A palavra Angola já desperta em nossas mentes imagens de violência, desgraça, dor e miséria. Uma terra tão rica, linda, e abençoada por Deus, que tem sofrido pelas ambições de poder e das suas riquezas.
Depois tornaram-se objeto de ambição européia pelo domínio mundial, e, na grande Divisão do Bolo feita em Berlim em 1885, sem a participação de africanos, Angola ficou sendo propriedade de Portugal, que já a explorava há séculos. só em 1975 veio a sonhada independência. Infelizmente ela não trouxe a paz, a dignidade e a prosperidade esperadas.
Além do conflito de interesses entre os próprios angolanos, havia em jogo muitos interesses políticos alheios: os Estados Unidos e a URSS investiram pesadamente na promoção da guerra que foi destruindo vidas, mutilando corpos e acabando com a economia, com a agricultura e com o próprio meio ambiente do país.
Agora Angola está num lento e doloroso processo de paz, mas que pelo menos vem sendo levado a sério pela comunidade internacional, que ali está investindo, através de tropas das Nações Unidas, na missão de paz UNAVEM III.
Ainda estão ali uns 800 brasileiros, além de muitos de outras nacionalidades, acompanhando esse processo. E por que esse processo está tão difícil, se o povo há anos anseia pela paz? Houve um acordo assinado em Bicesse, seguido pelas primeiras eleições no país e pela guerra mais violenta e destruidora, que estourou em novembro de 1992. A partir daí os níveis de desconfiança mútua e o medo de perder posições e privilégios alcançados pela força das armas ficou maior.
Mas o processo de paz progride passo a passo, após o novo acordo assinado em Lusaka em novembro de 1994. Uma caminhada lenta, mas que renova a esperança e a coragem de voltar a investir na restauração econômica e social do país.
Em Huambo três coisas especialmente me impressionaram:
1) já não há multidões de criancinhas desnutridas em todos os cantos choramingando por um pouco de comida. Por outro lado, as marcas destruidoras da guerra continuam predominantes nos prédios e nas ruas da cidade;
2) o Seminário Teológico Baptista está em plena forma, ativo, com excelentes alunos, e em franco processo de conseguir espaçosas instalações próprias numa antiga fábrica de sabão. Ministrei a matéria de Ética Bíblica, com aplicação contextualizada: os alunos participaram com muito interesse, apesar de eu não só ter separado apenas uma semana para as aulas ali, mas ainda de, sem pensar, tê-las marcado para a semana da Páscoa;
3) tem havido um crescimento fenomenal da Igreja Batista na província: o número de igrejas e de congregações multiplicou por 8 ou lo desde 1984; além disso, a igreja mantém um ministério social reconhecido e respeitado pela sociedade.
Fiquei hospedada na residência missionária transcultural, onde vivem uma brasileira, uma alemã, uma sul-africana e duas angolanas. Essas missionárias ficaram em Huambo durante o tempo mais violento da guerra. Analzira (enfermeira) e Margareth (nutricionista), junto com alguns outros, conseguiram salvar muitas pessoas do desespero e da morte. Como conseqüência, muitos abraçaram a fé também.
O ministério dos graduados pelo Seminário é animador: são pessoas responsáveis, fiéis à Palavra, com visão missionária. Alguns estão abrindo novas frentes de trabalho em outras províncias. As mulheres formadas também exercem um excelente ministério.
Em Benguela, estive com o Pr. sebastião Chiquete, aluno de mestrado do CEM. Encontrei também o irmão Antunes Manjolo, coordenador provincial do ministério do GBECA (Grupo Bíblico de Estudantes Cristãos em Angola) - que corresponde à ABU, no Brasil. E segui para Lubango, o sul de Angola estava verde, graças a algumas chuvas que, infelizmente, não foram suficientes para permitir uma boa colheita.
A liderança angolana está muito satisfeita com a contribuição dos brasileiros, o seminário está crescendo e ainda precisa de um maior número de professores (alguns estarão ausentes neste e no próximo ano). Há, portanto, necessidade e lugar para novos professores brasileiros.
Lecionei a matéria Comunicação Transcultural para os alunos do terceiro ano. Era uma turma pequena, mas muito motivada, buscando descobrir juntos os desafios da comunicação do evangelho através dos relacionamentos, estilo de vida e das palavras, num contexto transcultural, mesmo que seja numa outra tribo do mesmo país, um deles está interessado em se tornar tradutor da Bíblia. Houve um nível altíssimo de aproveitamento.
