Hoje
está constatado cientificamente: que o método de cultura determina
a qualidade do solo; que o solo determina o equilíbrio da planta;
que a planta, por sua vez, determina a qualidade do sangue do homem e do
animal que dela se alimenta.
Os alimentos normalmente
apresentados aos consumidores são muitas vezes desnaturados: - por
métodos de cultura (adubos, pesticidas), - por métodos de
criação dos animais (hormônios, vacinas, certos produtos
veterinários nocivos), - pela indústria alimentícia
(refinação, aditivos, corantes, conservantes ...) Para manter
a saúde, cada indivíduo precisa de alimentos sadios, isentos
de qualquer tipo de poluição e de alteração.
É necessário esclarecer que existem
diferenças entre a agricultura tradicional e a agricultura praticada
atualmente. Chama-se agricultura tradicional o conjunto de técnicas
de cultivo que vem sendo utilizado durante vários séculos
pelos camponeses e pelas comunidades indígenas. Estas técnicas
priorizam a utilização intensiva dos recursos naturais e da
mão-de-obra direta. A agricultura tradicional é praticada
em pequenas propriedades e destinada à subsistência da família
camponesa ou da comunidade indígena, com a produção
de grande variedade de produtos. Desde o final da Segunda Guerra Mundial,
teve início um processo de declínio da agricultura tradicional
praticada até então. Na década de 60, começa
a ser implantada uma nova agricultura, chamada moderna, que se caracteriza
pelo grande uso de insumos externos, utilização de máquinas
pesadas, mau manejo do solo, uso de adubação química
e biocidas. A agricultura moderna existe há poucos anos e já
demonstra o colapso de suas técnicas. Desta forma, não pode
ser cnsiderada uma agricultura de fato sustentável, ao contrário
da agricultura tradicional, que tem centenas de anos de história
e sustentabilidade a longo prazo.
O termo mais adequado para denominar a agricultura praticada atualmente
é agricultura moderna, convencional, química ou de consumo.
Esta agricultura teve origem a partir de modificações na base
técnica da produção agrícola, o que se chamou
de modernização, e apresenta conseqüências que
demonstram sua insustentabilidade. O consumo exagerado de insumos externos,
ou seja, insumos de fora da propriedade ou de sua região, geralmente
são de alto custo e causam a dependência financeira, tecnológica
e biológica do produtor. A produção destes insumos
não passa pelo produtor e não é influenciada por ele,
gerando a dependência financeira e a dominação do fornecedor.
Da mesma forma, sua aplicação não é de conhecimento
e controle do produtor, de onde vem a dependência tecnológica
e, junto com ela, a biológica, no que se refere à mani
pulação genética e uso de microoganismos. As sementes
tradicionais, que eram selecionadas e utilizadas pelos camponeses ano após
ano, estão se perdendo. Hoje, existe apenas uma pequena variedade
de plantas em que se consegue obter a mesma produção a cada
safra. Em
geral, o produtor não consegue mais utilizar a mesma semente, tem
que adquirir outras variedades e usar novos insumos. É o que
acontece com a semente híbrida, que exemplifica a típica ideologia
da agricultura moderna: o consumo permanente. Na agricultura moderna, tudo
que é produzido de dejetos, efluentes ou resíduos é
lixo. Estes subprodutos são depositados na natureza, causando grande
impacto ambiental. Esta maneira de pensar consumista é uma concepção
muito nova, moderna, destruidora, não-regenerativa que reflete a
falta de harmonia entre homem e ambiente e a despreocupação
com o todo. O mesmo acontece nas cidades. A área onde são
construídas as cidades é a mesma em que são colocados
os dejetos produzidos por elas. Isto significa o homem poluir a si mesmo.
A utilização de máqunas pesadas também faz parte
da ideologia da agricultura moderna. Quanto
maiores forem as máquinas, mais tecnologia e status representam.
No entanto, estas máquinas têm um alto custo e exigem financiamentos
que causam o endividamento do produtor agrícola. Isto não
é sustentabilidade. Outro inconveniente do uso de máquinas
pesadas é o grande impacto na estrutura do solo e o afastamento do
agricultor da terra. A desestruturação do solo causa a pulverização
e compatacção da terra. Já o afastamento do agricultor
da terra faz com que se perca o contato com a mesma, o diálogo com
a natureza e a observação das plantas e animais. Além
disto, também possui conseqüências sociais, como a migração
do colono para as cidades por causa de financiamentos que acabam comprometendo
a propriedade.
O mau manejo e o uso intensivo
do solo também provocam desestruturação. Na camada
mais superficial, o solo fica desintegrado, pulverizado. Na camada mais
profunda, o solo fica compactado pelo uso sistemático de máquinas
pesadas. Com otempo, forma-se uma camada dura e compactada embaixo da terra
e uma camada fofa e pulverizada em cima, que, teoricamente, seria o ideal
para receber a semente. Estas condições, aliadas à
chuva, causam o deslocamento do solo -- também chamado de perda de
solo anual --, a dificuldade de penetração e fixação
das culturas, a dificuldade de trocas químicas, a dificuldade de
absorção de água e oxigênio e a intoxicação
ou eliminação total da microvida.
