
Prólogo
Década de 1960: A empresa farmacêutica Umbrella Inc. é fundada na
Europa.
1995: A empresa Biocom Pharmaceutical Company é fundada em Metro City, EUA,
pelos doutores William Werner e Gary Colt.
1998, maio a julho: Assassinatos bizarros com traços de canibalismo
começam a ocorrer nos arredores de Raccoon City, EUA.
1998, julho: Uma propriedade pertencente a Umbrella explode
misteriosamente nos arredores de Raccoon City. Membros do S.T.A.R.S. (Special
Tatics And Rescue Service) são acusados de má conduta em ação.
1998, agosto: Membros do S.T.A.R.S. acusam publicamente a Umbrella
de realizar experiências ilegais na propriedade destruída em julho. A unidade
do serviço em Raccoon é dissolvida.
1998, setembro: Uma estranha epidemia atinge Raccoon City,
transformando os infectados em zumbis canibais. Em poucos dias toda a cidade
está tomada pelas estranhas criaturas. É decretada Lei Marcial e uma
força-tarefa composta pela polícia e por mercenários da Umbrella falha em
salvar os civis não-infectados.
1998, outubro: No primeiro dia do mês, o presidente dos EUA autoriza
o lançamento de um míssil nuclear sobre Raccoon para evitar a propagação da
doença. A cidade é varrida do mapa.
1998, novembro: Uma ilha inteira da Umbrella na costa da Grã-Bretanha
vai pelos ares.
2002: Investidores de Wall Street decretam a falência da Umbrella Inc. Suas
ações e investimentos passam para a rival número um da empresa, a Biocom.
2004: A filha do presidente dos EUA é seqüestrada, sendo encontrada numa
misteriosa base militar na Amazônia brasileira, que explode também
misteriosamente. Pouco tempo depois um misterioso personagem conhecido como
Trent apresenta, junto com antigos membros do S.T.A.R.S., uma série de provas
contra a Umbrella, inclusive que ela havia sido responsável pela tragédia de
Raccoon City. Seus antigos proprietários e funcionários são presos e julgados,
exceto Emanuel Deller, responsável pela White Umbrella.
2007, abril: Um maníaco do Exército sai pelas ruas matando pessoas
em Washington, D.C., EUA. Um ex-capitão do Exército, Thomas McDouglas, diz que
o maníaco na verdade era um supersoldado criado pelo Pentágono em conjunto com
a Biocom através de mutação de DNA, mas é ridicularizado e desaparece pouco
tempo depois.
2007, agosto: Uma pequena cidade no estado de Nevada, EUA, é
destruída por uma explosão nuclear pouco após ser evacuada. O Pentágono alegou
um acidente com uma bomba experimental.
2007, novembro: EUA, Rússia e outras potências nucleares, exceto a
China, assinam o Tratado de Desarmamento Nuclear das Nações Unidas.
2008, maio: Uma súbita explosão numa pequena ilha ao norte da
Samoa Americana (Pacífico Sul) deixa apreensivo o Departamento de Defesa dos
EUA.
2008, setembro: A Biocom comemora o 13º ano de existência sendo uma
das maiores multinacionais do planeta, líder no ramo de medicamentos.
2008, outubro: É onde começa nossa história...
Capítulo 1
Algum lugar no Arizona, EUA, 1º de outubro de 2008.
Bryan
Jessen estava cansado. Viajara desde Houston até ali e precisava parar um
pouco. Ainda havia um grande caminho até Sacramento, Califórnia.
A
razão de tamanho deslocamento era uma reunião familiar. Daquelas bem chatas,
que Bryan odiava até o fundo da alma. A tia Margareth contando piadas sem
graça, o tio Gregory bebendo até cair...
Bem,
mas Bryan não podia, nem queria pensar nisso. Pensava apenas em sua bexiga
cheia, que precisava esvaziar com extrema urgência. Olhando para a estrada
árida, aquelas rochas gigantescas ao fundo, Jessen viu sua salvação do lado
direito do asfalto, um pouco mais à frente: um posto de gasolina.
Bryan
foi tomado por inesperada satisfação, e arrependeu-se de ter tirado o rádio do
Mustang. Daria tudo para ouvir um pouco de rock naquele momento, um pouquinho
que fosse.
Estava
suando e nem havia percebido. O calor do deserto desidratava qualquer um, ainda
mais agora com o “efeito estufa” no pico. A temperatura do mundo inteiro estava
aumentando, mas Bryan, felizmente, não tinha culpa.
Sossegado,
Jessen foi guiando o carro para dentro do posto, parando ao lado das bombas de
combustível. Saindo do veículo viu que o lugar também era uma espécie de
restaurante. Bem, antes de reabastecer Bryan tinha duas prioridades: urinar e
comer alguma coisa para forrar um pouco o estômago. Com esse pensamento, ele
entrou no estabelecimento, limpando o suor da testa com um lenço.
Era
início de manhã, e por isso havia apenas uma balconista e um caminhoneiro no
lugar, que tomava café com panquecas. Ele rapidamente voltou-se para a mulher,
uma gorda de cara amarrada, e perguntou:
–
Senhora, por
favor, onde fica o banheiro?
–
Logo ali – disse
grosseiramente a balconista, apontando para a esquerda de Bryan.
–
Obrigado.
Mas, nesse momento, Jessen
percebeu que havia ali uma televisão ligada no noticiário matinal. Bryan,
perdendo temporariamente a vontade de urinar, disse:
–
Por favor,
aumente o volume!
A mulher se aproximou do
televisor e aumentou o volume através de um botão.
Na tela, uma charmosa
jornalista disse:
–
Exatamente hoje,
há dez anos atrás, num início de manhã como este, a América e o mundo pararam.
Raccoon City, foco de uma estranha epidemia que arrancava toda e qualquer
humanidade de suas vítimas, provocada pelo chamado “T-Virus”, era varrida do
mapa por um míssil nuclear para evitar mais casos. Até hoje, nossos corações
guardam com amor e saudade os semblantes daqueles que se foram e não voltarão
mais.
–
Meu irmão... –
murmurou Jessen. – Meu irmão morreu em Raccoon...
Até
aquele momento, Bryan não se lembrara do triste fim de seu irmão, Scott Jessen,
policial em Raccoon City. Nos últimos meses, atarefado com o trabalho e os
preparativos para a viagem até a Califórnia, ele se esquecera que em 1º de
outubro se completariam dez anos sem o irmão mais velho.
A
jornalista continuou:
–
Homenagens já
estão sendo prestadas em todo o planeta. O presidente Jackson prometeu um
discurso na Casa Branca para as nove horas. A empresa farmacêutica Umbrella,
que há quatro anos foi revelada como sendo responsável pelo incidente, ainda
tem seus proprietários e funcionários julgados ao redor do mundo, com exceção
de Emanuel Deller, ainda foragido. Nas notícias esportivas, a liga
internacional de...
Jessen
olhou desolado para a balconista, para o carro do lado de fora e, por fim, para
o caminhoneiro.
–
Sinto muito por
seu irmão – disse ele.
–
Não é sua
culpa...
E,
aborrecido, Bryan seguiu para o banheiro.
–
Chris, o Barry
está chorando!
–
Já vou, amor!
Assim que Chris Redfield
ouviu o grito da mulher, Jill Valentine Redfield, levantou-se da poltrona da
sala onde lia confortavelmente um livro sobre filosofia e seguiu até o quarto
do bebê de seis meses de idade.
O nome do filho dos dois
era uma homenagem a Barry Burton, ex-membro do S.T.A.R.S., que morrera
protegendo-os há quatro anos na Amazônia.
Chris entrou no quarto e
dirigiu-se até o berço onde estava o bebê, colocando-o em seus braços.
–
Calma, Barry... –
disse o pai, com calma e ternura na voz. – Não há nenhum zumbi embaixo do
berço, há?
E, inclinando-se, fez com
que o pequeno Barry olhasse para debaixo do berço, sorrindo.
–
Viu, garotão? Não
há nada para se preocupar!
O bebê deu uma gostosa
risada, enquanto Jill, vinda da cozinha, surgia na porta do quarto.
–
Você tem mesmo
trato com crianças, amor! – sorriu a ex-membro S.T.A.R.S., aproximando-se do
marido.
–
Aquela
brincadeira do zumbi funciona perfeitamente!
–
Ah, Chris! Você
ainda está assustando ele com isso?
–
Mas ele não fica
assustado! Pelo contrário, ri como nunca!
Nesse momento o casal olhou
para o rostinho do pequeno Barry, que deu nova risada ao perceber que era o
centro das atenções.
–
Você se lembra,
Chris? – perguntou Jill. – Quando Barry estava morrendo?
–
Sim, eu me
lembro... Maldito Wesker!
A cena surgiu na mente de
Chris tão nitidamente como se houvesse ocorrido no dia anterior:
–
Vamos, Chris!
Leon disse que abriria a porta para nós!
Redfield estava olhando
pensativo para os armários vazios da sala toda cheia de sangue, onde eles
encontraram dois Hunters famintos, quando a voz de Barry fez com que voltasse
para o mundo real.
–
Está pensando em
Claire e Jill, não?
–
É, Barry. Elas
estão sozinhas lá fora, cercadas por aquela selva perigosa, e você sabe que
coisas estranhas nós vimos aqui! É coisa pior que a Umbrella! E, quando
encontramos Wesker na aldeia, ele falou que este lugar explodiria a qualquer
momento!
–
Leon e Carlos
disseram que abririam a porta no final do corredor através da sala de
segurança. Ela deve dar na rota de fuga que procuramos!
–
OK, vamos então!
– disse Chris, trocando o pente da Desert Eagle. – Elas sabem se defender
sozinhas!
–
É assim que se
fala!
–
Barry, você é
incrível. Se algum dia eu tiver um filho ele terá seu nome!
–
Ora, Chris... –
riu o pai de família. – Tendo ele saúde...
–
Eu falo sério!
Nisso, cruzaram a porta de
ferro e voltaram para o longo corredor subterrâneo.
–
Bem, a porta deve
ser para aquele...
Barry não teve tempo de
concluir a frase. Dois tiros rasgaram o frio silêncio do corredor, fazendo com
que cambaleasse e caísse sobre o chão de metal. Chris teve tempo de ver Wesker
fugir pela porta que pretendiam cruzar, rindo. Era um covarde, sempre atirando
pelas costas, como fizera com Enrico na mansão de Spencer.
Barry fora atingido no
tórax e abdômen, sangrando muito.
–
Barry, agüente,
cara! Vou chamar os outros!
–
Não, Chris... Vá
em frente e detenha Wesker... Ele está com Sherry e a filha do presidente...
Ele quer infectar todo o planeta com o vírus...
–
Eu não posso te
deixar aqui morrendo, Barry!
Nesse momento Chris ouviu
uma porta se abrir e passos rápidos atrás de si.
–
Barry, o que
houve? – perguntou Jill, desesperada, enquanto se abaixava ao lado do amigo
junto com Claire.
–
Wesker atirou
nele! – gritou Chris, tomado pela raiva. – Eu quero ter o prazer de matar
aquele filho da mãe!
–
Barry, agüente
firme! – exclamou Valentine, segurando uma das mãos do companheiro de equipe.
–
Eu mereci isto,
Jill... – oscilou Barry, com sangue saindo pela boca. – Eu traí a confiança de
vocês na mansão em Raccoon... Todo dia, toda noite eu me angustiava pensando
que fui capaz de entregar vocês nas mãos de Wesker... Mas tudo está terminado
agora. Recebi minha punição.
–
Você não tem
culpa de nada, Barry! – disse Chris. – Wesker é o culpado de tudo!
–
Eu fico grato por
terem me perdoado... Mas não há muita escolha para mim agora... Meu último
pedido... É que vocês detenham Wesker!
–
Nós o faremos! –
disse Claire. – Tente economizar energia, Barry! Você vai sobreviver!
–
Não me dêem
falsas esperanças... Apenas consolem minha família e digam a eles que sempre os
amarei... Eu já... Oh!
Barry levantou um dos
braços como se quisesse apanhar algo, mas logo abaixou o membro, fechando os
olhos e virando a cabeça.
–
Barry! – gritou
Jill.
–
Meu Deus! –
exclamou Chris, com lágrimas nos olhos. – Wesker vai pagar... Jill e Claire,
esperem Leon e Carlos aqui! Vou atrás daquele maldito!
–
Mas, Chris, você
não pode matá-lo! – preocupou-se Claire. – Lembre-se da última vez em que vocês
brigaram!
Mas Claire foi ignorada
pelo irmão, que, extremamente abalado, cruzou a porta pela qual Wesker
desaparecera.
Mas aquele pesadelo havia
terminado. Wesker estava morto, a Umbrella não existia mais, e agora Chris e
Jill viviam felizes e sossegados num apartamento em Filadélfia, junto com o
pequeno Barry. Trent havia colocado um fim na companhia com a ajuda deles, e os
terríveis crimes da White Umbrella, revelados ao mundo.
Sherry Birkin, promotora
pública de 22 anos de idade, examinava alguns papéis dentro de sua sala no
escritório situado num edifício em Washington, D.C.
Distraída, a inimiga número
um dos antigos homens por trás da Umbrella nos tribunais quase não ouve quando
sua secretária, Susan, entra e diz:.
–
Senhorita Birkin,
aquele homem estranho está aqui de novo!
–
Qual? – pergunta
Sherry, tirando os óculos que usava para ler os papéis. – Aquele de jaqueta e
óculos escuros?
–
Esse mesmo! O que
devo fazer?
–
Bem, deixe-o
entrar! Vamos descobrir o que ele quer!
Sherry tinha um terrível
trauma de homens usando óculos escuros, e a razão era bem clara: Albert Wesker.
Ela passara maus bocados nas mãos do antigo pesquisador da Umbrella. Mas, de
qualquer maneira, não podia ser ele... Wesker estava morto!
Susan saiu e poucos
instantes depois o sujeito entrou, caminhando lentamente até a mesa da
promotora, que de início o ignorou enquanto guardava os papéis que lia dentro
de uma pasta.
–
Sente-se! – disse
Sherry, tentando em vão ocultar a antipatia pelo homem.
–
Obrigado,
senhorita Birkin – respondeu o sujeito, aceitando o convite da bela jovem de
longos cabelos loiros. – Você não precisa me temer.
–
Você esteve aqui
tentando falar comigo a semana inteira! Afinal de contas, qual o seu nome e o
que quer?
–
Meu nome é Ernest
Adams, FBI – respondeu o soturno indivíduo, mostrando as credenciais. – Estou
aqui para alertá-la sobre algo.
–
Sobre o quê? –
indagou Birkin, mais aliviada por saber que falava com um federal.
–
Sobre isto! –
respondeu Adams, colocando um jornal sobre a mesa.
A manchete era “Sherry
Birkin move processo contra opositores da Biocom no Arkansas”.
–
Onde quer chegar?
– pergunta Sherry, confusa.
–
Tire suas
próprias conclusões.
–
Olhe, a Biocom é
uma empresa honesta, ela não é como a Umbrella. Além disso, aqueles industriais
do Arkansas realizaram atividades ilícitas e...
–
Senhorita Birkin,
acha mesmo que todo o dinheiro da Biocom é gerado pela venda de medicamentos e
vacinas?
–
O que você está
dizendo?
–
Estou há anos
investigando essa maldita empresa. Eles mataram minha namorada e os odeio
fortemente por isso.
–
Só pela razão de
terem matado sua namorada você acha que são os vilões? Ela tentou invadir
alguma propriedade deles ou coisa assim, não?
–
Sim, mas quando
isso ocorreu o FBI já suspeitava da empresa. Ela também era uma agente. A
senhorita se lembra de Thomas McDouglas?
–
Eu me lembro...
Até hoje ninguém sabe o que aconteceu com ele...
–
Ele fez como os
S.T.A.R.S., senhorita Birkin. Tentou atacar uma empresa maligna com poucas
provas e foi ridicularizado. A senhorita não acha que, se ele desapareceu
assim, foi morto ou pelo menos estava sendo ameaçado?
–
Você está fazendo
uma acusação muito séria, mas tem como provar tudo isso?
–
Sim, eu tenho.
Adams colocou uma pasta
preta sobre a mesa.
–
Há várias provas
comprovando o que digo nessa pasta. A senhorita pode abrir agora ou depois,
para mim tanto faz. Mas por favor, abra. A senhorita pode acreditar ou não,
isso é evidente. Caso acredite, contate-me através deste telefone.
E o agente do FBI entregou
um pequeno cartão para Sherry, enquanto se levantava da cadeira.
A promotora olhou
apreensiva para o cartão por um instante e depois olhou para Adams, que
caminhava até a porta.
–
Senhorita Birkin,
ouça bem. O pesadelo da Umbrella ainda não terminou. Eu sei muito bem disso, e
sei também que a senhorita o encarou em Raccoon City, há dez anos.
–
Sim, foi
horrível. O pior é que aquele maldito vírus ainda está dentro de mim... O
X-Virus. O vírus que tornava Wesker e outros agentes da Umbrella
indestrutíveis, o vírus que foi injetado por meu pai na corrente sangüínea de
minha mãe quando eu ainda estava no ventre dela... Eles não queriam ter uma
filha, eu não passei de um maldito experimento! Você pode imaginar como me
sinto?
–
Mas William
Birkin teve sua punição por brincar de Deus, e você está contribuindo para que
os outros açougueiros da Umbrella também tenham.
Sherry sorriu.
–
Abrirei essa
pasta mais tarde, senhor Adams. Estou muito ocupada com um processo agora.
–
Está bem – disse
Adams, com a mão na maçaneta da porta. – Lembre-se do telefone e que a Biocom
não é sua amiga!
–
OK. Até logo.
O sinistro agente saiu,
enquanto Sherry, antes de continuar trabalhando, olhava mais uma vez para a
misteriosa pasta...
Capítulo 2
O
pesadelo não terminou.
Bryan Jessen, após esvaziar
a bexiga, forrar o estômago e reabastecer o Mustang, seguia novamente pela estrada
no meio do deserto. Estava quase em Phoenix, onde poderia fazer nova parada se
quisesse.
Tudo tranqüilo. A manhã
seguia calma e Bryan se sentia bem apesar do calor. A sensação ruim ao lembrar
do irmão passara e agora era só ele e a estrada, a estrada e ele...
Bryan Jessen era dentista
em Houston, Texas. Tinha seu próprio consultório e boa clientela, além de
ganhar uma boa quantia com o trabalho. Assim poderia sustentar suas duas
paixões: o Mustang e o rock. Ele já gastara muito incrementando e consertando o
carro que fora de seu avô e que estimava grandemente. Quanto ao rock, gastava
muito comprando discos antigos e muitas vezes raros. Possuía um grande acervo
em sua casa, suficiente para levar à euforia qualquer maníaco por vinil.
Mas Jessen não estava com a
cabeça totalmente vazia. Ele pensava em algo, e esse algo se chamava Umbrella,
a empresa farmacêutica que matou seu irmão, aqueles malditos!
O “T-Virus” foi obra deles,
por causa dele Raccoon City transformou-se na cidade dos mortos-vivos, e seu
irmão Scott provavelmente tinha sido um deles...
Sheila McDouglas terminava
seu lanche na cozinha do apartamento em Sidney, Austrália. Enquanto comia um
sanduíche, ela viu a manchete do mesmo jornal que Adams mostrara a Sherry
Birkin em seu escritório.
–
Charlie, venha
cá! – exclamou a jovem.
–
Já estou indo,
amor!
Charles Tucson surgiu na
cozinha sorrindo para a namorada, perguntando:
–
O que há, Sheila?
–
Olhe isto!
Sheila entrega o jornal a
Tucson, dizendo enquanto ele lê:
–
Essa Sherry
Birkin defendeu a Biocom novamente, agora processando aqueles industriais do
Arkansas. Mal sabe ela que essa maldita empresa é como a Umbrella, que lhe fez
tanto mal...
–
Bem, como ela
pode saber?
–
Adams cuidará
disso. Ele disse que cuidaria.
E eles confiavam mesmo em
Adams. Para ser franco, desde o incidente na “Ilha X” há menos de um ano,
Ernest Adams era a pessoa na qual os dois inimigos da Biocom mais confiavam no
mundo. Eles, com a ajuda do homem do FBI, estavam reunindo provas contra a
Biocom e logo que considerassem o número de evidências suficiente, revelariam
todas as suas atividades ilícitas ao mundo. Sheila queria vingar duas coisas: o
desaparecimento de seus dois irmãos, Thomas e William, que descobriram os
planos malignos da Biocom, e a morte de seus companheiros SEALS na “Ilha X”,
massacrados pelos terríveis mutantes criados pela Biocom através de mutação de
DNA.
Seis da tarde. O dia está
terminando em Metro City, megalópole da costa leste dos EUA, berço e sede da
Biocom Pharmaceutical Company.
Na zona industrial da
cidade, mais precisamente numa região cheia de armazéns, um carro preto vaga
pelas ruas um tanto vazias, apesar do fim do expediente de muitos
trabalhadores.
O veículo vira numa esquina
e pára ao lado de um carro cinza estacionado na frente de um portão. Do primeiro
automóvel sai um homem de jaqueta e óculos escuros que, após certificar-se que
havia trancado bem seu veículo, dirigiu-se até o carro cinza, entrando e
sentando-se ao lado do motorista. Este era tão misterioso quanto o outro: vestia
um casaco marrom, usava chapéu e também tinha óculos escuros.
–
Pontual como
sempre, senhor Adams – diz o motorista.
–
Tudo está
correndo como o planejado, Trent. Birkin já está com a pasta.
–
Formidável. Eu
conheço muito bem a senhorita Sherry Birkin. Ela provavelmente abrirá essa pasta
à noite, em sua casa.
–
Nossa cooperação
é algo essencial. Você conhece muito bem a Umbrella e eu conheço a Biocom. Com
o que sabemos, poderemos acabar com aqueles desgraçados.
–
Mas primeiro
precisamos de mais algumas provas, e a ação que estamos planejando
provavelmente será a última se estivermos corretos. Porém, precisaríamos de
pessoal experiente em combate, e não digo combate contra humanos normais, você
sabe...
–
Se quiser eu
posso ir, Trent.
–
Não, você deve
ficar aqui. Se algo der errado, poderá continuar nosso trabalho. Mas não se
preocupe. Já tenho alguns nomes.
–
Quais?
–
Chris Redfield e
sua mulher Jill já lutaram muito contra a Umbrella e provavelmente aceitarão.
Leon Kennedy e Claire Redfield... Não, eles não. Carlos Oliveira desapareceu na
Amazônia. Rebecca Chambers está empenhada na cura do câncer... William
McDouglas e Linda Malone devem participar, não?
–
Sim, mas ainda
preciso contatá-los.
–
E Sheila
McDouglas?
–
Ela não, nem
Charles Tucson. Eles estão reunindo as provas na Austrália e querem ter o prazer
de revelar tudo ao planeta quando chegar a hora certa.
–
Bem, temos quatro
até agora. Precisamos de mais pessoal.
–
Nesse ponto eu...
Súbito, um disparo e som de
vidro quebrando. Adams instintivamente se abaixa, mas seu aliado...
–
Trent!
O inimigo número da
Umbrella havia sido baleado no pescoço, e por milagre ainda estava vivo, porém
não por muito tempo. Trent sangrava muito e não havia como salvá-lo.
–
Droga! – exclamou
Adams, cerrando os dentes.
–
Acabe com eles,
Ernest! – disse Trent, num último suspiro.
E fechou os olhos, sorrindo
com satisfação.
O agente do FBI saiu do
carro, mas não havia sinal do atirador. Aborrecido por ter perdido um amigo,
mas também preocupado em não desapontá-lo, Adams entrou em seu automóvel e
partiu.
Sherry chegou em casa às
oito e meia da noite, extremamente cansada. Colocando suas coisas sobre a
mesinha da sala, apressou-se em ir tomar um bom banho.
Alguns minutos depois ela
voltou de roupão e, passando pela sala, lembrou-se da pasta de Adams.
–
A pasta! – disse,
falando sozinha. – Preciso ver o que há nela ou esse tal Adams não me deixará
em paz!
Birkin sentia calafrios ao
pensar no agente do FBI com seus óculos escuros, o que o tornava tão parecido
com Wesker... De qualquer forma, a promotora pública apanhou a pasta preta e,
sentando num sofá, acabou abrindo-a.
Dentro havia três
envelopes. Sherry pegou primeiramente o maior, de cor bege, e abrindo-o, viu
que ele continha algumas fotos.
–
Mas o quê?
Ela viu que na primeira
fotografia havia uma espécie de câmara, situada num ambiente parecido com
aquele dos laboratórios da Umbrella, e dentro havia um homem aparentemente
normal, nu, com vários tubos presos ao corpo. Atrás da foto havia a inscrição
“Ares-1, laboratório de Minnesota, abril de 2007”.
Na segunda foto Sherry teve
uma horrível visão: um homem, vestindo jaleco, jazia de bruços no chão, com um
buraco no crânio, mais precisamente na nuca, por onde escorria sangue e massa
cinzenta. No verso, estava escrito “Incidente no laboratório de Minnesota: Ken
Strickland, vítima de Ares-1, maio de 2007”.
Por fim, na terceira e
última foto, havia uma espécie de corredor de metal com vários soldados mortos,
alguns no mesmo estado do homem de jaleco da outra fotografia. No verso,
“Incidente no laboratório de Nevada, vítimas de Ares-1, agosto de 2007”.
Não é preciso dizer que
Sherry estava extremamente confusa. Sim, aquelas fotos eram fortes e até
comprometedoras, mas aquilo tudo poderia muito bem se tratar de algum incidente
da Umbrella, e não da Biocom. Colocando as fotos sobre a mesinha, a promotora
abriu o segundo envelope, também bege, que continha uma fita de vídeo.
Curiosa, Birkin ligou seu
videocassete e colocou dentro a suposta prova contra a Biocom. Logo ela viu que
se tratava da fita de uma câmera de segurança, pois no canto havia a inscrição
“Biocom, Laboratório 34, Câmera 13, 27/3/07, 18:38”. A imagem era bem nítida,
colorida, e mostrava uma espécie de laboratório parecido com aquele da primeira
foto. No centro da tela havia uma câmara idêntica àquela da fotografia, com o
mesmo indivíduo nu dentro. Nesse momento surgem alguns militares na imagem da
câmera, acompanhados por um homem de jaleco. Eles param na frente da câmara e
começam a conversar, mas o vídeo não possuía som e Sherry ficou desapontada por
isso. Após alguns instantes, o homem de jaleco parece discutir com um outro,
que aparentemente comandava os militares. O primeiro, irritado, se aproxima de
um computador ao lado da câmara e parece digitar alguns comandos, enquanto os
militares se afastam dela alguns passos.
O líquido da câmara onde
está o homem nu aparentemente é drenado e a porta dela se abre. O sujeito sai
da prisão, sendo observado com aparente admiração pelos presentes. Ele olha
para os lados... Sherry está intrigada.
