
I
Douglas
ergueu a cabeça vagarosamente. Sentindo um enorme peso nas pálpebras, abriu os
olhos com dificuldade. Fora uma noite exaustiva trabalhando no subsolo do
Raccoon Hospital, realizando testes com a vacina para o T-Virus que estava
sendo desenvolvida por ele junto com alguns outros cientistas da Umbrella.
Naquele momento morria de sono.
Debruçado
sobre a mesa, o especialista em biogenética olhou para sua direita,
deparando-se com a bela imagem de sua namorada, Michele Grant. Ela sorriu para
o amado, ficando ainda mais bonita do que já era: cabelos castanhos lisos,
lindos olhos verdes brilhantes e um corpo de deusa. Douglas agradecia aos céus
todos os dias por ter conseguido fisgar o coração de uma mulher tão maravilhosa
após seu conturbado divórcio.
─
Acorde, querido!
– disse ela em tom angelical, empurrando uma caneca com o emblema da Umbrella
para junto do amante. – Tome um pouco de café, ajuda a despertar!
O
cientista fitou os olhos de Michele por alguns segundos e sorriu também, apanhando
o recipiente ao mesmo tempo em que se endireitava na cadeira. Tomou um gole da
bebida quente, ouvindo a namorada perguntar:
─
Como vai indo o
trabalho com a vacina?
─
Bem, logo teremos
um protótipo 100% efetivo... – murmurou Douglas em resposta. – É difícil
entender por que os chefões têm tanta pressa em ver pronta uma vacina para um
vírus de fins terapêuticos...
─
É verdade...
Cerca
de cinco minutos depois, o funcionário da Umbrella terminou o café e se
levantou, seguindo até a porta da sala. Antes de sair, virou-se para Michele e
informou:
─
Telefonaram-me
agora há pouco, parece que hoje não precisarei ir até o hospital! Você ainda
tem alguma tarefa por aqui?
─
Sim, preciso
terminar alguns relatórios. Talvez eu leve mais uns vinte minutos, não tenho
certeza...
─
Eu já vou indo.
Passe em casa assim que estiver livre, quero aproveitar esse meu dia de folga
como nunca!
─
Pode deixar, meu
amor...
Douglas
aproximou-se da amada e beijou-a ardentemente nos lábios. Em seguida caminhou
novamente até a saída, acenou para Grant e finalmente deixou o local,
carregando uma maleta preta.
Caminhando
pelo corredor, o cientista passou diante de um calendário, constatando ser dia
27 de setembro de 1998. De tanto trabalhar na vacina, muitas vezes passando
noites em claro, o pobre homem acabara perdendo a noção do tempo. Mas o
importante era que poderia curtir um dia em casa sem ter que se preocupar com a
pesquisa... Ou talvez não...
II
Respirando
o ar fresco da manhã, Douglas percorreu o estacionamento da sede da Umbrella em
Raccoon City satisfeito com sua vida. Parou diante de um Honda preto pensando
em como conseguira superar todas as adversidades que o haviam acometido nos
anos anteriores...
Primeiro
fora o fim do casamento com sua esposa, Margareth. Ela o estava traindo com seu
melhor amigo já há algum tempo, e o infeliz marido demorou a descobrir. Um
período de muito stress, tristeza e frustrações, atravessado pelo cientista com
grande garra e vontade de ser feliz. Depois veio sua demissão da empresa onde
trabalhava, frustrando-o ainda mais. E agora, quem diria... Ali estava ele, um
geneticista de sucesso, trabalhando para uma das maiores e mais conceituadas
multinacionais farmacêuticas do globo, e namorando uma mulher lindíssima.
Douglas se mudara para Raccoon com a esperança de começar uma vida nova, e
estava atingindo tal meta com admirável e de certa forma inesperado sucesso.
Entrando
em seu carro, Douglas lembrou-se do T-Virus, o vírus terapêutico criado pela
Umbrella que em pouco tempo revolucionaria o mundo moderno. Pessoas aleijadas
voltariam a andar, indivíduos com distúrbios no sistema nervoso poderiam voltar
a viver normalmente. Um verdadeiro milagre da genética. Sua função atualmente
era desenvolver uma vacina para o vírus, mesmo não compreendendo ao certo a
razão. De qualquer forma, continuaria trabalhando em prol da humanidade...
Douglas
era, acima de tudo, um sujeito ingênuo.
