2.1 A Liberdade Humana

Não somos livres de fazer tudo o que apetece. Existem obstáculos à realização de todos os nossos desejos. Porém, com liberdade, não nos referimos bem à omnipotência nem à anarquia.

Liberdade é, mediante uma situação, optar por agir de uma ou de outra maneira. É o direito (ou o dever!) de escolha. Nesta medida, a liberdade implica responsabilidade pelas nossas decisões, visto que somos nós que efectuamos a escolha, e essa escolha poderá ter consequências longínquas.

Liberdade pode ser encarada como um dever mais do que um privilégio, porque nós não podemos abdicar da liberdade que nos foi dada enquanto seres pensantes. Não podemos não escolher. "Estamos condenados a ser livres".

De acordo com este conceito de liberdade, não há qualquer alegação que nos livre de responsabilidade, inclusive da culpa (se a responsabilidade se referir a um acto com efeitos negativos). Por exemplo, todos os soldados que escolheram entrar numa guerra estão lá porque escolheram assim, a guerra também é deles. Eles poderiam ter optado pelo suicídio ou pela deserção, mas não o fizeram. "Não há vítimas inocentes na guerra." - Jules Romains

Como diz F. Savater, "podemos não ser livres de escolher o que nos acontece, mas somos livres de responder desta ou daquela maneira ao que nos acontece"; apesar de não podermos escolher a nossa condição, escolhemos o modo como vivemos com ela.

Em suma, a liberdade consiste então no poder de escolha dentro do possível, e implica sempre responsabilidade, visto que somos nós que fazemos as decisões que podem vir a ter consequências remotas.

Análise do Texto 96 - Escolher é escolher-se

  • "A existência precede a essência."
  • O Homem primeiramente existe no mundo, e só depois é que se define.
  • O Homem, assim que o é, é apenas aquele que se lança para o futuro, e que é consciente de se lançar ou projectar para o futuro.
  • O Homem é aquilo que ele faz, não aquilo que ele quer ser.
  • Se o Homem é responsável por aquilo que faz, e se o Homem é aquilo que faz, então o Homem é responsável pela sua própria existência.
  • O Homem é responsável por si, não por um si individual, mas por um si colectivo.
  • Cada um de nós se escolhe a si próprio, mas ao fazê-lo, escolhe todos os homens.
  • "não há dos nossos actos um sequer que ao criar o homem que desejamos ser, não crie ao mesmo tempo uma imagem do homem como julgamos que deve ser".
  • A imagem que damos do Homem ideal é válida para todos e para toda a nossa época.
  • Com isto, a nossa responsabilidade é muito grande, pois somos todos responsáveis por toda a humanidade. "Escolhendo-me, escolho o Homem".

(Jean Paul Sartre, O Existencialismo é um Humanismo, Editorial Presença, 1970, pp. 216-218)

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