Súbito, o homem que saíra
da câmara agarra um militar e o arremessa contra uma parede de forma espantosa,
empregando força sobre-humana. Os outros sacam pistolas e passam a disparar
contra o agressor, mas este continua de pé, sem aparentemente sofrer nada com
os disparos. O homem de jaleco tenta sair pela porta do laboratório, mas não
consegue. Os demais são massacrados com socos e chutes, sendo que Sherry se
assusta quando um dos militares tem sua coluna partida em dois pelo adversário
sem dificuldade. Por fim o homem de força fora do comum encurrala o militar que
discutira com o homem de jaleco e o agarra, abrindo seu crânio com um soco.
Birkin, horrorizada, vê que o agressor parece sugar o cérebro da vítima. O
vídeo termina pouco depois.
A promotora estava pasmada.
Aquilo não era uma montagem, e o pior é que havia o nome da Biocom no canto da
tela. Adams poderia estar certo, e com esse pensamento Sherry abriu o último
envelope, branco e menor que os outros.
Dentro dele havia uma
espécie de carta, que Birkin leu com atenção:
Prezada promotora Sherry Birkin.
A senhorita já deve ter examinado as provas que
estavam nos outros dois envelopes. Adquiridas de funcionários renegados da
Biocom, elas são a maior prova contra a empresa no momento. Antes que possa
explicar o que quero da senhorita, será necessário que eu conte toda a história
por trás das imagens que viu.
Em 1995, dois biólogos, William Werner e Gary Colt,
fundaram em Metro City, EUA, uma rede de farmácias e produção de medicamentos
chamada Biocom. Empresa promissora, era administrada com perfeição pelos dois
doutores, mas algo os dividia: o amor pela mesma mulher, a bióloga Dora
Albertson.
Um dia, Werner pediu Dora em casamento e ela, que
amava Colt, recusou. Ele violentou-a e obrigou que ela dissesse quem amava.
Tendo como resposta o nome do colega, Werner demitiu Colt e Albertson da
Biocom. Ela continuou na América, já Colt, que estava fazendo pesquisas sobre
mutações no DNA animal, recebeu o convite do governo para trabalhar
secretamente num laboratório situado no Pacífico Sul, ao norte da Samoa Americana.
Era a famosa “Ilha X”.
O tempo passou e Werner transformou a Biocom numa
grande corporação, rival número um da Umbrella, sendo que alguns de seus
agentes, como Albert Wesker, chegaram a lhe prestar serviços. Acontece que Gary
Colt, isolado em sua ilha no Pacífico, obteve grande progresso em sua pesquisa
e alguns funcionários da Biocom tiveram contato com ela. Entre eles estava uma
bióloga chamada Milena Rogers. Colt sempre desejou que sua pesquisa fosse usada
para o bem da humanidade, mas a Biocom não pensava assim.
Esse grupo de biólogos uniu-se ao Pentágono e, num
laboratório perto de Alexandria, Virgínia, EUA, iniciaram o “Projeto Ares”, que
tinha como meta usar a pesquisa de Colt para criar um supersoldado mutante,
indestrutível e ágil. A cobaia usada foi um soldado da Força Delta, chamado
Derek Smith, que recebeu genes mutantes em seu organismo sem tomar
conhecimento. Ele se tornou Ares-1, aquele sujeito da primeira foto e do vídeo.
No início tudo correu como o planejado, Smith sofreu
diversas mutações, como força sobre-humana e incrível agilidade. Mas havia um
problema: a única maneira de Ares-1 manter ativo seu avançado sistema de
regeneração era consumindo um tipo específico de célula: neurônios. A fome do
mutante era voraz, e, no vídeo que você viu, um general do Pentágono, ao pedir
para um biólogo tirar Ares-1 da câmara, acabou tendo seu crânio perfurado e o
cérebro, sugado. Esse é o alimento desse monstro de forma humana.
Mas você deve ter percebido no vídeo que o biólogo
tentou fugir do laboratório e não conseguiu. É que a bióloga Milena Rogers
acabou se apaixonando por Ares-1, e nessa ocasião trancou os militares dentro
do laboratório para que fossem mortos pelo amado. Pouco tempo depois ela,
querendo que o mutante se visse livre de sua prisão, acabou provocando uma
queda de energia que o fez escapar, aniquilando todos no laboratório, exceto
ela.
Ares-1 começou a vagar pela floresta ao redor do
laboratório e matou um empregado da Biocom chamado Ash Vickers, sugando-lhe o
cérebro. Acontece que esse homem tinha uma esposa, Verônica Vickers, e ela
tinha um amigo chamado Thomas McDouglas, ex-militar que começou a investigar o
estranho assassinato de Ash. Durante esse período Verônica foi passar férias em
Lakeville, Minnesota, e a Biocom conseguiu capturar Ares-1 antes que ele
fizesse mais estragos. Não se dando por vencidos, apesar da falta de apoio do
Pentágono, os biólogos continuaram o projeto em outro laboratório, situado
dentro de uma montanha em, por ironia, Lakeville, Minnesota.
Milena Rogers, livre de suspeitas, libertou Ares-1
novamente e houve novo massacre, como se pode observar na segunda foto. Através
de uma mina abandonada que ocultava o laboratório, Ares-1 ganhou a floresta da
região e matou Verônica Vickers. Thomas McDouglas foi para a região investigar
e acabou conhecendo Milena. Após Ares-1 aniquilar três ladrões de banco que se
refugiaram na mina abandonada, McDouglas, após ameaçar Rogers, descobriu toda a
verdade.
Após travar combate contra o mutante Derek Smith no
laboratório, que também por ironia contribuíra para sua indesejada saída da
Força Delta, Thomas reuniu algumas provas e voltou para Washington, D.C., onde
residia. Milena, porém, colocou o mutante num furgão e o levou até a capital,
com o intuito de, através dele, tomar o controle do país. De início Ares-1
semeou o caos, mas Thomas McDouglas, auxiliado por mim e por Milena, que só
queria colocá-lo numa armadilha e foi morta pelo próprio amado, conseguiu
anular a regeneração do mutante através de um retrovírus chamado Hércules, e
destruiu-o. Thomas tentou incriminar a Biocom, porém foi ridicularizado e
desapareceu. A empresa, junto com o Exército, transferiu o projeto para uma
base aérea em Nevada e, através de uma única célula do mutante morto por
McDouglas, criou um novo Ares-1.
Ao mesmo tempo, num laboratório no Novo México, a
Biocom usava células do pesquisador Peter Mason, que injetara genes mutantes em
seu organismo pouco antes de ser morto por Ares-1 em Washington, para criar
Ares-2. Mas esse novo mutante escapou e seguiu para Nevada com o intuito de se
vingar daquele que aniquilara sua antiga identidade.
Em Nevada, agentes russos tentaram roubar o Projeto
Ares e Ares-1 acabou escapando novamente, deixando um rastro de morte, como é
possível notar na última foto. Acontece que havia um sargento na base área
chamado William McDouglas, irmão de Thomas. Após travar rápido combate com ele,
Ares-1 seguiu para Desert City, pequena cidade localizada perto da base, e esta
foi evacuada pela Força Aérea antes de maiores inconvenientes.
Na Desert City vazia, William conhece Linda Malone,
garçonete filha de um pesquisador renegado da Biocom, chamado Jefrey Malone.
Ares-2 também se junta a eles, disfarçado de médico. No ápice do caos Jefrey
aparece e revela os planos da Biocom, sendo morto pouco depois por um agente da
empresa. William, Linda, Ares-2 e um garoto chamado Max fogem da cidade e
descobrem que o major Frank Jones, superior de William na base aérea, era o
agente da Biocom que assassinara o pai de Linda. Ele morre, os demais voltam
para a base aérea e descobrem que o médico Tony Brent é Ares-2, que aniquila
Ares-1 e é morto por William, enquanto o Pentágono realiza um bombardeio
nuclear sobre a região para deter os mutantes. William, Linda e Max fogem num
avião.
Quase um ano depois, em maio de 2008, uma equipe SEAL
desaparece misteriosamente durante uma missão numa ilha ao norte da Samoa
Americana. A namorada do líder da equipe, Nicholas Benton, chamada Sheila
McDouglas, irmã de Thomas e William, cobra respostas de seus superiores e tem o
pedido de comandar uma missão de resgate recusado. Mando uma carta pedindo que
ela averigúe a ilha por si mesma, secretamente. Ela parte com seu amigo piloto
chamado Charles Tucson num helicóptero que, sabotado pelo almirante Joseph
Miller, acaba caindo na misteriosa ilha. Logo Sheila descobre que ali há um
laboratório onde trabalhava o doutor Gary Colt, e este foi tomado pela Biocom
quando o biólogo voltou para a América em 2007. Os crápulas usaram as cobaias
de Colt como base para a produção de mutantes, mas uma queda de energia
provocada pelo almirante Miller fez com que estes escapassem e aniquilassem
todos. O objetivo de Joseph era roubar o Projeto Ares para o Pentágono, pois
desde o incidente em Nevada a parceria entre o Departamento de Defesa e a
Biocom terminara. Na equipe SEAL apenas um homem sabia o que encontraria na
ilha: Nicholas Benton, por ironia o namorado de Sheila. Mas na verdade ele
trabalhava para a Biocom, não provocando em Miller suspeita alguma, e na “Ilha
X” pretendia somente salvar a pesquisa para a empresa, acionar a autodestruição
e fugir.
Sheila encontra a amada de Colt, Dora Albertson, que
se infiltrara na equipe de pesquisa para descobrir o que a Biocom tramava na
ilha e elas planejam uma fuga com a ajuda de Gregory, o único SEAL sobrevivente
além de Benton. Mas a ilha está cheia de mutantes perigosos, além de Ares-3, o
mais poderoso criado pela Biocom. Ele mata Gregory, Sheila descobre a traição
de Nicholas, este elimina Dora e no final é morto por Ares-3. Sheila e Charles
conseguem escapar e levam consigo a pesquisa de Colt, enquanto o laboratório
explode. Minha namorada, que havia se infiltrado na equipe de pesquisas como
fizera Dora e fora estuprada por um maldito biólogo da Biocom antes de ser
morta quando os mutantes escaparam, havia sido finalmente vingada.
Hoje, Thomas McDouglas ainda está desaparecido,
William McDouglas e Linda Malone combatem a Biocom pelo mundo e Sheila
McDouglas vive na Austrália com seu novo namorado, Charles Tucson, reunindo
provas contra essa maligna corporação. Espero que, após esta oportunidade, a
senhorita tenha mudado de idéia sobre a Biocom. Se isso realmente ocorreu,
contate-me pelo telefone no cartão.
Atenciosamente,
Ernest Adams, FBI, 1/10/08.
Sherry não sabia o que
pensar. Aquela odisséia era extremamente parecida com a saga dos S.T.A.R.S.
contra a Umbrella e, com aquelas provas, Adams não podia estar mentindo.
Ela tentou lembrar-se
rapidamente onde colocara o cartão com o telefone do agente. Após poucos
instantes de procura, ela o encontrou no bolso de seu casaco e imediatamente
ligou para Adams. Após três chamadas o misterioso federal atendeu:
–
Senhorita Birkin?
–
Adams, eu vi as
provas. É impressionante! A Biocom é até pior que a Umbrella!
–
Nós não estamos
lidando com biólogos de fundo de quintal, senhorita Birkin. Eles desenvolveram
esse trabalho sem terem contato com a pesquisa da Umbrella, apesar de terem
tentado roubá-la diversas vezes. Mas o pior a senhorita ainda não sabe.
–
O quê?
–
A senhorita
conhece muito bem Emanuel Deller, antigo responsável pela White Umbrella, não?
–
Sim, o único
crápula que não foi julgado. Por quê?
–
Deller, logo após
a falência da companhia em 2002, vendeu-se para a Biocom. Ele só não foi preso
em 2004 pela razão de ter sido protegido secretamente pela empresa.
–
E agora ele está
trabalhando com eles nesse tal Projeto Ares, usando a pesquisa da Umbrella...
–
Exatamente.
–
Isso tudo é
horrível e preocupante, Adams. Mas o que você quer de mim?
–
Há algumas
semanas eu e Trent descobrimos que Deller está trabalhando para a Biocom num
laboratório na Sibéria, que entre 1999 e 2000 foi utilizado secretamente em
conjunto por ela e a Umbrella. Acreditamos que tentaram criar Ares-1 mais cedo
nesse complexo, mas logo os cientistas se desentenderam e a Umbrella foi
embora, porém deixou algumas de suas criações, que foram abandonadas pela
Biocom.
–
Deller está
tentando aperfeiçoar essas pesquisas, criando uma fusão entre os experimentos
da Biocom e os da Umbrella, certo?
–
Exato. Mas Deller
era um grande amigo de Spencer, que construiu o laboratório na mansão em
Raccoon City. Ele ficou revoltado com a falência da Umbrella, que foi provocada
indiretamente pela Biocom, e quer vingança. Para ser mais exato, a retaliação
de Emanuel Deller já começou.
–
Como assim?
–
Ele se aproveitou
do fato de estar cercado de pesquisadores da Biocom na Sibéria e pouco tempo
após chegar soltou o T-Virus, sem sobreviventes. Mas você sabe o que esse
maldito vírus faz...
–
Meu Deus!
–
Um amigo meu foi
para a região do laboratório, que por sinal é bem isolada, e durante seu último
contato comigo falou sobre “mortos que andam”. Agora ele está morto. Acredito
que Deller ainda esteja vivo no laboratório, pois ele não soltaria o vírus se
não tivesse uma maneira de se proteger.
–
Ele deve ter
administrado uma vacina em seu organismo antes ou depois do contágio.
–
Sim, é provável.
Mas, se Deller estiver vivo, precisamos pegá-lo, além de invadir o lugar,
procurar provas e acionar a autodestruição do complexo para mandar os monstros
pelos ares. E, por falar em monstros, estamos lidando com a Biocom e a Umbrella
em conjunto. Não sabemos o que podemos encontrar pelo caminho além dos zumbis.
–
Por que você está
me falando isso?
–
Eu e Trent
estávamos organizando uma equipe de antigos membros do S.T.A.R.S. e inimigos da
Biocom para uma missão na Sibéria, nesse maldito laboratório. Hoje, porém,
Trent foi morto, e acredito que pela Biocom.
–
Minha nossa!
Trent está morto!
–
Seu último pedido
foi para que acabasse com esses malditos sádicos metidos a biólogos. E preciso
de sua ajuda para organizar a equipe, Sherry.
–
Eu, mas como?
–
Contate Chris
Redfield e sua mulher Jill. Eu falarei com William McDouglas e Linda Malone.
Comunique-se novamente quando tiver convencido os dois.
–
Mas, eu...
–
Sherry, faça o
que estou pedindo! Se não agirmos rápido esse maldito incidente pode fazer mais
vítimas!
–
OK, você pode
contar comigo. Até logo.
–
Até logo,
senhorita.
A promotora desligou o
telefone, com o coração pulsando fortemente.
Capítulo
3
No lugar errado, na hora
errada.
Bryan
Jessen estava finalmente a poucos quilômetros de Sacramento. Após uma
reconfortante noite de sono, o dentista texano estava alegre e confiante,
seguindo velozmente pela vazia estrada naquela bonita manhã.
De
repente, o motorista vê algo parado na estrada, um pouco mais à frente. Logo
ele percebeu que era uma caminhonete marrom e era possível ver uma mulher e um
homem ao lado do veículo, acenando para que Bryan parasse.
De
início Jessen achou que não era boa idéia, pois poderia ser uma armadilha feita
por ladrões, mas aproximando-se mais ele percebeu que a mulher era uma ruiva de
corpo escultural, que gritou:
–
Hei! Você tem um
celular?
Eles estavam com problemas,
e o sujeito ao lado da mulher, de chapéu e óculos escuros, não parecia tão
ameaçador. Resolveu parar e, pisando no freio, colocou o Mustang um pouco à
frente da caminhonete, saindo de dentro dele.
–
O que houve com a
pick-up? – pergunta o dentista.
–
Nós somos muito
azarados! – exclama a ruiva. – Estávamos indo para Stockton e o motor pifou!
–
Essa velharia é
uma merda mesmo! – disse o sujeito de óculos escuros, irritado. – Tinha que
fundir justo agora!
–
Eu tenho um
celular aqui, creio que precisam de um reboque.
–
Posso usá-lo? –
pergunta a mulher, sorrindo.
–
Sim, claro!
A bela jovem apanha o
telefone e digita o número do serviço de reboque. Enquanto admira sua beleza,
Bryan pergunta:
–
Qual o seu nome?
–
Linda Malone. E o
seu?
–
Bryan Jessen.
–
Muito prazer,
Bryan. Aquele é William McDouglas, meu namorado.
As esperanças do dentista
dissiparam-se quando Linda disse tal coisa. Mas, de qualquer maneira, Jessen não
estava fazendo aquilo em vão. Gostava de ajudar os outros.
Enquanto a ruiva falava no
celular, Jessen olhou em volta. Tudo muito quieto. Nenhum carro passando pela
estrada, o vento batendo em seu rosto...
William resmungou algo
enquanto Linda desligava o celular e o entregava a Bryan. Este, ao pegar o
aparelho, percebeu que um carro preto se aproximava no sentido de Sacramento.
–
Obrigada –
agradeceu Malone com um sorriso.
–
De nada. Já vou
indo.
–
Para onde vai? –
pergunta William.
–
Sacramento.
Reunião de família. Boa sorte para vocês!
–
Obrigado.
Jessen virou-se e caminhou
na direção do Mustang. Eram pessoas boas, ele havia se preocupado à toa. Nesse
momento o carro preto estava próximo e o dentista, distraído, quase não ouviu
quando McDouglas gritou:
–
Pro chão!
Bryan, surpreso por pensar
que estava sendo assaltado, deu mais dois passos e jogou-se sobre a areia.
Poucos segundos depois, ouviu uma rajada de submetralhadora e fechou os olhos,
pensando que os disparos vinham em sua direção.
Mas ele não foi atingido.
Jessen continuou no chão, enquanto os disparos de submetralhadora continuavam,
agora misturados com tiros de pistola. Aquilo era um tiroteio e ele estava no
meio do fogo cruzado.
Súbito, um grito. Linda
disse algo e seguiu-se o som de um carro derrapando. Os tiros cessaram e, após
mais alguns segundos de apreensão, Bryan levantou-se e tentou entender o que
havia acontecido.
O carro preto estava parado
no meio da estrada, com a porta do motorista aberta. A dois metros dele havia
um sujeito vestindo terno e óculos escuros no chão, com dois buracos no peito e
uma submetralhadora na mão direita.
–
Meu Deus, ele
está morto! – exclamou Jessen, surpreendido.
Olhando mais atentamente
era possível ver outro indivíduo vestido como o primeiro de bruços ao lado do
carro, com uma poça de sangue embaixo da cabeça.
Linda e William estavam
agora procurando algo no primeiro cadáver, segurando pistolas, enquanto Bryan
se aproximava perplexo.
–
Que diabos houve
aqui? – gritou o dentista.
O casal olhou para Jessen
por um momento e logo McDouglas disse:
–
Era matar ou
morrer. Eles atiraram contra nós.
–
Mas por quê?
Vocês são bandidos ou coisa assim?
Nesse momento, Linda tirou
algo do terno que o morto usava. Era uma espécie de cartão de identificação.
Ela o entregou a Bryan.
–
Veja com quem estamos
lutando! – disse ela.
Jessen viu que no cartão
havia uma foto do morto e o símbolo da Biocom, com o nome da empresa.
–
Biocom? Eu não
estou entendendo!
Mas o casal o ignorou. Eles
pegaram a arma do morto e alguma munição, indo depois averiguar o segundo
cadáver. Bryan estava desnorteado. Há poucos minutos ele estava indo para uma
reunião de família em Sacramento e agora estava conversando com dois
assassinos!
–
E agora? –
pergunta Linda. – O que fazemos com ele? Ele pode nos denunciar!
Nesse momento Jessen gelou.
O pensamento de ser fuzilado no meio do nada realmente atormentou sua mente.
Seu corpo começou a tremer.
William olhou para o
amedrontado dentista e disse:
–
Vamos levá-lo
conosco. Contamos tudo a ele em Stockton.
Alívio. Eles não o
matariam, mas aquilo era seqüestro. Estava de qualquer maneira em maus lençóis.
Jessen olhou mais uma vez para os cadáveres sobre o asfalto e ouviu Linda
dizer:
–
Vamos, Bryan!
Confie em nós, aqui não é seguro!
Havia tamanha serenidade na
voz da ruiva que o dentista não conseguiu entrar em pânico. Ele apenas disse:
–
Olhem, eu não
conto nada para ninguém! Deixem-me ir!
–
Não é questão
disso, Bryan – disse McDouglas. – A Biocom está atrás de nós e infelizmente não
podemos ter certeza que você não dirá nada para a polícia.
–
Mas...
–
Fique calmo –
sorriu Malone. – Nós só vamos até Stockton, depois te liberamos, OK?
Bryan não tinha muita
escolha. E para piorar eles tinham armas e coragem de matar. A prova maior
disso estava logo ali, no meio da estrada. Pareciam, apesar de tudo, boas pessoas.
Jessen não conseguia mais pensar que eram bandidos.
–
Você vem? –
pergunta William, já caminhando na direção do carro preto da Biocom.
–
OK, eu vou...
O dentista seguiu McDouglas
e Linda, entrando no veículo com um nó no estômago. William arrancou algo do
painel do carro, era um rastreador ou coisa parecida. Aquilo era loucura,
partir com dois assassinos deixando um carro e documentos para trás, mas eles
poderiam matá-lo se não o fizesse, e isso deixava Bryan extremamente
desconfortável.
–
Sherry, que surpresa
agradável! – sorriu Jill, com o pequeno Barry no colo, ao abrir a porta do
apartamento. – Vamos, entre!
A promotora pública entrou
e parou no meio da sala, olhando para Chris, que vinha da cozinha.
–
Sente-se, Sherry!
– disse o antigo membro do S.T.A.R.S. – Claire acabou de ligar, nos convidando
para um churrasco na casa dela semana que vem. Ela gostaria muito de revê-la!
–
Chris, Jill... –
suspirou Birkin, olhando para o belo casal com o bebê. – Não trago boas
notícias...
–
O que houve? –
pergunta Jill, assustada.
–
É melhor se
sentarem.
Chris e Jill acomodaram-se
num sofá, olhando admirados para a promotora enquanto ela explicava a
situação...
Deller estava com pressa.
Colocou o sanduíche de atum sobre o pratinho branco e pegou-o com uma das mãos,
enquanto segurava uma pasta cinza com a outra. O biólogo quase agradeceu quando
a porta da cozinha abriu-se sozinha para que passasse, pois teria que largar
algo se precisasse girar uma maçaneta.
Ele seguiu caminhando pelo
iluminado corredor de metal, com uma porta à esquerda e outra no final. Cruzando
esta última, ganhou a ampla sala de controle em formato hexagonal, com o painel
cheio de monitores.
Após um breve murmúrio,
Deller colocou o prato e a pasta sobre a bancada na frente das telas,
sentando-se numa das cadeiras giratórias. Olhando para o painel, viu que os
zumbis do Setor Alfa haviam arrombado a porta do depósito. Alguns escaparam
para a superfície e isso o preocupava um pouco.
–
Vocês estão com
fome, não? – sorriu o biólogo. – Não se preocupem, a comida está chegando...
Tenho certeza que ela virá!
E mordeu o sanduíche de
atum, mastigando sonoramente. De tanto observar aqueles mortos-vivos ele estava
se tornando um deles, pelo menos no referente às péssimas maneiras. Deller,
porém, sabia que estava seguro no Setor Gama. As portas estavam lacradas e
apenas ele poderia abri-las, através daquela sala.
Nisso, lembrou-se “dele”.
Sim, distraído com os zumbis do Alfa ele acabara se esquecendo do que havia
dentro da pasta. Abrindo-a, retirou um disquete azul com a inscrição “Novo
Software”.
Seria aquele o melhor
momento? Não, Deller achou melhor esperar mais um pouco, pelos menos até a
“comida” chegar. Assim “ele” cuidaria de tudo.
–
E poderei soltar
os meus titãs...
Sim, seria incrível quando
a hora chegasse. Ninguém havia feito um experimento daquele tipo ainda. Seria
melhor assistir aquilo do que qualquer outro esporte existente, e Deller
realmente considerava aquilo um esporte.
O biólogo sorriu brevemente
e voltou a olhar para os monitores, comendo seu frio sanduíche.
–
Vocês ouviram
muito bem – disse Sherry. – O agente Adams quer vocês dois na operação que
capturará Deller na Sibéria.
Chris e Jill estavam
petrificados. Eles haviam ouvido tudo que Sherry disse e assistido ao terrível
vídeo de Adams de mãos dadas fortemente. O pesadelo da Umbrella não terminara,
apesar de todos os seus esforços, e agora voltava com uma nova face: a Biocom.
Eles disseram que nunca
mais voltariam à ativa após a Amazônia, mas também pensavam que agora a
Umbrella estava morta, que não existiam mais zumbis sedentos de sangue. E o
pior é que Trent estava morto. A próxima vítima podia ser um deles.
–
Eu sei como é
difícil para vocês... – suspirou Sherry. – Vocês têm um filho...
–
Mas pôr um fim na
maldita Umbrella é mais importante – disse Jill, com o pequeno Barry no colo. –
Além disso, temos experiência de combate contra esses malditos mortos-vivos.
Nosso filho pode muito bem ficar com uma babá enquanto estivermos em ação.
–
Ela está certa –
concordou Chris. – Você pode contar conosco, Sherry.
A promotora sorriu. Aquele
casal era adorável e, apesar de Birkin se sentir culpada colocando-os para
lutar no meio da neve contra armas biológicas, sabia que a bravura e
inteligência dos dois seriam cruciais. O churrasco com Leon e Claire teria que
esperar.
No quarto de hotel em
Stockton, Linda Malone cantarolava enquanto tomava banho. William McDouglas
mexia com armas e munição sobre uma mesa, enquanto o pobre Bryan Jessen, olhar
vazio, fitava o fm de tarde através de uma janela, sentado num sofá marrom.
–
Você gosta de
armas, Bryan? – perguntou o irmão de Thomas McDouglas.
–
Não muito.
Prefiro discos de vinil, discos de rock.
–
Ah, é? Você gosta
do Nirvana?
–
Gosto. Black
Sabath e Scorpions também são ótimos.
Nesse momento William saiu
da conversa, apanhando rapidamente uma pistola e seguindo na direção de um
canto.
–
O que houve? –
indagou o dentista, voz baixa.
–
Quieto, quieto...
Súbito, algo saltou de trás
de uma cortina, rolando no chão e imediatamente ficando de pé na frente de
McDouglas, apontando uma pistola para sua cabeça.
–
Seu eu fosse da
Biocom você estaria morto agora, Will! – sorriu o estranho sujeito de óculos
escuros.
–
Adams, você adora
entradas cinematográficas, não?
Ambos largaram as armas e
se abraçaram. Jessen observava tudo calado e confuso.
–
O que está havendo
afinal? – perguntou o dentista.
–
Quem é ele? –
disse Adams fazendo outra pergunta, apontando para Bryan.
–
É uma longa
história... – murmurou William.
–
Acho que temos
tempo suficiente para esclarecimentos, não?
Deller teve que fazer outro
sanduíche na cozinha para apreciar aquele espetáculo. Os “bebês” do Beta haviam
atingido as salas de pesquisa pelo sistema de ventilação e estavam massacrando
os biólogos zumbis.
