Escrito por: BloodCold
Leon abriu lentamente seus olhos. Respirou profundamente antes de
voltar á si. Estivera sonhando. Um sonho distorcido, difícil de
entender. Seu corpo nu era envolto pelos cobertores. Sobre seu peito, a
loira dormia serenamente. Sim, ele passara a noite com Ashley. Agora
ele se lembrou de tudo. Os dois haviam saído, e por insistência dela…
ela subira para dizer um “tchau” mais intimo. É claro que as coisas
acabaram um pouco mais íntimas do que ele esperava.
Era difícil
de resistir á Ashley. Além de ter uma personalidade única, a loirinha
era muito atraente. Uma beleza capitalista, as roupas de marca, o
cabelo ajeitado de forma simples, mas ao mesmo tempo indicado que ela
era a protagonista e não outra pessoa.
Depois dos
acontecimentos na Espanha, Leon imaginara que nunca mais iria voltar a
ver Ashley. As coisas não foram bem assim. Para dar um agrado ao Sr.
Presidente, Leon aceitou sair algumas vezes com ela. Não que ele
sentisse alguma forma de paixão por ela, talvez um pouco de atração
sim, por razões óbvias. Ashley era um pouco fútil ás vezes. E após tudo
o que ela passou na Espanha, com o seqüestro, ela sequer guardara
alguma forma de trauma. Melhor. Pelo menos Leon não teria que lidar com
uma garota complexada.
Agora ele lembrou-se do sonho que tivera. Foi um sonho com a outra. A espiã. Ada Wong.
A história dos dois começou á muitos anos atrás. Naquela bagunça que
fora o incidente em Raccoon. Leon era apenas um jovem policial e Ada
supostamente estava procurando por seu namorado, que na realidade
estava morto. E no fim de tudo, Ada morrera.
Quantas noites
Leon acordara com a visão de Ada morrendo, de sua morte, do ultimo
adeus dela. Leon se sentira culpado por anos, atormentado. Céus, ele se
apaixonara por ela e ela morrera na frente dele.
Mas isso era
apenas parte da história. Ada era uma espiã enviada á Raccoon apenas
para roubar a amostra de um vírus. Ada brincara com os sentimentos de
Leon. Ada o enganara para conseguir seus objetivos. Talvez Ada nem o
amava! Esse era o seu único apoio em tudo. Talvez ela sequer o amasse.
Talvez ele fora apenas mais uma missão para ela, o seu “guarda-costas”
seu cachorrinho cego, surdo e mudo, apenas seguindo suas ordens.
Ajudando ela. Por que ela não contou á ele isso? Por quê? Ela era uma
espiã trabalhando para uma organização secreta. Mas e se ela tivesse
contado á ele? Isso faria alguma diferença? No máximo tudo o que ela
iria fazer era sair correndo e deixa-lo. Ao menos, eles ficaram juntos
até… o final.
Leon sempre imaginava se Ada tinha realmente
morrido. Quando ele entrou para a academia, enquanto estudava e
treinava para ser um agente federal, ele se perguntava se ela estava
mesmo morta durante aquele tempo todo. O laboratório explodira depois
da “morte” dela, então não haveriam restos. Aliás, a cidade fora
varrida do mapa com aquele míssel. Ada deveria ser apenas um monte de
cinzas. Ou nem isso. E Leon gostava dela. Realmente. E se arrependeu de
nunca ter dito isso na época.
Lentamente, Leon levantou-se da
cama, deixando Ashley deitada sobre um monte de travesseiros. Ele iria
beijá-la no rosto, mostrando algum tipo de afeto, mas talvez ela
acordasse com isso e então ela iria querer conversar, e namorar e tudo
mais. Leon queria ficar sozinho agora. Sozinho com seus pensamentos.
Pôs um cobertor em volta da cintura e fora até o terraço de sua
cobertura. Embora um salário normal como guarda-costas presidencial não
fosse o suficiente para comprar uma cobertura como aquelas, a boa
recompensa que recebeu ao resgatar Ashley daquele culto maníaco fora.
