1.2 A diversidade dos saberes decorrentes da nossa experiência do mundo

a) Saberes passíveis de serem partilhados

Foi dito que existem saberes passíveis de serem partilhados, e outros não. Esses conhecimentos que podem ser transmitidos, podem por sua vez provir de várias fontes, e ser aprendidos de vários modos.

1) Saberes ligados às exigências culturais da socialização - "saber sem mais" (Senso Comum)

O facto de vivermos em sociedade possibilita por si próprio que consigamos aprender muita coisa. Os conhecimentos que se adquirem deste modo abrangem o saber estar e agir no mundo e na sociedade, os modos de falar e de se relacionar com os outros, o próprio modo de pensar e até a língua que se fala e que nos une como sujeitos. É como se cada sociedade tivesse uma estrutura que dirigisse o pensar, o falar e o agir das pessoas em geral, e que essa estrutura muda conforme a sociedade, a época, o lugar, como observou Michel Foucault. Sendo então estes saberes comuns a uma sociedade, são importantes para que o indivíduo se integre nela, e também asseguram a coesão dentro da sociedade.

2) Efeitos cognitivos da comunicação de massas - "saber que" (Informação Noticiosa)

Num mundo como o nosso, uma "aldeia global" (designação de M.McLuan), a influência dos meios de comunicação de massas é enorme. Mediante um leque de informação que chega ao indivíduo através dos mass media, ele constrói o seu próprio conhecimento sobre o mundo e conduz o seu interesse para determinados temas. A acção dos meios de comunicação de massas reflecte-se assim na construção do mundo cultural e social.

"as notícias (...) determinam o conhecimento que um indivíduo tem do seu meio e a sua posição relativamente a esse mesmo meio." (Enric Saperas, Os Efeitos Cognitivos da Comunicação de Massas, Edições ASA, 1993, pp. 22-23 ou 139-141)

3) Saberes resultantes de um processo de estudo - "saber de" (Conhecimentos Organizados Disciplinarmente)

Da nossa experiência do mundo podemos também obter conhecimentos com um carácter mais formal, tal como aquele que é aprendido nos bancos de uma escola. Esse tipo de saber é organizado em disciplinas, em planos de estudo, e leccionado e aprendido mediante métodos adequados e em constante aperfeiçoamento. De uma forma muito genérica, a transmissão destes conhecimentos faz-se numa ligação a um sistema sociopolítico-cultural institucionalizado. É este sistema que interfere nos programas das disciplinas, nos métodos de ensino, na criação de cursos, e nos demais itens que é preciso coordenar e organizar.

b) Saberes não transmissíveis - "saber em que se acha que" (Plano da Singularidade Existencial)

Porém, há saberes que não podem ser transmitidos nem ensinados. Saberes que são alcançados apenas com a experiência pessoal e intransmissível do indivíduo. Há coisas que não podemos realmente conhecer por nos contarem ou por termos lido, essas coisas exigem o nosso envolvimento para serem conhecidas. Uma paixão intensa, uma doença quase mortal, uma viagem de sonho ou uma aventura dramática... há uma infinidade de coisas, que por mais que nos contem ou que ouçamos falar delas, nunca realmente as conheceremos até que tenhamos uma experiência dessas mesmas coisas. Trata-se de uma experiência relacionada com a unicidade da nossa existência, e requer o nosso próprio esforço, a nossa própria vontade, e nosso próprio confronto com o mundo e connosco próprios. É-lhe inerente a problematicidade e o carácter reflexivo. Remete assim para uma solidão, não porque não tenhamos ninguém para conviver, mas sim porque não somos substituíveis e há coisas que, se quisermos ou tivermos de aprender, terá de ser por nós próprios.

A divisão dos saberes que se fez até aqui, porém, só é possível numa perspectiva teórica e analítica. Na verdade, são relacionados e complementares entre si e não surgem isolados uns dos outros.

Porém, esta mesma divisão é importante para compreender o campo filosófico e a especificidade da filosofia.

Análise do Texto 4 - "Pensar impessoalmente não é pensar: a coragem filosófica"

  • Não há pensamento impessoal. Pensar impessoalmente não é pensar. Para pensar não nos podemos fazer substituir por ninguém e não se pode substituir ninguém.

  • Descartes, durante muitos anos estudou no livro dos homens e no livro do mundo, até que um dia tomou a decisão de estudar nele próprio - heroísmo cartesiano. Descartes elevou-se acima dos conformismos e dos pressupostos, para tomar uma atitude pessoal de reflexão e de assimilação voluntária; afastou aquilo que tivera aprendido para substituir por teses melhores ou então para retomar as mesmas, uma vez devidamente compreendidas pela sua razão.

  • O Homem, mesmo que precise da vida em sociedade e da ajuda dos outros para avançar na sua vida, precisa também da solidão para que consiga obter aquilo que só ele próprio consegue obter.

    (Joseph Vialatoux, A Intenção Filosófica, Livraria Almedina, 1975, pp. 126-129)

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