
Bem-vindo(a)!
Você, estranho(a), que está lendo isto,
provavelmente pensa que pretendo lhe oferecer alguma arma em troca de algumas
pesetas ou disponibilizar prêmios caso faça uma boa pontuação no tiro ao alvo.
Mas não é nada disso.
Estou aqui hoje, estranho(a), para lhe
contar a história da minha vida.
Muitos levantam dúvidas sobre mim.
Querem saber quem sou, por que não falo espanhol, se sou humano ou um
“ganado”...
Pois lhe revelarei tudo agora!
Tudo começou há seis anos... Numa cidade
chamada Raccoon City...
Eu era um comerciante local. Tinha uma
loja de armas. Elas sempre foram minha paixão. Abri o negócio junto com meu
irmão, Joe, e nunca passamos dificuldades financeiras. Ainda mais depois que
aqueles assassinatos nas montanhas Arklay tiveram início, e os moradores
queriam se proteger dos supostos “canibais”.
Nessa época eu tive um grande amigo. Seu
nome era Barry Burton, membro do S.T.A.R.S., o esquadrão especial da polícia de
Raccoon City. Assim como eu, um colecionador de armas. Nós costumávamos ir
pescar numa cidade vizinha. Tudo ia bem, até que a equipe de Barry foi enviada
para as montanhas com o intuito de investigar os crimes bizarros que vinham
ocorrendo...
Quando retornaram da missão, os
integrantes do S.T.A.R.S. afirmaram terem lutado contra monstros horrendos,
criados através de mutações provocadas por um vírus chamado “T”, criado pela
Umbrella Inc., empresa que praticamente controlava tudo em Raccoon City.
Por não terem provas, Barry e seus
colegas foram ridicularizados devido a tais acusações, e a unidade S.T.A.R.S.
da cidade acabou dissolvida. Porém, boa parte dos cidadãos de Raccoon, apesar
de não terem acreditado completamente nas palavras dos policiais, ficaram de
certa forma temerosos, pois as vendas de minha loja aumentaram depois do
ocorrido. O caso parecia encerrado, até que chegou o fatídico mês de
setembro...
Os hospitais da cidade ficaram lotados.
As pessoas queixavam-se de uma misteriosa doença que provocava dores de cabeça
e irritações na pele. E, sem mais nem menos, minhas vendas triplicaram. Os
moradores de Raccoon compravam espingardas, metralhadoras e até granadas,
procurando se defender de um mal até o momento desconhecido por mim. Devido ao
enorme número de clientes, comecei a permanecer na loja durante as vinte e quatro
horas do dia, sem ao menos ligar a TV para assistir ao noticiário. Fora a
doença que afligia a população, eu não fazia idéia do que estava acontecendo...
Até que “eles” surgiram...
Feios, mau-cheirosos e sedentos de
sangue. Sim, os zumbis, que até então eu só havia visto nos filmes de George
Romero. Mais tarde descobri que eram os cidadãos infectados pela moléstia
anteriormente citada. O caos dominou as ruas. A polícia, auxiliada pelos
soldados da Umbrella, tentava em vão conter as hordas de mortos-vivos. Desesperado,
apanhei uma espingarda e parti pelas vielas em busca de meu irmão. Minha
esperança era que ele tivesse saído da cidade a tempo...
Entretanto, não o encontrei. Quando
voltei à loja, vi que ela havia sido saqueada. Armando-me com o que restara nas
vitrines quebradas, busquei refúgio atrás do balcão, tendo em mente a vã
esperança de ser resgatado. Passaram-se horas, dias, uma verdadeira
eternidade...
Até que a porta da loja se abriu...
–
Parado! – gritei instintivamente, engatilhando a
espingarda, pronto para estourar os miolos do suposto zumbi. – Quem é você? O
que está fazendo aqui?
–
Não atire, sou humano! – foi a resposta do indivíduo.
Imediatamente abaixei a arma, enquanto observava o recém-chegado
com maior atenção. Tratava-se de um jovem por volta dos vinte anos, que trajava
uniforme do Departamento de Polícia. Parecia imensamente assustado. Assim como
eu, era mais um sobrevivente em meio ao pesadelo...
–
Oh, desculpe-me por isso, policial! – exclamei,
caminhando até o ofegante rapaz. – Eu pensei que você fosse um deles!
Não perguntei o nome do sujeito. Para mim, era apenas
um estranho.
–
Que diabos está havendo neste lugar? – indagou ele.
–
Espere um pouco! – disse eu, trancando a porta pela
qual o policial entrara.
Assim que concluí a tarefa, respondi à pergunta:
–
Eu não faço idéia! No momento em que percebi que havia
algo errado, a cidade estava infestada de zumbis!