Leon pegou uma cerveja na
geladeira e tentou beber um gole, mas parecia que a bebida não
descia em sua garganta.
Realmente, as coisas não haviam terminado ainda para Ada e Leon. Ela
sempre estivera lá, presa na memória dele. Desde memórias mais frias e
mais assustadoras, como por exemplo, dela atirando em um zumbi que
tentava devora-lo, até as memórias mais… fortes, ou melhor, os sonhos
que Leon tivera com a espiã, com seu corpo nu em seus braços, seus
beijos mortais, tudo aquilo que ele nunca tivera. Talvez todas as
mulheres que ele tivera após fossem apenas substitutas para o seu
verdadeiro desejo.
Mas tudo o que Leon não esperava ver era
Ada viva, na sua frente. Na hora ele nem notou, mas alguém o havia
ajudado na luta contra aquele brutamontes ganado. E depois, ele ouviu a
voz dele, ordenando que mostrasse suas mãos e depois de uma breve luta,
ele reconheceu o rosto dela, que quase não mudara nada depois de seis
anos. Ainda a mulher fatal que Leon conhecera, os cabelos curtos e bem
cortados, os olhos ligeiramente puxados, deixando claro que Ada era
descendente de asiáticos.
Ada estava viva. E passara anos nas
sombras, trabalhando para aquela organização misteriosa, servindo para
um criminoso chamado Albert Wesker. Droga. Quantas vezes Leon não
implorou, não rezou para que Ada tivesse sobrevivido á Raccoon City e
estivesse bem, levando uma vida normal. Ada tinha sobrevivido, sim, mas
continuava com sua profissão de espiã, se é que dá pra chamar isso de
profissão.
A espiã era fatal. Sedutora. Envolvera Leon duas
vezes. Sempre buscando seus objetivos, Ada não podia ser impedida. Não,
ela não. Ela era uma gata que se movia na escuridão, que aparecia
fazendo grandes entradas e sumia de repente, sempre com seu “vejo você
por aí”. Leon gostava de ouvir isso, no fim das contas. Vejo você por
aí. Isso significava que eles se veriam novamente.
Leon abriu
devagar a porta de vidro que conduzia ao terraço. Arrastando os
cobertores, foi até a beirada do mesmo, de onde poderia ver toda a
cidade de lá. Onde estaria Ada agora?
E será que um dia eles se
veriam novamente? Sim. Eles iriam se ver. Leon não sabia quando, mas
iriam. Leon também sabia que talvez eles nunca ficassem juntos
realmente. Estavam em lados opostos da moeda. Leon era o policial e Ada
era a bandida.
Só que… depois de tudo, depois de tantos anos
sem vê-la, com o peso de sua “suposta morte” na consciência, Leon se
sentia mais forte. É. Ele aprendera a conviver com a morte na mente, e
se tornara a máquina de matar que agora era.
O policial tolo e medroso, em seu primeiro dia de trabalho, estava morto. Morto por Ada.
Os
dois, Leon e Ada, haviam morrido em Raccoon City. Aqueles dois que ali
estavam agora, eram apenas formas evoluídas de seus seres, formas
renascidas, formas mais resistentes. Resistentes ás suas paixões. Ao
menos Leon era.
Ele sentiu o vento frio batendo em seu peito, e
a escuridão da noite. A cidade silenciosa dormindo abaixo. Ficou
imóvel, seus olhos levemente abertos, buscando com aquela brisa a voz
sedutora de Ada, seus beijos, suas carícias.
Leon tentou afastar
essas idéias de sua mente. Ah, aquele não era o estilo de Ada. Ele
jamais a teria em seus braços, pois como já havia sido comentado, eram
lados opostos da moeda.
Ada deveria estar com suas aventuras
em algum lugar. Deveria estar invadindo algum laboratório, e roubando
alguma amostra importante, ou planejando seu triunfal retorno.