Este
é o custo ambiental da agricultura moderna e do mau manejo do solo.
A adubaçao química pesada, de alto custo, causa o desequilíbrio
fisiológico da planta, o desequilíbrio ecológico
do solo e a dependência do agricultor. As plantas possuem um mecanismo
de resistência a "pragas" -- o termo correto seria "insetos
com fome" (Teoria da Trofobiose, de Francis Chaubossou) -- que se
baseia em seu equilíbrio fisiológico. As plantas equilibradas
não são boas hospedeiras ou bons alimentos para bactérias,
fungos, vírus, insetos, nematóides, ácaros. Isto
ocorre porque estas lantas apresentam em sua seiva proteínas complexas
que não podem ser desdobradas por estes organismos pela falta de
enzimas necessárias para a quebra das cadeias de proteínas.
Já as plantas desequilibradas por estresse, por aplicação
de produtos químicos, por variações de clima, por
inadequação da espécie à região, são
bons alimentos, pois possuem menor capacidade de metabolização
dos aminoácidos livres para transformá-los em proteínas
complexas. Desta forma, o inseto dito "praga" tem condições
de evoluir, já que os aminoácidos livres são alimento
para ele. O desequilíbrio biológico do solo, causado pela
utilização de produtos químicos, afeta microorganismos
responsáveis pela disponibilidade de nutrientes importantes para
a planta que não consegue absorvê-los através de suas
raízes. Desta forma, não existe a colaboração
de microorganismos do solo para processamento da matéria orgânnica.
Esta microvida está sendo sistematicamente eliminada. Além
disso, quando o agricultor trabalha com adubação química
constane, cria a necessidade cada vez maior de utilização
de nutrientes químicos, ocorrendo sua dependência econômica
e cultural.
O uso freqüente e intensivo de biocidas (herbicidas, inseticidas,
acaricidas, nematicidas, fungicidas) é uma prática de conseqüências
bastante graves. Os adeptos da agricultura moderna não gostam deste
termo, mas, na verdade, os biocidas são produtos que matam a vida.
Alguns matam ervas, insetos, ácaros, mas se o homem entra em contato
com estes produtos também acaba morrendo ou tendo doenças
como câncer e degenerações genéticas. O que
fica bem caracterizado dentro do modelo de agricultura moderna é
a dependência tecnológica e cultural.
A cultura agrícola
camponesa, tradicional, vai se perdendo com o tempo, principalmente com
o desrespeito ao agricultor e a supervalorização do técnico-cientista,
que impõe técnicas importadas, desconhecidas pelo agricultor,
assim como acontece com os insumos. A destruição de alimentos,
o consumo exagerado, a insustentabilidade a longo prazo e o balanço
enrgético negativo também são características
próprias da agricultura moderna. Dentro das estruturas de transofrmação
de alimentos, a perda e a ineficiência do processo são muito
grandes.
A destruição de
alimentos pode ser observada através das questões de mercado,
da estocagem, do transporte e da comercialização.
A agricultura moderna, extremamente consumista, não fecha ciclos,
não tem a preocupação de reciclar, de regenerar,
de fazer com que o produto retorne para a fonte. Isto é observado
nos lixões das cidades. O material orgânico não retorna
para a agricultura em forma de adubo e o material mineral -- latas, vidros
-- não retorna para a produção. tudo é consumido
ou descartado. O não fechamento de ciclos tem um balanço
energético negativo. A sociedade moderna consome mais do que produz.
E isto tem reflexos na insustentabiliade da agricultura moderna.
Considerando-se
a história da humanidade, este novo modelo de agricultura está
em prática há um período muito curto. No entanto,
já mostra seu colapso. Devese perceber este colapso e encontrar
caminhos. Um deles é retomar a agricultura tradicional do ponês,
conhecer fundamentos e práticas agrícolas já esquecidas
e buscar alternativas sustentáveis para a agricultura. Como alternativa
à agricultura moderna amplamente praticada atualmente, a agricultura
ecológica começa a se estender no mundo e no Brasil através
de diversas correntes que se diferenciam em alguns pontos, mas possuem
princípios comuns. Estas
tendências têm origem e precursores diferentes, recebem denominações
específicas -- Agricultura Orgânica,Agricultura.Biodinâmica,
Agricultura.Natural, Permacultura,Agricultura. Alternativa, Agricultura.Nasseriana
--, mas possuem o mesmo objetivo: promover mudanças tecnológicas
e filosóficas na agricultura.
*O autor é engenheiro-agrônomo formado pela UFRGS em 1987,
é apicultor profissional e
Coordenador Técnico da Fundação Gaia.
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