Dando
partida no veículo, o especialista em biogenética manobrou na direção da rua,
olhando para o relógio digital no painel. Eram dez horas. Ainda teria muito
tempo para aproveitar seu dia de descanso...
III
O
tráfego estava relativamente tranqüilo nas ruas centrais da cidade. A calmaria
apenas fora quebrada por duas ou três viaturas da polícia passando em alta
velocidade, sirenes ligadas. Exceto isso, Raccoon parecia uma cidade-fantasma.
Até
que, dirigindo pela rua Ash, Douglas avistou uma aglomeração de pessoas um
pouco à frente, fechando a via. Elas pareciam agitadas e assustadas, sem dúvida
havia algo errado acontecendo. Uma senhora idosa chegava a chorar desesperada,
horrorizada com o que via.
Intrigado,
o cientista freou o carro e deixou-o, indo averiguar o que ocorria. Seu coração
batia mais forte conforme se aproximava dos moradores, os aterradores gritos de
espanto e horror atingindo seus ouvidos com macabra intensidade.
Abrindo
caminho entre os curiosos, Douglas, sem muita dificuldade, pôde observar o que
causava tanto transtorno naqueles ao seu redor. Ao lado de um veículo batido
num poste, sobre o asfalto da rua, um homem vestindo uniforme da polícia estava
de joelhos junto ao corpo ensangüentado de um homem de meia-idade usando jaleco
de laboratório. Por mais grotesco e horripilante que possa parecer, o suposto
homem da lei estava devorando as vísceras do cadáver, deliciando-se com sua
carne fresca assim como um cão faminto se banqueteia com uma tigela de ração.
Sem
ar devido à bizarra cena, Douglas recuou imediatamente para trás. Sentiu
náuseas. Antes mesmo que pudesse soltar uma exclamação de repúdio e pavor,
todos ouviram o alto som do disparo de uma espingarda. O namorado de Michele,
movido pelo instinto, fechou os olhos por um instante, e quando voltou a
abri-los, viu que a cabeça do canibal não existia mais, e que um misto de
sangue e encéfalo cobria agora o pavimento. O tiro fora fatal.
─
É o fim do mundo!
– berrou o homem que efetuara o disparo, de pé na calçada com a arma em mãos. –
Os mortos vieram do inferno aniquilar todos os pecadores! Convertam-se antes
que seja tarde demais!
Logo
em seguida atirou novamente, desta vez para cima, afugentando boa parte das
pessoas. Douglas, entretanto, permaneceu imóvel, fitando fixamente o indivíduo
que até pouco antes era atacado pelo selvagem policial. Ele o conhecia.
Tratava-se de Benjamin Senn, médico do Raccoon Hospital. Mesmo com o rosto do
morto estando desfigurado, o geneticista certificou-se da identidade deste ao
ler o nome presente no crachá da Umbrella preso ao peito tingido de vermelho do
funcionário. Ele deixara algo cair. Uma pasta.
─
Jesus Cristo! –
bradou o apavorado especialista em biogenética, trêmulo, enquanto apanhava o
achado sem conseguir raciocinar direito.
Com
as pernas obedecendo a seus comandos relutantemente, Douglas voltou para dentro
do Honda o mais rápido possível. Colocou os documentos do morto sobre o assento
vago. Encheu os pulmões de ar. Olhou pela janela. Bateu a cabeça no volante,
fazendo a buzina tocar. Ergueu a cabeça. Viu algumas viaturas da polícia
chegando à rua.
─
Que loucura...
Pisou
fundo no acelerador, tentando ao máximo esquecer as terríveis cenas que acabara
de presenciar. Precisava ir embora dali. Precisava atingir sua casa, refúgio
seguro e inabalável.
─
Mas o que está
havendo nesta droga de cidade?
E
assim contornou uma esquina. O caos tomava Raccoon de assalto.
IV
Douglas
afundou o pé no freio assim que reconheceu a fachada de sua residência,
localizada no Distrito de Cider. Ainda ofegante e confuso, o cientista percebeu
que ao menos ali as coisas pareciam normais. Ficou mais aliviado quando notou o
carro de Michele parado do outro lado da via. Ela provavelmente havia terminado
os relatórios mais cedo do que esperava.
─
Acalme-se,
cara... – disse o geneticista a si mesmo, tentando ao máximo relaxar. – Aquele
policial no centro era apenas um maníaco antropófago que atacou o senhor Senn,
não há com o que se preocupar... Apenas aja naturalmente diante de Michele,
você não quer deixá-la alarmada, quer?