E, pensando em tudo que ocorria na antes pacata
Raccoon City, aproximei-me da grande vidraça que separava meu estabelecimento
do beco onde se situava a entrada, fitando o chão distraidamente. Percebi que o
estranho vasculhava o balcão em busca de munição para sua arma, porém não me
importei. Tudo já estava perdido para mim. Isso tornou-se ainda mais certo
quando ouvi o som de vidro sendo partido...
Para meu desespero, quatro zumbis haviam
quebrado a vidraça, saltando sobre mim antes que eu pudesse reagir com a
espingarda. Gritei em tom angustiante, enquanto os dentes insaciáveis daquelas
horrendas criaturas rasgavam meu corpo, fazendo com que meu sangue quente
jorrasse sobre o chão da loja. A dor era imensa. A última coisa que ouvi antes
de aparentemente perder a vida foi a porta dos fundos se fechando. O estranho
fugira. De qualquer forma, não havia maneira de eu ser salvo daquela situação.
Meus gritos cessaram e os zumbis prosseguiram com o banquete, até que tudo
escureceu...
Acordei sem mais nem menos numa cama de
hospital. Ao meu lado, Joe, irmão que julgava morto. Perguntei como havia ido
parar ali. Ele apenas disse que eu nascera de novo. Logo compreendi tal
afirmação.
Joe trabalhava secretamente para a
Umbrella. Setor de Segurança. As acusações dos S.T.A.R.S. eram mesmo
verdadeiras, pois a empresa realmente produzia armas biológicas em segredo.
Descobri que Raccoon City fora destruída por um míssil nuclear dois meses
antes, tempo que permaneci inconsciente, devido ao vazamento do vírus “T”, que
transformara todos os habitantes em zumbis canibais. No dia anterior a tal
acontecimento, meu irmão, junto com uma equipe da U.B.C.S. (a tropa mercenária
da Umbrella), encontrara a mim sem vida, totalmente mutilado no chão da loja de
armas. Inconformado com minha morte, Joe exigiu uma atitude da Umbrella para
que ele não revelasse os crimes da multinacional ao mundo. E, por incrível que
pareça, eles o atenderam...
Meu cadáver foi recolhido e levado para
um laboratório na Europa, onde eles injetaram em mim um vírus experimental.
Dessa forma minhas células voltaram à vida. Através de enxertos e transplantes,
meu corpo foi “consertado”, permitindo que eu tivesse uma vida praticamente
normal, assim como antes da epidemia em Raccoon. Entretanto, o preço foi
alto...
Lembro-me de quando contemplei minha
imagem num espelho pela primeira vez após ter sido trazido de volta à vida. O
susto foi grande. Meu corpo inteiro estava coberto por terríveis cicatrizes e
minha pele possuía agora aspecto cadavérico. Além disso, meus olhos haviam
ganhado uma sinistra coloração avermelhada...
Tornei-me uma aberração. Por isso,
passei a usar um sobretudo que deixava visível apenas parte do meu rosto. Pelo
menos eu ainda estava vivo. Adotei como nova moradia um apartamento em Nova
York, onde permaneci por muito tempo, visitado sempre por meu irmão. Após a
falência da Umbrella, ele foi trabalhar numa fábrica de armas na Alemanha.
E, como sempre, algo ocorreu para
perturbar meu sossego...
Através de algumas fontes confiáveis,
descobri que a população de uma vila no interior da Espanha estava agindo
estranhamente, afetada aparentemente por algum tipo de parasita. E uma
misteriosa seita, denominada “Los Illuminados”, pretendia obter benefícios em
relação a isso. Para completar, a filha do presidente dos EUA fora seqüestrada
recentemente, sendo vista na região.
Temi que o ocorrido em Raccoon se
repetisse. Temi que pessoas inocentes sentissem a mesma dor que eu quando os
zumbis me atacaram em minha loja. Por esse motivo, parti secretamente para a
tal vila espanhola, com o intuito de descobrir o que realmente estava
acontecendo. Levei comigo minha boa e velha coleção de armas, salva por meu
irmão da destruição de Raccoon...
E o inusitado ocorreu. Deparei-me mais
uma vez com o estranho que entrara em minha loja pouco antes de meu falecimento
em Raccoon. O mesmo policial, porém agora mais velho e trabalhando para o
Serviço Secreto. Ele procurava a filha do presidente. Resolvi prestar-lhe auxílio,
vendendo-lhe as armas de minha coleção em troca de pesetas, o dinheiro local. Por
que não dá-las de graça a ele? Bem, para um colecionador, é difícil se desfazer
de uma arma sem receber nada em troca e, de certa forma, o preço cobrado por
mim é uma punição por ele não ter tentado me salvar em Raccoon...
Pois bem, estranho(a). Meu nome é Robert
Kendo, conhecido agora como Mercador. Um fantasma do passado de muitos, que
agora lhe oferece itens raros à venda.
Não tem pesetas?