–
A ingestão da
carne deles causará alguma mutação... – murmurou o antigo responsável pela White
Umbrella, mastigando seu sanduíche como se fosse um dos “bebês” devorando os
mortos-vivos.
De fato, os Hermes
(apelidados de “bebês” pelos pesquisadores da Biocom) foram criados sem o
T-Virus e quando ele atingisse o corpo dos mutantes, provavelmente provocaria
alguma mudança, e ela não seria nada bonita.
Era tarde da noite quando
Adams esclareceu tudo para William, Linda e principalmente Bryan. Ao contrário
dos outros ele precisava tomar conhecimento de tudo, desde o início da saga de
Thomas McDouglas contra a terrível Biocom. Após o fim das explicações ele
permaneceu sentado num sofá, pensativo, tentando descobrir como entrara numa
enrascada daquelas: um honesto dentista de Houston, saudável e vivendo bem,
estava agora metido com um grupo de gente armada que lutava contra uma das
maiores multinacionais do mundo, pouco conhecida em relação ao seu passatempo
de criar soldados indestrutíveis sugadores de cérebro nas horas vagas!
Ele já vira uma história
como aquela quando os crimes da Umbrella vieram a público, mas agora ele estava
envolvido diretamente com aquelas pessoas, ele conversara com o irmão de Thomas
McDouglas, que chamara de lunático, e quase foi morto por assassinos da Biocom!
A coisa piorou ainda mais quando Adams disse que naquele momento alguém da
empresa provavelmente já havia encontrado os documentos de Jessen no Mustang
deixado na estrada, e agora o consideravam tão perigoso aos seus interesses
como Malone e McDouglas!
–
Então nós
formaremos uma equipe com o pessoal que lutava contra a Umbrella? – perguntou
Linda.
–
Sim, mas apenas
dois deles: Chris Redfield e sua mulher, Jill Valentine Redfield – explicou
Adams. – Eles possuem experiência em combate contra as aberrações da Umbrella e
vocês contra as criações da Biocom.
–
Não vai ser
fácil... – murmurou William. – Se cada uma dessas malditas empresas já era
perigosa sozinha, imaginem juntas!
–
Realmente, não
sabemos o que vocês encontrarão na Sibéria. Estejam preparados!
Jessen continuava calado,
esperando o melhor momento de pedir para ir embora. Afinal havia um federal ali
e ele poderia ser mais complacente. Além disso, ele não contaria nada para
ninguém, ainda mais com a ameaça da Biocom rondando sua vida.
–
O senhor Jessen
pode ir embora se quiser – disse Adams.
As palavras do agente do
FBI soaram como música nos ouvidos do dentista, mas mesmo assim ele continuou
sentado, algo como uma força muito grande impedia que ele deixasse o pequeno
grupo perseguido pela Biocom.
–
Eu não sei... –
suspirou Jessen. – Estou com medo, vocês disseram que a Biocom agora também
pode estar atrás de mim...
–
É algo bem
provável – disse Adams. – Bem, voltando ao assunto, precisamos de mais gente
para a equipe, eu diria uns dois integrantes. Haverá uma reunião amanhã à noite
no apartamento de Chris Redfield e sua mulher em Filadélfia para discutir isso.
–
Filadélfia? –
espantou-se McDouglas. – Fica do outro lado do país!
–
Não se preocupem.
Neste exato momento há um avião nos esperando aqui na cidade. Aceitam essa
carona?
–
Adams, você é
incrível! – sorriu Linda.
–
Vocês é que são!
Bryan, após tomar coragem
por um instante, disse:
–
Olhem, estou
mesmo assustado com tudo isso... Eu queria perguntar se poderia ir com vocês
até Filadélfia, pelo menos para a Biocom me perder de vista...
–
Você pode ir
conosco sim, senhor Jessen – disse Adams. – Não se preocupe, me encarregarei
para que o FBI lhe ofereça proteção.
O dentista sorriu de
alívio, enquanto todos se preparavam para partir. Bryan poderia muito bem ter
arriscado ir até Sacramento, mas a crescente amizade com aquelas pessoas, ao
contrário do medo pela Biocom, falou mais alto.
As memórias surgiam nítidas
na mente de Chris:
A caverna era bem ampla e
alta, com várias plataformas de metal junto às paredes. No centro havia um
elevador que descia ainda mais para o subsolo, e Wesker estava nele, apontando
uma pistola para a cabeça da pobre Sherry.
–
Fique longe,
Chris! – exclamou o ex-pesquisador da Umbrella. – Eu posso usá-la para meus
propósitos mesmo estando morta! Não quer que ela junte-se ao Barry, quer?
–
Chris, me ajude!
– gritou a filha de William Birkin, chorando desesperada.
–
Wesker, o que
você quer afinal? – perguntou Chris.
–
É simples, Chris.
Sherry possui o X-Virus em seu organismo, e eu quero melhorá-lo através de uma
mutação, sendo que a filha do presidente possui o DNA perfeito para a
combinação. Eu vou utilizar as duas num experimento no laboratório, e você não
vai me deter! Ah, quando eu espalhar o T-Virus na atmosfera... Todos implorarão
para que eu venda a vacina, e assim terei dinheiro suficiente para continuar
meu trabalho!
–
Você tem esse
maldito X-Virus no seu corpo! Sherry não é necessária!
–
Sim, eu possuo o
X-Virus, mas preciso de uma cobaia e utilizar a mim mesmo seria muito
arriscado.
–
O que você quer
fazer? – sorriu Chris. – Tirar essa cicatriz do rosto?
–
Maldito!
Um disparo ecoou pelo
lugar.
–
Chris! – grita
Sherry.
Por sorte o ex-membro do
S.T.A.R.S. esquivou-se a tempo, mas Wesker começou a mexer nos controles do
elevador, e antes que Chris pudesse fazer alguma coisa ele começou a descer.
–
Adeus, Chris! –
sorriu Wesker. – Mande lembranças para Claire e os outros patetas!
–
Droga!
Nesse momento Leon contatou
Chris pelo rádio, a voz do segundo abafada pelo som do maquinário.
–
Chris, você está
aí?
–
Sim. Notícias?
–
Afirmativo.
Encontrei outro caminho para o laboratório. Estou indo atrás de Wesker!
–
OK, mas tome
cuidado. Também vou tentar pegá-lo!
–
Certo. Desligo!
Eram necessárias cinco
horas para desinstalar a Red Queen com segurança, e isso incomodou Deller
grandemente. A Biocom só estava usando o sistema no laboratório na falta de
coisa melhor, pois sabiam muito bem que a Umbrella já havia tido problemas com
a “garotinha holográfica”, baseada na filha de William Birkin, Sherry. Segundo
relatórios, o sistema poderia criar juízo e senso crítico próprios, o que era
uma grande ameaça.
De qualquer forma, era
melhor que Deller esperasse do que correr o risco de danificar o computador
central e liberar as trancas. Além disso ele teria que instalar o novo programa
sem demora para evitar que seu plano, e sua vida, fossem um completo fracasso.
A decisão de instalar “ele”
antes da “comida” chegar foi pela razão de Deller ser extremamente inseguro.
Ele não tinha certeza se o novo software funcionaria corretamente na hora
certa, e por isso queria testá-lo antes. Durante o processo de instalação todas
as portas seriam lacradas, portanto ele ficaria horas trancado na sala de
controle, executando o processo.
“Ele” já havia sido
instalado em 15% e Deller teria que aguardar cerca de três horas para voltar ao
ar. O fato dos monitores estarem desligados contribuíam para seu colossal
tédio. Sem nada para fazer, resolveu ensaiar o que falaria para a “comida”
quando chegasse a hora de seu “esporte” começar. Seria melhor que qualquer luta
de gladiadores do antigo Império Romano, melhor que qualquer luta no mais feroz
dos ringues. Seus titãs destruiriam tudo que encontrassem pelo caminho até se
confrontarem frente a frente, e restaria apenas um.
–
E enquanto isso
“ele” cuidará dos intrusos... Será a batalha do século!
E Deller olhou impaciente
para o monitor principal, ansiando para que aquela maldita instalação
terminasse logo.
Oito da noite. Na sala do
apartamento de Chris e Jill em Filadélfia estavam o casal mais Ernest Adams,
William McDouglas, Linda Malone, Bryan Jessen e Sherry Birkin. O pequeno Barry
estava dormindo em seu quarto quando Chris disse:
–
OK, temos que
arranjar mais dois integrantes para a equipe. Como faremos?
–
Eu vou! – disse
Sherry.
–
O quê?
Todos olharam para a
promotora pública, que num breve instante fitou todos os presentes nos olhos.
–
Vocês ouviram bem,
eu vou!
–
Mas, Sherry... –
oscilou Jill.
–
Olhem, eu já
lutei contra aquelas coisas na Amazônia e posso muito bem lutar novamente! Além
disso, conheço bem os bastidores da Umbrella e da Biocom. Posso ser muito útil.
–
Ela está certa –
concordou Adams. – Se ela quer ir, não podemos impedir.
Todos assentiram.
–
Eu também estava
pensando em ir e...
–
Não, Adams! –
exclamou Linda. – Você deve ficar aqui, reunindo provas, não pode se arriscar
tanto!
Nesse momento Bryan
levantou-se e, olhando para uma janela e caminhando na direção dela, disse:
–
Eu estou muito
confuso... Ontem estava viajando para Sacramento e agora estou numa reunião de
opositores da Biocom! Eu estou com medo de ser morto por essa gente sem
escrúpulos!
–
Bryan, já estou
trabalhando para que você seja colocado no Programa de Proteção a Testemunhas –
disse Adams. – Não precisa se preocupar!
–
É que eu me sinto
culpado... Eu aqui, seguro, e vocês lá na Sibéria lutando contra mortos-vivos e
monstros que sugam cérebros... Sou apenas um dentista, só manuseei armas num
clube de tiro em Houston... Mas quero ir com vocês!
–
Tem certeza
disso, Bryan? – indagou William.
–
Sim, tenho. Nunca
fiz nada realmente útil na vida e gostaria de me sentir realizado chutando
alguns traseiros da Biocom. Além disso, meu irmão morreu em Raccoon City.
–
Bem, a equipe
está formada – sorriu Chris. – Quando viajaremos?
–
Vocês devem
preparar o equipamento ainda hoje e de madrugada, pois partirão para
Vladivostok amanhã cedo. Lá encontrarão um homem chamado Igor. Ele será o guia.
Todos já estavam cientes do
risco que correriam na Sibéria. Mas eram corajosos, e isso os tornava nobres.
Era essa nobreza de espírito que a Biocom e a Umbrella tanto temiam.
Capítulo 4
Neve,
frio e zumbis.
–
Fiquem à vontade!
As palavras de Igor fizeram
com que os seis integrantes da equipe contra a Biocom entrassem sem medo no
apartamento em Vladivostok. Era pequeno, aconchegante e o mais importante: não
tão frio!
Chris e William entraram
trazendo grandes malas com armas e munição. Bryan e Igor descarregavam outros
suprimentos como rádios e coletes, enquanto as três mulheres ajeitavam os
móveis de acordo com as necessidades do grupo.
–
O banheiro fica
naquela porta ao lado do armário – explicou o guia. – Preparem tudo até amanhã
de madrugada, quando partiremos!
–
Então entraremos
em ação em menos de vinte e quatro horas? – perguntou Jessen.
–
Sim – respondeu
Chris. – Precisamos agir o mais rápido possível, antes que esse Deller fuja e
cause mais estragos!
William colocou uma mala
preta sobre um sofá e sentou para descansar. Sherry, passando por Bryan, lhe
perguntou com um sorriso:
–
Você quer um
chocolate bem quente? Acho que vou fazer um pouco para nós na cozinha!
–
Hei, eu adoro
chocolate no inverno, bem quente! Você sabe fazer?
–
Sim, minha mãe me
ensinou quando morávamos em Raccoon. Foi uma das poucas coisas que ela me
ensinou a fazer, pois nunca saía do laboratório.
–
Eu sinto muito...
–
Não se preocupe!
Sabe, foi muito nobre o que você fez, vindo conosco!
–
Obrigado!
Os dois deixaram o cômodo
conversando, enquanto Jill dizia:
–
Igor, já pode ir
se quiser. Vamos ter muito trabalho até madrugada.
–
OK. Estarei aqui
por volta das três, e espero que estejam bem armados!
–
Nós aprendemos a
não subestimar empresas farmacêuticas com laboratórios secretos! – exclamou
Chris.
Igor riu e deixou o apartamento,
enquanto os demais começavam a preparar todo o equipamento para a próxima e
fria madrugada...
A instalação do novo
software levara três horas e meia, mas Deller, sempre inseguro, quis garantir
que tudo desse certo e resolveu checar todos os sistemas do laboratório antes
de voltar plenamente ao ar. Levara quase um dia inteiro fazendo isso, mas
valera a pena: agora poderia iniciar com “ele”.
Deller mal conseguia
controlar sua ansiedade enquanto digitava os últimos códigos de acesso. Uma
última e decisiva informação surge na tela: “Para iniciar o novo sistema,
pressione Enter”.
O antigo responsável pela
White Umbrella pressionou a tecla como se fosse a coisa mais importante do
mundo, e na verdade para ele era. Assim que a ação ocorreu, todas as luzes da
sala de controle se apagaram, e uma pequena plataforma surgiu no centro do
hexágono.
O biólogo virou-se e viu
quando algo começou a ser projetado sobre a plataforma, e esse algo logo tomou
forma: o holograma azul de um homem vestindo roupa tática e óculos escuros. A
imagem começou a olhar para Deller ajeitando o cabelo, enquanto este dizia seu
nome:
–
Albert Wesker!
De fato o holograma era
perfeito, retratando o antigo pesquisador da Umbrella e traidor do S.T.A.R.S.
com extrema perfeição. Após terminar de ajeitar o cabelo, o Wesker azul disse,
com a mesma voz do original:
–
Deller, se você
me instalou quer dizer que morri na Amazônia, certo?
–
Sim, Wesker. Você
me entregou aquele disquete pouco antes de ser morto por Leon Kennedy. Disse
que assim, se morresse, sobreviveria de alguma maneira.
–
Leon Kennedy me
matou? Que patético! Pensei que Chris seria aquele que me mataria!
–
Mas não foi
ele...
–
OK. Em que ano
estamos? O que houve com os S.T.A.R.S. e o T-Virus? Eu ao menos consegui o que
queria?
Deller não havia atualizado
o banco de dados do sistema para ter o prazer de contar tudo a Wesker,
principalmente sobre sua atitude homicida contra os pesquisadores da Biocom.
Wesker era agora uma máquina. Com inteligência humana, mas uma máquina. E era
muito melhor conversar com uma máquina do que ficar mais horas entediado.
Todos se deliciaram com o
chocolate bem quente feito por Sherry. Logo depois se debruçaram sobre uma mesa
examinando mapas e coordenadas, revisando como seria a operação. Chris
explicou:
–
OK. A entrada
para o laboratório subterrâneo fica dentro deste bunker! – disse, apontando
para o centro do mapa. – Igor nos deixará de helicóptero quinhentos metros a
noroeste. Precisaremos percorrer um pouco da floresta e cruzar o muro que cerca
a estrutura. Provavelmente haverá algum tipo de passagem disponível, pois há
zumbis que escaparam para fora.
–
E dentro do
bunker? – perguntou William.
–
Segundo Igor,
encontraremos uma passagem secreta com um bloco de escadas que leva ao subsolo.
A partir daí seguiremos às cegas, pois não sabemos como é esse maldito
laboratório. A prioridade lá dentro será buscar algum tipo de orientação para
pegarmos Deller. Mais alguma pergunta?
–
Além dos zumbis,
o que mais encontraremos? – indagou Bryan.
–
Não sei. Falando
da Umbrella, podemos lutar contra cães mutantes, corvos, aranhas e vermes
desproporcionais, plantas assassinas, Lickers e Hunters, além dos temíveis
experimentos da série Tyrant.
–
Explique melhor
esses três últimos – pediu Linda.
Jill explicou:
–
Os Lickers são
mutações de zumbis, não têm pele, possuem garras afiadas, andam de quatro e
escalam paredes, matando suas vítimas com uma monstruosa língua que pode
quebrar facilmente um pescoço humano. O ponto fraco deles é o fato de possuírem
cérebro exposto, portanto atirem nesse local sem piedade. Já os Hunters são
mutantes originados quando o T-Virus afeta o DNA humano. São geralmente verdes,
parecem sapos misturados com camaleões, têm garras afiadas e pulam bem alto.
Atirem enquanto estiverem no chão ou eles podem arrancar a cabeça de vocês sem
dificuldade!
–
E os Tyrant? –
perguntou William.
–
Os Tyrant, a
obra-prima da Umbrella – disse Chris. – São supersoldados quase indestrutíveis,
mas cada experimento dessa série possui um ponto fraco específico. A maioria
possui coração exposto, tornando-os bem vulneráveis. Porém existem os T-00,
apelidados por minha irmã de “Mr. X”, muito mais difíceis de destruir. Há
também os mutantes da série Nemesis...
–
Esses eu conheço
bem – suspirou Jill. – Tive que enfrentar um frente a frente várias vezes para
escapar de Raccoon City. Eles são extremamente inteligentes, sabendo abrir
portas e manusear armas, diferente dos zumbis e outros monstros.
Perigosíssimos.
–
E o que a Biocom
nos reserva? – perguntou Bryan, já impressionado com a “família” da Umbrella.
–
Temos que evitar
principalmente os mutantes da série Ares – explicou Linda. – Basicamente eles
são todos iguais, fortíssimos e imunes a armas de fogo, sugando cérebros para
manter ativo o sistema de regeneração. A única maneira efetiva de derrotá-los é
através do retrovírus Hércules, que inibe o processo regenerativo. Eles ficam
assim vulneráveis.
–
Algo mais? –
perguntou Sherry.
–
Sim – respondeu
William. – Há outros tipos de aberrações, como gorilas e ursos de duas cabeças,
morcegos resistentes à luz, além dos terríveis “bebês”.
–
Bebês? –
estranhou Chris.
–
São criaturinhas
asquerosas, chamadas assim pelos pesquisadores pela razão de serem bebês com as
células dos Ares que passaram por um tipo diferente de mutação. Possuem mais ou
menos um metro de altura, pernas finas, braços com garras afiadas, dentes
também pontiagudos, olhos grandes e enorme cabeleira. Atacam sempre em bando.
–
Nojento! –
exclamou Bryan.
Todos riram por um
instante, mas não conseguiam, por mais que tentassem, esconder a tensão. Aquela
missão não seria nada fácil.
–
Então você
contaminou todo o laboratório com o T-Virus? – perguntou o Wesker holográfico.
–
Sim, meu caro –
respondeu o entusiasmado Deller. – Aquela maldita Biocom vai pagar!
–
Você acha que
isso foi mesmo prudente?
–
Como assim? Os
S.T.A.R.S. virão para cá me pegar e você poderá se vingar deles! Agora você é
uma máquina, Wesker! Uma máquina possui mais capacidades que um ser humano!
–
Então o que você
quer que eu faça?
–
Logo que eles
entrarem, tranque todas as portas dos setores com mutantes. Você só as abrirá
quando eles atingirem a região do elevador central, ficarão então cercados
pelos monstros e não conseguirão fugir!
–
Mas e se eles
escaparem?
–
Estou reservando
algo grande para eles... Wesker, seja o sádico que sempre foi! Leve-os até a
morte deixando que saibam que você ainda está vivo!
–
Vivo? Você chama
isto de vida, Deller? Eu posso acumular infinita inteligência e não morrerei
mais neste estado, mas nunca mais vou sentir algum tipo de sentimento ou
sensação! Nunca mais vou poder beijar uma mulher, nunca mais vou poder sentir o
prazer de saborear minha refeição favorita! Você não entende Deller?
–
Mas agora você
pode ser cruel sem o risco de sentir remorsos...
Nisso o biólogo estava
certo. Wesker agora era uma máquina e poderia empreender uma vingança descomunal
sem se sentir bem ou mal por isso. Mas os S.T.A.R.S. sentiriam algo. E esse
algo se chamava dor, muita dor.
Madrugada na Sibéria.
Escuridão e vento gélido, temperatura abaixo de zero. Sobre os pinheiros da
extensa floresta verde e branca, o som de hélices girando começou a cantar em
dueto com o vento. Logo era possível avistar um helicóptero branco como a neve
iluminando uma pequena clareira com um holofote. Ele diminuiu a altitude até
ficar a poucos palmos do chão.
–
Vocês podem me
contatar pelo rádio se necessário, mas duvido muito que ele funcione no
subsolo! – exclamou Igor, levantando a voz para tentar ter sua voz ouvida além
do forte som do helicóptero.
–
OK! – gritou
Chris. – Vamos, pessoal!
E, um a um, os três homens
e três mulheres saíram da aeronave, bem protegidos contra o frio através de
densas vestimentas e viseiras, além de armados. Chris e William tinham rifles
M16, Jill e Linda seguravam submetralhadoras Uzi e Sherry e Bryan estavam com
pistolas Desert Eagle em mãos. Também tinham algumas granadas, rádios e facas.
Iluminavam a área com lanternas.
Chris olhou ao redor por um
instante e começou a caminhar entre as árvores cobertas de neve, seguido pelo
resto do grupo, enquanto Igor partia com o helicóptero. A equipe seguiu devagar
com a marcha, cautelosa, enquanto seus integrantes não paravam de olhar
apreensivos para os lados, entre as árvores.
–
Você está com
medo? – perguntou Bryan a Sherry, com um meio sorriso.
–
Mais ou menos...
– sorriu a promotora.
–
Eles estão por
perto... – murmurou Chris, extremamente atento. – Posso sentir que estão por
aqui...
Todos seguiram mais alguns
metros cautelosos, até que um alto gemido ecoou até ali. A marcha parou
imediatamente.
–
O que foi isso? –
indagou William, preocupado.
–
São esses
malditos zumbis! – exclamou Jill.
Chris continuou a
caminhada, e os demais seguiram seus passos, com medo de ficarem sozinhos, à
mercê dos mortos-vivos. Os passos se aceleraram, tensos.
–
Parem! – exclamou
Chris, sem mais nem menos.
O grupo parou novamente,
com medo. Todos olhavam para as árvores, iluminadas pelas lanternas, tentando
ao menos ver algum zumbi. Estar encurralado e não conseguir ver o inimigo é
angustiante.
O marido de Jill começou a
mirar lentamente na direção de uma árvore. Após alguns instantes mirando atento
na mesma posição, veio o disparo.
Algo veio ao chão ao lado
da árvore, e era um cadáver humano, que se tornou centro da luz emitida pelas
lanternas. Todos conseguiram ver o sangue tingir de vermelho a neve, e Sherry
exclamou:
–
Meu Deus! Aquilo
era um zumbi?
A resposta veio quando o
sujeito abatido por Chris levantou, todo coberto de neve, e começou a caminhar
na direção deles. Seguiram-se dois gemidos tão altos quanto o primeiro, e
William, vendo que estavam cercados pelos mortos-vivos, gritou:
–
Corram!
Todos começaram a correr
entre as árvores, seguindo Chris. Conforme prosseguiam surgiam mais vultos
humanos cambaleando e gemendo, sedentos por sangue. Algum membro do grupo
arriscava disparar contra um ou outro, errando na maioria das vezes. Chris e
Jill lembraram-se de quando tudo começou, na floresta de Raccoon, quando eles
mais Barry e Wesker correram dos cães mutantes após o pouso do helicóptero
perto da mansão de Spencer. Aquilo fazia mais de dez anos e o que viviam
naquele momento era terrivelmente parecido.
E continuaram naquela
travessia angustiante, desviando das árvores iluminadas pelas indecisas
lanternas, até que o súbito barulho de algo caindo no chão fez todos olharem
para trás.
–
O que foi isso? –
exclamou William.
–
Fui eu! –
respondeu Sherry, coberta de neve, enquanto se levantava do chão. – Tropecei em
algo!
–
Cuidado! – gritou
Linda.
Malone acabara de ver no
que Sherry tropeçara: um morto-vivo vestindo jaleco branco sujo de sangue, que,
após soltar um gemido, agarrou o pé da promotora pública.
–
Ah, socorro! – gritou
Birkin, tentando se libertar do feroz zumbi.
–
Morra, seu
maldito!
O autor da frase foi Bryan
Jessen, que disparou com a Desert Eagle na direção da cabeça do mutante. Parte
desta explodiu, fazendo jorrar sangue e massa cinzenta, enquanto Sherry conseguia
libertar a perna.
–
Obrigada, Bryan!
– sorriu a filha de William Birkin.
–
De nada! –
exclamou o dentista, já seguindo em frente com os outros.
E correram mais alguns
metros, até que, para a alegria do grupo, a floresta terminou. Os seis se viram
numa ampla clareira, com uma não muito grande fortificação no centro.
–
O bunker! –
concluiu Chris. – Vamos em frente!
E prosseguiram, com o
gélido vento chocando-se contra seus limitados corpos. Os zumbis ainda os
perseguiam, pois os temíveis gemidos não cessavam.
Chegando mais perto do muro
que cercava o bunker era possível encontrar um grande portão aberto por onde os
zumbis haviam saído. Também havia quatro torres de guarda, sem ninguém nelas.
A equipe cruzou apreensiva
o portão. Nenhum zumbi ou coisa do tipo. Jill, Bryan e Sherry ficaram de guarda
na entrada da fortificação enquanto Chris e William procuravam a entrada do
bunker.
–
Aqui! – gritou
Redfield.
Os demais se aproximaram e
viram-se de frente para uma porta de ferro lacrada. Não havia painel ou tranca
para destrancá-la, o que deixou o grupo desnorteado.
–
Eu não acredito!
– irritou-se Linda. – Viemos até aqui por nada, e agora estamos cercados de
zumbis!
–
Acalmem-se todos!
– pediu Jill. – Chris, não há uma maneira de abrir essa porta?
–
Eu não sei,
querida... Não há qualquer tipo de tranca ou coisa parecida...
Súbito, a porta se abre
misteriosamente, liberando o caminho. Todos, assustados, recuam alguns passos
para trás. Mas não saiu nenhum monstro medonho de dentro do bunker, algo que os
surpreendeu enormemente.
–
O que está
havendo? – indagou Jessen, confuso.
Chris entrou primeiro para
averiguar, preparado para atirar em qualquer coisa que se movesse. Depois foi
Jill e os demais a acompanharam.
Dentro do pequeno bunker
havia apenas alguns engradados de metal com inscrições em russo. Uma oscilante
lâmpada de mercúrio iluminava o teto. Sherry, logo após ouvir mais um gemido
dos zumbis, disse:
–
Precisamos
encontrar a passagem secreta para o subsolo, e rápido!
O marido de Jill parou e
ficou olhando para as paredes. Depois fitou os engradados... E por fim a
assustada face dos companheiros de equipe.
De repente, sem mais nem
menos, um dos engradados começou a se mover sozinho em linha reta, fazendo com
que os seis invasores saltassem surpresos. Na verdade aquilo era uma espécie de
mecanismo, que revelou uma escura entrada no chão. Chris a iluminou com sua
lanterna, vendo que o caminho seguia em diagonal através de uma escada
metálica.
