1.2 Intenções, motivos e causas

Temos como exemplo alguém que assaltou um banco. A intenção com que ele o fez foi a de roubar o dinheiro contido no cofre. O motivo do mesmo acto foi pagar uma dívida a um credor. O motivo é motivo da intenção. A intenção responde assim ao «quê» de uma acção deliberada, enquanto que o motivo responde ao «porquê». A intenção relaciona-se com a consciência do agente em relação à sua acção, o motivo é a explicação dessa acção.

Assim sendo, intenção e motivo são dois conceitos distintos, mas próximos. Por vezes os dois conceitos têm uma relação tão estreita que um implica nitidamente o outro. Por exemplo, beber água: a intenção é matar a sede, o motivo era o ter-se sede. Se bem que o facto do motivo ser razão da intenção contribui para a não distinção dos dois conceito, eles continuam a distinguir-se por responderem a perguntas diferentes (quê / porquê).

Podemos também usar o termo intenção no sentido de estratégia. Por exemplo, levantar o braço para mudar direcção, correr para apanhar o comboio, rematar de modo a marcar na baliza. Cada uma destas acções se articula com outra posterior (1ª e 2ª) ou outra simultânea (3ª).

Este tipo de relação remete para o campo da reflexão ética, porque a "ordem das intenções" não é mais do que o problema da relação entre os meios e os fins. Na reflexão ética põe-se em causa a acção, a intenção da acção, e o fim atingido por essa acção. Embora a acção conduza ao fim, nem sempre o agente pode ser considerado como responsável por esse fim.

Por outro lado, a intenção está associada ao desejo. Uma acção intencionada é aquela que é desejada. A intenção com que se faz uma acção tem a ver com aquilo que é desejado.

Tendo em conta o que se disse sobre o motivo ser a explicação da acção ou da intenção, será que quando explicamos os motivos entramos num discurso de tipo causalista e determinista?

Análise do Texto 92 - Causa e motivação

Causa e efeito podem identificar-se separadamente. Podemos referir só à causa, ou só ao efeito. A causa pode compreender-se sem mencionar a sua capacidade de produzir determinado efeito. A descrição do efeito não requer necessariamente a explicação da causa. Causa e efeito são, deste modo, logicamente independentes. (D. Hume)

Intenção e acção não são logicamente independentes. Não podemos explicar um motivo sem nos referir-mos à acção do qual é motivo. Assim como não podemos identificar a acção sem mencioná-la.

A causa está ligada à ideia de lei, por isso, a mesma causa pode ser atribuída a vários factos semelhantes (água contida em vários recipientes de diferentes formas, provinda de várias origens ferverá sempre se atingir os 100ºC) - domínio determinista.

O motivo não é determinista. Clarifica um acto, mas não o determina. É uma explicação, que visa dar inteligibilidade à acção, não é uma causa rígida. A existência de um motivo não exige que tal acontecimento aconteça a seguir.

Causalidade e motivação implica dois «porque»'s diferentes. O "isso aconteceu porque..." tanto pode remeter para uma explicação causal como para uma explicação de motivo.

O agente é causa dos seus actos? Não, se causa significar antecedente constante. Sim, enquanto impulsionador da acção, uma casualidade não humana.

A relação entre intenção e motivo pode assemelhar-se à relação entre causa e efeito, na medida em que são ambos conceitos próximos mas distintos. Contudo, o motivo torna inteligível, compreensível a intenção. Podem existir vários motivos para uma intenção. Ao invés, existe apenas um efeito para uma causa. Trata-se de um domínio determinista. O efeito é apenas a confirmação da causa.

(Paul Ricoeur, Du Texte à l'Action, Paris, PUF, 1986, pp. 169-170)

"Já que o desejo está presente na acção, encontramos aqui o terreno onde, em certos contextos motivo e causa são coincidentes." - Ricoeur

Análise do Texto 93 - A coincidência entre motivo e causa

Os contextos em que a resposta por um motivo é inseparável da resposta por uma causa são aqueles em que se faz a pergunta:
Que é que te levou a...?
Que é que te inclinou a ...?
Que é que te forçou a ...?


- Há empregos da causalidade indiscerníveis da ideia de responsabilidade.
- O prestígio do modelo humiano (em que causa e efeito não são logicamente dependentes) impediu reconhecer os casos em que motivo e causa são indiscerníveis.
- Ideia de eficiência e disposição: a importância do desejo na acção.
- O motivo não explica apenas a "razão de", explica também o "como", e por isso é uma causa.

(Paul Ricoeur, O Discurso da Acção, Lisboa, Edições 70, 1988, pp. 55-56)

Análise do texto 94 - O desejo enquanto elemento de ligação entre a causalidade e a motivação

- Coincidência entre motivo e causa:

1) Coincidência entre o porquê e o como

2) Coincidência entre o objecto e a causa

  • Na linguagem da emoção:
    p.e: o objecto do medo é também a causa do medo

  • Sobreposição da linguagem da intencionalidade e da causalidade:
    aponta para a ligação entre a força e o sentido, os dois elementos do desejo.

(Paul Ricoeur, O Discurso da Acção, Lisboa, Edições 70, 1988, pp. 56-57)

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