| 1� Gera��o | ||||||||||||||||||||||||
| GON�ALVES DIAS (1823-1864) | ||||||||||||||||||||||||
| Vida:Filho de um comerciante portugu�s e de uma mulata que viviam em concubinato, Ant�nio de Gon�alves Dias nasceu em Caxias, no Maranh�o. Quando o menino tinha seis anos, o pai casou-se com uma mo�a branca e proibiu o filho de visitar a m�e, que se reencontraria com o filho apenas quinze anos depois. Ant�nio cresceu trabalhando como caixeiro na loja do pai e teve uma boa educa��o, sendo enviado com quatorze anos para Portugal. A morte do pai, no mesmo ano, trouxe o rapaz de volta ao Maranh�o, por�m a madrasta cumpriu a vontade do marido quanto ao filho e mais uma vez o futuro poeta foi mandado para Coimbra. No in�cio de 1845, retornou � sua prov�ncia natal, j� formado em Direito. Era um rapaz baixinho, musculoso e de olhar inteligente. Sua origem mesti�a n�o era evidente � primeira vista. A sociedade de S�o Lu�s o recebeu bem e ele conheceu ent�o aquela que - algum tempo depois - seria o grande amor de sua vida, a jovem Ana Am�lia. | ||||||||||||||||||||||||
| Antes da eclos�o desse amor extremado, viajou para o Rio de Janeiro, onde se radicaria. Virou professor de Latim no Col�gio Pedro II e lan�ou, com not�vel repercuss�o, os Primeiros cantos e os Segundos cantos. De imediato, obteve a prote��o imperial, ocupando diversos cargos de import�ncia nas �reas de pesquisa escolar e de busca de documentos hist�ricos. Em visita ao Maranh�o reencontrou Ana Am�lia e a pediu em casamento. A fam�lia da mo�a recusou o poeta, alegando a sua origem bastarda e mulata. Exasperado, casou-se com Ol�mpia Coriolana, provavelmente a primeira mulher que encontrou depois da recusa e com a qual viveu um casamento infeliz. Viajou muito pelas prov�ncias do Norte e pela Europa, sempre a servi�o. Afetado pela tuberculose, tentou a cura na Fran�a. Desenganado pelos m�dicos, retornou num cargueiro que naufragaria, j� nas costas do Maranh�o. A �nica v�tima do naufr�gio foi o poeta, que contava ent�o quarenta e um anos de idade. | ||||||||||||||||||||||||
| Obras:Primeiros cantos (1846); Segundos cantos (1848); Sextilhas de frei Ant�o (1848); �ltimos cantos (1851); Os timbiras (1857). | ||||||||||||||||||||||||
| Gon�alves Dias consolidou o Romantismo no Brasil com uma produ��o po�tica de boa qualidade. Entre os autores do per�odo � o que melhor consegue equilibrar os temas sentimentais, patri�ticos e saudosistas com uma linguagem harmoniosa e de relativa simplicidade, fugindo tanto da �nfase declamat�ria como da vulgaridade. Pode-se dizer que o seu estilo rom�ntico � temperado por uma certa forma��o cl�ssica, o que evita os excessos verbais t�o comuns aos poetas que lhe foram contempor�neos. | ||||||||||||||||||||||||
| No pref�cio do livro de estr�ia, Primeiros cantos, ele define a liberdade m�trica e a variedade tem�tica que dominam a sua l�rica: | ||||||||||||||||||||||||
| Muitas delas (as poesias) n�o t�m uniformidade nas estrofes, porque menosprezam regras de mera conven��o; adotei todos os ritmos de metrifica��o portuguesa, e usei deles como me pareceram melhor com o que eu pretendia exprimir. N�o t�m unidade de pensamento entre si, porque foram compostas em �pocas diversas - debaixo de c�u diverso - e sob influ�ncia de impress�es moment�neas. |
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| Sua obra se articula em torno de tr�s assuntos principais: o �ndio, a natureza e o amor imposs�vel. | ||||||||||||||||||||||||
| O INDIANISMO | ||||||||||||||||||||||||
| O elogio liter�rio ao �ndio, como j� foi observado, � mais do que uma conven��o po�tica. Trata-se da reafirma��o dos intuitos nacionalistas da primeira gera��o rom�ntica, conseq��ncia direta do sentimento localista, posterior � Independ�ncia. | ||||||||||||||||||||||||
| Em geral, essa literatura mescla elementos pitorescos (os habitantes do Novo Mundo) com a mitologia rom�ntica europ�ia (a teoria do bom selvagem), acrescidos de uma a vis�o idealizada (os �ndios s�o falsos e, �s vezes, inveross�meis) e refer�ncias etnogr�ficas que deveriam conferir um tom verdadeiro �s obras (roupagens, armas, costumes, etc.). O objetivo era a elabora��o de um her�i m�tico brasileiro, de um antepassado glorioso do qual a na��o pudesse se orgulhar. | ||||||||||||||||||||||||
| A superioridade do autor maranhense sobre outros escritores indianistas resulta de tr�s fatores: | ||||||||||||||||||||||||
| -maior conhecimento da vida abor�gene; | ||||||||||||||||||||||||
| -uso �pico e l�rico de um �ndio ainda n�o deculturado pelo homem branco; | ||||||||||||||||||||||||
| -espl�ndido dom�nio estil�stico, sobretudo na quest�o do ritmo e da estrutura mel�dica. | ||||||||||||||||||||||||
| V�rios de seus poemas, que tratam dos primitivos habitantes, tornam-se antol�gicos, entre os quais Marab�, O canto do piaga, Leito de folhas verdes e, principalmente, I-Juca Pirama. | ||||||||||||||||||||||||