–
Bem, aí estão as
malditas escadas! – murmurou Chris, desconfiado.
–
Vamos descer? –
pergunta Jill com um sorrisinho.
Todos permaneceram calados,
olhando para Redfield. Alguém estava facilitando as coisas para eles e aquilo
não era bom. Primeiro a porta do bunker, agora a passagem secreta.
–
Chris, eu sei que
isso tudo é bem suspeito, mas não temos muita escolha! – disse William. –
Estamos encurralados e se não descermos aqueles zumbis nos pegarão cedo ou
tarde!
O grupo foi vencido pela
terrível verdade. Não tinham muita escolha naquele difícil momento.
–
Sigam-me!
Chris começou a descer
cauteloso pelos degraus da escada, seguido pelos demais. Aquilo era um escuro
bloco de escadas como aqueles dos edifícios, que começou a ser vencido pela
equipe. Seus passos sobre o metal ecoavam pelo frio ambiente.
–
Será que
encontraremos mais zumbis? – perguntou Jessen, ofegante.
A resposta era óbvia. Se
Deller havia contaminado todo o laboratório com o T-Virus, era lógico que
encontrariam mais daquelas coisas, até piores.
As escadas terminaram numa
abertura um tanto iluminada, graças a uma lâmpada de mercúrio sobre uma porta
metálica. Ao lado dela havia um leitor de cartões que aparentemente não
funcionava, soltando faíscas.
–
OK, será que essa
porta também se abrirá sozinha? – indagou Linda.
Como que se a porta tivesse
ouvidos, ela se abriu para que o grupo prosseguisse. Chris, sempre desconfiado,
iluminou o caminho com sua lanterna, mas isso já não era necessário, pois a
partir daquele ponto lâmpadas brancas no teto tornavam o trajeto mais
confiável. A temperatura também já não era tão baixa, e logo eles poderiam se
livrar das pesadas vestimentas.
Antes de seguirem Chris,
todos tiraram as viseiras de proteção contra a neve. O corredor era amplo, todo
metálico, com a inscrição “Biocom”, em branco, numa das paredes.
–
Como eles são
exibicionistas! – riu Linda. – Sempre construindo esses laboratórios escondidos
do mundo e fazendo questão de assinar!
O caminho terminava na
frente de outra porta, cheia de painéis e mecanismos de identificação. Chris
parou na frente dela, pensativo, esperando que se abrisse. Mas passou-se quase
um minuto e nada ocorreu.
–
Bem, parece que
as portas não se abrirão mais sozinhas para nós! – exclamou Sherry. – E agora?
Todos olharam ao redor. Não
havia nenhum outro caminho a não ser aquele pelo qual vieram, nenhum duto de ventilação
ou coisa do tipo. Aquela porta tinha que ser aberta de alguma maneira.
–
O que você está
esperando? – perguntou Deller, nervoso. – Abra a porta para eles!
–
Acalme-se! –
sorriu o Wesker azul. – Veja o que vou fazer!
E Deller voltou a olhar
para o grupo através de um dos monitores do painel, tentando imaginar se Albert
Wesker já fizera algo do tipo em carne e osso.
Enquanto pensavam em algo,
todos haviam guardado as lanternas e tirado as vestimentas contra o frio.
Usavam agora roupas táticas completas, de cor preta. Jill, como sempre, tinha
sua boina da sorte na cabeça. Acreditava que a razão de ter passado tantos
contratempos para escapar de Raccoon City fora o fato de não tê-la usado na
ocasião.
Sem mais nem menos, ecoa
até ali um alto gemido.
–
São os zumbis! –
diz Bryan. – Eles já devem estar entrando no bunker e se não encontrarmos logo
uma maneira de prosseguir, estaremos fritos!
Nesse momento, Chris
aproximou-se de um dos painéis ao lado da porta lacrada. Nele havia uma pequena
tela de cristal líquido, onde surgiu uma mensagem que o ex-membro do S.T.A.R.S.
leu em voz alta:
–
Digite a senha
para abrir caminho!
E surgiu um teclado de
computador de dentro do painel, para que fosse usado pelo grupo.
–
Que doideira é
essa? – riu Bryan. – Ele quer uma senha?
–
Deve ser esse
maldito Deller... – resmungou Jill. – Sádico filho da mãe!
Chris tentou pensar numa
senha, mas, apesar de toda a sua experiência com coisas desse tipo, nada surgiu
em sua mente.
–
Quantos dígitos?
– perguntou William.
–
Seis! – respondeu
Sherry, olhando para a pequena tela onde aparecera a mensagem, agora com seis
espaços para que fosse inserida a senha.
Jill, após um instante,
disse:
–
Chris, tente
“Deller”!
–
OK.
O marido de Jill digitou o
nome do antigo responsável pela White Umbrella, mas a mensagem “Senha
incorreta!” surgiu na tela.
–
Que merda! –
exclamou Chris, irritado. – Ele está brincando com a gente!
–
Tente “Tyrant”! –
sugeriu Sherry.
Chris digitou novamente no
teclado, e mais uma vez surgiu a mensagem informando que a senha não estava
correta. O grupo ouviu mais uma vez o gemido de um dos zumbis na superfície.
–
Rápido, pessoal!
– preocupou-se Linda.
Redfield coçou a testa e
digitou “Birkin”. Nada feito.
–
Deller deve ser
tão sádico quanto aquele maldito Wesker... – murmurou Sherry, olhando para trás
preocupada com os mortos-vivos.
–
É isso, Chris! –
exclamou Jill. – Digite “Wesker”!
Chris o fez, e as trancas
da porta foram liberadas. Todos seguiram rapidamente em frente, receosos pelo
fato de Deller admirar o terrível Albert Wesker a ponto de usar seu nome como
senha para uma porta.
–
Engenhoso, caro
Wesker! – disse Deller, olhando para o holograma azul.
–
Eles conseguiram
passar, mas não se preocupe – sorriu Wesker. – Só fiz isso para terem uma pista
de com quem estão lidando! Eu os encurralarei na área do elevador central!
–
E pensam que me
pegarão facilmente... Conhecerão o inferno em vida!
E a atenção do biólogo
voltou-se novamente para os monitores.
O caminho prosseguia num
novo corredor parecido com o anterior, mas este era um pouco maior em extensão.
Os seis intrusos correram até a única passagem disponível: uma outra porta no
final, com apenas um simples mecanismo de identificação, que se abriu assim que
se aproximaram o bastante.
–
A Biocom protegeu
muito bem este lugar, mas Deller está facilitando para nós! – disse William. –
É uma armadilha, tenho certeza!
–
Com armadilha ou
não, temos que pegar esse desgraçado! – murmurou Chris, já seguindo em frente.
A equipe entrou numa área
ampla, extensa e bem iluminada, de teto alto e diâmetro largo, em formato de
cruz. À esquerda seguia um caminho com a inscrição “Setor Alfa” e uma porta no
final. Para a direita havia a inscrição “Setor Beta”, com outra porta. Por fim,
em frente havia uma entrada diferente das outras abaixo de uma placa onde
estava escrito “Elevador Central”.
–
Meu Deus! – surpreendeu-se
Sherry. – Este complexo deve ser gigantesco!
Receosos, os seis invasores
foram caminhando na direção da encruzilhada. O chão agora era de concreto, o
ambiente um pouco mais frio. Nenhum som a não ser os passos e a respiração.
Parecia mais uma tumba amaldiçoada do que um laboratório de pesquisas.
A marcha parou quando
Chris, indeciso, começou a olhar para os lados tentando imaginar onde poderiam
encontrar plantas do lugar e a localização de Deller. Ele devia estar numa sala
de controle ou coisa assim, de onde poderia comandar todo o complexo.
–
Para onde levará
esse elevador? – perguntou Jessen, quebrando o silêncio.
Nesse momento eles
perceberam que entre a entrada do elevador e a placa havia uma barra horizontal
que indicava o progresso do transporte através de luzes. Pelo número de espaços
era possível concluir que a descida era grande e demorada.
–
Vamos chamar o
elevador? – perguntou Jill, apontando para um painel ao lado da entrada.
–
Nós estamos em
seis – disse Chris. – Vamos nos dividir em três grupos. Eu e Jill podemos
investigar esse elevador. E vocês?
–
Eu e Linda
podemos ir pelo Setor Alfa! – propôs William.
–
OK. Então eu e
Sherry vamos pelo Setor Beta! – exclamou Bryan, checando a munição da Desert
Eagle.
Jill se aproximou do painel
e apertou um botão para chamar o elevador. Uma luz verde surgiu no primeiro
espaço da barra, da esquerda para a direita, enquanto era possível ouvir o som
do maquinário trabalhando. O elevador realmente demoraria a subir.
–
Não é incrível,
meus caros? – perguntou uma estranha voz, que não era de nenhum deles. – Esse
elevador desce metros e metros no subsolo até o resto do laboratório, que é
realmente profundo. Quem empreendeu esta obra colossal deve ter trabalhado anos
e anos...
–
Eu conheço essa
voz... – murmurou Chris.
–
Claro que você
conhece, Chris! Você me odeia, lembra? Nós nunca esquecemos a voz dos inimigos!
–
Não pode ser... –
desesperou-se Jill. – Wesker, é você?
–
Sim, minha cara.
Infelizmente minha forma física foi destruída na Amazônia há quatro anos atrás,
mas havia entregado a Emanuel Deller um disquete contendo um programa de
computador baseado no meu intelecto. Vocês estão falando com ele agora.
–
Então você virou
uma maldita máquina! – exclamou Chris, olhando para o teto, tentando descobrir
de onde vinha a voz.
–
Sim, e fui eu
quem facilitou a entrada de vocês aqui.
–
Mas por quê? –
perguntou William.
–
Eu sempre quis me
vingar dos S.T.A.R.S., desde o fracasso do meu plano na mansão de Spencer há
dez anos atrás. E ainda por cima meu rosto foi destruído na ilha Rockfort... Anseio
por uma revanche há tempos!
–
Você quase me
matou em Rockfort, lembra? – irritou-se o marido de Jill. – Não basta quase ter
provocado uma catástrofe há quatro anos, Wesker? Quantos ainda terão que pagar?
–
Quantos eu achar
necessário, Chris.
A segunda luz se acendeu na
barra sobre o elevador. Faltavam oito.
–
Vocês não
escaparão vivos deste lugar, Chris – riu Wesker. – Lutarão contra as piores
criações da Umbrella e da Biocom. Mas existem vários segredos neste
laboratório. Se conseguirem desvendar todos, obterão mais provas do que
pensavam. Mas não sairão vivos... Apenas eu e Deller conhecemos a saída, e não
poderão voltar pela superfície. Eu não deixarei.
–
Maldito! – gritou
Sherry.
–
Ora, ora... Se
não é Sherry Birkin, a única portadora viva do X-Virus. O vírus que nasceu com
Lisa Trevor, sendo dela coletado e injetado em Annete por William... Ele nunca
quis ter uma filha, era fácil desconfiar que tudo se tratava de um
experimento...
–
Cale a boca! –
exclamou a promotora, furiosa.
–
Bem, para começar
nossa festinha particular, vou abrir as portas dos setores Alfa e Beta...
E, subitamente, as portas
de ambos os setores se abriram. Para o desespero do grupo, dezenas de
mortos-vivos começaram a caminhar na direção da “comida”, cambaleantes, caindo
aos pedaços.
–
Se olharem por
onde vieram neste exato momento, verão os zumbis da superfície chegando
perto...
As palavras de Wesker foram
confirmadas quando mais zumbis entraram pela porta que levava ao caminho para a
superfície. Estavam cercados.
–
Como o elevador
demorará a subir, serão devorados pelos zumbis em poucos instantes – riu
Wesker. – Tentem resistir até o transporte chegar, mas não será fácil. Se
conseguirem escapar eu enviarei mais perigos!
E a voz do traidor do
S.T.A.R.S. não disse mais nada. Agora os seis intrusos olhavam para os lados,
vendo os zumbis babando e gemendo, seguindo na direção deles, enquanto a quarta
luz se acendia na barra do elevador. Como sobreviveriam?
Capítulo 5
A
vingança de Wesker.
Realmente o grupo estava
enrascado. Havia dezenas de zumbis caminhando na direção deles pelas três
saídas disponíveis, e estavam próximos demais para serem usadas as granadas.
Para piorar, o elevador não chegaria tão cedo.
–
E agora? –
desesperou-se Sherry.
A resposta veio quando
Chris mirou num zumbi e disparou, fazendo explodir sua cabeça. Teriam que
resistir até o elevador subir, eles não tinham outra opção.
Os demais também começaram
a disparar, fazendo os mortos-vivos caírem. Jill partiu dois deles ao meio
atirando em leque com a Uzi, porém suas metades de cima continuaram a caminho
deles, rastejando. Linda percebeu e finalizou com uma bela rajada, aniquilando
aquela parte da ameaça.
Bryan mirou por um instante
e disparou contra a cabeça de uma zumbi, que parecia ter sido um dia uma bela
pesquisadora. Atingida entre os olhos, a mutante cambaleou para trás e caiu de
bruços.
William aniquilou três
mortos-vivos rapidamente, mas havia um grande número deles ali, se aproximando
cada vez mais. Sherry arrancou, com um belo tiro, o braço de um zumbi com as
costelas à mostra. Chris e Linda derrubaram mais cinco mortos-vivos que se
aproximavam pela direita. Na barra sobre o elevador, seis luzes acesas. Mais
zumbis surgiam vindos dos setores Alfa e Beta. Pelo visto centenas de
pesquisadores trabalhavam naquele lugar.
–
Ah, socorro!
O grito veio de Linda, que
fora agarrada pelos ombros por um morto-vivo baleado por ela. Ele vomitou ácido
próximo aos pés de Malone, sendo finalmente aniquilado por um disparo certeiro
de William.
–
Obrigada, amor! –
sorriu a ruiva.
–
Fique viva! – foi
a resposta de McDouglas.
Jill cobriu Chris enquanto
este colocava mais munição na arma. Com a Uzi, a ex-integrante do S.T.A.R.S.
estourou a cabeça de dois zumbis, cerrando os dentes. Antes de também trocar o
pente da arma, ajeitou a boina azul sobre a cabeça e auxiliou Bryan a dar cabo
de mais dois mutantes com a munição restante.
Sherry tirou de ação mais
um zumbi, enquanto a sétima luz se acendia na barra sobre o elevador.
–
Faltam três! –
exclamou a promotora, esperançosa.
Porém, mais criaturas se
aproximavam e eles não podiam gastar muita munição, pois ainda teriam que
explorar todo aquele complexo e provavelmente encontrariam mutantes mais
fortes. Chris propôs:
–
Vamos atirar na
cabeça para poupar munição, OK?
Todos assentiram balançando
a cabeça. E a carnificina continuou, com Chris e Jill cobrindo o caminho para o
Setor Alfa, William e Linda a passagem para o Beta, e Bryan mais Sherry
aniquilando os zumbis que vinham da superfície.
–
Eles vão acabar
conseguindo! – preocupou-se Deller.
–
Não se preocupe –
disse Wesker. – Se eles escaparem, encontrarão perigos ainda maiores!
–
E eu poderei
soltar meus titãs...
–
Na hora certa,
caro Deller!
A nona luz se acendeu na
barra sobre o elevador enquanto os seis invasores continuavam resistindo,
tirando grande número de zumbis de ação, enquanto mais deles surgiam dos
setores Alfa e Beta e da superfície. Não sabiam por quanto tempo poderiam se
defender.
–
Esse maldito
elevador não chega! – exclamou Bryan.
–
É, e a munição do
meu rifle está no fim! – preocupou-se William.
Chris, mordendo os lábios,
estourou a cabeça de um morto-vivo e olhou para a esposa. Esta, extremamente
ágil, derrubou três mutantes de uma só vez. Por fim o ex-membro do S.T.A.R.S.
disse:
–
Precisamos poupar
munição, e esses zumbis não param de aparecer!
–
Imagine só o que
encontraremos nesse maldito laboratório! – exclamou Linda.
–
Chegou, ele
chegou!
Todos foram tomados por
inesperada felicidade quando Bryan concluiu a frase. Atrás deles a barra estava
com as dez luzes acesas, enquanto as portas do elevador se abriam. Os seis
corajosos intrusos correram para dentro dele, perseguidos pelos terríveis
zumbis.
–
Onde está o botão
para que ele desça? – indagou Sherry, enquanto os mortos-vivos se aproximavam
da entrada, gemendo.
–
Aqui! – exclamou
Jill, dando um soco num interruptor verde.
As portas do elevador se
fecharam, barrando o progresso dos zumbis em seu momento crítico, e o
transporte começou a descer após um solavanco. Este era todo metálico e amplo,
com cinco metros de comprimento por quatro de largura e três de altura. Havia
uma pilha de engradados num dos cantos, todos com o símbolo da Biocom: uma
seringa injetando algo num coração.
Após recuperarem o fôlego
enquanto ouviam o som do maquinário trabalhando, todos acharam melhor decidir o
que fazer, pois a descida não seria breve e eles teriam tempo suficiente antes
de encontrarem mais perigos. Chris começou:
–
Bem, acabamos
todos indo pelo mesmo caminho. O que faremos lá embaixo?
Essa pergunta era
extremamente confusa. Seria melhor perguntar o que eles encontrariam lá embaixo,
mas mesmo assim essa nova questão era tão difícil quanto a primeira.
–
Nós precisamos
vasculhar este lugar procurando pistas e esse maldito Deller! – disse William.
– Se quiserem, eu e Linda podemos subir de volta, passar pelos zumbis e
investigar aqueles outros caminhos!
–
Isso se Wesker
permitir... – murmurou Jill.
De fato, todos ficaram
chocados quando souberam da nova forma do terrível Albert Wesker,
principalmente Chris, Jill e Sherry, que conheciam melhor aquele miserável.
Agora ele era uma máquina, um sistema de computador com poderes quase
ilimitados, e faria de tudo para que nunca mais vissem a luz do sol.
–
Se ao menos
pudéssemos enganar aquele maldito... – murmurou Sherry.
–
Não há como me
enganar, senhorita Birkin – disse a voz de Wesker ganhando o interior do
elevador, com aparente ironia. – Sou como um deus dentro deste complexo:
onipresente e onisciente. Tudo que vocês fizerem ou disserem chegará ao meu
conhecimento!
–
Wesker, você é um
sádico! – exclamou Chris, com raiva. – Se quer vingança, mate-nos de uma vez!
Mas não, você sempre tem que fazer esses malditos joguinhos! Vem sendo assim
desde a mansão de Spencer!
–
De fato, eu
poderia muito bem liberar gás tóxico dentro desse elevador a qualquer momento
se quisesse apenas matar vocês, mas esse não é meu objetivo. Eu quero que vocês
sofram, tenham suas peles rasgadas e suas artérias rompidas pelos mutantes. Além
disso, Deller reserva algo grande para vocês. O espetáculo está só começando!
–
Que espetáculo? –
perguntou Bryan.
Wesker não respondeu.
Novamente o som do maquinário tomou o ambiente, enquanto todos olhavam
assustados uns para os outros.
Adams entrou apressado em
sua sala de operações. Com uma xícara de café numa mão e um monte de papéis na
outra, o agente do FBI livrou-se do que carregava e começou a digitar
rapidamente em seu computador, percorrendo os nomes que apareciam no monitor
com extrema rapidez.
–
A Biocom vai
mandar alguém para lá... – murmurou o federal. – Ela sempre manda!
O agente referia-se ao fato
da Biocom estar em desvantagem em relação ao que ocorria na Sibéria e sempre
que isso acontecia, ela enviava um ou mais de seus agentes para o lugar
tentando reverter a situação, assim como a Umbrella. A tarefa agora era
descobrir quem seria o obstáculo tanto no caminho dos invasores quanto no plano
de Deller.
O elevador parou com um
estrondo e suas portas abriram-se imediatamente. Chris e William seguiram na
frente, apontando os rifles. Logo depois os outros quatro invasores saíram do
transporte, receosos.
O lugar era bem parecido
com aquele no qual o grupo lutara com os zumbis. Havia dois caminhos na frente
do elevador: um para a esquerda, com a inscrição “Setor Gama”, e outro para a
direita, “Setor Ômega”. Nenhum sinal de monstros.
–
Oh, não! –
suspirou Linda. – Outra bifurcação!
Os seis olharam ao redor
por alguns instantes pensando no que fazer, até que William disse:
–
Chris, eu e Linda
podemos subir de volta para investigar!
–
Não, William... –
murmurou Redfield. – É muito perigoso...
–
Deixe-nos tentar,
Chris! – pediu Linda. – Nós podemos passar por aqueles zumbis!
–
Amor, seria
melhor mesmo que nos dividíssemos para procurar pistas – disse Jill para o
marido. – Mas, nesse caso, é necessário que mais alguém suba com eles para dar
auxílio!
–
Eu posso ir! –
ofereceu-se Bryan.
–
Eu também! –
completou Sherry.
–
OK, OK... – disse
Chris num murmúrio. – Vocês podem subir, mas, por favor, tenham cuidado!
Lembrem-se de manter contato pelo rádio!
–
Após
investigarmos, nós voltaremos a descer! – exclamou William.
–
Eu e Chris
daremos uma olhada por aqui! – sorriu Jill. – Bem, boa sorte para vocês!
William, Linda, Bryan e
Sherry voltaram para o elevador, cujas portas se fecharam pouco depois. O
maquinário voltou a trabalhar, enquanto Chris e Jill se decidiam para onde ir.
–
Esquerda ou
direita? – indagou Redfield.
–
Direita! –
respondeu Jill.
E seguiram na direção do
Setor Ômega.
Enquanto o elevador subia,
Sherry perguntou a Bryan com um sorriso:
–
Você é casado,
Bryan?
–
Não, sou
solteiro. Nunca tive muita sorte no amor. Já tive várias namoradas, mas nenhuma
realmente despertou minha afeição.
–
Eu também sou
assim...
Seguiram-se alguns
instantes de silêncio. Súbito, uma voz tomou o ambiente:
–
Então o grupo se
separou novamente... Morrerão de qualquer maneira, juntos ou não!
–
É você, Wesker? –
perguntou William.
–
Sim. Eu não
conheço você, mas os S.T.A.R.S. e Sherry devem ter contado a você sobre mim,
não?
–
É verdade, e
posso concluir que estavam certos. Você é mesmo um idiota!
–
Meça suas
palavras. Neste momento sua vida depende de minhas ações. Insultar-me pode ter
sérias conseqüências.
–
Wesker, por que
tudo isso? – perguntou Sherry, com ternura na voz.
–
Eu terei minha
vingança. Ninguém pode mudar isso. E não se preocupem, vocês não estão sozinhos
neste complexo.
As últimas palavras de
Wesker encheram de dúvidas as mentes dos quatro intrusos. O que ele queria
dizer?
Após cruzarem a porta do
Setor Ômega, que se abriu sozinha, Chris e Jill ganharam um estreito corredor
cinza com três portas: uma do lado esquerdo, outra à direita e a última no
final.
–
Para onde, amor?
– perguntou Chris, sempre indeciso.
Jill esclareceu a dúvida do
marido quando se aproximou da porta do lado esquerdo. Esta também se abriu
sozinha, revelando um ambiente com vários armários de metal e mesas, contendo
grandes pilhas de pastas e papéis. Parecia ser uma espécie de sala de arquivos.
A mulher de Chris entrou
após certificar-se que não havia nenhum mutante no local, seguida pelo marido.
A ex-integrante do S.T.A.R.S. disse, enquanto examinava uma gaveta de arquivos:
–
Este lugar deve
estar cheio de provas! Precisamos encontrá-las, Chris!
Redfield percorreu toda a
sala com o olhar, que estava satisfatoriamente em ordem, e se aproximou de uma
mesa com vários documentos empilhados. Examinando alguns, viu que eram em sua
maioria apenas burocracia da Biocom, sem nada que fosse realmente incriminador.
Enquanto olhava para uma xícara fazia de café, Chris ouviu a mulher gritar:
–
Oh, meu Deus!
Chris!
O ex-membro do S.T.A.R.S.
virou-se imediatamente na direção da mulher, apontando sua arma. Não era,
porém, nenhum zumbi ou coisa do tipo. Jill havia aberto um armário e dentro
descobriu o cadáver de um cientista, com uma pistola numa das mãos, uma folha
de papel na outra e um buraco na testa.
–
Minha nossa... –
murmurou Chris. – Que deprimente!
Jill, enquanto o marido
examinava o corpo, pegou a folha de papel que o morto tinha numa das mãos. Era
uma espécie de carta, que leu em voz alta:
De Norman Ervin, a quem possa interessar.
Não há alternativa. O laboratório foi tomado por esses
malditos zumbis e outros mutantes estão começando a escapar. Nenhum lugar é
seguro.
É difícil dizer como essa epidemia começou, mas tenho
quase certeza que foi proposital. E Deller é o principal suspeito, pois está
trancado na sala de controle há dias.
Eu não quero me tornar um deles. É triste demais. Por
isso resolvi acabar com minha vida antes que seja contaminado. Escolhi esta
sala porque ela é tranqüila e isolada, meu cadáver não se tornará comida dos
mortos-vivos tão cedo. Que Deus e aqueles que me amam me perdoem.
Adeus, mundo insano!
A mulher de Chris guardou
consigo a carta, concluindo que dificilmente encontrariam algo útil ali, apesar
da abundância de arquivos.
–
Vamos tentar
aquela outra porta? – sugeriu Jill.
–
OK, vamos lá!
E deixaram a sala, ganhando
novamente o corredor.
Assim que o elevador parou
após a longa subida, os quatro ocupantes apontaram as armas na direção da saída
deste, que se abriu. Porém, nenhum zumbi veio na direção do grupo de invasores,
fato que foi estranhado por estes.
–
Mas o quê? –
exclamou William, caminhando para fora.
Os demais o seguiram, e
viram apenas corpos de zumbis por todos os lados, mas nenhum morto-vivo em
ativa. Alguém havia limpado a área e não fora nenhum deles.
–
Alguém passou por
aqui... – murmurou Sherry.
–
Deller? – indagou
Linda.
William apenas continuou
examinando o lugar, tentando raciocinar. Logo disse:
–
Vamos nos
dividir! Eu e Linda vamos para o Setor Alfa e Bryan mais Sherry investigam o
Beta. Tudo bem?
–
OK – respondeu
Bryan, olhando para um zumbi caído, sem cabeça.
Ambos os grupos se
separaram, caminhando cada um na direção de seu respectivo destino. Cruzaram
assim as portas dos setores, que se abriram automaticamente, e seguiram em
frente, pensando em quem poderia ter aniquilado os mutantes.
–
Ele está aqui! –
exclamou Deller, olhando histérico para um dos monitores. – A Biocom o mandou!
E agora?
–
Nosso novo
visitante não será problema – riu o Wesker holográfico. – Convencerei os
intrusos a participarem de nosso “joguinho”!
–
Espero que ainda
esteja no controle de tudo, Wesker...
–
Albert Wesker
sempre está no controle! Ele nunca perde o controle!
Assim como em vida, o novo
Wesker odiava quando alguém subestimava suas habilidades de planejamento e
liderança.
