
Esparta, principal cidade de uma região chamada Lacônica (de onde se originou o adjetivo "lacônico", pessoa que fala pouco), foi uma exceção na história política das cidades-estado gregas. Talvez por causa da sua geografia: cercados de montanhas a nordeste e a oeste e sem bons portos, os espartanos - ao contrário dos outros grupos - não puderam desenvolver relações culturais e comerciais externas; sua crescente população só encontrou um meio de expandir-se: pelas armas.
Mas as armas apareceram na Lacônia mesmo antes de Esparta existie. Os primeiros invasores da região foram os "aqueus" ; desalojaram os povos pré-helênicos que ali habitavam e fundaram - conta a tradição - a cidade de Lacedemônia. No século XXII antes de Cristo começou uma nova onda de invasõe: eram os dórios - outro povo - que vieram, viram e tomaram as terras dos aqueus, dividindo-as entre si. Mais ou menos em 800 a.C, no lugar da antiga Lacedemônia, erguem a cidade de Esparta e a fazem a capital da Lacônia. Logo começam a expandir-se.
O primeiro alvo dos dórios foi a fértil planície da Messêni. Vitoriosos, anexam a região à Lacônia. Meio século decorre em paz, até que os messênios tetam se libertar-se. É uma guerra violenta como poucas, a Lacônia é invadida, parece que a história dos dórios vai terminar por aí mesmo. Entretanto o general messênio morre em combate, os ventos da guerra mudam de direção, os dórios vencem. E não exitam em confiscar as terras dos insurretos, assassinam ou expulsão os chefes e escravizam as massas.
Segue-se um breve período de lutas internas, mas, finalmente, estabelecidos na grande planície fértil ao sul do Peloponeso, os dórios unem-se sob a liderança de dois reis, representantes das mais ilustres famílias de conquistadores. É o sistema da diarquia (do grego dyo= dois e arkhos= chefe, como monarquia vem de mono= um e arkhos) .
Nos 2000 anos seguintes, o domínio de Esparta afirma-se sobre outras regiões, além da Lacônica e Messênia: parte da Argólida
e várias cidades da Árcade caem sob seu controle. Esparta era a maior potência grega. Mais tarde, tentará estender seu poderio à Ásia , mas a empresa não teve êxito. E, dentro da GRécia, outras cidades-estado, antigas aliadas de Esparta na luta contra os persas, acabarão por revoltar-se contra a opressão a que ficaram sujeitas. A hegemoniade Esparta começa a declinar depois que seu exército é batido pelos tebanos na batalha de Leutra, em 317 a.C.
Nos melhores tempos de sua existência, Esparta contavacom 400 mil habitantes, que os dórios tiveram o cuidado de dividir rigidamente em três categorias, para manter-se no poder.
Eram elas :

A severa disciplina estabelecida por Licurgo não permitia que os jovens espartanos se alimentassem cômodamente em suas casas. Todos os dias, após os exercícios militares, reunidos em grupos de quinze, comiam a "sopa negra", feita com sangue e carne de porco, codimentada com sal e vinagre.
É claro que nem periecos nem hilotas andavam muito contentes com a ordem social imposta pelos esparciatas. E no século IX a.C. organizaram vários levantes para acabar com o sistema de estratificação vigente. É claro também que os esparciatas não ficaram muito contentes com a subversão e tomaram medida para reprimi-la. Segundo a tradição, foi Licurgo quem resolveu acabar de vez com as esperanças de periecos e hilotas.
Enquanto, em Atenas, Sólon daria à cidade um governo democrático, em Esparta Licurgo se encarregou de fazer o contrário: percebendo que para enfrentar as inevitáveis rebeliões internas só havia um meio - manter a cidade-estado em constante pé de guerra - , preparou uma constituição pela qual a única atividade dos espartanos era o treino militar. Em consequência, tornaram-se valorosos guerreiros, formando o exército mais poderoso do toda a Grécia. E Esparta virou um imenso quartel.
A consequência mais geral dessa legislação foi a subordinação toatal dos indivíduos ao Estado militar. Os dois reis perderam muitos de seus poderes. As novas leis limitavam sua tarefa e celebrar sacrifícios e comandar o exército. Esses cargos eram hereditários.
O poder de fato passou às mãos deos éforos, um conselho de cinco membros eleitos anualmente pela Ápela, a Assémbléia do Povo, de que se falará adiante. Os éforos presidiam à Assembléia, controlavam o sistema educacional e a distribuição da propriedade, censuravam a vida dos cidadãos e tinham o direito de veto sobre qualquer lei. Sob seu controle estava ainda a temida kryptéia, a polícia secreta do Estado, cuja missão primeira era investigar, descobrir e desbaratar tentativas de revolta entre os hilotas.
Os éforos governavam auxiliados pela Gerúsia, uma espécie de assessoria dos reis, um tipo de senado com 28 nobres de mais de 60 anos - os gerontes. Cabia à Gerúsia supervisionar a administração, funcionar como tribunal supremo nos processos criminais e redigir leis - embora não podendo pô-las em prática sem o "sim" dos éforos. Os gerontes eram eleitos para toda a vida.
Finalmente, a Ápela votava as leis elaborasdas pela Gerúsia, formava um tribunal para julgar os processos de interesse do Estado, especialmente os que afetassem os reis. Sua designação - Assembléia do Povo - era muito enganadora: nem de popular, nem de democrática tinha algo a Ápela espartana: só o smaiores de 30 anos entre os cidadãos - minoria da população - podiam dela participar. A Ápela, teoricamente, declarava a guerra ou votava a paz, mas a palavra fina era sempre dos éforos. A própria Assembléia, por sinal, era convocada pelo Conselho de éforos, que podia, quando quisesse, demitir qualquer membro com veleidades de indepêndência.
Em suma, o governo espartano era uma feroz oligarquia, o que significava, literalmente, em grego, um governo chefiado por poucos.
Sociedade fechada, mentes também
A vida de um espartano não era risonha nem franca. Dos 7 aos 20 anos, era submetido a intenso treinamento militar. (Isto, se nascesse sem defeito físico; caso contrário, não chegaria a viver: seria, criança ainda esmagado nos rochedos.) Entre 20 e 30 anos tinha a obrigação de casar, mas a vida familiar não era permitida: só depois dos 30 o espartano podia deixar de dormir nos acampamentos militares. Mas até os 60 estava sujeito a participar das guerras. AS moças não eram tratadas de modo diverso: acima da família, vinha a pátria.
Pouquissímos aspectos da vida dos espartanos deixaram de refletir sua situação de guerra permanente. Ao subjugar e saquear outros povos, escravizavam-se automaticamente a si própios, vivendo sempre sob o temor de insurreições. O medo os fez conservadores: em Esparta, tudo o que era novo poderia ser perigoso ao sistema. Por isso, os espartanos não tinham permissão para viajar nem comerciar com o estrangeiro (grego de outra cidade). Uma consequência indireta da disciplina férrea imposta à população e da atmosfera de rudeza e ódio que se respirava na Lacônia foi a pobreza artística e filosófica de Esparta - um atraso que aparece clamoroso quando se pensa que, na mesma época e não longe daquela região, floresciam em Atenas as artes e se desenvolvia a ciência com bace no pensamento racional.