| JUCA PIRAMA | ||||||||||||||||||||||||
| Este texto � uma esp�cie de s�ntese do indianismo de Gon�alves Dias seja pela concep��o �pico-dram�tica da bravura e da generosidade de tupis e timbiras, seja pela ruptura, ainda que moment�nea, da convencional coragem guerreira, seja ainda pelo bel�ssimo jogo de ritmos que ocorre no texto.I-Juca Pirama significa aquele que vai morrer ou aquele que � digno de ser morto. Em sua abertura, o poeta apresenta o cen�rio onde transcorrer� a hist�ria: | ||||||||||||||||||||||||
| No meio das tabas de amenos verdores, Cercadas de troncos - cobertos de flores, Alteiam-se os tetos de altiva na��o. (...) S�o todos Timbiras, guerreiros valentes! Seu nome l� voa na boca das gentes, Cond�o de prod�gios, de gl�ria e terror! |
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| Em seguida, inicia-se um ritual antropof�gico:Em fundos vasos d'alvacenta argila / ferve o cauim. / Enchem-se as copas, o prazer come�a, reina o festim.O jovem prisioneiro tupi, que vai ser devorado, resolve falar antes do desenlace, e com triste voz narra a sua vida desventurada. | ||||||||||||||||||||||||
| Ao metro anterior, de dez s�labas po�ticas, pl�stico e alegre, sucedem-se os versos de cinco s�labas, curtos, r�pidos, sincopados. Estas varia��es cont�nuas indicam que o ritmo varia de uma parte do poema a outra, traduzindo a multiplicidade de situa��es do argumento. | ||||||||||||||||||||||||
| Meu canto de morte Guerreiros, ouvi: Sou filho das selvas, Nas selvas cresci; Guerreiros, descendo Da tribo tupi Da tribo pujante, Que agora anda errante Por fado inconstante, Guerreiros, nasci: Sou bravo, sou forte, Sou filho do Norte; Meu canto de morte, Guerreiros, ouvi. |
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| O �ndio tupi no seu canto de morte lembra o velho pai, cego e d�bil, vagando sozinho, sem amparo pela floresta, e pede para viver: | ||||||||||||||||||||||||
| Deixai-me viver! (...) N�o vil, n�o ignavo,* Mas forte, mas bravo, Serei vosso escravo: Aqui virei ter. Guerreiros, n�o choro; Do pranto que choro; Se a vida deploro, Tamb�m sei morrer. |
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| * Ignavo: pregui�oso. | ||||||||||||||||||||||||
| O chefe timbira manda solt�-lo. N�o quer com carne vil enfraquecer os fortes. Solto, o jovem tupi perambula pela floresta at� encontrar o pai. Este, pelo cheiro das tintas utilizadas no ritual, pelo apalpar do cr�nio raspado do filho, e por algumas perguntas sem resposta, desconfia de uma terr�vel fraqueza diante dos inimigos. Pede ent�o que o rapaz o leve at� a aldeia timbira. L� chegando, exige, em nome da honra tupi, que a cerim�nia antropof�gica ritual seja completada e que o filho seja morto. Mas o chefe timbira recusa-se, acusando o guerreiro tupi de ter chorado covardemente diante de toda a aldeia. Neste momento, o velho cego amaldi�oa o seu descendente: | ||||||||||||||||||||||||
| Tu choraste em presen�a da morte? Na presen�a de estranhos choraste? N�o descende o cobarde do forte; Pois choraste, meu filho n�o �s! Possas tu, descendente maldito De uma tribo de nobres guerreiros, Implorando cru�is forasteiros, Seres presa de vis Aimor�s. (...) S� maldito, e sozinho na terra; Pois que a tanta vileza chegaste, Que em presen�a da morte choraste, Tu, cobarde, meu filho n�o �s. |
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| Mal termina a maldi��o, o velho escuta o grito de guerra do filho. Ouvindo o rumor da batalha, os sons de golpes, o pai percebe que o filho est� lutando para manter a honra tupi, at� que o chefe timbira manda seus guerreiros pararem, pois o jovem inimigo se batia com tamanha coragem que se mostrava digno do ritual antropof�gico. Com l�grimas de alegria o velho tupi exclama: Este, sim, que � meu filho muito amado! | ||||||||||||||||||||||||
| Como chave de ouro do poema, ocorre uma transposi��o temporal no seu �ltimo canto. O leitor fica sabendo que os acontecimentos dram�ticos vividos pelos dois tupis j� tinham ocorrido muito tempo e que tudo aquilo era mat�ria evocada pela mem�ria de um velho timbira: | ||||||||||||||||||||||||
| Um velho timbira, coberto de gl�ria, guardou a mem�ria do mo�o guerreiro, do velho Tupi! E � noite, nas tabas, se algu�m duvidava do que ele contava, Dizia prudente: - Meninos, eu vi! |
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| OS TIMBIRAS | ||||||||||||||||||||||||
| Al�m desses poemas indianistas, Gon�alves Dias tenta elaborar uma epop�ia intitulada Os Timbiras. Era um projeto ambicioso: os �ndios substituindo os her�is gregos, numa Il�ada brasileira, tropical, com abundantes e coloridas descri��es da flora e da fauna. A narrativa teria como eixo a forma��o e dispers�o do povo timbira. A obra, contudo, fica inconclusa e os fragmentos elaborados s�o inexpressivos. | ||||||||||||||||||||||||