|
|
1.3.2 O caminho para a reflexãoA reflexão surge quando a relação com o mundo e com as coisas deixa de ser pacífica e se torna problemática. Mais porque razão há-de ela tornar-se problemática? Quando a vida é preenchida com actos de rotina, não há necessidade de pensar sobre ela. Os acontecimentos que compõem a vida sucedem-se uns aos outros, sem termos de pensar neles. Não se pensa que se tem de pegar numa caneta para escrever, que temos de pegar no telefone quando toca, que fechamos a porta quando saímos de casa. Isto são apenas respostas imediatas e não pensadas que damos a situações do quotidiano. As acções de rotina são essenciais na vida dos homens. Por não termos de pensar nelas, economizam-nos bastante tempo e permitem-nos concentrar naquilo que é mais importante. Porém, a vida não pode ser preenchida apenas de actos de rotina. Isso tornaria a vida monótona e vã. O ser humano tem necessidade de satisfação, de sentir o sabor da vida, de se sentir realizado, de se sentir bem. Ele procura dar sentido à vida. Sem razão para viver, o ser humano pode suicidar-se, física ou moralmente. Respondendo à questão colocada, a vida torna-se problemática porque a existência de sentido é lhe fundamental. Quando se dá uma quebra com a familiaridade das coisas com que, de uma forma natural e passiva nos relacionamos, quando elas deixam de ser naturais e passivas, surge a reflexão: uma dimensão de desconforto, de desassossego, de questionamento, de insatisfação e de problematização. A reflexão é primordial na busca empenhada, contínua, livre e autónoma do Homem por uma vida feliz, mais digna, plena e com sentido. Através dela ele ultrapassa os obstáculos que se atravessam na vida, vencendo, ganhando, mas acima de tudo, aprendendo. Temos um pensamento aberto, livre e criador, e esse pensamento permite-nos integrar as nossas acções num projecto de vida. Para analisar o movimento subentendido na passagem da atitude natural à reflexiva, consideremos o exemplo de um atleta que disputa uma prova. Independentemente do tipo de prova (corrida, natação, etc.), o atleta não pensa nos gestos que faz nem no modo como respira. O seu esforço e a sua concentração canalizam-se em alcançar a meta. Mais tarde, quando se vê a si próprio na fita, portanto com uma certa exterioridade, pensa já não em ganhar em disputa, mas torna-se espectador de si mesmo e assume uma atitude crítica. Analisa aquilo que fez bem e aquilo que fez mal, para dessa forma poder melhorar as suas performances futuras. Podemos também tomar como exemplo aquele que espreita pelo buraco de uma fechadura até que alguém venha passar por essa porta. Deixou de agir, para pensar na sua acção. Ou ainda o apaixonado que, depois de uma disputa com a namorada, pára para pensar e quebra a intensidade com que estava a viver essa paixão, reflectindo sobre uma acção anterior exagerada e sem razão. A relação imediata caracteriza-se por ser apenas vivida. A relação mediata caracteriza-se por ter havido um distanciamento em relação à realidade e um retorno a ela através do pensamento. A reflexão implica uma tomada de consciência que é sempre mediata em relação ao plano vivencial. Reflexão significa voltar atrás; na reflexão revive-se no pensamento uma acção passada, mas este reviver implica distanciamento (anterior) e retorno (posterior). O distanciamento permite analisar a acção com o espaço necessário e de diferentes pontos de vista. Com a análise feita e com um espírito esclarecido, dá-se então o retorno à realidade. Análise do Texto 16 - Da reflexão
» reflectir é ganhar consciência daquilo que somos, daquilo que conhecemos. » é a consciência do próprio acto de consciência
(Joel Serrão, Iniciação ao Filosofar, Livraria Sá da Costa, 1974, p.9)
! Pensamento em 1º grau: conhecimento que nós temos sobre algo que nos é exterior.
|