A outra sala estava cheia
de engradados de ferro e caixas de papelão, era uma espécie de depósito. Logo
que entraram, Chris e Jill ouviram o som de passos leves e curtos sobre o chão
de metal.
–
Cães... – disse
Chris, voz baixa.
Andando cautelosamente, o
casal se dividiu, cada um indo para o lado de uma grande pilha de caixas. Logo
os passos tornaram-se mais rápidos, e foi possível ouvir um breve rosnar.
Chris foi o primeiro que
viu um dos três cães mutantes, com pouca pele e mandíbula exposta, correndo em
sua direção. Rapidamente mirou e disparou, as balas partindo o crânio do
animal. Menos um.
Jill confrontou-se com mais
um, que, num salto, só não agarrou o braço da heroína porque esta se esquivou a
tempo. Virando-se, a mulher de Chris disparou uma bela rajada com a Uzi,
fazendo o cão voar longe ao ser atingido. Após um breve choro, o monstro parou
de respirar, caído sobre uma poça de seu sangue.
Ainda faltava um. Chris e
Jill podiam ouvir seu rosnado, porém não conseguiam vê-lo. Logo o som das patas
correndo tomou o ambiente, e Redfield gritou, sem mais nem menos:
–
Jill, abaixe-se!
A mulher obedeceu,
jogando-se no chão. O cão mutante saltou por cima de seu corpo, e se ela
estivesse de pé teria seu pescoço partido pelos dentes da fera. Chris aniquilou
a criatura, enquanto Jill se levantava, assustada.
–
Obrigada, amor!
–
Não foi nada,
querida!
E começaram a vasculhar o
depósito em busca de algo útil, até que Chris gritou, num dos cantos:
–
Hei, Jill! Venha
ver isto!
A ex-integrante do
S.T.A.R.S. correu até o marido, que estava abaixado ao lado de algumas caixas
de papelão. Assim que viu o que elas continham, Jill sorriu.
–
Essa munição será
muito útil! – exclamou Chris. – Vamos levar!
E o casal começou a
apoderar-se dos bem-vindos suprimentos. As coisas estavam começando a dar
certo.
Logo que William e Linda
ganharam o Setor Alfa, encontraram três portas: uma à esquerda, com a inscrição
“Sala de Força A”, outra à direita, arrombada, que não era eletrônica e possuía
maçaneta, com a inscrição “Depósito”, e por fim uma logo em frente, no extremo
do corredor, com a inscrição “Enfermaria, Dormitórios, Refeitório”.
–
Este setor deve
ser onde os pesquisadores dormiam e se alimentavam – concluiu Linda. – As salas
de pesquisa devem estar no Beta ou lá embaixo.
–
De qualquer
maneira, temos que investigar este lugar! – exclamou McDouglas, seguindo para o
fim do corredor.
Como todas as outras
portas, aquela também se abriu sozinha, revelando um novo corredor em forma de
“T”. Havia diversas portas com números ao longo da travessia, como “001” e
“002”, levando a crer que eram dormitórios. No caminho para a esquerda do “T”
havia uma seta com a inscrição “Refeitório” e uma entrada no final; na passagem
para a direita, “Enfermaria, Dormitórios”, com outra porta.
–
São tantas
portas! – disse Linda. – Por onde começamos?
–
Quieta! –
exclamou William, parando de andar.
O casal calou-se, atento e
apreensivo, e um som diferente tomou o corredor. Era estranho, parecia uma
espécie de passo, mas era totalmente anormal, uma espécie de clique lento e
doentio. Seguiu-se uma espécie de gemido longo, porém baixo, diferente dos
zumbis, como alguém agonizando. Os passos foram retomados, mas nada surgiu na
frente deles.
–
Que estranho... –
murmurou William.
–
Amor, olhe para
cima! – desesperou-se Malone, tomada pelo medo.
Aquela coisa realmente
deixou William perturbado, e olhe que ele já havia enfrentado mutantes que
sugavam cérebros! O mutante estava pendurado no teto feito uma aranha, não
tinha pele e seu cérebro era exposto. Suas garras eram afiadíssimas e, quando
parou sobre o casal, a criatura abriu a boca e soltou mais um daqueles gemidos
esquisitos, deixando cair uma baba viscosa enquanto desenrolava sua língua
enorme. Nojento.
–
Fique parada... –
disse McDouglas, voz baixa.
–
É o tal
lambedor... – murmurou Linda, lembrando-se da explicação dos S.T.A.R.S. em
Vladivostok.
De repente, a criatura
desprendeu-se do teto, atingindo o chão de quatro, com extrema perfeição, e
lançou sua enorme língua na direção de Malone. Esta saltou para trás, ágil, e a
coisa pegajosa passou a poucos centímetros de seu tórax. Porém, a arma da jovem
escapou de sua mão, escorregando uma boa distância no chão.
–
William! – gritou
Linda, como que por reflexo.
–
É pra já!
McDouglas disparou uma
rajada contra a criatura, que, sangrando, virou-se em sua direção. Porém,
William dera azar: esquecera do conselho de atirar sempre na cabeça e agora
estava sem balas para o rifle!
–
Querido!
O irmão de Thomas McDouglas
ouviu trêmulo a voz da namorada, enquanto recuava pelo corredor na direção da
bifurcação, fitando o terrível monstro. Ele estava ferido e por isso em certa
desvantagem, mas até William pegar a pistola, não teria tempo de atirar, pois o
mutante sentiria a movimentação. Precisava agir rapidamente antes que perdesse
seu precioso pescoço.
Nesse momento William viu
sua salvação bem ao seu lado, numa das paredes do corredor: um vidro de
emergência para incêndios. Dentro havia um extintor e um machado, sendo que o
desesperado jovem interessou-se pelo segundo objeto.
Rapidamente, William
quebrou o vidro com um soco e apanhou o machado, antes que o lambedor pudesse
reagir...
–
Morre, seu filho
da mãe!
McDouglas afundou o machado
no cérebro da criatura, fazendo jorrar sangue e um líquido amarelado. O mutante
soltou um último e fraco gemido, contorcendo-se no chão. Linda correu até o
namorado e o envolveu num forte abraço.
–
Pensei que você
não fosse conseguir... – sorriu a ruiva.
–
Ora, ainda não
conhece a família McDouglas?
Os dois riram por um
instante. William equipou-se com sua outra arma, uma pistola 9mm, enquanto
Linda recuperava sua Uzi, perguntando:
–
Para onde, amor?
–
Vamos dar uma
olhada nesse refeitório e na enfermaria primeiro! – respondeu William. – Depois
podemos dar uma olhada nesses dormitórios, OK?
–
Certo!
E seguiram pela esquerda na
bifurcação, as portas sempre se abrindo sozinhas. Maldito Wesker.
Bryan e Sherry entraram
cautelosamente no primeiro corredor do Setor Beta, com três portas situadas
todas numa das paredes. Na primeira havia a inscrição “Sala de Força B”. Na
segunda, “Depósito” e, finalmente, na terceira, “Salas de Pesquisa, Sala de
Experimentos, Sala de Conferências, Biblioteca”.
–
Terceira porta? –
sugeriu Birkin, num sorriso.
–
OK!
Os dois caminharam na
direção da terceira entrada, sorrindo um para o outro. Algo estava surgindo
entre eles, uma espécie de encantamento, apesar da situação e local impróprios.
E os dois estavam adorando.
Logo que cruzaram a porta
os dois intrusos passaram por uma espécie de sala de descontaminação, com
chuveiros, mas tudo estava desligado. Depois ganharam um novo corredor, com
apenas duas portas. Na primeira estava escrito “Sala de Química” e na outra,
“Salas de Pesquisa, Sala de Experimentos, Sala de Conferências, Biblioteca”.
–
É melhor
investigarmos as salas de pesquisa! – disse Bryan. – Assim saberemos o que
esses açougueiros andaram fazendo por aqui!
–
Vamos lá!
Mas algo os deteve, e era
um gemido. A dupla se virou na direção do som e viu um zumbi se levantar do
outro lado do corredor, num dos cantos, cambaleando até eles. Usava óculos e
jaleco, estando todo ensangüentado. Pobre sujeito.
–
Você ou eu? –
perguntou Jessen, já apontando sua Desert Eagle para o morto-vivo.
–
Dê-me esta honra!
– riu Sherry.
Porém, antes que a
promotora pudesse atirar, algo totalmente inesperado ocorreu. A grade de um duto
de ventilação no teto veio ao chão, perto do zumbi, e quase que simultaneamente
três estranhas criaturas saltaram sobre o morto-vivo, gritando alto. Tinham
cerca de um metro de altura, membros desproporcionais, olhos grandes e grande
cabeleira, sem contar os dentes afiados. Logo elas rasgaram o zumbi ao meio,
fazendo grande algazarra, mastigando sua carne infectada. Bryan e Sherry
assistiam tudo atônitos.
–
São aqueles
“bebês”, Sherry! – concluiu Bryan.
–
Vamos sair logo
daqui, antes que a refeição deles acabe e eles nos vejam!
A dupla seguiu pela segunda
porta, enquanto os Hermes continuavam esquartejando o cadáver do cientista
mutante.
No Setor Ômega, Chris e
Jill haviam acabado de cruzar a terceira porta do corredor, entrando numa sala
cheia de mesas com computadores e, felizmente, nenhum monstro. Havia outras
duas portas, cada uma num canto do lugar, ao lado de armários de metal. O casal
começou a pensar no que aquela sala seria.
–
Jill, por favor,
dê uma olhada nos armários – disse Chris. – Eu vou investigar essas mesas e...
Subitamente, as luzes da
sala se apagaram, fazendo os dois antigos membros do S.T.A.R.S. pegarem
imediatamente suas armas. Porém, não surgiu nenhum mutante. Dois canhões de luz
surgiram no teto, projetando feixes azuis sobre uma espécie de plataforma
hexagonal. Logo um holograma tomou forma, e era humana: Albert Wesker.
–
Seu filho da mãe!
– exclamou Chris, apontando o rifle para o holograma.
–
Ora, Chris! – riu
Wesker. – Não me faça rir! Agora eu sou um holograma! Você não pode me matar!
–
É verdade mesmo,
amor... – murmurou Jill, se aproximando do inimigo holográfico, impressionada
com a perfeição da imagem.
–
Você está
impressionada, Jill? – sorriu Wesker. – Este é o meu novo corpo. Ele não pode
ser destruído nem por vocês, nem por ninguém!
O casal admirou Wesker por
um instante, tomado por rancor sem igual. O terrível capitão do S.T.A.R.S., que
lhes havia causado tantas adversidades, estava novamente na frente deles,
imponente.
–
O que você quer?
– perguntou Chris.
–
Bem, eu queria
que vocês vissem meu novo corpo e também soubessem que seus amigos estão lá em
cima, enfrentando mais perigos que vocês. Mas também há outro motivo.
–
E que motivo é
esse? – indagou Jill, irritada.
–
A Biocom soube
que Deller tomou o laboratório infectando toda a equipe de pesquisadores com o
T-Virus, coisa que não agradou a companhia nem um pouco. Mas eles são como a
Umbrella. Não aceitam a derrota tão facilmente, e por isso enviaram um de seus
homens.
–
Um agente? –
perguntou Chris.
–
Sim, um agente. A
missão dele deve ser salvar o máximo possível da pesquisa e mandar Deller para
o inferno, acho. Mas eu não quero que isso aconteça, muito menos Deller.
–
E nós? O que temos
a ver com isso?
–
Esse agente já
está no complexo, porém ele está usando algum tipo de aparelho bloqueador que
impossibilita que meus sistemas o detectem aqui embaixo. As câmeras podem até
vê-lo, mas ele sabe muito bem onde elas estão posicionadas e até agora eu
apenas consegui vê-lo descendo as escadas, vindo da superfície.
–
E quem é esse
agente? – perguntou Jill.
–
Eu não sei. A
câmera não conseguiu focalizar seu rosto. E é aí que vocês entram. Se me
informarem quem é esse agente da Biocom, se livrando dele em seguida, eu lhes
direi como fazer para acessar a rota de fuga subterrânea.
–
Então você quer
que nós descubramos quem a Biocom mandou e em seguida, o matamos! – exclamou
Chris, nervoso. – Que formidável, Wesker!
–
Eu detectei
sinais de sarcasmo em sua voz, Chris! – disse o Wesker azul.
–
Você é um
nojento, Wesker! Agora quer fazer chantagem, sendo que se não matarmos esse
agente morreremos neste lugar! Esses seus joguinhos são patéticos, você não
presta!
–
Bem, a escolha é
de vocês. Ou façam o que pedi ou ficarão aqui, e eu ainda estou sendo bem
generoso! Não se arrependam depois!
–
Wesker, você pode
ao menos nos informar onde estamos? – pediu Jill.
–
Esta sala
funcionava como uma espécie de central de comunicação e armazenamento de dados.
Ainda há muito para explorarem! Por enquanto, até logo, e pensem na minha
proposta!
O holograma desapareceu, ao
mesmo tempo em que as luzes se acenderam. Chris e Jill se fitaram nos olhos por
um instante, pensativos. Estavam mesmo na palma da mão do antigo inimigo.
O refeitório estava vazio e
revirado. Mesas e cadeiras viradas, sangue no chão... A cozinha parecia estar
ainda pior, mas William e Linda não chegaram a entrar nela. Por sorte, nenhum
mutante.
–
Vamos investigar
outro lugar! – exclamou McDouglas. – Não encontraremos nada útil aqui!
–
Hei, espere!
Linda caminhou até um dos
cantos do refeitório, onde havia um papel jogado no chão. Apanhando-o, ela leu
o que estava escrito em voz alta:
Ordens para a Unidade Alfa – Altamente Confidencial.
Não é possível mais adiar. Emanuel Deller traiu nossa
confiança e uma operação deve ser realizada para reaver nossas pesquisas e
eliminá-lo. As seguintes ordens devem ser cumpridas no complexo subterrâneo:
1. Encontrar os
relatórios de pesquisa feitos nos últimos seis meses. Eles provavelmente estarão
no Setor Beta.
2. Copiar os
dados dos mutantes num disquete usando o computador da Sala de Experimentos,
Setor Beta.
3. Eliminar
Emanuel Deller, acionar a autodestruição e escapar pela rota de fuga
subterrânea.
Grande cuidado deve ser tomado em relação aos
mutantes, pois além dos “zumbis” e outras aberrações criadas pelo T-Virus,
Deller soltou algumas de nossas criações pelo laboratório. Aplique tudo que
aprendeu no treinamento quando confrontar uma dessas criaturas.
Jack Zenan, Chefe do Setor de Segurança da Biocom,
1/10/08.
–
Quem é Unidade
Alfa? – estranhou William.
–
Não sei, mas
creio que cedo ou tarde iremos descobrir!
E o casal deixou o
refeitório.
Capítulo 6
Muitos
perigos.
Após cruzarem um corredor
com várias portas, Bryan e Sherry entraram na “Sala de Pesquisa A”. Ela era bem
iluminada e ampla, com várias mesas cheias de computadores, tubos de ensaio,
microscópios, entre outras coisas usadas pelos biólogos.
–
Então é aqui que
eles trabalhavam... – murmurou a promotora.
–
Sherry, atrás de
você!
Ao ouvir Bryan, Birkin
virou-se e viu um zumbi de jaleco, babando ácido, com parte do cérebro exposto.
Cambaleava rapidamente em sua direção, vindo de um dos cantos da sala, braços
esticados como um sonâmbulo.
Após soltar um gemido, a
criatura foi eliminada por Jessen com um disparo certeiro na cabeça, por pouco
não agarrando Sherry, que ficou sem fôlego.
–
Você está bem? –
perguntou o dentista.
–
Sim, foi só um
susto! Obrigada, Bryan!
–
Bem, é melhor
explorarmos esta sala! Veja, ali no canto há um armário! Deve haver algo dentro
dele!
–
Vou averiguar!
Deller balançou a cabeça
quando Bryan eliminou Harry Smith, responsável pela sala de experimentos, agora
um zumbi horrendo. Atento aos monitores, o antigo responsável pela White
Umbrella verificou as posições de todos os invasores: Chris e Jill ainda
estavam na sala onde conversaram com Wesker, procurando algum papel importante.
William e Linda estavam se dirigindo para a enfermaria, enquanto Bryan e Sherry
vasculhavam a primeira sala de pesquisa. Mas e a Unidade Alfa? Nem Wesker sabia
onde esse intruso estava, e isso assustava Deller enormemente.
–
Chegou a hora,
Wesker! – exclamou Emanuel, subitamente. – Eles estão indo longe demais!
–
Eu também acho,
caro Deller... – disse o holograma, pensativo. – Pensei que ofereceriam menos
resistência aos mutantes. É melhor agir rápido!
–
Vou soltar meus
gladiadores! Nada poderá detê-los!
–
Como fará isso?
–
Libertarei um de
cada vez, ou eles acabarão se matando logo de cara na sala de experimentos!
Alguma preferência?
–
Mande nosso bom e
velho Matt!
–
Isto vai ser mais
divertido que videogame!
Rapidamente, Deller acessou
o computador central e entrou no terminal da sala de experimentos. A partir
dele poderia soltar os mutantes ainda adormecidos em suas câmaras.
Digitando no teclado como
um louco, Deller inseriu algumas senhas, fazendo surgir uma barra de progresso
na tela.
–
O líquido da
câmara está sendo drenado, é possível ver por aquele monitor! – exclamou o
biólogo, apontando para uma das telas no painel de segurança.
–
Sim, de fato!
A câmera de segurança na
sala de experimentos registrou o feito, enquanto Deller prosseguia. Após mais
alguns comandos e um aviso informando que aquela operação era extremamente
perigosa, o chefe do complexo arrancou da criatura os tubos de nutrição.
Despreguiçando-se na cadeira, Deller disse, com os braços cruzados atrás da
cabeça:
–
Aproveite o show,
caro Wesker!
No monitor da sala de
experimentos, foi possível ver uma tempestade de vidro saindo de uma das
câmaras. Imediatamente surgiu um alto mutante nu, de enrugada pele bege, que,
após olhar para os lados por um instante, soltou um forte e terrível urro, como
cem homens agonizando ao mesmo tempo.
–
Você ouviu isso?
Sherry estava assustada.
Ela e Bryan estavam lendo alguns inúteis papéis encontrados no armário quando
ouviram aquele urro horrível, que definitivamente não era de um zumbi.
–
Mas que diabos? –
exclamou Jessen, tão confuso quanto a jovem.
Birkin, tomada pelo medo,
acabou abraçando Bryan buscando proteção, prestes a chorar sobre seu ombro.
Aquele momento lembrava quando ela, aos cinco anos de idade, fez o mesmo com a
mãe ao amedrontar-se perante um cão feroz.
–
Acalme-se,
Sherry! – sorriu Bryan. – Vamos apenas sair daqui, OK? Acho melhor nos
juntarmos a William e Linda, eles já devem ter encontrado algo!
–
Você está certo...
– disse Birkin, recompondo-se. – Mas, mudando de assunto, veja o que eu
encontrei!
A promotora entregou uma
prancheta a Bryan, que continha uma espécie de relatório, lido atentamente pelo
dentista:
Relatório de Armas Bio-Orgânicas do Exército Vermelho,
laboratório de Vladivostok, 6/9/88.
Desejo relatar, por meio deste relatório, nosso
progresso no desenvolvimento de uma arma superior às usadas pelo Ocidente.
Nosso trabalho começou há dois anos, quando do
acidente em Chernobyl. Após testes com diversas amostras de formas de vida
encontradas na área contaminada pela radiação, uma em especial chamou nossa
atenção: a sanguessuga.
Esse animal sofreu uma significativa mutação em sua
estrutura genética. Cultivadas em laboratório, as sanguessugas de Chernobyl
produziram, através de uma secreção roxa, um novo tipo de parasita, que
batizamos como “Nemesis”, a deusa grega da Justiça. Essa forma de vida, de
alguma forma, altera o DNA dos hospedeiros fazendo com que desenvolvam
características mutantes favoráveis aos nossos propósitos, de acordo com nossos
últimos testes. É a oportunidade que temos para criar supersoldados.
Porém, há um revés. A ação de Nemesis em 90% das
cobaias deu-se de forma extremamente lenta e insatisfatória, criando fraquezas
e deformidades que não podem se manifestar. Estamos trabalhando para corrigir
esses defeitos, e nesse ponto entra a questão que gostaria de tratar com maior
destaque.
Uma empresa farmacêutica do Ocidente, chamada Umbrella
Inc., ofereceu uma satisfatória quantia em dinheiro para que lhe vendamos o
“Projeto Nemesis”. Eu recomendo que o Conselho pense bem nessa possibilidade,
pois a Perestroika há tempos vem reduzindo nossas verbas e a Umbrella possui
meios para corrigir as falhas no projeto, que seria transferido para alguma
filial da empresa na Europa. Nós continuaríamos participando das pesquisas e
seríamos beneficiados pelos resultados. É importante lembrar que o campo das
armas biológicas é mais promissor que o das nucleares.
Atenciosamente,
Nicholai Zinoviev, Chefe de
Pesquisas.
–
Foram os
soviéticos que iniciaram o Projeto Nemesis – concluiu Sherry. – A Umbrella
simplesmente o comprou, aprimorando-o!
–
Bem
interessante... – murmurou Bryan, enquanto guardava consigo o relatório.
Súbito, um novo urro,
parecido com o anterior, mas agora mais alto e próximo. Seja lá o que fosse,
estava indo na direção deles.
–
E agora? –
exclamou Sherry.
–
Rápido, vamos nos
abaixar atrás de uma dessas mesas!
A dupla rapidamente rolou
para trás de uma mesa de pesquisas, olhando apreensiva para a entrada da sala,
cabeças camufladas pelos inúmeros aparelhos e utensílios.
De repente, algo entrou
correndo no lugar, quase derrubando a porta. Era alto, pele bege enrugada e
pastosa, vestindo uma calça preta e um jaleco rasgado. O pior era o rosto: não
possuía olho direito (na perspectiva do monstro), tendo no lugar um remendo
malfeito. O outro olho era apenas um globo branco, sem vida alguma. Também não
tinha cabelo, e havia algo como tubos roxos enfiados em suas costas. A boca era
grande e feia, a coisa não tinha lábios e a mandíbula estava exposta. Numa das
mãos tinha algo como tentáculos roxos, que pareciam mais enguias agitadas. Resumindo,
um mutante que parecia ter saído do inferno.
Sherry observava os
movimentos da criatura com lágrimas nos olhos. Bryan, igualmente impressionado,
logo se viu tremendo. O monstro caminhou alguns passos, parando no centro da
sala. Por sorte não sabia que estava sendo observado.
Sem mais nem menos, o
mutante exclamou, em algo que parecia mais um urro:
–
S.T.A.R.S.!
Em seguida virou uma mesa
com um potente soco, enchendo o chão de cacos de vidro. Por fim deixou a sala,
rosnando como um cão raivoso.
Bryan e Sherry permaneceram
calados, imóveis. Por pouco não haviam sido mortos pela terrível aberração. A
promotora se levantou primeiro, trêmula, dizendo com voz fraca e oscilante:
–
Os outros! Nós
temos que avisar os outros!
Jessen, recuperando-se,
pegou seu rádio e tratou de informar os companheiros de equipe sobre o que
acabara de ocorrer.
Chris e Jill ainda
examinavam a grande sala onde Wesker se revelara, quando um “bip” tomou o
ambiente, fazendo a mulher de Redfield estremecer. Ela se esquecera que o
barulho era feito pelo rádio, pensando se tratar de alguma terrível armadilha
de Wesker. Era o inevitável cansaço.
O barulho vinha do rádio de
Chris. Este verificou quem se comunicava:
–
Aqui é Chris!
–
Quem fala é
Bryan! Vocês estão bem?
–
Sim. Encontraram
algo?
–
Chris, eu preciso
lhes avisar sobre algo. Eu e Sherry acabamos de ver um mutante terrível, maior
que esses malditos zumbis! Era todo cheio de cabos e tentáculos, além de um
olho cego e o outro costurado! Vocês sabem do que se trata?
Nesse momento Chris já
havia sido tomado pela surpresa e temor. Disse, após um breve instante de
silêncio:
–
É melhor falar
com Jill!
Chris passou o rádio para a
mulher, que perguntou, curiosa:
–
O que há de
errado, Bryan?
–
Jill, nós vimos
um monstro terrível! Cheio de tentáculos e cara costurada! Ele gritou algo
perto de nós, parecia “S.T.A.R.S.”!
–
Meu Deus! –
exclamou a mulher de Chris, quase sem ar. – É um Nemesis!
–
Nemesis? Igual
àquele que você enfrentou em Raccoon?
–
Exato! Bryan,
avise William e Linda! Esse monstro é muito perigoso! Evitem-no sempre e não
tentem enfrentá-lo!
–
OK. Nós
encontramos algo interessante, mas conversaremos melhor depois, com mais calma!
Desligo!
Jill devolveu o rádio ao
marido, extremamente assustada. Agora havia um Nemesis atrás deles, o que
dificultaria as coisas em 100%.
–
Fizemos bem de
não contar a eles sobre a proposta de Wesker? – indagou Jill.
Mas Chris não respondeu, e
ambos sabiam o que aquilo significava. Estavam atolados até o pescoço na merda.
William e Linda estavam na
enfermaria quando Bryan contatou-os. O relato sobre o monstro deixou-os
extremamente apreensivos. Após encerrar a comunicação, McDouglas disse:
–
OK, vamos nos
juntar a Bryan e Sherry! Acho que não encontraremos mais nada útil neste setor
e nossa prioridade agora é encontrar Deller e descobrir como desativar esse
maldito Wesker, entendido?
–
Sim, amor!
Mas, antes que eles
pudessem sair da enfermaria, alguém cruzou a porta, ganhando o local. O casal
imediatamente apontou suas armas para o sujeito vestindo roupa tática preta,
cabelo grisalho e face soturna, que estava armado com um fuzil AK-47.
–
Quem é você? –
indagou William.
–
Meu nome não é
importante! – rosnou o indivíduo, com forte sotaque russo. – Larguem suas armas
imediatamente!
–
E quem é você
para nos obrigar? – riu Linda.
–
Eu tenho doze
anos de treinamento no Exército Vermelho, oito no U.B.C.S. e cinco nas forças
de segurança da Biocom, onde sou chamado atualmente de Unidade Alfa. Posso
estourar seus miolos num piscar de olhos!
–
Vá se danar! –
gritou McDouglas.
Antes que William pudesse
puxar o gatilho, um disparo vindo do fuzil do intimidador feriu Linda no braço.
Esta caiu sobre a cama da enfermaria, contendo o sangramento com uma das mãos.
–
Ai, meu braço! –
exclamou Malone, mordendo os lábios.
–
Veja o que fez,
filho da mãe! – bradou William, socorrendo a namorada.
–
Foi apenas de
raspão! – disse o agressor, extremamente frio. – Ouçam-me se quiserem sair
daqui vivos!
–
Então fale logo,
idiota!
–
Nós temos um
inimigo em comum: Emanuel Deller. O problema é que trabalho para a Biocom e uma
das minhas metas seria eliminar vocês. Porém, o quartel-general não sabe que
estão aqui e eu não seria obrigado a fazer isso. E preciso da ajuda de vocês
para escapar deste lugar!
