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Iracema Baroni de Carvalho Patrimônio Cultural Iguaçuano Feliz Aniversário, 4 de outubro de 2000. Dedicamos a querida poetisa um poema de Cervantes |
Quixote Sempre, O Elogio do Sonho
| Quixote e Sancho em velha casa
quase destruída. Não há mais telhados e a morna luz do mormaço aquece
harvas sem valia e lixos de todos os gêneros. O diálogo será acompanhado
pelo bater de patas de Rocinante e do jumento amarrados a um pilar
próximo. Uma ave de rapina turva a paisagem com seu grito metálico. Há
moscas, muitas moscas e de vez em quando uma aranha corre entre os
escombros.
Sancho, vamos descansar um pouco neste sítio abandonado. Podíamos, senhor, escolher lugar menos ingrato, mas... Mas o cansaço é grande. Fiquemos. E aqui se pode sonhar. Sonhar ? Sonhar de olhos abertos. Bem abertos. (Pausa). Vemos as ruínas e sonhamos com a cidade perfeita. Sofremos a seca, o sonho que nos vale é a vida.(Pausa). É muito do meu agrado sonhar. Mas, senhor, se vivermos a sonhar, acabaremos sonâmbulos seguindo pelo mundo. Isto é ver as aparências, Sancho. Assim como o mar zela pelos peixes, a floresta pelos pássaros, estes sonâmbulos zelam pela história dos homens... Explica melhor, senhor. Os sonhos edificam algo diverso do que está acontecendo. eles nascem dos enganos do mundo e do nosso anseio de vida. (Emudece, Quixote permanece em silêncio, ausente). Por que emudeceste, senhor ? Por que teus olhos fugiram para além das montanhas, além mesmo das nuvens ? (Emocionado) Porque estou falando de um grande desejo em minha aventura. De uma espécie de febre que me faz sair em busca do inexistente. Estou falando de um amor fortíssimo. Falo da vida ao serviço da vida. (Pausa. E no silêncio se escuta mais claro o rumor da ave de rapina) Eu sei que tu existe, morte. Não é preciso gritar em meus ouvidos! Se quiseres, senhor, eu tento abater esta ave. Não é com a morte que se vence a morte. Não é com a morte...(pausa). Voltemos ao bosque de meus pensamentos. Sem os sonhos, sem o amor de que te falei, os males se tornariam rígidos e permanentes como as pedras. Tudo seria um desastre. Felizmente não há cárcere que prenda os sonhos. Por que, senhor, tanta emoção na voz? Por que um olhar tão aceso ? Sancho, Sancho, eu estou falando do segredo da Lua e do segredo do Sol ! A Lua e o Sol ? São as luzes que acendem a nossa caminhada São a imagem do Homem e da Mulher. Enfim, porque o Sol é o Sol e a Lua é a Lua. (Pausa. A voz do Quixote abandona o entusiasmo e vive um timbre de certeza e de quietude). Dizem-nos loucos e há loucura realmente, mas não em nós, e sim no mundo, na frieza e na crueldade do mundo. (Sancho se inclina e tenta beijar as mãos do Quixote). Não, não, Sancho ! Só te inclines diante de Deus ou diante de alguém que sofre, O resto é idolatria. |
Vôo no Tempo
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Goza a euforia do vôo do anjo perdido em ti. |
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Não indagues se nossas estradas, tempo e vento, desabam no abismo. |
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Que sabes tu do fim ? |
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Se temes que o teu mistério seja uma noite, enche-a de estrelas. |
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Conserva a ilusão de que teu vôo te leva sempre para o mais alto. |
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No deslumbramento da ascensão, se pressentires que amanhã estarás mudo, |
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esgota como um pássaro, as canções que tens na garganta. |
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Canta ! Canta para conservar uma ilusão de festa e vitória. |
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Talvez as canções adormeçam as feras que esperam devorar o pássaro. |
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Desde que nasceste não és mais que um vôo no tempo. |
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Rumo ao céu ? |
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Que importa a rota ! |
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Voa e canta, enquanto resistirem as asas. |
Pequeno grande Gut Gut, quando te vejo meu coração se eleva, como uma águia.
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Primeiro eles entram em nosso jardim e roubam nossa rosa |
| E nós, não dizemos nada. |
| Depois voltam e chutam nosso cachorro |
| E nós, não dizemos nada. |
| Voltam novamente, estupram nossas filhas e matam nosso cão |
| Então não podemos falar mais nada. |
| Não podemos dizer mais nada, porque nós nunca dissemos nada. |
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Instruções para toda a vida Leve em consideração que
grandes amores e conquistas envolvem grande risco. Quando você perde, não
perca a lição.
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| Vida e Morte Severina | Titãs |
| Essa cova em que estás, | Eu aprendi, a vida é um jogo |
| com palmos medida, | cada um por si e Deus contra todos. |
| é a conta menor | Você vai morrer e não vai pro céu. |
| que tiraste em vida. | É bom aprender, a vida é cruel. |
| É de bom tamanho, | Homem primata, |
| nem largo nem fundo, | capitalismo selvagem. |
| é a parte que te cabe | Eu me perdi na selva de pedra |
| deste latifúndio. | eu me perdi, eu me perdi. |
| Não é cova grande, | |
| é cova medida, | |
| é a terra que querias | |
| ver dividida. |
Marilso e a Estrela do Mar
Um homem sábio fazia um passeio pela praia, ao alvorecer.
Ao longe, avistou meu amigo Marilso que parecia dançar ao longo das ondas. Ao se aproximar, percebeu que Marilso pegava estrelas do mar na areia e as atirava suavemente de volta à água.
E então, o homem sábio perguntou: O que você está fazendo ?
O sol está subindo e a maré está baixando, se eu não as devolver ao mar, elas vão morrer.
Mas meu caro Marilso, há quilômetros e quilômetros de praias cobertas de estrelas do mar... Você não vai conseguir fazer qualquer diferença ...
Marilso curvou, pegou mais uma estrela do mar e atirou-a carinhosamente de volta ao oceano, além da arrebentação das ondas, e retrucou:
Faz diferença para essa aí ...
Geni e o Zepelim
De
tudo que é nego torto Joga
pedra na Geni Um
dia surgiu, brilhante Essa
dama era Geni |
Tão
coitada e tão singela Vai
com ele, vai Geni Foram tantos os
pedidos |
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Visita a Casa Paterna |
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Como uma ave que volta ao ninho
antigo |
| depois de um longo e tenebroso inverno, |
| Eu quis rever meu lar paterno |
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meu primeiro e virginal abrigo. |
| Entrei, um anjo carinhoso e amigo |
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tomou-me as mãos, olhou-me grave e
terno |
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e passo a passo caminhou comigo. |
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Era esta sala, oh ! se me lembro
tanto, |
| A luz noturna, a claridade, minhas irmãs, meu pai, minha mãe |
| O pranto jorrou-me ondas, |
| Resistir quem hai-de. |
| Uma ilusão gemia em cada canto |
| Chorava em cada canto uma saudade |
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Hoje em plena floração, amanhã dispersadas pelo chão. A vida é como uma flor delicada, como esperar que sua fragrância dure eternamente ? O mundo mata a todos. Os muito bons, os muito meigos, os muito fortes. Se você não estás incluído em nenhuma destas categorias, não vos apresseis. O mundo vos matará também. |
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O mundo só será feliz quando enforcarem o último rei na tripa do último padre (Voltaire) |