Leon
não sabia, mas em algum lugar, num pequeno hotel em Paris, uma jovem
dama de cabelos escuros não conseguia dormir. Da sacada de seu quarto,
ela olhava as estrelas, buscando algo que ela perdera.
As
palavras foram se formando na mente de Leon. Palavras unidas ao som de
uma música, uma música forte, mostrando que ele sobrevivera á sua
paixão, e então conseguiria sobreviver á tudo.
Depois de tudo o que você me fez passar
Você deve achar que eu te desprezo
Mas no fim, eu quero te agradecer
Pois você me fez ficar mais forte
Quando eu achei que te conhecia
Achando que era verdade
Eu achei que, eu não poderia confiar
Em seus blefes, seu tempo acabou
Pois eu ouvi o suficiente
Você estava lá, ao meu lado
Sempre pronta para uma jornada
Mas a sua diversão terminou
Pois sua ganância me envergonha
Depois de todos os roubos e palavras inúteis
Você deve achar que eu sinto algum ressentimento por você
Mas ah, ah não, você está errada
Pois se não fosse por tudo o que você fez
Eu não saberia o quão eu sou capaz
Então eu quero te agradecer
Pois você me fez ficar mais forte
Fez-me trabalhar um pouco mais
Fez-me muito mais esperto
Então obrigado por me tornar em um guerreiro
Fez-me entender mais rápido
Fez minha pele ficar mais resistente
Fez-me ficar mais esperto
Então obrigado por me tornar em um guerreiro
Nunca via chegando
Todas as suas “facadas”
Então você poderia se aproveitar
Em uma coisa boa, até que eu entendi seu jogo
Eu ouvi você indo
Sendo a vítima agora
Mas nem comece
Fazendo-me sentir o culpado
Pois você cavou sua própria tumba
E depois de todas as lutas e mentiras
Você queria me ferir, mas não vai adiantar
Ah não, não mais, acabou
Pois se não fosse pela sua tortura
Eu não saberia como estar assim em forma
E nunca voltar atrás
Então eu quero te agradecer…
A
voz de Ada junta-se ao vento, palavras doces saindo de seus lábios
vermelhos, seus cabelos curtos movendo-se, a luz em sua camisola
percorrendo suas curvas, sua voz era calma, inocente, reconhecendo seus
erros do passado, suas culpas…
Como esse homem que eu achei que conhecia
Se tornar tão injusto, tão cruel
Eu apenas podia ver o lado bom em você
Fingindo não ser a verdade
“Você tentou esconder suas mentiras, um disfarce”
Vivendo em negação
Mas no fim você vai ver
Você não pode me parar!
A
resposta de Leon veio em seguida, uma resposta ao seu próprio “eu”
solitário, pensando em como dizer essas palavras se Ada estivesse ali,
palavras desonestas, sem ser sincero, sem ser verdadeiro, enganado á sí
mesmo…
Eu sou um guerreiro e eu…
Eu não vou parar não…
Não há como voltar
Eu suportei o bastante!
As
lágrimas começaram a sair dos olhos de Ada, enquanto ela tentava
esconder todos os seus sentimentos por aquele homem, sentimentos mais
fortes que ela mesma, do que do seu maldito trabalho, da sua vida suja…
Achou que eu ia esquecer
Mas eu me lembro
Eu me lembro
Eu vou lembrar!
Achou que eu ia esquecer
Mas eu me lembro
Eu me lembro
Eu vou lembrar!
Leon
começou a caminhar lentamente na direção do apartamento, mas novamente
voltou a olhar as estrelas e repetiu algumas últimas frases…
Me fez entender mais rápido
Fez minha pele ficar mais resistente
Fez-me ficar mais esperto
Então obrigado por me tornar em um guerreiro!
Ele
virou seu rosto, e de repente sentiu alguns lábios femininos
juntando-se aos seus. O rosto de Ada veio á sua mente… e apenas ficou
por lá.
Ashley o beijava com força e intensidade…
Afinal, ele e a espiã jamais poderiam ficar juntos, não é? Ou podiam?
Obrigado Ada.
~~FIM~~