–
Como assim? –
perguntou Linda, enquanto William lhe fazia um curativo.
–
Meu nome é Nicholai Zinoviev. Aquela amiga de vocês,
Jill Valentine, me conhece muito bem. Tivemos algumas desavenças em Raccoon
City.
–
Desavenças?
–
Ela derrubou meu helicóptero. Naquela época trabalhava para a Umbrella,
mas antes era um pesquisador a serviço da União Soviética neste laboratório,
onde trabalhei no final da década de 80. Com o colapso do comunismo acabei me
vendendo para a Umbrella, e com o fim desta, para a Biocom. Ela comprou este
lugar no final dos anos 90.
–
Então você conhece bem este complexo, não? – perguntou William, ainda
cuidando do ferimento da namorada.
–
Sim, eu conheço. E sei a única rota de fuga disponível no momento, já que
esse maldito Wesker tornou a superfície inacessível. Descendo o elevador
principal nós ganharemos a região de controle do complexo, onde ficam os
setores Gama e Ômega. Neste último há uma passagem secreta que a Biocom não
conhece, muito menos o pessoal da Umbrella quando trabalhou aqui. Ela leva para
um complexo de cavernas que desemboca na doca subterrânea, onde há um antigo
submarino soviético. A partir dele poderíamos escapar até o mar.
–
Uma doca subterrânea? Muito engenhoso!
–
O problema é que essa passagem secreta só pode ser aberta pela sala de
controle, onde acredito que Deller esteja trancado. E precisaríamos inserir
quatro chaves especiais na porta para abri-la. Nem me pergunte onde elas estão.
–
A coisa vai ficar pior. Há um Nemesis à solta.
–
Eu ouvi seu urro. Sei como evitá-lo, afinal ajudei a criar aquela coisa.
–
Então você nos ajudará a encontrar essas quatro chaves? – indagou Linda,
já melhor e com um sorriso esperançoso no rosto apesar de tudo.
–
Sim, e me desculpe pelo tiro. Bem, vamos logo! Quanto mais demorarmos,
menos chances teremos!
William olhou fundo nos
olhos de Linda. O que seria melhor fazer naquele momento? Mesmo se não
quisessem se juntar a Nicholai, não tinham muita escolha. Um “não” poderia
matá-los, já que o russo não teria nada a perder fazendo isso.
–
Vamos, então! – disse McDouglas, sem muito ânimo na voz.
–
É melhor encontrarmos seus amigos no Beta! Sigam-me!
E
deixaram a enfermaria, liderados pelo russo de cabelo grisalho.
Bryan e Sherry entraram no
primeiro corredor do Setor Beta, caminhando lentamente na direção da área do
elevador. O medo de encontrarem Nemesis novamente era grande.
–
Acho que ele foi embora, Sherry... – murmurou Jessen.
Súbito,
uma grade que tampava um duto de ventilação no teto cai na frente da dupla,
junto com um daqueles asquerosos “bebês”.
–
Oh, não! – gritou Sherry.
A
criaturinha desproporcional correu na direção deles, gritando, mas antes que
pudesse ferir-lhes, foi morta por um disparo certeiro de Sherry, que atingiu a
região entre os olhos do monstro.
–
Mas que coisa horrorosa! – exclamou a promotora, examinando o cadáver do
mutante.
–
Sem dúvida
alguma!
Nesse instante o olhar de
Bryan ganhou o de Sherry, e eles ficaram petrificados, se admirando, até que
Birkin deu um sorrisinho.
–
Você é muito
bonita, sabia? – disse o dentista.
–
Ora, obrigada!
Mas você está sendo mesmo sincero ou é só para aliviar a tensão?
–
O que acha?
E riram deliciosamente.
–
Os pesquisadores
e funcionários dormiam nesses dormitórios – explicou Nicholai, enquanto
percorria com William e Linda o corredor em forma de “T”. – Alguns zumbis ainda
estão dentro deles!
–
Por que Deller
quer se vingar da Biocom, afinal? – perguntou William.
–
Porque ela foi
responsável pela falência da Umbrella. Muito simples.
Após passarem pelo cadáver
do lambedor, ainda estendido no chão, o grupo ganhou o primeiro corredor do
Setor Alfa. Malone perguntou:
–
O que você estava
fazendo em Raccoon City?
–
Fazia parte do
U.B.C.S., a unidade de mercenários da Umbrella. Tínhamos a missão de salvar os
segredos da empresa, com a fachada de resgatar os civis que não haviam se
transformado em zumbis. Mas a operação foi um fracasso.
–
Eu vejo que seu
currículo não é nada limpo! – exclamou McDouglas.
–
Chris, venha ver
isto!
Redfield caminhou até a
esposa, que estava parada na frente de uma das paredes da sala cheia de
computadores, e perguntou:
–
O que foi, amor?
–
Veja este trecho
da parede! A coloração é diferente e quando soquei, soou oco!
Chris socou a parede duas
vezes, comprovando o que a esposa dissera: era oca.
–
Deve haver algum
mecanismo que abre uma passagem atrás dessa parede! – concluiu Jill.
–
Mas o difícil
será encontrá-lo...
–
Então nosso
intruso tem nome! – sorriu o holograma azul de Wesker, olhando para Deller. – Nicholai Zinoviev!
–
Sim, o clássico
comparsa da Umbrella que se vendeu para outra companhia! Traidor!
–
Eu também fiz isso
em vida, Deller... Ele deve ter tido seus motivos!
–
Bem, vamos
esperar. Daqui a pouco soltarei o segundo titã!
Nicholai, seguido por
William e Linda, encontrou Bryan e Sherry ao lado do cadáver do Hermes,
pensativos. O dentista perguntou:
–
William, quem é o
companheiro de vocês?
–
Meu nome é
Nicholai Zinoviev – respondeu o russo. – Estou trabalhando para a Biocom e
tenho a missão de eliminar Emanuel Deller antes que cause mais estragos!
–
Então você é da
Biocom? – ironizou Sherry. – É tão culpado quanto Deller!
–
Eu sei disso, e
só estou colaborando com vocês porque também estou preso neste lugar!
–
É verdade! –
exclamou Linda. – Ele atirou em mim, mas conhece uma rota de fuga!
–
E como é ela? –
indagou Bryan.
–
Nós temos que descer
até a doca subterrânea para fugir num submarino, mas não será fácil!
Nisso, um urro altíssimo.
Todos sabiam a quem pertencia.
–
É ele! –
desesperou-se Birkin. – Aquela coisa horrenda!
–
Espere aí... –
murmurou Bryan. – Nicholai Zinoviev era aquele que liderava os pesquisadores
soviéticos neste lugar!
–
Exato – respondeu
o russo. – Eu ajudei a Umbrella a criar o Nemesis, esse monstro que está
perseguindo vocês!
–
Chega de papo! –
diz William, checando a munição de sua arma. – Temos que sair daqui antes que
esse monstro apareça! Rápido, para o elevador!
O grupo cruzou a saída do
Setor Beta e, na área do elevador, correu até o transporte. Os cadáveres dos
zumbis ainda estavam espalhados pelo chão. Bryan perguntou:
–
Foi você quem
matou os zumbis nesta área, Nicholai?
–
Sim, mas quando
cheguei já havia alguns desabilitados!
–
Isso explica
tudo...
William pressionou o
interruptor do elevador, que por sorte já estava naquele andar do subsolo. Se
tivessem que esperar a longa subida com certeza seriam pegos pelo Nemesis.
Assim que as portas se
abriram, os cinco fugitivos entraram e Linda acionou o botão verde para que o
transporte descesse. O trajeto para baixo teve início.
Logo que Chris e Jill cruzaram
uma das portas da sala onde haviam conversado com Wesker, ganharam um novo
corredor, com uma porta à esquerda e duas à direita.
–
Mais lugares para
investigar... – murmurou Chris.
Jill caminhou na direção da
primeira porta à direita, mais próxima deles. Após cruzá-la, ganhou junto com
Chris uma sala com algumas estantes de livros e um armário num canto.
Aparentemente nenhum monstro.
–
Vamos dar uma
olhada – sorriu Jill, já percorrendo com os olhos o nome dos livros numa das
estantes.
–
Oh, meu Deus! –
exclamou Chris. – Cuidado, amor!
A mulher de Chris
imediatamente virou-se para a esquerda. Viu uma criatura verde e corcunda, que
mais parecia um sapo e tinha afiadas garras. Um Hunter, que soltou um
estridente berro.
Jill atirou, mas a criatura
correu para trás de uma das estantes. Chris a seguiu, apontando seu rifle.
–
Tome cuidado,
Chris... – disse Jill, recuperando-se do susto.
Ágil, Chris conseguiu
emboscar o mutante, atingindo-lhe alguns disparos. Mas este saltou por cima da
estante, ficando novamente na frente de Jill.
O monstro veio correndo na
direção da ex-integrante do S.T.A.R.S., mas esta foi mais rápida e atingiu-lhe
uma rajada na cabeça. O Hunter caiu morto numa poça de sangue verde.
–
Hei, Jill! –
gritou Chris. – Venha ver o que eu encontrei!
Jill foi até o marido e
encontrou-o examinando algo na mão, dizendo:
–
Veja o que
encontrei no armário! É uma chave ou coisa assim!
Na verdade o artefato era
uma mistura de chave e cartão, de cor azul, com a inscrição “Chave 2”.
–
Vamos guardar,
pode ser útil! – recomendou Jill, enquanto o marido guardava consigo o achado.
– Há mais alguma coisa aqui?
–
Não sei...
E continuaram investigando,
sempre apreensivos, prontos para atirar em qualquer coisa que se movesse.
O elevador já havia
percorrido metade do demorado percurso. Nicholai parecia pensativo, coçava o
queixo com uma das mãos. Sherry disse:
–
Espero que Chris
e Jill estejam bem...
–
Eles vão estar! –
sorriu Bryan. – Sabem se virar muito bem!
Súbito, um estrondo, e o
som do maquinário do elevador trabalhando cala-se sem mais nem menos. O
transporte havia parado.
–
O que houve? –
perguntou Linda, confusa.
–
O elevador parou
por algum motivo no meio do caminho! – exclamou Nicholai, sempre frio. – O que
poderá ter sido?
Imediatamente os cinco
ouvem um urro sem igual. William rapidamente conclui:
–
É o Nemesis! Está
em cima do elevador!
–
Mas que droga! –
exclama Bryan.
E segue um forte som
metálico, vindo de cima do elevador, como se algo do lado de fora estivesse
socando o teto tentando rompê-lo para entrar.
–
Oh, meu Deus! –
desesperou-se Birkin.
–
Acalmem-se! –
disse Nicholai. – Ele não conseguirá entrar! Nemesis é uma criatura e tanto,
mas este elevador é revestido de várias camadas de metal, que podem resistir a
fortes impactos! Porém, precisamos sair
daqui! A descida parou porque Nemesis deve ter rompido algum cabo e os freios
de emergência foram acionados automaticamente! Se ficarmos aqui muito tempo
esse elevador pode despencar!
–
E como faremos? –
perguntou William.
–
Bem, de acordo
com meus cálculos... Linda, abras as portas do elevador!
–
Você está louco?
– protestou a ruiva. – Aquela coisa pode entrar!
–
Faça o que digo!
– exclamou Nicholai, enquanto Nemesis socava o teto mais uma vez.
Linda acionou o interruptor
e as portas do elevador se abriram, revelando uma das paredes metálicas do
fosso por onde o transporte transitava. Nicholai se aproximou da borda, caminhando
com cuidado para não cair, e olhou para baixo por alguns instantes, fitando o
interminável buraco sobre o qual estavam.
–
Nossa salvação
está logo abaixo! – disse o russo. – Vejam, ali embaixo há um duto de
ventilação!
Nicholai apontou e William
e Bryan realmente viram a entrada de um duto de ventilação um pouco abaixo do
elevador.
–
O sistema de
dutos leva diretamente para o mesmo destino do elevador! – explicou Zinoviev. –
Se pudéssemos pular um a um e nos esgueirar pelo duto, escaparíamos desta enrascada!
Além disso, Nemesis não cabe dentro dele!
–
É nossa única
alternativa! – concluiu McDouglas. – Acho que podemos fazê-lo! Algum protesto,
garotas?
–
Não! – respondeu
Sherry.
–
OK, então... –
murmurou Nicholai.
O russo voltou novamente
para a borda e, apontando seu AK-47 para baixo, disparou, arrebentando a grade
que fechava a entrada do duto. Caminho livre, ao menos na teoria. Em seguida
Nemesis socou novamente o teto.
–
Eu vou primeiro!
– ofereceu-se Nicholai.
–
OK! – assentiu
William.
Nicholai caminhou até a borda,
olhou para baixo cerca de dez segundos e saltou, agarrando com perfeição a
borda do duto aberto. Sem dificuldade conseguiu entrar na passagem, onde era
possível ficar abaixado, debruçando-se sobre a entrada.
–
Venham, é seguro!
– gritou Nicholai.
–
Eu vou! –
exclamou William.
McDouglas caminhou até a
borda e, antes de pular, olhou um instante para trás.
–
Cuidado, amor! –
suspirou Linda.
–
Fique tranqüila!
William saltou, agarrando
também a borda do duto. Após debruçar-se nele e entrar, gritou:
–
Pode vir mais alguém!
Dentro do elevador, todos
olharam uns para a cara dos outros.
–
Pode ir, Linda! –
disse Sherry, por fim.
–
Obrigada!
A ruiva, na borda, olhou
para baixo e viu o namorado acenando para que descesse, sorrindo. Logo ela
saltou, agarrando a borda do duto, subindo auxiliada por McDouglas.
–
OK, venha mais
um! – exclamou Malone, já dentro da passagem.
–
Você quer ir,
Sherry? – perguntou Jessen.
–
Não, Bryan, vá à
frente! Assim me sentirei mais segura!
–
OK!
O dentista foi até a borda
e olhou algum tempo para baixo, tomando coragem. Depois pulou, sendo o que
atingiu o duto com menos dificuldade entre os quatro que já haviam pulado.
–
Pode vir, Sherry!
– exclamou Bryan.
A promotora pública, que
tinha certo medo de altura, se aproximou da borda e olhou demoradamente para baixo.
Na entrada do duto Bryan a encorajava, gritando, mas nada parecia fazer com que
conseguisse saltar, até que Nemesis esmurrou novamente o teto.
–
Estou indo,
Bryan! – gritou Birkin.
–
Venha, não tenha
medo! Eu seguro sua mão!
Após mais alguns segundos
de receio, Sherry pulou.
Birkin agarrou a borda com
uma das mãos e a mão de Bryan com a outra, subindo sem dificuldade para dentro
do duto.
–
Todos bem? –
perguntou William.
–
Sim, eu acho –
respondeu Jessen.
Súbito, o som de algo se
rompendo. Imediatamente o elevador passou por eles, descendo com velocidade
incrível, e Nemesis em cima do teto. Os cabos haviam se soltado e Sherry
estaria morta se tivesse esperado mais um pouco para pular. Aliviada, a
promotora viu com Bryan quando Nemesis soltou um desesperado grito de horror e,
após alguns instantes, o elevador se chocou contra o chão, originando grande
explosão. Apesar da altura, era possível ver o amarelo das chamas lá embaixo. O
mutante estaria morto?
–
Vamos em frente!
– exclamou Nicholai. – Agora que o elevador despencou, não há mais como subir e
nossa única rota de fuga será a doca!
–
Mas e as chaves?
– perguntou Linda.
–
Não se preocupe!
Segundo minhas suspeitas, todas estão lá embaixo!
E seguiram pelo duto.
–
Eu não acredito!
– gritou Deller, esmurrando o painel. – Como eles escaparam do elevador? Era
impossível!
–
Nicholai está com
eles, e ele conhece este laboratório como a palma de sua mão – explicou Wesker.
–
Mas e as chaves?
Como pude me esquecer das chaves? Chris e Jill já encontraram uma, logo eles
entrarão aqui!
–
Não se eu puder
evitar! – sorriu o holograma. – Estou reservando algo muito grande para eles,
Deller. Algo grande e doloroso. Todos pagarão pelo que me fizeram! Enquanto
isso, por que não solta Ares-1?
–
Sim! Havia me
esquecido! Iniciarei o processo!
–
Será mesmo
formidável! A única meta de Ares-1 será eliminar Nemesis, que provavelmente
sobreviveu à queda do elevador! Este laboratório será transformado em ruínas!
–
É isso aí! Bem, a
queda do elevador não será problema, pois Ares-1 pode saltar de grandes altitudes
sem sofrer um único arranhão! Agora preciso trabalhar!
E Wesker começou a observar
Deller iniciar o processo de libertação de Ares-1, o segundo titã da sala de
experimentos.
Capítulo 7
Duelo
de titãs.
Chris e Jill haviam entrado
pela porta à esquerda do corredor, e agora percorriam uma espécie de sala de
força, com um gerador barulhento num dos cantos.
–
Nada aqui, Jill!
– exclamou Redfield. – Vamos voltar ao corredor!
–
Hei, espere! Ouvi
algo!
Apreensiva, Jill começou a
apontar sua Uzi para o teto, mais precisamente para a entrada de um duto de
ventilação, tampada com uma grade de metal.
De repente, a grade veio ao
chão, aos pés de Jill. Nesse momento Chris também apontou sua arma para cima,
ansiando para que não surgisse um monstro sedento de sangue. Sua vontade foi
atendida assim que William McDouglas saltou de dentro do duto, atingindo o chão
sem dificuldade, pois o teto da sala era baixo.
–
William? –
surpreendeu-se Chris.
–
Tivemos um
pequeno problema no elevador, então tivemos que ir por outro caminho! – sorriu
McDouglas.
–
Meu Deus! –
exclamou Jill.
–
Os outros estão
vindo!
William saiu de baixo do
duto e viu Linda também saltar dele, aparentemente OK.
–
Mas o que houve
com o elevador? – indagou Chris, cada vez mais curioso.
–
Nemesis o parou
no meio da descida e tivemos que saltar para dentro de um duto de ventilação,
ou despencaríamos junto com o transporte! – explicou Linda. – Ele realmente
caiu, levando Nemesis junto. A explosão foi violenta. Será que ele morreu?
–
Acho que não –
respondeu Jill. – Aquela coisa não morre tão facilmente. Nós ouvimos mesmo um
estrondo. Então era o elevador despencando.
–
Exato!
Nesse momento Bryan também
saiu do duto.
–
Mudando de
assunto, onde estamos exatamente? – perguntou William.
–
Setor Ômega! –
respondeu Chris. – Mas não há nada útil aqui! Encontramos apenas isto!
E Redfield mostrou a
chave-cartão. Bryan surpreendeu-se:
–
Acho que sei para
que isso serve!
–
Bem,
primeiramente, o que vocês encontraram lá em cima? – perguntou Jill.
–
Dormitórios,
salas de pesquisa, Nemesis... – murmurou William.
–
Eu e Sherry
encontramos isto! – disse Jessen, entregando a prancheta com o relatório para
Chris.
–
Vou dar uma
olhada...
Enquanto o marido de Jill
lia o relatório, Sherry saltou do duto.
–
Bem, agora estão
todos aqui! – exclamou Jill.
–
Não, falta alguém...
– murmurou Bryan.
Nicholai foi o último a
ganhar a sala. Jill, que estava distraída com o relatório nas mãos de Chris,
demorou a perceber o russo. Quando isso ocorreu, a mulher de Redfield quase
saltou para trás, exclamando:
–
Não pode ser!
–
O que foi querida?
– sorriu Chris. – Parece que viu um fantasma!
De fato, Jill estava
branca. Zinoviev a assustava mais que o próprio Nemesis. Súbito, ela começa a
apontar a Uzi para a cabeça do russo, dizendo:
–
Não se mova, ou
estouro esses seus miolos!
–
Acalme-se, Jill...
– interveio William.
Chris estava confuso. Os
demais sabiam a razão da agressividade de Jill, seria extremamente complicado
tentar dialogar naquele momento.
–
Como você está
vivo? – questionou Jill, dentes cerrados, ainda apontando a arma para a cabeça
de Nicholai. – Você tentou me matar em Raccoon e eu derrubei seu maldito
helicóptero! Mesmo se tivesse sobrevivido à queda, não teria conseguido escapar
da cidade antes do ataque nuclear!
–
X-Virus – foi a
resposta de Nicholai, sempre frio.
X-Virus. Sempre o X-Virus.
Aquela maldita criação da Umbrella que tornava homens praticamente imortais.
Sherry estava trêmula. Aquela coisa também corria em suas veias.
–
Antes da operação
em Raccoon ter início, um cientista injetou o vírus em mim. Um tipo de
experimento entre os mercenários. Ele disse que só começaria a manifestar seus
efeitos se eu morresse, de certa forma. Em Raccoon havia sobrevivido por muita
sorte ao ataque dos zumbis no escritório de vendas da Umbrella, e quando você
derrubou meu helicóptero eu também consegui sobreviver, mas estava sangrando e
com uma perna quebrada. Desesperado, comecei a correr pelas ruas da cidade. Eu
vi quando o helicóptero onde você e Carlos Oliveira estavam passou sobre minha
cabeça. Quando ouvi o impacto do míssil, pensei que estivesse tudo acabado para
mim. Joguei-me de joelhos sobre o concreto, com alguns daqueles mortos-vivos se
aproximando. Não sabia se a explosão me mataria ou se eles me pegariam
primeiro.
–
Prossiga! –
exclamou Jill, interessada.
–
Eu senti a
explosão. Meu corpo flutuou como num sonho, e uma intensa luz branca tomou
minha visão. Perdi a consciência e acordei três dias depois, vivo, alguns
quilômetros fora da cidade. A transição havia se concretizado.
–
Assim como Wesker
teve que ser “morto” pelo Tyrant na mansão para se tornar invencível – lembrou
Chris.
–
Exato. Bem,
permaneci na Umbrella até sua falência, em 2002, mas não participei de mais
nenhuma missão. Até que a Biocom me contratou. Primeiro como pesquisador,
depois como soldado. Hoje sou a Unidade Alfa, setor de segurança da empresa. E
estou aqui para eliminar Emanuel Deller, inimigo meu e de vocês!
–
De acordo com o
relatório nas mãos de Chris, Nicholai já trabalhou neste lugar, que pertencia
aos soviéticos! – explicou Sherry.
–
Sim, trabalhava
para o Exército Vermelho, e ajudei a desenvolver o Nemesis. Depois comecei a
trabalhar para a Umbrella.
Nesse momento Jill deixou
de apontar sua arma, mas seu olhar ainda era duro e intolerante. Ela perguntou,
nervosa:
–
Como podemos
confiar em você? Tentou matar a mim e a Carlos em Raccoon! Pensamos que estava
nos ajudando, mas só queria cumprir sua maldita missão de queima de arquivo!
–
Olhe, estou tão
enrascado quanto vocês. Deller e essa nova versão de Wesker querem nos matar, e
preciso da ajuda de vocês para escapar daqui. Trabalhei aqui e conheço este
complexo muito bem, sei que a única rota de fuga disponível é uma doca
subterrânea com um submarino, no qual podemos fugir. A passagem secreta que
leva até ela fica numa sala grande deste setor, com vários computadores. Porém,
ela só pode ser aberta através da sala de controle do Setor Gama, onde Deller
está se escondendo. Há como entrarmos lá, mas precisaríamos de quatro chaves
especiais, que se parecem com cartões, para destrancar a porta.
–
Acho que já
encontramos uma dessas chaves, e Jill descobriu essa passagem secreta da qual
você está falando, atrás de uma parede falsa! – disse Chris.
–
Sim, mas
precisamos encontrar as outras três chaves. Deller dificultará as coisas, com
certeza. Com a queda do elevador, Nemesis deve ter evoluído. Jill sabe do que
estou falando. Além dele há outros mutantes terríveis em nosso caminho. A
Biocom me mandou aqui para recuperar a pesquisa, matar Deller e fugir,
explodindo todo o laboratório através do sistema de autodestruição. Eles não
sabem que vocês estão aqui, portanto não tenho razão para matá-los. Vocês podem
não confiar em mim, porém, agora não se trata de confiança, mas sim de instinto
de sobrevivência. Estão comigo?
Silêncio sepulcral. Todos
estavam em dúvida se deveriam ou não confiar em Zinoviev. Por fim Jill disse:
–
Ajude-nos a
encontrar as chaves, mas estarei lhe observando a cada fração de segundo! Se
tentar algo, atirarei para matar, na cabeça, e nem o X-Virus poderá lhe salvar!
–
Entendido –
sorriu Nicholai. – Todas as chaves estão neste subsolo, e há muitas salas para
investigar. Por que não nos dividimos em dois ou mais grupos?
–
OK – disse Chris.
– Eu, Jill e Nicholai no primeiro grupo, William e Linda no segundo e Bryan
mais Sherry no terceiro!
–
Certo!
McDouglas e Malone deixaram
a sala primeiro, depois Jessen e Birkin. Chris, Jill e Nicholai permaneceram na
sala de força.
–
Nós não vamos? –
indagou o russo.
–
Sim, mas vá à
frente! – exclamou Jill, sem ocultar sua insatisfação.
–
Como quiser!
E deixaram a sala.
–
Então Nicholai
vai ajudá-los! – exclamou Deller. – Tolo, vai morrer como eles!
–
Acho que nosso
amigo Zinoviev possui alguma carta na manga... – murmurou Wesker. – Se
pudéssemos ao menos descobrir o que ele planeja...
–
Bem, não importa!
Ares-1 está a caminho do subsolo onde eles estão! Não conseguirão detê-lo!
E voltou a olhar para os
monitores.
No fundo do fosso do
elevador ainda havia chamas. O transporte estava totalmente destruído, amassado
como uma lata de conserva. Mas aí ele acordou.
As roupas que ele adquirira
estavam em frangalhos, e teria que arranjar outras. Estava fixado em sua mente
que tinha que andar vestido, talvez assim pudesse passar mais furtivamente.
Mas havia algo errado. Seu
braço direito, onde havia tentáculos. Agora havia uma grande abertura nele, por
onde os longos fios roxos escorriam como vermes. Um chicote natural poderoso.
–
S.T.A.R.S.!
Sim, eles haviam fugido. E
tinha que pegá-los. Sua meta era essa. Ele era o caçador e eles, a caça.
Levantou-se e saltou pelo
buraco no teto do elevador retorcido. Ainda escorria um pouco de sangue do
braço, mas já podia usá-lo com grande mobilidade. Logo viu luz, vinda da saída
do fosso, onde o elevador antes parava. Seguiu em frente e ganhou a nova área,
tampando o rosto devido à intensa claridade branca. Soltou um gemido.
Acostumou-se com o ambiente
e olhou para os lados. Eles tinham que estar em algum lugar. Queria pegar em
especial a mais jovem. Sim, aquela que ele percebeu que tinha os batimentos
cardíacos mais rápidos, que saltara por último do elevador...
Bateu seus tentáculos contra
o chão, provocando um chicotear medonho, e seguiu por um dos caminhos da
bifurcação, rugindo como fera.
William e Linda entraram na
segunda porta à direita do corredor, aquela que Chris e Jill não haviam
cruzado. A sala era pequena, uma espécie de dormitório. Dois beliches de metal,
um de cada lado da porta, e um armário, que foi aberto por McDouglas.
