Mémorias de um Sargento de Milícias – Joaquim Manuel de Macedo
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Resumo
O romance tem início com os pais de Leonardo se
conhecendo no navio, a caminho do Brasil, vindo de Portugal. Se apaixonaram a
bordo e se casaram em terra. Desta união nasce Leonardo, o garoto mostra-se com
o tempo voluntarioso e indisciplinado.
Os
pais de Leonardo se separam depois que o pai dele descobre uma das traições da
mãe dele. Ela volta para Portugal com um dos seus amantes, e ele abandona o
garoto, que passa então a ser criado pelo padrinho.
Leonardo
cresce mimado e travesso. Causa confusões na escola e na igreja, onde
“trabalha” como sacristão por um tempo. Acaba deixando a escola e sendo
expulso da igreja.
Passam-se
anos. Chegamos à segunda fase da história. Contrariando a todos os sonhos do
padrinho, Leonardo tornara-se um rapaz vadio. Não estuda nem trabalha.
Nesta
Segunda fase, o jovem Leonardo vive seu primeiro amor. Trata-se da jovem
Luisinha, sobrinha de uma rica amiga de seu padrinho. A moça que chega na história
para viver com a tia após a morte dos pais, mostra-se feia, estranha e
inexpressiva. Leonardo, que até então só tivera com pessoas do sexo oposto
problemas e atritos, fica curioso com a mesma garota, e começa a se interessar
por ela, mesmo sem se dar conta disto.
Com
o passar do tempo, Luisinha torna-se bela, perde o ar de timidez e
inferioridade, mas nem por isso deixa de ser inexpressiva. Tal mudança dá-se
pelos novos ares da cidade grande, com os quais ela nunca antes tivera contato.
Leonardo
declara-se timidamente à Luisinha, mas não tem uma resposta clara da parte
dela. À essa altura, um novo personagem, o pícaro José Manoel, começa a
cortejar a moça.
Morre
o padrinho de Leonardo e o rapaz reencontra, depois de tantos anos, o pai. Tem
que passar a viver com ele. A relação entre ambos, entretanto, não se
consolida bem, e não resiste aos constantes conflitos que Leonardo passa a ter
com a nova esposa do seu pai. Leonardo deixa a casa do pai sem destino ou
objetivo.
O
rapaz conhece uma outra familia, através de um antigo amigo, dos tempos em que
criança era sacristão na Igreja da Sé, e passa a viver na casa deles como
agregado.
Nesta
casa conhece Vidinha, garota sensual e atraente, de personalidade, digamos,
forte. Desenvolve por ela um interessa crescente e chega até mesmo a esquecer
de Luisinha. Tem que enfrentar, entretanto, a concorrência de dois primos de
Vidinha que moram na mesma casa e também têm nela seu objetivo de desejo.
Estes
primos tramam um modo de fazer com que Leonardo seja preso, mas ele conseguir
fugir. O motivo da prisão seria a vadiagem, portanto para ver-se imune a novas
tentativas de prisão, o jovem emprega-se na Ucharia Real (espécie de depósito
de alimentos da família real).
Mas
o emprego dura pouco tempo, ele é despedido após envolver-se num escândalo,
por insinuar-se a uma mulher casada. Novamente vadio, Leonardo é desta vez
preso. Levado pelo Vidigal (autoridade máxima de justiça na época), o
personagem desaparece por um tempo. À essa altura Luisinha e José Manoel
encontram-se já casados.
Leonardo
reaparece na história como soldado do Vidigal. Irreverente e indisciplinado
como sempre, apronta das suas no novo cargo e acaba preso novamente. É
condenado a ser castigado com chibatadas.
A
comadre, que é madrinha de Leonardo e durante toda a história o mimara,
defendera e ajudara (principalmente após a morte de seu padrinho, que também o
protegia muito), juntos de D. Maria, a tia rica de Luisinha (e que, como quase
todos os personagens, e também leitores, tem grande simpatia por Leonardo)
reencontram um amor do passado do Vidigal, a Maria – Regalada e pedem que ela
interceda pelo rapaz.
A
Maria – Regalada, junto de D. Maria e da comadre procura o Vidigal, e pede
pela liberdade de Leonardo e pelo perdão dos erros do rapaz. O Vidigal cede, e
ainda promove Leonardo a sargento de milícias.
Neste
ponto, o infeliz casamento de Luisinha com José Manoel – este havendo
mostrando-se cruel para com ela – tem fim com a morte dele depois de um ataque
epoplético.
O
já sargento de milícias Leonardo reencontra Luisinha no velório de José
Manoel. Entre eles, renasce o antigo amor.
Leonardo
e Luisinha voltam a namorar, ele recupera a grande herança do padrinho que
estava em poder de seu pai, e casa-se com Luisinha, num final feliz.
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Análise estética
da obra
Destida
às páginas do jornal Correio Mercantil, do Rio de Janeiro, Memórias tem capítulos
unitários quase todos contendo um episódio completo. Em seu conjunto, a obra
reconstitui a vida de Leonardo Pataca e de seu filho Leonardo, em meio a um vivo
retrato das camadas baixas do Rio de Janeiro de D. João VI. Além de
concentrar-se nas proezas (sobretudo amorosas) desses dois arquétipos da
malandragem carioca. O romance dá muita atenção às festas, aos encontros, às
instituições e às profissões populares da cidade, cujas ruas são descritas
com a animação de uma verdadeira narrativa de costumes. Trata-se, enfim, de um
romance muito agitado e festivo em que não há praticamente nenhuma página sem
um incidente ou surpresa espantosa.
Para
que se perceba toda a movimentação presente em Memórias de um Sargento de Milícias,
é preciso vencer o problema da linguagem – um pouco estranha aos leitores de
hoje. A preocupação do autor foi utilizar o português coloquial de seu tempo,
com muitas palavras e construções difíceis para a sensibilidade atual.
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Personagens
como tipos sociais
As
aventuras dos protagonistas envolvem os mais variados tipos humanos (a Cigana, o
Mestre- de- Cerimônias, o Mestre de Reza, Chico Juca, Teotônio, etc.), os
quais participam de cenas isoladas e somem, sem maiores consequências para a
trama central. Assim é o romance picaresco, expressão derivada do termo pícaro,
espécie de personagem marginal que vive ao sabor do acaso.
Por
ser um romance de costumes, Memórias recompõe hábitos, fornecendo um animado
retrato de época. Por essa razão, o autor caracteriza os personagens como
parte de um grupo, esquecendo a individualidade psicológica. Os personagens são
tipos sociais, cuja ação personaliza a função que exercem na comunidade.
Assim, vários personagens não possuem nome no livro, mas são designados pela
profissão ou condição social que possuem: o Barbeiro, a Parteira, a Cigana, o
Fidalgo, o Mestre-de-Cerimônias, o Toma-Largura, etc. quando um personagem
desses fala ou age, tem-se a impressão de um grande movimento, pois nele
vislumbra-se todo o grupo social a que pertence. Esta é uma das razões por que
Memórias é considerado um dos livros mais vivos e dinâmicos da Literatura
brasileira.