No domingo, acompanhei o Pr. Afonsil numa viagem a Namibe. Havia feito o trajeto Lubango-Namibe apenas uma vez, em 1984. Gostei muito de fazê-lo mais essa vez, deleitando-me com aquela majestosa e impressionante paisagem da serra da Leba, visitei a igreja da união Evangélica, onde estivera em 1984. Notei que o crescimento foi grande, tornando o templo muito pequeno, o pastor, Eduardo Calenga, é um ex-aluno meu, agora presidente da sua denominação, e líder sábio e íntegro. sua esposa também fez o Seminário, com proveito para seu ministério atual.
As igrejas evangélicas de Lubango estão crescendo, cheias de ministérios e projetos, havendo maior cooperação entre elas. Entre os mutilados e deficientes físicos, há um excelente ministério, tanto de acompanhamento pastoral e espiritual, quanto de ajuda social, o que os auxilia a restaurar sua dignidade e a abrir possibilidades de auto-sustento. Fui a uma dessas reuniões e fiquei feliz em rever uma ex-paciente do Hospital de Luanda, agora mãe de duas lindas gêmeas.
Tive uma agradável convivência com o GBECA. Foi bom ver muita gente nova e saber que agora o grupo pode se reunir no iscED (instituto superior de ciências da Educação).
O tempo foi muito curto para rever todos. No hospital, fiquei novamente impressionada com o sofrimento humano. Numa enfermaria, por exemplo, estavam dois homens, um com as duas coxas quebradas e bem inchadas, e as pernas bastante tortas; o outro, com uma coxa quebrada. Já estavam há um mês no hospital sem receber tratamento porque não tinham dinheiro para comprar o gesso na "praça" (feira livre). Estavam com muitas dores, sem socorro e sem esperança. Alguns que têm uma perna inteira, quando conseguem uma muleta, acabam saindo do hospital, com a outra perna a balançar.
Mas houve algo muito lindo. Alguns jovens, que eram adolescentes da minha igreja, estão visitando com fidelidade, amor e compaixão, e fazendo o que está ao alcance deles para ajudar (não só no hospital, mas também a deficientes em suas residências), além da amiga missionária, D. Becky que, com setenta anos de idade, também faz o que pode.
A visita à Missão El Shaddai foi um pouco difícil. Fui co-fundadora dessa missão para deficientes físicos, mas percebi pelas canas e pelas conversas com os deficientes, que, na prática, ainda falta aquele amor, respeito e paciência para com deficientes. Eles estão lutando com dificuldades financeiras, o que naturalmente influi negativamente no desempenho do ministério. Mas têm um grande potencial, um centro já preparado, com máquinas e instalações para ministrar fisioterapia, e uma série de cursos profissionalizantes. Que Deus tome conta dessa obra fundada em seu nome para servir àqueles que tanto precisam de ajuda.
Sobrevivem ali com muita dificuldade, alguns lutando com graves enfermidades, quase sem ajuda. A única coisa bonita a ser vista é que eles são de muitas tribos diferentes, mas ali isso não tem importância: estão unidos e organizados, com um chefe eleito dentre eles.
Graças a Deus o irmão Enoque, da igreja, é um representante dos deficientes ex-combatentes perante o govemo; e prometeu fazer alguma coisa para ajudar esse grupo. Um deles, Antônio, depois de sair do hospital conseguiu viajar para Malanje, à procura da família: todos estavam monos, exceto um menino de nove anos, que estava com anemia grave e muito fraco.
Há três anos e meio começamos uma congregação no quintal de sua casa, que agora conta com mais de 100 participantes regulares, e muitos convertidos, começando com sua própria família. Zeca tem uma pequena clínica, autorizada pelo governo, chamada Saie Luz. Foi muito bom desfrutar da amizade com a família e a igreja.
Estive com a Igreja Cristã Evangélica Central, num culto, e falando para os jovens e para as senhoras. Bons momentos de comunhão. Estive também com o Zeca Luacute (meu sucessor como assessor do GBECA), com o Lukunga Diavita (presidente do GBECA) e com um grande grupo de irmãos, num sábado em que realizaram um retiro. Foi bom rever os amigos e, ainda melhor, ver novas pessoas comprometidas e engajadas. visitei rapidamente a Livraria Evangélica O Barquinho, que, com as irmãs suíças Crista e Josette e com a inglesa Liz, está realizando um excelente ministério em Luanda.
Senti-me perfeitamente em casa, e muito feliz por ter estado mais uma vez em Angola. Mas, por enquanto, tenho uma tarefa a cumprir no CEM, e para essa tarefa minha experiência e meu amor por Angola são elementos-chaves na preparação da nova geração de missionários brasileiros.