Movendo
a cabeça negativamente em resposta à sua reflexão, o namorado de Grant deixou o
veículo, levando consigo a pasta adquirida na rua Ash, ainda tremendo um pouco.
Já controlando melhor suas pernas, o funcionário da Umbrella ganhou o gramado
de sua casa, seguindo até a porta sem conseguir parar de pensar no cadáver
dilacerado de Benjamin. E as coisas ficaram ainda piores quando o
recém-chegado, depois de mais alguns passos incertos, observou marcas de sangue
levando até a entrada.
─
Michele, não!
Mesmo
sem necessidade, Douglas abriu a porta num forte chute, por pouco não
arrebentando as dobradiças. Entrou correndo na sala de estar, e seu horror
cresceu. Tudo estava banhado em sangue, como se alguém houvesse jogado tinta
rubra sobre a mobília. Era o sangue de Michele.
E
lá estava ela. Sentada sobre um sofá, mão direita cobrindo o ventre ferido
gravemente. Pálida como um cadáver, respirando com incrível dificuldade. O
amante da jovem pensou em arrancar os cabelos e sair gritando pela rua, mas
precisava agir para salvar a vida da namorada. Segurando-se para não chorar,
Douglas arremessou a pasta sobre uma poltrona e aproximou-se de Grant,
exclamando:
─
Deus amado, o que
aconteceu? Você está com hemorragia, precisamos fazer alguma coisa!
─
Não há mais nada
a se fazer, amor... – suspirou a mulher, sangue lhe escorrendo também pelos
lábios que o cientista tanto adorava beijar. – Perdoe-me por não ter lhe
revelado a verdade...
─
Mas do que é que
você está falando? Pare de falar ou perderá mais sangue!
Olhando
desesperadamente ao redor, Douglas procurava algo que pudesse utilizar para
estancar o sangramento da amada. Não podendo mais se conter e por isso com
lágrimas lhe banhando a face vermelha de nervosismo, o especialista em
bioengenharia voou até a cozinha, abrindo um armário.
Totalmente
desnorteado, o ingênuo geneticista começou a revirar o móvel, e após alguns
segundos de intensa angústia, acabou apanhando um pedaço de pano. Apesar de ter
certeza de que não seria suficiente, Douglas voltou velozmente à sala, mas,
para sua imensa surpresa, Michele estava de pé, observando-lhe estranhamente.
─
Sente-se, você
não está em condições de levantar! – gritou ele, temendo pela vida da namorada.
O
cientista percebeu tarde demais que os outrora lindos olhos verdes de Grant não
estavam normais. Eles haviam perdido todo e qualquer brilho, transformados em
aterradores globos brancos inanimados. Não houve tempo para o brilhante
empregado da Umbrella indagar-se sobre o que ocorrera. Michele saltou sobre ele
num berro inumano, tentando derrubá-lo e ao mesmo tempo abocanhar-lhe o
pescoço.
─
Não! –
choramingou Douglas, não acreditando no que estava acontecendo.
A
vítima da agressão tentou primeiramente se soltar com os braços, mas a força
exercida pela jovem era absurdamente grande. Lutando para evitar que os dentes
da canibal rasgassem sua garganta, o pobre namorado conseguiu finalmente se
livrar chutando o tórax da amada, fazendo-a despencar sobre o sofá num gemido
tumular.
Douglas
ficou parado por mais alguns instantes antes de apanhar a pasta de Senn,
correndo em seguida na direção da escada que levava ao segundo andar. Enquanto
vencia os degraus, o fugitivo se sentia impotente e amargurado como nunca antes
em sua vida de raras alegrias. Chegando ao piso superior, o cientista entrou em
seu quarto, trancando a porta logo em seguida, olhos arregalados como os de uma
pessoa insana. Girando a chave na fechadura, pôde ouvir Michele subindo atrás
dele pela escada, numa perseguição implacável. Ela já não era mais a mesma. Já
não era mais humana.
Douglas
sentou-se sobre a cama, e pouco depois sua namorada começou a esmurrar a porta
freneticamente, emitindo sons guturais. No ápice do pesadelo, o ex-marido de
Margareth cobriu o rosto com as mãos e, sem qualquer vergonha, chorou em alto
som, soluçando sem parar. Assim como uma criança indefesa que se vê subitamente
sem qualquer tipo de amparo.