William sorriu ao ver o que
acabara de encontrar. Uma espingarda calibre 12 com duas caixas de munição.
Arma devastadora.
–
Acho que não vou
mais precisar usar minha pistola... – riu McDouglas, apanhando a arma e
carregando-a com a munição.
–
Há mais alguma
coisa aí? – indagou Linda.
–
Acho que não...
–
Ah!
–
Que foi?
O grito de Malone foi
devido a uma peluda aranha, que saíra de trás de um travesseiro branco e agora
se encontrava parada sobre uma das camas.
–
Ora, amor! É só
uma aranha! Venenosa, mas bem melhor que um zumbi canibal!
–
Acho que você
está certo...
Mais tranqüila, Linda
espantou a aranha, que voltou para baixo do travesseiro. Nesse mesmo instante,
William, procurando por mais alguma coisa, olhou para o teto e disse, quase sem
voz:
–
Ah, meu Deus!
–
O que há de
errado, querido?
–
No teto! –
apontou McDouglas, quase sem voz. – Olhe para o teto!
Aquilo era asqueroso. Uma
aranha do tamanho de um urso, toda peluda, listrada em marrom, bege e preto.
–
Não se mexa,
Linda!
Ambos estavam atônitos. McDouglas,
com movimentos lentos, mirou com a espingarda na aranha. Suor escorria de sua
testa.
Súbito, o disparo. Todos os
projéteis se alojaram no corpo peludo da criatura, que veio ao chão, aos
pedaços. Escorria sangue verde e gosma branca de seu cadáver.
–
Ufa! – exclamou
William.
–
Ah, não!
Malone viu que aranhas
menores, iguais àquela que vira sobre a cama, saíam de dentro do corpo da
maior, estourando-o. Eram dezenas.
Rapidamente o casal deixou
a sala, prendendo nela os aracnídeos assassinos. Foi por pouco.
Chris, Jill e Nicholai
haviam cruzado a sala onde Wesker se revelara e entrado por outra porta, que
levava a uma sala tão grande quanto a anterior, mas cheia de prateleiras de
metal e caixas.
–
Algo útil aqui? –
perguntou Chris.
–
É melhor darmos
uma olhada... – resmungou Nicholai, caminhando na direção de uma prateleira.
–
Hei, olhem isto!
Jill acabara de encontrar
um cofre numa das paredes. Nicholai se aproximou, provocando certa raiva na
mulher de Chris, e, após olhar por um instante para o achado, murmurou:
–
Se eles não
mudaram a senha...
O russo fez uma combinação
na tranca, que foi aberta. Dentro do cofre havia outra chave-cartão, verde.
–
Chave 4! – disse
Chris, lendo o que estava escrito no artefato, guardando-o consigo.
–
Faltam duas... –
murmurou Nicholai, fechando o cofre.
Após um breve instante de
silêncio, no qual Jill fitou Nicholai com desconfiança, um grito tomou o
ambiente. Um grito feminino, desesperado. A voz demonstrava grande pavor, o
“Socorro!” realmente tomou de surpresa a mente dos três invasores. Logo Chris
identificou a voz:
–
Sherry! Ela deve
estar em perigo!
–
Rápido, vamos
atrás dela! – exclamou Jill.
E deixaram rapidamente a
sala.
Ele estava chegando perto.
Cara costurada, praticamente nu, boca sem lábios com os dentes totalmente
expostos, e agora aqueles tentáculos saindo do braço, mais pareciam um chicote.
Ele os bateu contra o chão, provocando desconfortável ruído.
–
S.T.A.R.S.!
Bryan e Sherry viram-se
encurralados por Nemesis no corredor antes da sala dos computadores, perto da sala
onde Chris e Jill encontraram o biólogo que se suicidara. O espaço entre a
dupla e o monstro ficava cada vez menor, enquanto um líquido roxo escorria de
seus tentáculos. Repugnante.
Birkin gritara por socorro,
mas provavelmente ninguém apareceria. Nemesis já estava a menos de um metro de
distância.
–
Vá embora! –
gritou Jessen, trêmulo, apontando sua Desert Eagle.
–
S.T.A.R.S.!
O dentista disparou contra
o rosto do mutante, fazendo com que este, gemendo, recuasse alguns passos,
tampando o lugar do impacto, que sangrava. Agora podiam cruzar a porta,
voltando para a sala dos computadores. Mas ela não se abriu.
–
O quê? – exclamou
Bryan, chutando a porta. – Ela não abre! Não abre! Maldito Wesker, ele nos
trancou aqui!
Sherry não disse nada.
Tomada pelo medo, apenas observava Nemesis se recuperar, já caminhando
novamente na direção deles. Não havia saída. Wesker havia decretado a morte dos
dois.
–
Sai daqui, seu
nojento!
Gritando, Bryan começou a disparar
contra o tórax do mutante, mas este não sofria nada com os tiros. Ele apenas
agarrou o dentista através dos tentáculos e o jogou do outro lado do corredor,
fazendo com que batesse de costas contra uma parede, perdendo a consciência.
Quebrara duas costelas.
–
Bryan! – gritou
Birkin, desesperada.
Mas não havia escapatória.
Nemesis agarrou a promotora com o braço que não tinha tentáculos, enquanto ela
gritava com todas as forças. Porém, logo se calou. Um dos tentáculos do mutante
perfurara seu ventre como um ferrão, atravessando-o. Da boca aberta de Sherry
apenas escorreu sangue.
A promotora ainda estava
viva. Agonizante, mas ainda viva. Nemesis jogou-a no meio do corredor e,
urrando, voltou para a primeira área daquele subsolo, cuja porta de acesso
estava aberta.
Apenas nesse momento a
porta que levava à sala dos computadores foi destrancada. Chris, Jill e
Nicholai entraram como um relâmpago, desesperando-se assim que viram Sherry no
chão, sobre uma poça do próprio sangue.
–
Ah, meu Deus! –
gritou Chris, sem acreditar no que via.
–
Sherry, agüente!
– disse Jill, quase chorando.
Birkin estava consciente e
de olhos abertos, mas não lhe restava muito tempo. Não conseguia falar, não
tinha forças.
Nicholai caminhou até Bryan
e o despertou. Este, assim que viu Sherry no chão, levantou e correu até ela,
mancando, gemendo e com uma das mãos sobre as costas. Chorando, jogou-se de
joelhos ao lado da promotora, fazendo com que algumas de suas lágrimas caíssem
sobre o rosto pálido da jovem.
–
Sherry! – gritou
o dentista, amargurado. – Por favor, não morra!
–
Bryan... –
oscilou a filha de William Birkin. – Eu te amo...
–
Eu também te amo!
Por favor, não morra!
–
Adeus, Bryan...
E fechou os olhos.
–
Não, Sherry! –
gritou Jessen, com todas as forças, esmurrando uma das paredes. – Não, não pode
ser!
–
Foi Nemesis... –
murmurou Nicholai, que pareceu não se comover nem um pouco com a cena. – Veja,
ele perfurou o ventre dela!
–
Meu Deus... –
suspirou Chris, que como Jill estava chorando.
Súbito, Redfield
levantou-se e, numa explosão de fúria, gritou:
–
Foi você quem
trancou a porta, não foi, Wesker? Seu covarde! Eu vou acabar com sua raça!
–
Não pude
evitar... – disse Wesker, com sua voz ganhando todo o corredor. – Vocês estavam
indo longe demais!
–
Maldito,
desgraçado! – gritou Jill.
–
Isso por causa de
vocês dois, Chris e Jill! Não cumpriram nosso trato, lembram? Pedi que vocês
matassem a Unidade Alfa, ou seja, Nicholai, e não o fizeram! Agora sofrerão
severas punições, a não ser que mudem de idéia...
–
E não mudaremos!
– exclamou Jill, que só não matava Nicholai pela razão de estar assim
contribuindo com Wesker.
–
Então você quer a
mim, Wesker? – sorriu Nicholai. – Por quê?
–
Você quer matar
Deller, e não posso permitir isso!
–
Nós não o
mataremos, nós o traremos para a justiça! – disse Bryan, enxugando suas lágrimas.
– Ele pagará por tudo que fez!
–
Se fosse você não
contaria com isso. Ouçam, Sherry já pagou pelos erros de vocês. Acho melhor
começarem a seguir as regras. Este é o meu jogo, e a vida de vocês depende
dele. Matem Nicholai ou sofrerão ainda mais!
–
Nunca!
–
OK, então.
Voltarei a me comunicar quando mais algum de vocês tiver virado comida de
verme!
A voz de Wesker calou-se.
Bryan olhou mais uma vez para o cadáver de Sherry, para seu rosto que nunca
mais sorriria. Por fim deu mais um soco na parede.
–
OK, temos que
encontrar as outras chaves! – disse Nicholai. – Só temos duas, e se demorarmos
mais correremos risco ainda maior!
–
Meu Deus... –
murmurou Jessen.
–
Onde estão
William e Linda? – indagou Jill.
–
Não sei –
respondeu Chris. – Bem, vamos nos dividir novamente. Eu e Jill para um lado,
Bryan e Nicholai para o outro. Pode ser assim?
–
OK – respondeu o
russo. – Eu e Jessen vamos dar uma olhada no Setor Gama!
–
Muito bem. Eu e
Jill tentaremos encontrar William e Linda. Boa sorte!
–
Igualmente!
E se dividiram, cada dupla
seguindo para uma extremidade do corredor. Antes de cruzar a porta, Bryan olhou
mais uma vez para o corpo de Sherry, e uma última lágrima escorreu por seu
rosto. Cruel destino.
Adams estava atordoado.
Sabia que algo errado estava ocorrendo aos invasores do complexo. De frente
para seu computador, já com o nome da Unidade Alfa, o agente do FBI tomou
rapidamente uma xícara de café e murmurou, com uma das mãos na testa:
–
Seja o que for,
peguem esse maldito Deller...
Chris e Jill encontraram
William e Linda no corredor da sala de força do Setor Ômega. Eles saíam da sala
onde antes havia um Hunter vivo.
–
Vocês estão bem?
– perguntou Chris.
–
Sim – respondeu
McDouglas. – O que houve? Nós ouvimos gritos!
–
Sherry está morta
– respondeu Jill, cabisbaixa.
–
O quê? – surpreendeu-se
Linda. – Como foi isso?
–
Nemesis a matou,
e Wesker preparou a armadilha – explicou Chris. – Vocês encontraram mais alguma
chave?
–
Não – respondeu
William. – E vocês?
–
Esta aqui! –
exclamou o marido de Jill, mostrando a chave-cartão verde.
–
Então faltam
duas...
Todos permaneceram em
silêncio por um instante. Pensavam em Sherry. Logo Chris disse:
–
OK, vamos nos
separar novamente! Deve haver algo mais neste setor que ainda não encontramos!
–
Eu e Linda vamos
pelo caminho do qual vieram – propôs William. – Vocês podem dar mais uma olhada
nesta área?
–
OK.
E se separaram novamente.
Logo que Nicholai entrou
com Bryan na primeira área daquele subsolo, onde ficava o elevador, o russo
percebeu que Jessen andava com dificuldade e não parava de gemer, passando a
mão pelas costas.
–
Está ferido? –
perguntou a Unidade Alfa.
–
Acho que quebrei
algumas costelas... – resmungou o dentista. – Mas está OK. Posso seguir mesmo
assim!
–
Olhe, há uma
enfermaria no Setor Gama. Lá poderá cuidar desse seu ferimento. Está muito
vulnerável ao ataque dos mutantes!
Súbito, um urro.
Ambos olharam para a
entrada do elevador e viram Nemesis caminhando até eles, com os tentáculos no
braço direito serpenteando como cobras.
–
S.T.A.R.S.! –
gritou a criatura.
–
Ah, não! –
exclamou Bryan. – Agora estamos perdidos!
Nicholai preparava-se para
atirar com o AK-47 contra o monstro, mas sem mais nem menos um vulto saltou de
dentro do fosso do elevador e derrubou o mutante, atingindo-o nas costas.
Nemesis soltou um urro de
irritação e virou-se para descobrir quem era o agressor. Ele, Nicholai e Bryan
viram um sujeito nu, de aparência física igual à de um ser humano normal, mas
com olhos sem brilho e uma cicatriz na nuca.
–
Quem é esse cara?
– espantou-se Jessen.
Nesse mesmo instante
Nemesis partiu para cima do agressor, chicoteando-o com seus tentáculos. Este,
porém, esquivou-se com grande perfeição e acertou um soco no abdômen do
monstro, que gemeu.
–
Vamos sair daqui!
– exclamou Nicholai, correndo na direção da entrada do Setor Gama.
Bryan seguiu o russo,
enquanto o embate entre Nemesis e o misterioso personagem continuava. O
primeiro conseguiu agarrar o homem nu pelos tentáculos e arremessou-o a dez
metros de distância, mas ele caiu de pé sem sofrer nenhum arranhão.
Após darem uma última
olhada na encarniçada luta, quando o sujeito nu acertou um chute no tórax de
Nemesis, a dupla de intrusos entrou no Setor Gama, e por sorte Wesker permitiu
que eles seguissem em frente.
Capítulo 8
Fecha-se
o cerco.
O Setor Gama começava com
um corredor com duas portas além daquela pela qual Bryan e Nicholai haviam
vindo: uma à direita e outra no final. O russo, seguindo na frente enquanto
Jessen caminhava com dificuldade, disse:
–
A enfermaria fica
no próximo corredor... A porta para o corredor da sala de controle também não
fica longe...
–
Cuidado!
Nesse momento a grade de um
duto de ventilação veio ao chão, junto com um “bebê”, bem na frente deles. O
mutante soltou um sonoro grito e começou a correr na direção de Nicholai, mas
logo teve sua cabeça explodida por uma rajada do AK-47 de Zinoviev.
–
Essas coisas
estão vindo do Beta pelo sistema de ventilação! – concluiu Nicholai. – Vamos em
frente!
A dupla seguiu na direção
da porta no final do corredor. Bryan perguntou:
–
O que há naquela
outra porta?
–
É a sala de
força. Nada útil.
E ganharam um outro
corredor, este com três novas portas, todas numa mesma parede. Na primeira
havia a inscrição “Enfermaria”. Na segunda, “Dormitório” e finalmente, na
terceira, “Sala de Controle, Cozinha”.
Mas antes que pudessem
cruzar a primeira porta, os dois invasores ouviram um estridente grito. Olhando
para um dos cantos do corredor, viram dois Hermes correndo famintos, exibindo
os afiados dentes. Estavam mais para demônios do que para bebês.
Nicholai acertou uma rajada
no centro do corpo de um dos monstros, fazendo com que este voasse para trás,
deixando um rastro de sangue no chão. O segundo foi aniquilado por Bryan,
atingido por três disparos da Desert Eagle no tórax.
–
Já eram! –
exclamou o dentista.
Estava, porém, enganado. O
Hermes morto por Nicholai se levantou, por incrível que pareça, e algo começou
a ocorrer com seu corpo. Era realmente bizarro. Gritando, o “bebê” viu que sua
pele começava a cair, e dois grandes ossos, parecidos com chifres, surgiram em
suas costas, rompendo os músculos. Suas garras também ficaram maiores,
afiadíssimas. Os dentes da criatura aumentaram grandemente, e quando o processo
terminou o mutante estava dois terços mais alto.
Ele logo avançou na direção
da presa, que reagiu à altura. Logo a coisa tombou no chão, após levar vários
tiros de Bryan e três rajadas de Nicholai. Ficara muito mais forte.
–
Por que ocorreu
isso? – questionou Jessen.
–
O T-Virus causou
essa mutação nos Hermes – explicou Nicholai. – Vamos logo sair daqui antes que
o outro mutante também levante!
E entraram na enfermaria.
William e Linda estavam na
sala onde ficava o cofre aberto por Nicholai, a qual havia sido pouco explorada
pelo russo mais Chris e Jill devido ao pedido de socorro de Sherry. Percorrendo
o lugar com os olhos, McDouglas disse, se aproximando de um armário:
–
Hei, veja isto!
Era um diário, bem
empoeirado, de cor azul. Linda recebeu o objeto das mãos do namorado e leu o
que continha, em voz alta:
Diário de Ronald Harper, funcionário da Umbrella Inc.,
Complexo Siberiano, ano de 1999.
Sexta-feira, 1º de outubro de 1999.
Hoje faz um ano que Raccoon City foi destruída, e
ninguém suspeita do envolvimento de nossa empresa nesse incidente. Enquanto
isso precisamos produzir novas armas, que não caiam em mãos erradas como o
T-Virus e o G-Virus.
Estamos trabalhando com o pessoal da Biocom neste
laboratório, uma empresa rival, e temos instruções de zelar ao máximo por
nossas descobertas. O fato de estarmos criando novas armas ao lado da
concorrência não significa que eles devam descobrir todos os nossos segredos. Dessa
maneira eles acabariam sendo usados contra nós.
Domingo, 3 de outubro de 1999.
Hoje nosso chefe de pesquisas, Gordon, se desentendeu
com o responsável pelo pessoal da Biocom, aquele odioso Brellen. Eles são
detestáveis, não vejo a hora de irmos embora daqui. A Biocom ainda está
engatinhando no ramo de armas biológicas, e nós já produzimos uma arma
devastadora como o Nemesis! Não sei por que estamos trabalhando com esse bando
de idiotas!
Segunda-feira, 15 de novembro de 1999.
Hoje nós demos um salto na pesquisa. Com a ajuda de
alguns pesquisadores da Biocom, conseguimos criar uma nova variação do vírus
NE-T. Nós a batizamos de “Justice”, e em breve estaremos produzindo novos
mutantes com ela, bem longe deste fim de mundo e, principalmente, longe da concorrência!
O diário terminava aí. Mais
uma prova contra a Biocom. Linda guardou-o consigo, enquanto, subitamente, algo
caiu de dentro do livro.
–
O que é isso? –
estranhou William, apanhando o objeto.
Era mais uma chave-cartão,
amarela, com a inscrição “Chave 3”. Agora só faltava uma.
–
Venha, vamos
entregar isto a Chris! – exclamou McDouglas.
E deixaram a sala.
Enquanto Bryan cuidava de
seus ferimentos na iluminada enfermaria, Nicholai vasculhava um armário em
busca de alguma chave-cartão. O dentista, já se sentindo melhor, perguntou ao
russo:
–
Você sempre foi
biólogo, Nicholai?
–
Sim, formado na
Universidade de Moscou! – respondeu Zinoviev, demonstrando pouco interesse.
–
Certo...
Súbito, Nicholai virou-se
para Bryan, segurando algo. Era a última chave-cartão, vermelha, com a
inscrição “Chave 1”.
–
Se os outros já
encontraram a outra chave, podemos pegar Deller! – sorriu o russo.
–
Isso se aquele
Wesker filho da mãe permitir...
Nesse instante, o dentista
percebeu que Nicholai lhe apontava seu AK-47, mirando sem piscar.
–
Nicholai, o que é
isso?
–
Não se mova! –
murmurou o russo, friamente.
–
Ah, é? Sabia que
não podíamos confiar em você! Jill estava certa! Você é um traidor e...
–
Atrás de você!
Jessen, apreensivo, olhou
para trás. Viu um zumbi horrendo, sem pele alguma, vestindo jaleco em
frangalhos.
Rapidamente Nicholai deu
cabo do mutante, explodindo seu crânio com uma bela rajada.
–
Mas de onde essa
coisa veio? – perguntou Bryan, trêmulo.
–
Deve ter
rastejado de baixo dessa cama! – apontou Nicholai, com face inexpressiva.
–
Bem... Foi mal,
cara!
Nicholai não respondeu.
Apenas caminhou até a saída e, olhando para trás, perguntou:
–
Você não vem?
Bryan checou a munição da
Desert Eagle e acompanhou o russo de volta ao corredor.
Neste, a dupla encontrou os
outros quatro invasores.
–
Bryan, Nicholai!
– exclamou Linda. – Tudo OK?
–
Sim – respondeu a
Unidade Alfa. – Encontramos esta chave-cartão!
E o russo entregou o
artefato para Chris, que disse:
–
William e Linda
encontraram a chave que faltava! Temos as quatro!
–
Ótimo – sorriu
Nicholai, de forma que não agradou Jill. – A porta está ali!
Os seis se aproximaram da
porta com a inscrição “Sala de Controle, Cozinha”. Chris entregou as quatro
chaves-cartão para Nicholai, que as colocou em ordem numérica num painel ao
lado da tranca da porta. Esta foi liberada assim que todas foram inseridas,
emitindo um som metálico.
–
Vamos? – indagou
Nicholai, assim que o caminho foi liberado, revelando um novo corredor.
–
Antes, gostaria
de fazer uma pergunta! – exclamou Bryan. – Chris, vocês viram Nemesis lutando
com um cara estranho lá atrás?
–
Não, não vimos
ninguém! – respondeu Jill, confusa.
–
OK, agora vamos!
– disse Zinoviev, impaciente.
No novo corredor havia duas
portas, uma com a inscrição “Cozinha” e na outra, “Sala de Controle”.
Obviamente o grupo seguiu na direção da segunda, com Nicholai à frente.
Antes de entrarem, todos
pararam por um instante, temerosos. Aquilo podia ser uma armadilha, estava
fácil demais.
E a porta se abriu. Após
olharem para dentro da sala hexagonal por alguns segundos sem pisar dentro dela,
os seis intrusos entraram. Não havia ninguém na sala de controle. Nem Deller ou
o holograma de Wesker.
–
Mas o quê? –
estranhou Chris.
–
Cadê o Deller? –
exclamou Jill, nervosa.
Nicholai se aproximou do
painel de monitores, olhando para as várias telas. Logo disse:
–
Não importa onde
está Deller! Temos que sair deste lugar!
–
Como assim, não
importa? – irritou-se Jill. – Esse cara é um dos criminosos da Umbrella! Nós
precisamos fazer justiça!
–
Olhe, minha
missão também é eliminar Deller, mas se não andarmos logo não conseguiremos
fugir!
–
É verdade, amor –
concordou Chris. – Já temos provas suficientes, não? Fugir não seria má idéia!
–
E já perdemos
Sherry... – murmurou Bryan, cabisbaixo, pensando na pobre Birkin.
Seguiu-se um instante de
silêncio. Nicholai sentou-se na frente do computador central e começou a
digitar rapidamente no teclado. Logo todos puderam ver a passagem secreta na
grande sala do Setor Ômega ser revelada, através de um dos monitores do painel.
–
O caminho está
livre! – disse Nicholai, girando na cadeira. – A escolha é de vocês!
O impasse era geral. Jill
olhava para todos com cara amarrada, mordendo os lábios, enquanto Chris,
William e Linda pareciam concordar com Nicholai. Bryan era diferente a todos
eles, estava triste. Pensava em Sherry.
Subitamente, as luzes se
apagaram. O holograma azul de Wesker surgiu no centro da sala, produzido por
feixes de laser. Nitidez incomparável.
–
Vocês
conseguiram! – sorriu Wesker. – Muito bem!
–
O quê? – exclamou
Chris, cada vez mais confuso. – Wesker, por que...
–
Não diga nada,
Chris. A missão de vocês está praticamente concluída. Deller fugiu, mas vocês
têm muitas provas contra a Biocom. Agora é só fugir no submarino.
–
Isso é uma
armadilha, não? – irritou-se ainda mais Jill, gritando ao invés de falar. –
Algo nos espera no caminho!
–
Deller soltou
Nemesis e Ares-1, as maiores armas da Umbrella e da Biocom. A luta final entre
essas duas empresas será travada por esses dois mutantes. Não restará pedra
sobre pedra!
–
E não mesmo! –
exclamou Nicholai. – Acabei de programar a autodestruição do complexo para
daqui a trinta minutos!
–
E você vai nos
deixar ir embora assim? – indagou William.
–
Sim. Apesar de
terem desobedecido minhas ordens ao não matarem Nicholai, vou deixar que vivam
para contar a história. Sherry morreu no lugar de vocês.
–
Desgraçado! –
berrou Jessen, que sentia uma profunda dor no coração ao ouvir o nome da
promotora.
–
É melhor não me
insultar, rapaz! Ainda posso mudar de idéia!
Seguiu-se mais um minuto de
silêncio. Chris disse, olhando para Nicholai:
–
Formate o
computador central!
–
Não faça isso! –
exclamou Wesker, alterando a voz, tornando o holograma menos nítido. – Posso
matar vocês nesta sala agora mesmo!
–
Nicholai, formate
o CPU, já!
–
Vocês são
idiotas? Todo o laboratório viraria um caos!
–
Eu disse já,
Nicholai!
–
Não tenho certeza
disso, Chris... – murmurou o russo.
–
Então deixa
comigo!
Redfield disparou uma
rajada de balas contra o computador central. Imediatamente as luzes da sala se
acenderam, mas agora em cor vermelha.
Todos olharam para o
holograma de Wesker. Ele parecia definhar, gemia, como se tivesse recebido as balas
de Chris. Logo se aquietou, fitando os intrusos com raiva na face, o azul
oscilando grandemente, e desapareceu de vez.
–
E agora,
Nicholai? – perguntou Chris.
–
Veja você mesmo!
Uma mensagem surgiu na tela
do computador, que dizia “Sistema de Emergência ativado. Autodestruição em
andamento”.
–
Nós podemos
escapar com o sistema de emergência ativado, não há problema! – explicou o
russo.
–
Hei, o que é
aquilo? – indagou Jill, apontando para o monitor.
Iluminados pelas luzes
vermelhas, todos viram que no canto da tela do computador, piscando em branco,
havia a inscrição “Cheque-mate”.
–
Cheque-mate? –
estranhou Linda.
–
Não temos tempo
para isso! – irritou-se Chris. – Vamos embora!
E deixaram rapidamente a
sala de controle.
–
O tempo está se
esgotando...
Adams estava atordoado na
frente do computador. Sabia que as coisas não deviam estar boas para os
invasores. Conseguiriam pegar Deller?
O grupo de intrusos entrou
sem problemas no Setor Ômega. Porém, logo que pisaram no primeiro corredor,
tiveram uma grande surpresa. O corpo de Sherry não estava mais ali. Havia
apenas uma poça de sangue.
–
O quê? –
espantou-se Bryan. – Onde está Sherry?
–
Eu temo que ela
tenha... – oscilou Jill, também chocada.
–
Ah, não! Ela pode
ter virado um daqueles zumbis?
–
Receio que sim,
Bryan...
O dentista ficou alguns
instantes olhando para a poça de sangue no chão, e subitamente seguiu à frente
dos outros, andando rápido.
–
Espere! –
exclamou Linda, seguindo Jessen com os demais.
Logo que ganhou a ampla sala
onde ficava a passagem secreta, Bryan parou e ficou olhando para frente. Os
outros, sem saber a razão do dentista ter parado, se aproximaram e Chris
perguntou:
–
O que há?
–
Olhe!
Bryan apontou para frente e
os outros também viram. Nemesis e Ares-1 estavam lutando no meio da ampla sala,
entre as mesas e computadores.
–
Meu Deus! –
gritou Jill.
–
Fique quieta... –
pediu Chris, acompanhando o balé das duas criaturas com seu rifle.
