano, onde o autor diz, nas pp. 39s. da obra citada, que “o que sempre vemos e encontramos pode ser familiar mas não é necessariamente conhecido. Há, sem dúvida, cenários e grupos dentro do próprio país ou até dentro da própria cidade de que muitas vezes nem ouvimos falar, que não são temas dos órgãos de comunicação de massa, às vezes por censura, muitas vezes por simples desconhecimento”. [3] Ver, a propósito, MAFESOLI, M. (1994:64): “... a cidade é pontilhada por uma multiplicidade de pequenos espaços de celebração que têm a mesma função: aí se elaboram os ‘mistérios’ da comunicação-comunhão, a misteriosa alquimia da socialidade”. [4] Em muitas ocasiões ao longo deste texto, irei me referir à manifestação e/ou à prática do grafite de muros. Este consiste na pintura estilizada de painéis de diversas dimensões, que formam composições e em geral podem ser enquadrados como experimentações artísticas – para diferenciá-las de outra manifestação urbana, esta patrimonialmente depredadora, a pichação. [5] Fênix (03/04/2002). Grafiteiro em atividade no município e em regiões vizinhas e que é também freqüentador, paralelamente, de eventos e praticante de movimentos como hip hop e skate. [6] Kotó (06/04/2002). Na mesma situação que Fênix. [7] Lembrando que, como extraído em entrevista, alguns membros do universo do grafite têm interesses paralelos e difusos, como Kotó que se interessa por tatuagens (embora essa prática, ou linguagem, seja próxima da grafitagem) e Bagdá e Babal - outros grafiteiros - gostem de balões e participem de equipes de baloeiros. [8] A propósito desta discussão, ver BERGAMO, A. (1998, pp. 137ss). [9] Kotó (06/04/2002). É muito comum que os grafiteiros entrem em contradição em suas próprias falas: se num momento eles se dizem ecléticos quanto ao gosto e à freqüentação de espaços de entretenimento musical, afirmando que no interior do universo do hip hop e mais especificamente do grafite ‘tem tudo quanto é tipo de cara’, noutro eles dizem também não ser possível a coexistência de mais de uma linguagem musical entre os mesmos, cujo paradoxo seria curtir hip hop e música clássica. Num outro trecho da fala é interessante notar a oposição construída em torno de dois tipos sociais tidos como extremos: de um lado, o mauricinho, do outro o grafiteiro. O mauricinho tem por característica acompanhar o processo, os sinais e os lugares da moda, em termos de vestuário e de diversão, tendo uma aceitação de seu segmento de gosto garantida pela sua opção de estar afinado com as referidas transformações, enquanto o grafiteiro, por outro lado, é dito underground, ou seja, está à margem das regras instituídas, veste-se de acordo com um discurso ideológico de pertencimento específico, baseado na adoção de comportamentos, posturas e atitudes chocantes e, às vezes, até anti-sociais. [10] Depoimento do grafiteiro Akuma (15/06/2002). [11] Como coloca DIÓGENES, G. (1998:214), discutindo a produção e a utilização das gírias nos agrupamentos juvenis, especialmente os urbanos: “A palavra assume a estrutura semântica relativa a frases curtas e enunciados compactos. As mudanças, as migrações de símbolos, as criações de novos códigos de linguagem integram a dinâmica da gíria. Uma vez conhecida ou usada à revelia, ela corre o risco de perder seu caráter secreto, seu lugar de uma possível dissidência”. [12] Neste ponto recordo-me que, ao aguardar pelo encontro com um informante no lugar e hora marcados para a entrevista, surpreendi-me ao vê-lo chegar para trabalhar de skate, contrariando a ‘norma’ de deslocamento dos trabalhadores no espaço urbano, afirmando que essa era “a melhor forma de transporte que tinha” para o trabalho. [13] Aqui, pode-se observar uma determinada noção de projeto, tal como a apresenta VELHO, G. (1994:pp. 31-47), que é explicitada por outro grafiteiro, Eco, quando afirma: “Eu nunca vou deixar de fazer [o grafite]... É engraçado que quando eu pichava, eu falava ‘pô, nunca vou deixar de pichar, nunca vou deixar de pichar’. Aí, chega uma fase assim que eu parei de pichar: ‘Aí, pô, maior babaquice, não vou ficar mais fazendo essa p..., não’. Aí, depois, eu já fui ‘engatei’ no... É, tipo, deixava de pichar e voltava um tempo assim e pichava de novo... Aí depois veio o grafite, eu já segui mais o grafite”. Ao optar por deixar a antiga prática em prol de uma outra, o informante demonstra que tem uma projeção e uma expectativa positivas quanto ao investimento em sua nova manifestação, seja por efeito da repressão das autoridades públicas, seja por um processo de reflexão e de ‘conscientização’. Assim, o redirecionamento de suas atitudes é impulsionado pela mudança de conduta face às igualmente transformadas circunstâncias, com vistas a uma finalidade construída ou em construção. Referências Bibliográficas: ABRAMO, Helena Wendel. Cenas Juvenis - punks e darks no espetáculo urbano, SP: Página Aberta, 1994, 172pp. ARAÚJO, Marcelo da Silva. Vitrines de concreto na cidade: juventude e grafite em São Gonçalo, 224pp., il., Dissertação (Pós-Graduação em Artes Visuais), EBA/UFRJ, 2003. BERGAMO, Alexandre. O campo da moda. Revista de Antropologia, vol. 41, nº 2, pp. 137-183, 1998. DIÓGENES, Glória. Cartografias da Cultura e da Violência: gangues, galeras e movimento hip hop, SP: Annablume, 1998, 247pp. GEERTZ, Clifford. Saber local, 4ª ed., Petrópolis: Vozes, 1997, 367pp. MAFESOLI, Michel. O poder dos espaços de celebração. Revista Tempo Brasileiro, nº 116, RJ, pp. 59-70, jan.-mar.1994. MAGNANI, José Guilherme Cantor. Tribos Urbanas: metáfora ou categoria?. Cadernos de Campo - Revista dos Alunos da Pós-Graduação em Antropologia da USP, ano II, nº 2, SP: Edusp, pp. 48-51, 1992. PAIS, José Machado. Lazeres e sociabilidades juvenis - um ensaio de análise etnográfica. Análise Social, vol. XXV, nº 108 e 109, Lisboa, pp. 591-644, 1990. PARK, Robert Ezra. A cidade: sugestões para a investigação do comportamento humano no meio urbano. In: VELHO, Otávio Guilherme. O fenômeno urbano, RJ: Zahar, pp. 26-67, 1967. PEIRANO, Mariza. A favor da etnografia. 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