Pluralismo Religioso na Europa
Desde o 11 de Setembro de 2001 t�m-se sucedido os encontros e os col�quios sobre a "diversidade religiosa", embora muitas vezes esta diversidade tenha sido apresentada como "pluralismo religioso". Houve assim um trabalho informativo sobre religi�es minorit�rias em v�rias sociedades. Esse trabalho � importante porque clarifica o "mosaico" cultural que se intensificou no continente europeu a partir da II Guerra Mundial.
Mas o pluralismo n�o � o mesmo que diversidade, embora sobre ela se construa.A diversidade corresponde a uma an�lise fenomenol�gica daquilo que se observa quer dentro da mesma esp�cie quer entre esp�cies diferentes. Manifesta-se na natureza, nas culturas que exprimem a identidade de cada povo, nas rela��es entre Estados, na variedade de cren�as. O reconhecimento da diversidade � um imperativo da conviv�ncia saud�vel, do funcionamento pac�fico de todas as institui��es e, no limite, da sobreviv�ncia da humanidade e de todos os sistemas de suporte da vida.
Por seu turno, o pluralismo, embora exija a conjuga��o desses v�rios elementos da diversidade, n�o se esgota a�. A interac��o de todas as �reas da vida, na realidade a que chamamos mundo, � a sua caracter�stica. Nenhuma realidade viva � redut�vel a um elemento �nico. A exist�ncia do ser � sempre plural. A pluralidade � constitutiva do ser humano do mesmo modo que a pluralidade � a base de todo o sistema social e pol�tico.
N�o s� cada ser humano � �nico mas s�o hoje conhecidas as correla��es que existem em cada ser humano. No limite, o ser humano � o sistema mais complexo que conhecemos. De igual modo, a sociedade, na sua diversidade, s� pode ser compreendida atrav�s da sua pr�pria complexidade. Ainda muito antes das escolas que contribuiram decisivamente para a ci�ncia dos sistemas que estuda a complexidade, a fil�sofa Hannah Arendt afirmou: "A pluralidade � a lei da terra".
Mas o "pluralismo religioso" n�o � a vers�o "religiosa" da pluralidade. Tem como sujeito o ser humano religioso e as grandes religi�es a que cada ser se encontra vinculado. Por isso, o "pluralismo religioso", ao n�vel das rela��es interpessoais e inter-religiosas, s� tem sentido onde existe uma pr�tica religiosa. � assim distinto da simples informa��o e do conhecimento m�tuo. Baseado na participa��o activa das pessoas verdadeiramente enraizadas numa religi�o, o "pluralismo religioso" tem v�rias componentes.
Primeiro, quando falamos na pluralidade das religi�es, estamos a referir-nos �s grandes religi�es que formaram civiliza��es e que, no seu conjunto, s�o a refer�ncia religiosa da hist�ria mundial.
Segundo, reconhecemos o esfor�o crescente das grandes religi�es para encontrarem o terreno comum dos seus princ�pios �ticos, sintetizados na chamada "regra de ouro" e que figura explicitamente no Evangelho de Mateus:
"Tudo o que desejais que os outros vos fa�am, fazei-o tamb�m a eles. (N�o fa�ais aos outros o que n�o quereis que eles vos fa�am a v�s.)"
Terceiro, � hoje forte convic��o entre muitos crentes de que o di�logo entre as religi�es � um caminho para a paz no mundo. Para al�m de actividades de informa��o dirigidas ao p�blico em geral, tem havido numerosas iniciativas que t�m envolvido muitos crentes e que se t�m repercutido nas estruturas e institui��es vocacionadas para a paz.
Ao partir de um olhar que reconhece a pluralidade, � muito tentador cair num sincretismo a que se v�o buscar textos de v�rias religi�es, rituais, m�todos de contempla��o. Tudo isso pode ser uma ajuda para criar em n�s uma apet�ncia para a realidade espiritual. Mas o encontro religioso esse s� pode progredir se tiver lugar entre pessoas religiosas. Que entendemos com esta express�o?
Cada religi�o - cada culto - est� associada a uma cultura. A Europa n�o � excep��o. Embora muitas civiliza��es tenham atravessado o continente e a� deixado tra�os indel�veis (celtas, germ�nicos, vikings, entre outros) � sobretudo o mundo mediterr�nico - Gr�cia e Roma - que moldou a filosofia, a ci�ncia, a lei e, acima de tudo, os mitos primordiais. No contacto com o universo da Antiguidade, o Cristianismo herdou elementos fundamentais. Santo Agostinho foi o primeiro a levantar as grandes quest�es filos�ficas. Mais tarde, m�sticos e te�logos abriram caminho a uma espiritualidade que s� ela d� justifica��o para estabelecer as condi��es do pluralismo religioso neste continente.
� certo que ao longo dos s�culos outras culturas ajudaram a forjar a Europa. Mas deu-se uma assimila��o progressiva e, embora v�rias comunidades de outras culturas e de outras religi�es aqui apresentem uma forma pr�pria, a Europa tem mantido a sua identidade, ora forte e afirmativa ora dubitativa e questionadora.
H� valores que, embora atrai�oados em v�rias �pocas da hist�ria, constituem o legado espec�fico da civiliza��o europeia. Revisit�-los � um imperativo muito especialmente na �poca que vivemos e no momento em que se d�o passos decisivos para o novo rosto da Europa.Reconhecendo a laicidade do Estado bem como a independ�ncia dos Estados em rela��o a todas as grandes religi�es, � fundamental que a Europa no seu conjunto lhes forne�a um quadro jur�dico de acordo com a realidade fenomenol�gica.
Ao mesmo tempo, reconhecendo que a sociedade, ela, � plural, que foi moldada por valores religiosos, e que tem necessidade de refer�ncias espirituais, tem o maior significado na constitui��o europeia a clara afirma��o do mist�rio de Deus na vida humana.
Maria de Lourdes Pintasilgo