"El forro de la cultura

 

Parte oculta de uma prenda, insulto, envoltório: sáo algumas das acepçoes

que o termo "forro" tem segundo o paíes em que se viva e a cultura da qual

se fale. Barcelona mostra a parte oculta de seus trajes na Delegación del

Gobierno, Av. Marquès del'Argentera, puerta 1. Nessa esquina, de segunda a

sexta, as filas de imigrantes nao comunitários [de paises nao europeus]

tentando tramitar pemissóes de trabalho, residencia e cidadania é eterna,

monótona e, sobre todas as coisas, cruel. Alguém se pergunta de que podem

estar orgulhosos os responsáveis por semelhante aberraçao e a resposta é que

sáo tao ineficientes quanto podem ser porque sua eficiencia reside nisso:

maltratar, denigrir e insultar.

 

Na portaria 1, sul americanos e africanos -- em sua grande maioria --

esoeran qye a frase "concorrer sem entrevista prévia" impressa no formulário

oficial seja uma verdade do primeiro mundo e nao uma utopia do terceiro, por

isso a fila começa a se formar antes de que termine a noite. Às nove da

manhan um polícia abrirá a grade que os enjaula e os fará passar de dez em

dez aindque no interior da sala haja cadeiras para umas trinta pessoas. Os

que ficam fora, com as pernas anestesiadas, espiam pelos vidros tentando

advinhar com que obstáculo se encontraram, uma vez lá dentro, porque sabem

de antemao que os selos, as apostilas de Haya e a burocracia nao sao fáceis

de conseguir nem de dobrar.

 

Às duas da tarde alguem se somará à fila cinzenta e gradeada e perguntará ao

da frente há quanto tempo espera. A inadmissível resposta será: dezenove

horas. Ocasionalmente o olhar ansioso de um imigrante se cruzará com o olhar

cansado de alguns dos indiferentes funcionários administrativos. A medida

que passem as horas ambos estaráo resignados antes a certeza de que, outra

vez, náo haverá tempo para atender a todos, mas enquanto os empregados se

retiram a seu ceu europeu, os imigrantes voltarao a seu inferno ilegal.

Enquanto Barcelona trabalha, come, dorme a "siesta" e volta a pôr-se em

movimento, um colombiano da fila perguntará a outro por que na era da

informática, na Espanha, os formulários sao preenchidos a mao e com quatro

cópias.

 

Um argentino contará que se náo conseguir entrar e entregar a papelada

estará perdido porque seu chefe, que fez o favor de dar trabalho

clandestino, náo voltará a lhe dar um dia de folga para solucionar seus

problemas legais. Às cinco da tarde [ a las cinco de la tarde in punto...,

numa poesia de Lorca], quando os pés e a alma dos que esperam sao uma só e

única dor, o polícia limitará o número de entrada e os fará passar um a um.

As esperanças de entrar começarao a diluir-se enquanto as cadeiras vazias do

recinto proibido sentem a vergonha que nao sao capazes de sentir os humanos

uniformizados. É o momento em que todos, como em uma catarse coletiva,

começam a perguntar-se que fazer, como conseguir ou a quem pedir ajuda

quando ninguem parece estar disposto a ajudar.

 

A escassos quatrocentos metros do mosaico cultural alinhado em Marquès de

l'Argentera, um gorila albino recebe a solidariedade, a ternura e a

compaixao de cidadaos, turistas e governantes. Às 17:20h, o polícia, de

dentro e fazendo gestos através do vidro, fará o táo temido sinal de "náo

mais". Ninguém sairá a dizer às sete pessoas que ficaram fora sem ser

atendidas que alguém ao menos sente e se desculpa por isso. Os iimigrantes

perderam um dia apoiados contra uma fria parede governamental esperando em

vao que alguem os deixe cumprir a lei de um país que se elege como destino

quando o próprio náo é senao fome, morte e violência. Náo lhes entregaram um

número que assegure que alguém receberá seus expedientes no dia seguinte,

nao lhes reconheceráo o lugar ganho à custa de paciência e os sete deveráo

voltar a começar...

 

Silvana Vogt (junho, 2004)

 

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