V
A
noite caiu em Raccoon City, tornando-a ainda mais assustadora e sombria.
Trancado no mesmo cômodo vazio e desolador, Douglas podia ouvir as hordas de
canibais gemendo pelas ruas, num coro digno das profundezas infernais. O
geneticista percebera que, assim como Michele e o policial responsável pela
morte do doutor Senn, os habitantes da cidade haviam se tornado zumbis,
mortos-vivos comedores de carne humana, assim como nos filmes “B” de terror aos
quais assistira na juventude. Tudo estava perdido. Não havia escapatória. A
pacata cidadezinha que escolhera para recomeçar sua vida se transformara numa
armadilha mortal.
O
pior não era isso. Durante as horas em que permanecera trancado, Douglas havia
resolvido checar os documentos presentes na pasta que encontrara junto ao
cadáver de Benjamin. E o que leu fê-lo se sentir como um completo idiota. Por
meio deles, descobriu que o T-Virus nunca fora um vírus de propriedades
terapêuticas. Era na verdade uma terrível arma biológica criada pela Umbrella
para ser usada em experiências que resultassem no surgimento de B.O.W.’s, Armas
Bio-Orgânicas. Nada mais que monstros mutantes horrendos que seriam utilizados
com fins militares.
A
sensação era horrível. O pobre cientista fora enganado por todos que
trabalhavam consigo na empresa, até Michele. E o mais deprimente era o fato da
cidade inteira ter sido contaminada de alguma forma pela terrível praga. Como
pôde ser tão ingênuo? Como pôde ser logrado novamente após ter sido traído pela
ex-mulher durante vários anos? Talvez sua sina fosse mesmo ser sempre passado
para trás por todos, desde a esposa até os amigos mais íntimos.
Se
possuísse uma arma, Douglas com certeza cometeria suicídio.
Mas
havia ao menos um alento. Michele parara de esmurrar a porta já há algumas
horas. Seus gemidos famintos também haviam cessado. Dentro da casa tudo era
calmaria, contrastando com os gritos e tiros nas ruas...
Súbito,
som de vidro quebrando. Os zumbis provavelmente haviam invadido a casa. Com o
coração apertado, o funcionário da Umbrella encolheu-se junto à cama, atento a
qualquer barulho. Seguiram-se passos pela residência. Não deviam ser dos
mortos-vivos, pois eram rápidos e fortes. Pareciam botas.
Seria
algum tipo de resgate?
─
Hei, eu estou
aqui! – gritou o sobrevivente, com a esperança de ser salvo.
Douglas
ouviu falas ríspidas. Logo depois o som das botas tornou-se mais próximo.
Alguém pigarreou e, num piscar de olhos, a porta do quarto foi arrombada por
dois homens armados com submetralhadoras. Trajavam vestes táticas completas e
tinham suas faces ocultadas por máscaras de gás. Nos ombros, sempre imponente e
inabalável, era possível ver o guarda-chuva vermelho e branco da Umbrella
Incorporated.
─
Graças a Deus! –
bradou o sofrido indivíduo, sentindo seus músculos relaxarem de forma
reconfortante.
A
dupla de soldados caminhou até Douglas. Um deles examinou a mucosa de seus
olhos por meio de uma lanterna, informando ao colega:
─
Ele não está
infectado!
─
E trabalha para a
Umbrella, assim como nós... – observou o outro combatente, notando o crachá no
peito do especialista em bioengenharia.
─
Por favor, vocês
precisam me tirar daqui! – implorou o sobrevivente.
─
Calma, calma,
amigo... Vamos ver se você está na lista de funcionários a serem resgatados!
O
homem armado que examinara Douglas primeiramente apanhou um palmtop guardado em
seu uniforme, examinando uma lista de nomes que lhe havia sido previamente
fornecida. A luz emitida pelo aparelho deixava nítido o rosto extremamente
cansado do cientista. Concluindo a consulta, o soldado disse ao companheiro:
─
O nome dele é
Douglas Hover, um dos responsáveis pelo desenvolvimento da vacina contra o
T-Virus. Segundo a ficha, apenas um fantoche da empresa que já não possui
utilidade alguma. A eliminação é prioritária.
─
Quê? –
espantou-se o infeliz sujeito.
─
Lamento, senhor
Hover... – murmurou o outro combatente, apontando sua submetralhadora para o
geneticista. – Você sempre foi e sempre será o último a saber!