1.2 A articulação entre factualização e valoração
O facto só pode existir numa rede que lhe dê significado, de forma valorativa e subjectiva. Por exemplo, a temperatura. Dizer que o termómetro marca dois graus negativos tem significados diferentes para o esquimó e para o africana, pois eles têm noções diferentes de frio e calor.
A realidade factual não está assim abstraída do sujeito que percepciona e que interpreta essa realidade. Os factos são indissuciáveis da interpretação que se faz deles, e não podem existir se não para serem interpretados e compreendidos. Não se procede à aprendizagem ou assimilação de factos se não para podermos posteriormente interpretá-los e dar-lhes uma significação mais pessoal.
Até mesmo a fotografia é construção da realidade, uma forma de leitura da mesma. A focagem ou selecção de um pormenor, e desconsideração de outro já contribui para o carácter construtivo da fotografia. Além disso, o facto evidenciado pela fotografia é apenas mostrado de forma parcial, pois existe em muitas outras realidades, e essa infinidade de situações são em número impossível para o seu conhecimento pelo ser humano.
Análise do Texto 119 - Valor e consciência
- A natureza é bela, mas é bela porqque existem serem humanos que a caracterizam como bela.
- Um cenário da natureza deslumbrante visto pela primeira vez pelo homem apenas pode ser "descoberto" se por isso entendermos "visto pela primeira vez".
- Numa perspectiva filosófica, essa beleza não foi descoberta, mas esse cenário foi reconhecido na consciência do sujeito que a percepciona como belo. Daí a interpretação desse valor.
- O valor não está associado à entidade na qual se reconhece esse valor, mas está associado sim à consciência que o percebe.
(Raymond Ruyer, La Filosofia del Valor, Fondo de Cultura Económica, México, 1969, p.14)
Análise do Texto 120 - Um critério para a distinção entre facto e valor
- A filosofia contemporânea disttingue as ciências entre ciências do ser e ciências dos valores.
- As ciências do ser focam na estrutura do objecto, e fundam-se em juízos de existência.
- As ciências dos valores focam no aspecto do objecto no que diz respeito aos seus valores, e fundam-se em juízos de valores (procuram saber se os valores são positivos ou negativos e se estão presentes no objecto).
- As ciências do ser não valorizam mais um objecto de estudo do que outro. Para um químico um gás que cheire mal tem o mesmo valor que um que cheire a flores. Para um psicólogo, um estado de consciência vale tanto como outro qualquer, importando-se apenas com a explicação desse estado. E para um matemático um círculo não vale mais do que um quadrado.
- Porém, as realidades de que as ciências do ser se ocupam, podem também ser estudadas enquanto realidades de valor (valor económico, estético, etc.), apenas as ciência do ser tratam estas realidades como seres, e não as valorizam.
- As ciências dos valores, como a Ética e a Estética, estudam apenas os seus objectos no ponto de vista do valor. Os valores são classificados pelos éticos e estéticos como positivos ou negativos. E esses valores são reconhecidos ou não nos objectos de estudo. São feitos os chamados juízos de valor.
(Johannes Hessen, Filosofia dos Valores, Arménio Amado, Editor, pp. 44-46)