Majestosa, digna e serena, Hera, irmã gêmea e cônjuge de Zeus, era a deusa do matrimônio e a protetora das esposas e mães. De temperamento forte, Hera, ou Juno, tornava-se vingativa e ciumenta para perseguir as amantes de seu marido, além de seus ilegítimos filhos. Apesar de todas as desavenças com seu filho Hefestos, era considerada uma boa mãe, tendo dado luz a vários filhos, a saber, Hebe, Ares, Tifon, Ilítia, Argeu e, obviamente, Hefestos.
O culto de Juno era quase tão solene e disperso quanto o de Zeus. O inconstante humor desta deusa, reverenciada no alto das montanhas, inspirava uma veneração misturada de receio e cautela. O maior templo a ela dedicado foi construído no século V a.C., entre Argos e Micenas, e abrigava a célebre estátua de Hera em ouro e marfim, esculpida por Polícleto. A deusa era ali representada como uma bela mulher, jovem, cândida e austera, vestindo uma longa túnica e um véu. Sua cabeça era adornada por um diadema; em uma das mãos segurava uma romã e na outra um cetro encimado por um cuco, pássaro de seu apreço, e por uma granada, pedra preciosa que simbolizava o amor e a fidelidade conjugal. O animal consagrado à deusa era o pavão. Os gregos associavam a brilhante e vistosa plumagem desta ave à magnificência de um céu estrelado, considerado reino de Hera. Para a cauda do pavão, a rainha do Olimpo transportou os cem olhos que arrancara do gigante Argos, vingando-se assim de seus maus préstimos.
Em homenagem à esposa do olímpico Júpiter eram realizados no mês da virgem – os atuais meses de junho ou julho – os Jogos Heranos, destinados somente às mulheres. Segundo Plutarco, a atividade física ajudava as mulheres a terem filhos vigorosos. A organização e a administração do evento eram de responsabilidade das dezesseis sacerdotisas de Hera. Elas também conduziam a prova esportiva, presidiam os ritos religiosos e, a cada cinco anos, teciam o véu consagrado à Juno.
Apenas uma corrida de 162 metros era disputada nesses jogos e dela participavam exclusivamente as jovens da cidade de Elis. Corriam descalças, com os cabelos soltos, usando uma pequena túnica que exibia o ombro e o seio direitos. A vencedora desta prova recebia como recompensa uma coroa de oliveira selvagem e uma porção de carne de vaca, sacrificada à deusa.
Embora fosse realizada apenas uma corrida nos Jogos Heranos, em algumas regiões da Grécia as mulheres dedicavam-se a outros eventos esportivos distintos. Inicialmente, participavam das atividades nuas. Porém, com o passar do tempo, adquiriram o hábito de se cobrir, conforme se pode observar em alguns mosaicos encontrados, que reproduzem jovens usando maiôs de duas peças e participando de esportes diversos.