Ares-1 estava acertando uma
seqüência de golpes em Nemesis: um soco no abdômen, outro no tórax e um chute
no pescoço. O mutante da Umbrella recuou alguns passos e chicoteou o adversário
com seus tentáculos, fazendo pingar líquido roxo. Desta vez o monstro da Biocom
foi atingido, fazendo surgir três rastros de sangue em suas costas. Incrivelmente
eles desapareceram logo depois.
Nemesis continuou seu
ataque, observado pelos invasores. Agarrando Ares-1 com os tentáculos, jogou-o
contra uma das mesas, que se partiu ao meio com o impacto.
Para o desespero de nossos
heróis, Nemesis virou-se na direção deles nesse momento.
–
S.T.A.R.S.!
–
Oh, não!
A aberração caminhava
lentamente na direção deles, chicoteando os tentáculos no chão. Quando Chris ia
ordenar que corressem, algo inesperado ocorreu.
–
Ares-1! –
exclamou Nicholai, com estranha satisfação no rosto.
O mutante criado pela
Biocom havia derrubado Nemesis após atingi-lo nas costas, fazendo com que este
voltasse para a encarniçada luta, esquecendo-se dos “S.T.A.R.S.!”.
–
Agora, vamos!
Com a ordem de Chris os
fugitivos se dividiram em dois grupos de três e correram por lados diferentes
da sala, na direção da agora aberta passagem secreta. Eles conseguiram
alcançá-la e antes de entrarem olharam uma última vez para trás: Nemesis estava
acertando vários golpes em Ares-1, empurrando-o na direção de uma parede. Por
fim atingiu-o novamente com seus tentáculos, fazendo com que a criação da
Biocom atravessasse uma das paredes, caindo dentro da sala onde Chris e Jill
haviam enfrentado um Hunter. A luta prosseguiu lá dentro.
Rapidamente os seis
seguiram passagem adentro, percorrendo um extenso corredor metálico, com apenas
uma porta no final. Esta se abriu sozinha e o grupo entrou numa área totalmente
escura, parecia ser uma caverna.
–
Vocês estão com
suas lanternas? – indagou Chris, parando a marcha.
–
Sim! – exclamou
Bryan.
Todos equiparam suas
lanternas, inclusive Nicholai, iluminando o perigoso e desconhecido caminho. A
corrida virou caminhada, uma caminhada cautelosa.
–
Se não me engano,
este complexo de cavernas leva até a doca! – disse Nicholai. – Não é muito longe!
–
Espero que não
encontremos nada anormal! – exclamou Chris, seguindo à frente.
As oscilantes luzes das
lanternas iluminavam o caminho com incerteza. As paredes rochosas faziam o frio
aumentar, e nossos heróis estavam trêmulos, com névoa saindo da boca.
–
Quando isto tudo
acabar, quero fazer o churrasco do ano! – riu Redfield. – Carne fina, cerveja e
muito rock n’roll!
–
Eu posso levar
meus discos! – disse Bryan.
–
Faça isso! Todos
estão convidados!
–
Ai! – gritou
Jill.
–
O que foi?
Todos se viraram para trás
e iluminaram Jill, com o pescoço sangrando. Parecia haver algo pendurado nele,
algo negro. A ex-integrante do S.T.A.R.S. estava nervosa, e com os dentes
cerrados tentava livrar-se daquilo que a mordia.
–
É um morcego! –
gritou William, que com a lanterna descobriu o que estava grudado em Jill.
–
Um Hades! –
concluiu Nicholai. – É um maldito Hades!
Os Hades. Morcegos
perigosíssimos criados pela Biocom através de mutação de DNA.
Súbito, um disparo, e o
morcego no pescoço de Jill caiu fulminado. Linda fora a autora do tiro.
–
Obrigada, Linda!
– agradeceu Jill, passando a mão pelo pescoço cheio de sangue.
–
Foi muito grave,
amor? – preocupou-se Chris.
–
Não, por sorte
ele não mordeu nenhuma artéria vital... Mas foi horrível! Ela apertava meu
pescoço como um leão!
–
Ah, merda! – praguejou
William, mirando a lanterna para cima.
Uma nuvem negra de morcegos
se aproximava. Eram centenas deles, aos gritos.
–
Corram! – gritou
Chris.
E começaram a percorrer a
escura caverna, tropeçando e dando trombadas, com os Hades atrás deles. Chris,
William e Nicholai viravam para trás atirando nas criaturas, mas era inútil.
Eram muitas.
–
Ai, minha perna!
– gritou Linda.
–
Droga!
Um morcego havia mordido a
perna esquerda de Malone. Seu namorado, iluminando a criatura com a lanterna,
eliminou-a com um disparo.
–
Vamos logo! –
gritou Chris.
E a fuga prosseguiu, com
Linda mancando e sangue escorrendo da perna. Jill estava certa. A mordida
daquelas coisas era fortíssima.
–
Nem a luz das
nossas lanternas repele essas coisas! – exclamou Chris, ofegante.
–
Os Hades possuem
incrível resistência à luz – explicou Nicholai. – Eu participei das
experiências que os criaram, neste laboratório.
–
Que outras
aberrações assassinas você ajudou a criar? – irritou-se William.
–
Muitas, meu caro!
E, após cerca de dois
minutos de perseguição, sem que os morcegos desistissem, Chris avistou algo com
a lanterna, exclamando:
–
Uma saída! Estou
vendo uma saída!
–
Vamos até ela! –
gritou Bryan.
E os seis fugitivos
ganharam uma ampla caverna, com várias plataformas de metal suspensas e ligadas
por escadas, sendo que estavam sobre uma delas. À esquerda havia uma espécie de
sala de controle, pois era possível ver vários computadores antigos através de
vidros. Lá embaixo, água, um pátio de concreto e um grande submarino negro, com
uma estrela vermelha e uma numeração da mesma cor no casco. Havia uma grande
comporta metálica que separava a caverna do mar, logo na frente do submarino, à
direita. Haviam alcançado a doca subterrânea.
–
Estão todos bem?
– perguntou Chris.
–
Sim, apesar das
mordidas! – respondeu Jill, limpando o sangue do pescoço.
–
É grandioso! –
espantou-se William, contemplando o lugar.
Imediatamente a entrada
atrás deles se fechou, deixando os famintos morcegos para trás.
–
Mas o quê? –
estranhou Bryan.
Em seguida, várias luzes
vermelhas se acenderam na doca, e a voz de Wesker começou a anunciar, em meio a
uma irritante sirene:
–
Atenção! A
autodestruição do complexo foi ativada! Esse processo não pode ser abortado!
Todos devem se dirigir imediatamente para a rota de fuga! Repito, a
autodestruição foi ativada! Isto não é um exercício!
E começou a repetir sempre
essa mensagem. Nicholai disse, após olhar alguns instantes para os lados:
–
Temos que abrir a
comporta para podermos fugir no submarino! Podemos fazer isso através daquela
sala de controle!
–
OK, então vamos!
E todos seguiram Nicholai
pelas plataformas, correndo na direção da sala de controle, com a voz de Wesker
e a incansável sirene massacrando seus ouvidos.
Capítulo 9
O
grande desfecho.
Porém, logo que os seis
invasores se aproximaram o suficiente da sala de controle, a porta desta se
fechou e alguém começou a falar de dentro dela, através de um alto-falante:
–
Vocês não fugirão
daqui!
–
Quem é você? –
indagou Chris.
–
Emanuel Deller, e
vocês foram longe demais! Agora sentirão minha fúria!
De fato, era possível ver a
figura de Deller através dos vidros da sala.
–
Seu nojento! –
gritou Jill.
–
Eu posso ser
nojento, mas vou terminar o que a Umbrella começou! Vou aniquilar os malditos
S.T.A.R.S., e ninguém vai me impedir!
E pressionou uma tecla num
dos computadores.
Imediatamente, dois
portões, um de cada lado do pátio da doca, foram abertos. De dentro saíram
dezenas de zumbis, cambaleando e soltando ácido pela boca.
–
Tenham uma morte
dolorosa!
E dizendo isso, Deller
tampou os vidros da sala com placas de metal usando outra tecla.
Agora nossos heróis estavam
enrascados. Os zumbis já estavam subindo as escadas, aos montes, e não poderiam
abrir a comporta para o submarino. O que fazer?
–
Não há
escapatória! – exclamou Bryan. – Chegou o nosso fim!
–
Temos que pensar
em algo... – murmurou Chris, tentando em vão raciocinar. – Nós podemos...
Nisso, uma explosão sobre o
pátio de concreto aniquilou boa parte dos zumbis, fazendo seus membros e
cabeças voarem. Todos se perguntaram quem fizera aquilo, e logo viram uma
pálida mulher vestindo roupa tática rasgada de pé em cima do submarino,
segurando uma granada.
–
Sentiram minha
falta, pessoal? – perguntou ela.
–
Sherry! –
exclamou Bryan, sem acreditar no que via.
Sim. Sherry Birkin. Era
ela, viva. A promotora jogou mais uma granada no meio dos zumbis, reduzindo
drasticamente o número de mortos-vivos. Sem mais nenhum artefato explosivo,
Birkin piscou para Jessen e saltou de cima do submarino, atingindo o pátio com
perfeição. Tornou-se então o novo alvo dos zumbis, inclusive daqueles que já
subiam as escadas.
–
Cuidado, Sherry!
– gritou Jill, vendo que ela seria cercada pelos mortos-vivos.
–
Eu já sou bem
crescidinha!
Sherry sacou dois
revólveres Magnum, e começou a atirar em círculo. Todos os disparos atingiam as
cabeças dos zumbis, com precisão incomparável. Os miolos das criaturas voavam
sobre Birkin, que, de dentes cerrados, prosseguia com a matança.
–
É isso aí,
Sherry! – exclamou Linda, que vibrava com a luta.
Logo os revólveres ficaram
sem munição, e Sherry não teria tempo suficiente de carregá-los novamente. Ela
então tirou sua faca do sinto, afiadíssima, e após encarar um zumbi de jaleco
por um instante, estripou-o sem piedade.
Ela começou a dançar com a
faca em mãos, sua pele pálida confundindo-se com a dos mutantes, cortando seus
pescoços e partindo suas carnes em duas. Um balé da morte, que todos assistiam
com admiração, inclusive Deller, através de um sistema de câmeras.
Logo restava apenas um
zumbi. Vestia uniforme militar soviético, e estava parado a cinco metros de
Sherry, babando. Logo ele começou a seguir na direção da promotora, cambaleando
com os braços estendidos em sua direção. Birkin não se intimidou.
Num movimento rápido,
Sherry saltou até o zumbi e antes que ele pudesse agarrá-la, afundou a faca em
seu tórax. A criatura caiu morta, entrando em convulsão.
Sherry deu uma risadinha e
correu até os companheiros, enquanto colocava mais munição numa Magnum.
–
Sherry, como é
que você está viva? – perguntou o confuso Bryan Jessen, fitando a promotora nos
olhos.
–
Cale a boca e me
beija!
Birkin agarrou o dentista e
os dois deram um longo e prazeroso beijo, Jessen sentindo a pele fria do rosto
da amada contra a sua...
–
Você está mesmo
bem, Sherry? – perguntou Chris, examinando-a de alto a baixo. – Parece pálida
e...
–
Nunca estive
melhor! – respondeu Sherry, com um sorrisinho.
–
O X-Virus – disse
Nicholai, sempre frio. – Ela está viva graças ao X-Virus que corre em suas
veias. Ela nasceu de novo!
Bryan olhou novamente para
o rosto de Sherry, e esta, sorrindo, exibiu o ventre perfurado por Nemesis,
cheio de substância roxa.
–
Oh, meu Deus! –
exclamou William. – Foi feio mesmo!
–
O que importa é
que estou bem! – disse Sherry, abraçando Jessen.
–
Temos que entrar
na sala de controle! – lembrou Jill. – Deller se trancou lá dentro!
–
Ah, não! – gritou
alguém dentro da sala de controle, e parecia Deller, desesperado. – Não se
aproxime! Não, ah! Oh...
Alguns segundos depois, a
porta da sala se abriu.
Nicholai foi à frente,
seguido por Chris e os demais, cautelosos. Logo que entrou na sala, Zinoviev
parou e ficou olhando para o chão, balançando a cabeça. Logo os outros também
viram o que havia acontecido com Emanuel Deller.
–
Meu Deus! –
exclamou Linda.
O corpo do antigo
responsável pela White Umbrella estava estirado no chão, sem vida, com um
grande buraco na nuca, por onde escorria sangue e massa cinzenta.
–
Ares-1! –
concluiu Nicholai, indo examinar o cadáver mais de perto. – Ele sugou o cérebro
dele!
Porém, o mutante não estava
mais ali.
–
Houve justiça,
finalmente! – suspirou Jill.
–
Que irônico! –
exclamou William. – O crápula da Umbrella foi morto por um mutante da companhia
rival!
Nisso, Nicholai se levantou
e sentou-se na frente do computador que Deller operava. Após alguns comandos, a
comporta da doca começou a se abrir.
–
Caminho livre! –
sorriu Nicholai.
–
Então vamos
embora! – riu Bryan, após beijar Sherry novamente.
Desceram então pelas
plataformas e ganharam o pátio cheio de pedaços de zumbis, mas Chris gritou:
–
Hei, vejam!
Na frente do caminho para o
submarino, Nemesis e Ares-1 travavam novo embate.
–
Droga, mil vezes
droga! – irritou-se William.
Nemesis tentava chicotear o
adversário com os tentáculos, mas este se desviava dos golpes. Logo acertou um
soco no abdômen do monstro da Umbrella, que perdeu equilíbrio e caiu na água.
Ares-1, então, virou-se na
direção de nossos heróis e, ao ver William, gritou, com voz tenebrosa:
–
McDouglas!
O mutante começou a
caminhar na direção deles, mas o grupo inteiro abriu fogo ao mesmo tempo.
Atingido pelas dezenas de balas, Ares-1 foi recuando, tendo seu corpo tingido
de vermelho, e também caiu na água.
–
Essa coisa é
indestrutível, não vai ficar lá embaixo por muito tempo! – disse Nicholai. –
Vamos entrar no submarino!
E, através de uma escada,
os sete fugitivos entraram pela escotilha do submarino, com Wesker anunciando a
autodestruição sem parar.
Nos estreitos corredores da
arma de guerra, Nicholai seguiu até a sala de comando, dizendo:
–
Sei guiar essa
coisa, sigam-me!
Todos fizeram isso, exceto
Chris, Bryan e Jill. Eles caminharam na direção aposta, e Redfield disse, após
fechar a escotilha:
–
Vamos ver o que
há nesta lata velha, pessoal!
Adams havia sido tomado por
grande esperança. Talvez tudo desse certo para eles, afinal.
–
Eles vão
conseguir, eu sei disso!
E tomou mais um gole de
café.
Nicholai já havia feito o
submarino se mover, e agora ele seguia pela comporta, enquanto a doca começava
a desabar. Pela frente agora havia uma extensa galeria rochosa até o mar, mas
nenhum obstáculo.
–
Conseguimos! –
exclamou Linda, entusiasmada.
–
Vocês não, eu
consegui! – riu Nicholai.
–
Ora, não seja metido!
– irritou-se William.
–
Eu falo sério!
O russo levantou-se e
agarrou Linda, apontando o AK-47 para a sua cabeça.
–
Agora tratem de
me obedecer, ou ela morre! – ordenou Zinoviev.
–
Seu maldito
traidor! – gritou Sherry. – Bem que Jill nos alertou sobre você!
–
Cale a boca!
Vocês irão até onde eu mandar, e se desobedecerem, a companheira de vocês
morre!
E Nicholai começou a guiar
os três inimigos da Biocom para fora da sala de comando, enquanto o submarino
seguia em frente no modo automático.
Chris, Jill e Bryan haviam
entrado numa sala cheia de armários, além de uma mesa de ferro. Sobre ela havia
um pacote abóbora, que despertou curiosidade na mulher de Chris:
–
O que será isso?
– indagou Jill, apanhando o pacote.
–
Querida,
cuidado...
Jill notou que havia um
papel colado no embrulho, e algo escrito nele. A mulher tremeu quando leu o que
estava escrito:
–
Cheque-mate!
–
O quê?
Chris pegou o pacote e
comprovou a mensagem. Em seguida abriu o embrulho e se desesperou ao ver o que
continha:
–
Uma bomba!
Maldito Wesker!
Era realmente uma bomba,
que explodiria em poucos minutos. A última armadilha de Wesker.
–
Ele havia
planejado tudo com antecedência, agora estamos perdidos! – exclamou Jill.
Súbito, um estrondo, as
luzes oscilaram e todo o submarino tremeu. Seguiu-se um ruído irritante,
parecia um gemido do metal, e os três sentiram que algo mais estava errado.
–
O que está
havendo? – perguntou Bryan.
Nicholai havia levado
William, Linda e Sherry para um depósito, onde arrancou suas armas. Com o
estrondo, seguido pelo tremor, o russo disse, mordendo os lábios:
–
Droga! Parece que
algo perfurou o casco do submarino!
–
Como assim? –
exclamou Linda, arregalando os olhos.
E veio o gemido do metal.
Estavam afundando.
–
Já devemos ter
atingido o mar... Podemos escapar pela escotilha antes que seja tarde!
–
Você está louco?
– gritou William. – As águas geladas daqui são mortais! Não sobreviveríamos!
Nicholai acertou um soco no
estômago de McDouglas, dizendo:
–
Eu mando aqui, e
eu faço o que achar melhor!
Nesse momento a porta do
depósito se abriu atrás de Nicholai, e este não percebeu quando um vulto surgiu
por suas costas.
–
Eu vou ganhar
muito dinheiro da Biocom aniquilando vocês! Poderei montar meu próprio
laboratório e...
Extremamente rápido, algo partiu
o pescoço de Nicholai como uma lâmina afiada. A cabeça do russo foi parar aos
pés de Linda, que soltou um grito de susto. O corpo decapitado de Zinoviev
permaneceu algum tempo de pé antes de cair no chão, revelando quem era o
agressor: Nemesis, que arrancara a cabeça do russo com seus poderosos tentáculos.
Fora ele quem entrara no submarino perfurando o casco.
–
S.T.A.R.S.!
–
Corram, agora!
Nossos três heróis
conseguem driblar Nemesis, deixando o depósito. O mutante, porém, arrebenta a
porta e sai no encalço deles pelo corredor, urrando.
–
Vamos encontrar
os outros! – exclama William, enquanto ajudava os outros a prender Nemesis no
corredor com uma pesada porta, que mesmo assim não agüentaria muito tempo.
–
Ah, não!
Jill desesperou-se ao ver
que o corredor estava se enchendo de água. Bryan perguntou:
–
Será que estamos
afundando?
–
É bem provável! –
respondeu Chris. – Estamos num submarino afundando e ainda por cima com uma
bomba a bordo!
Os três seguiram na direção
aposta à água, ganhando um novo corredor. Jill avistou alguém logo à frente, e
não era nenhum do grupo.
–
Oh, não!
O sujeito nu virou-se,
revelando ser Ares-1. O mutante, sorrindo, começou a caminhar na direção deles.
–
Hora de morrer! –
berrou a criação da Biocom, preparando as mãos para abrir o crânio das vítimas.
–
É o que pensa!
Dizendo isso, Chris disparou
uma rajada contra a cabeça do inimigo, que veio ao chão. Começou então a correr
em frente junto com os outros, mas Ares-1 já se levantava, com as mãos cobrindo
o rosto. Não morreria tão facilmente.
William, sua namorada e
Sherry seguiam sempre em frente, fechando as pesadas portas tentando prender
Nemesis, mas este sempre as derrubava sem piedade. Logo atingiram uma escada,
que subiram rapidamente.
–
Essa coisa não
vai desistir tão facilmente! – disse Sherry.
–
Esperem um pouco
aí...
McDouglas, antes que Nemesis
pudesse subir a escada, jogou uma granada pela abertura.
–
Corram!
E jogaram-se no chão para
escapar da força da explosão. Porém, nem ousaram averiguar se Nemesis havia
sido atingido. Eles apenas continuaram correndo, enquanto o gemido do submarino
se intensificava.
–
Abra essa porta,
Chris! Abra essa porta!
Diante do apelo da mulher,
Redfield abriu a pesada porta, mas não gostou nem um pouco do que viu:
–
Mil vezes merda!
Uma grande onda de água
gelada tomou o ambiente, deixando apenas um pequeno espaço para respirar perto
do teto do corredor.
–
Vocês estão bem?
– preocupou-se Chris, com água até o pescoço.
–
Sim, amor! –
respondeu Jill, surgindo de dentro da gélida água. – Deus, como esta água é
fria! Cadê o Bryan?
Chris olhou para os lados e
não viu o dentista. Sua mão direita, porém, agarrou algo, e Redfield puxou o
que era.
–
Ah! – gritou
Jill, assustada.
Era a cabeça de Nicholai,
com olhos ambiciosos. Chris a jogou fora, com nojo, e logo Bryan surgiu,
desacordado.
–
Acorde, Bryan! –
exclamou Chris, tentando reanimar o rapaz. – Acorde!
–
Hei, o quê? –
murmurou o dentista, confuso. – O que houve?
–
Água, meu caro! –
sorriu Jill. – Muita água, e gelada!
O grupo de William logo
atingiu a escotilha para fora do submarino, com água nos joelhos.
–
Precisamos
esperar os outros! – lembrou Linda.
–
Mas Nemesis não
vai nos esperar...
Nisso, eles ouviram um
“S.T.A.R.S.!”, não muito longe.
–
Se souberem
rezar, rezem agora!
Chris, Jill e Bryan nadavam
sem parar na água gélida, sem, por sorte, nenhum sinal do assassino Ares-1. Logo
eles avistaram uma escotilha com uma escada.
Redfield virou-se e deu um
chute na tampa, que se abriu, dando passagem aos três. No corredor superior
eles tinham água até a cintura, e sorriram ao encontrar os outros companheiros.
–
Vocês estão OK? –
perguntou William.
–
Mais ou menos, e
temos que sair logo deste submarino! – exclamou Chris. – Wesker deixou uma
bomba para nós!
–
Uma bomba? – riu
Sherry. – Nada mais me assusta!
E ela e Bryan se beijaram
novamente.
–
Vamos abrir logo
essa escotilha! – exclamou Jill.
–
S.T.A.R.S.!
Todos olharam para a
direita e viram Nemesis, dando chicoteadas com seus tentáculos.
–
McDouglas!
Pela esquerda surgiu
Ares-1, preparando as mãos para a luta.
Ambos os mutantes correram
um contra o outro, se colidindo e ao mesmo tempo mergulhando num sangrento
embate. Pareciam ignorar os fugitivos, que se esforçavam para abrir a
escotilha.
Quando isso ocorreu, a água
gelada da Sibéria tomou todo o corredor, numa onda violenta. Nemesis e Ares-1
desapareceram, enquanto todos do grupo de invasores do complexo podiam enxergar
uns aos outros.
E trêmulos, respirando com
dificuldade, os seis heróis foram nadando pela saída do submarino, aliviados,
mas ao mesmo tempo preocupados. Atrás
deles a bomba de Wesker explodiu, sepultando para sempre o submarino no fundo
do mar. Mas conseguiriam sobreviver às gélidas águas?
Epílogo
Uma nova manhã se
principia. O sol surge de trás das montanhas siberianas, iluminando o gélido
Oceano Pacífico.
Chris foi o primeiro que
surgiu na superfície, abraçado a Jill. Os dois tentavam em vão se esquentar,
pois o frio era insuportável. Logo apareceram William e Linda, também
abraçados, e por último Bryan e Sherry. Esta última parecia ser a única que não
sofria com a baixa temperatura.
–
Acho que não vou
agüentar muito tempo, amor... – suspirou Jill, com poucas forças.
–
Calma, vai acabar
tudo bem...
Subitamente, o som de
hélices girando se aproxima. Era um helicóptero, que logo foi reconhecido pelos
seis heróis.
–
Igor!
O russo surgiu na beirada
da aeronave e, jogando uma escada, gritou:
–
Subam logo
camaradas, ou acabarão pegando uma gripe!
Todos riram, enquanto
subiam para dentro do helicóptero. Todos foram envoltos em grossos cobertores e
servidos com café fervente. Um santo remédio.
–
Missão cumprida?
– riu Igor.
–
Sim, mais ou
menos – respondeu Bryan. – O que me entristece é que nossas provas não servem
para mais nada, pois estão todas molhadas!
–
Bem, eu pensei
nessa hipótese e por isso tomei uma providência – sorriu Chris. – Guardei todas
as provas nesta pasta impermeável!
O grupo soltou um grito de
empolgação, e Jill, exausta, encostou-se ao ombro de Chris, dormindo em seguida
com um leve sorriso no rosto. Assim como em Raccoon, quando fugiram da mansão
no helicóptero de Brad. A cena se repetia.
E o helicóptero seguiu na
direção do continente, onde uma grande nuvem de fumaça subia da região do
complexo secreto da Biocom. Deller estava morto e agora eles tinham ainda mais
provas contra a empresa. Missão cumprida.
–
Eu preciso de
álcool aqui!
O pedido viera de Leon, que
cuidava da churrasqueira. Chris se aproximou e inclinou sua garrafa de cerveja
sobre o fogo, fazendo com que o líquido caísse e o aumentasse. A carne estava
quase no ponto.
–
Quem gosta de
carne mal-passada pode se servir! – gritou Redfield, sorrindo.
–
E você acha que
após todo esse tempo enfrentando mortos-vivos eu vou gostar de carne crua? –
espantou-se Claire.
A irmã de Chris, Jill,
Rebecca, Linda e Sherry estavam sentadas em volta de uma mesa de madeira no quintal
da casa de Leon e Claire, conversando e rindo. William, Bryan e o agente Adams
estavam em outra, também batendo papo. Este último disse, após tomar um gole de
cerveja:
–
O importante é
que agora as provas que vocês encontraram estão com Sheila na Austrália e logo
poderemos botar um fim na Biocom! Bem, mudando de assunto, foi muita gentileza
de vocês terem me convidado para este churrasco! O último do qual participei
foi quando entrei para o FBI!
–
Aproveite bem,
meu amigo! – riu McDouglas.
–
Vamos agitar um
pouquinho! – exclamou Bryan, se levantando.
O dentista se aproximou de
seu toca-discos e colocou um vinil do Nirvana, “In Utero”.
–
Este é um
clássico! – gritou Jessen, empolgado. – Viva Kurt Cobain!
–
Ora, pare de se
exibir e me beija, vai! – pediu Sherry, abraçando o namorado.
–
Vejo que o
X-Virus te deixou bem mais quente!
Todos riram, enquanto Chris
trazia um prato com a carne. Jill, com o pequeno Barry no colo, após se servir,
perguntou:
–
Será que acabou?
–
Para vocês, sim –
respondeu Adams. – O último criminoso da Umbrella teve sua punição. Mas a
Biocom ainda precisa ser desmascarada. Eu, William e Linda continuaremos
lutando por isso!
–
E eu também! –
disse Sherry, após beijar Bryan. – Vou fazer de tudo para levar aqueles
malditos à justiça!
–
É, meus bons
amigos... Nossa guerra está só começando!
E fizeram um brinde com as
garrafas de cerveja.