1.3.3 Reflexão e actividade filosófica: a fecundidade filosófica da dúvida e da crítica

A atitude reflexiva implica:

a) Problematização, questionamento e crítica

Problematizar significa, de um dado problema ou dúvida, organizar um esquema de questões que possam relacionar-se com o problema inicial. É importante saber que outros problemas levanta um só problema, e as várias consequências relativas aos vários modos de resolução ou não desse problema. A este esquema assim organizada chamamos uma problemática.

Exemplo:
Problema inicial - escola aberta à comunidade.
Problemas relacionados / derivados - segurança, disciplina, circulação de drogas, etc.

O questionamento é a fase que se segue à dúvida. A dúvida é a impulsora crucial do questionamento, pois traduz um estado de interrogação, de insatisfação, de desejo pelo saber, e é este estado anti-passivo que leva ao questionamento. Este por sua vez representa o desenvolvimento da semente inicial. Se a dúvida é a questão que, por ser de resposta desconhecida, conduz ao questionamento, então este é o itinerário mental que procura analisar e criticar a dúvida, relacioná-la com outros factos ou ideias, alargar o conhecimento em geral sobre a dúvida. sendo então a primeira fase para chegar à resposta.

Em Filosofia o questionamento tem um mérito relevante, pois não é assim tão importante as respostas a que se chegam, mas principalmente, o caminho, o exercício mental, a pesquisa que fez chegar a essas respostas.

Já a crítica tem um carácter de uma certa responsabilidade. Ela não se limita a simples ou leves ideias e questões, mas engloba três pontos fundamentais: a análise, a avaliação e a tomada de posição. Na análise decorre uma interpretação daquilo a que se chegou anteriormente. A avaliação permite-nos associar a opinião formulada com os valores éticos, as consequências dessa opinião, implica um confronto com outras possíveis opiniões e decidir porque é a opinião escolhida é superior. A tomada de posição é uma decisão, em que confirmamos a nossa opinião e a sustentamos com argumentos e teses. Portanto a crítica é um processo que implica um certo cuidado, e é uma tomada de posição fundamentada e fecunda.

Análise do Texto 22 - O que é criticar?

1) Na linguagem corrente (senso comum) a crítica significa censura. Não é nesse sentido que a crítica é utilizada na filosofia.

2) A nível filosófico a crítica é usada como o assumir de uma posição fundamentada perante a realidade, o que implica:

    -    Análise: compreensãoo da realidade / decomposição de um problema;
    -    Avaliação: detectar o que é importante, apreciar, confrontar com propostas e possibilidades diferentes;
    -    Tomada de posição: formar uma opinião justificada, com a consciência de que essa tomada de posição não é definitiva, e que pode ser reformulada pela avaliação de novas perspectivas.
(James R. Andrews, The Practice of Rhetorical Criticism, Longman, 1990, pp.2-3)

O crítico não é um construtor de entraves, porque o processo crítico aumenta e proporciona um maior conhecimento da realidade criticada, abrindo portas a novas perspectivas. Por outro lado, a crítica, mesmo sendo fundamentada, nunca é a última palavra, podendo sempre ser reformulada.

"O criticismo nunca pode ser destrutivo e dizer que ele é construtivo é redundante."
» A crítica entendida do ponto de vista filosófico nunca é destrutiva, mesmo sendo uma tomada de posição contrária a outra, uma vez que ela serve sempre de ponto de partida a uma maior compreensão da realidade. Assim, é redundante dizer que a crítica é construtiva, uma vez que cria novas perspectivas, reformula opiniões ultrapassadas, abre caminho a novas reformulações. A crítica decorre de uma reflexão e por isso é sempre positiva.

Consequências da atitude crítica:
1) Autonomia - porque através da atitude crítica nós formamos as nossas próprias opiniões, pensamos sobre as nossas próprias ideias, e portanto tornamo-nos mais agira de acordo connosco mesmos.
2) Desenvolvimento do pensamento - quanto mais usamos a nossa capacidade reflexiva, mais capazes somos de compreender e analisar a realidade.
3) Desenvolvimento da linguagem - a nossa capacidade de argumentar decorre da nossa compreensão da realidade, quanto melhor compreendermos a realidade, mais somos capazes de falar sobre elas.

b) Linguagem

Análise do Texto 25 - A linguagem, fundamento da nossa humanidade

  • Os animais e as plantas têm uma natureza dada, está pré-definida a nível genético.
  • O Homem tem uma natureza construída, adquirida em contacto com os outros seres humanos que com ele habitam no mundo e lhe dão um significado através da linguagem.

    "O mundo em que vivemos, seres humanos que somos, é um mundo linguístico, uma realidade de símbolos e leis sem a qual não só seriamos incapazes de comunicar entre nós mas também de aprender a significação do que nos rodeia. Mas ninguém pode aprender a falar sozinho (...) porque a linguagem não é uma função natural e biológica do homem (embora tenha a sua base na nossa condição biológica, claro) mas uma criação cultural que herdamos e aprendemos de outro homens."

    (Fernando Savater, Ética Para um Jovem, Editorial Presença, 1993, pp. 53)

    Todo o signo é composto por duas realidade diferentes: o significante (palavra escrita, falada, sinais, gestos, objectos) e o significado (a ideia ou o conceito mental a ele associado). Significante e significado têm uma relação de indissuciabilidade (não se podem separar), relação esta que é estabelecida pela razão, porque não existem um sem o outro. Eles são interdependentes, isto é, não existe pensamento sem linguagem, porque a palavra forma, organiza o pensamento, e por outro lado, sem pensamento não nos poderíamos expressar através da linguagem.

    Características da Linguagem:
    1) Social, por ser adquirida em comunidade, com o contacto com outros seres humanos, e porque é uma forma de comunicação.
    2) Transformada, porque cada indivíduo exprime as suas experiências de uma forma diferente através da fala.
    3) Racional, pois qualquer linguagem obedece a regras (de sintaxe, gramaticais,...) que têm que ser compreendidas e aprendidas, e porque a linguagem forma o nosso pensamento.
    4) Simbólica, pois a cada palavra ou elemento da linguagem, o significante, corresponde um significado presente na nossa mente (significante e significado são indissuciáveis e juntos constituem um signo).
    5) Representa o real e dá sentido ao real. (...)

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