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entrevista - ShowBizz Janeiro de 1993
*PESO, PIMENTA,
PUTARIA E PLATINA*
Às
vésperas de embarcar para o Brasil, o baixista e fundador dos
Red Hot Chili Peppers dá a receita do punk funk metalizado que
conquistou o planeta
"Se cair um pouco de refrigerante, vinho, passe uma toalha
úmida e não faça mais nada! Mais nada, Michael! Se for algo
mais sério, me telefone a hora que for, que eu venho aqui. Por
favor Michael, me telefone!"
Yossi Kabani, do mais tradicional fornecedor de tapetes persas em
Los Angeles, a loja Naim Brothers, está quase berrando com
Michael Balzary - aliás, Flea, sócio-atleta e fundador dos Red
Hot chili Peppers.
Kabani veio instalar a nova aquisição do músico para sua casa:
um tapete persa imenso que levou cinco anos para ser
confeccionado e custou-lhe mais do que ele gostaria de confessar
(o preço médio de um persa legítimo é superior a mil
dólares).
"Cuidado com esse tapete, Michael, muito cuidado"
enfatiza Kabani, antes de saltitar em cima do persa, para provar
que ele não estava escorregando e ir embora.
"Que figura!", comentaria Flea logo depois, ele mesmo
mais que merecedor da definição. quando Kabani parte, ele se
acomoda no sofá da sala. Está cercado das provas que é
bem-sucedido (um bolo de cheques recém-mandados pelo empresário
Lindy Goetz) e de que é o orgulhoso pai de uma menina de quatro
anos (crayons, martelos de plásticos, uma cópia em vídeo do
desenho animado Fergully, uma foto dele mesmo com Clara no colo).
Enquanto o sol se esconde detrás das colinas de Hollywood,
deixando a sala numa aconchegante penumbra, Flea conversa com
serenidade e candura sobre a carreira do grupo, os primórdios
dos Peppers e a visão musical que tem hoje.
O ano passado talvez tenha sido o mais importante na
carreira dos Peppers. Vocês tiveram um enorme sucesso se vendas
com Blood Sugar Sex Magik, foram a atração principal da turnê
Lollapalooza. Como você vê esse último ano na carreira da
banda?
Não acho que esse ano tenha havido alguma mudança
"artística" para a banda. E é nesses termos que eu
raciocino: em termos de criatividade, de arte. Eu continuo tendo
o mesmo desejo de fazer a mesma coisa: boa música. Só porque
começamos a tocar em em lugares maiores e a ganhar um monte de
dinheiro...
A única coisa que me assusta é a possibilidade de tudo isso
afetar nossa música. Por isso vejo com antecipação uma pausa
nisso tudo, para que eu possa viver outras coisas e tenha
material para compor novas músicas.
Você sente alguma pressão em cima da banda por causa
desse sucesso maior?
Se uma banda se preocupa com a pressão do sucesso, é melhor que
se dissolva. Quando se começa a pensar no que as outras pessoas
vão achar da sua arte, você está perdido. Talvez o próximo
disco não seja um sucesso coomercial, talvez venda apenas
duzentas mil cópias e fim. Mas não é essa a nossa
preocupação.
A turnê Lollapaloozafoi especialmente marcante pelo fato
de vocês estrearem tocando com um novo guitarrista, Aryk, pela
primeira vez?
A saída de John Frusciante foi traumática. Fizemos
dois grandes discos juntos (Mother's Milk e Blood Sugar Sex
Magik), tinhamos um lance fortíssimo quase telepático. Eu como
baixista, achava que ele era um gutarrista maravilhoso para se
fazer uma jam. John era impressionante!
Mas ele estava infeliz de estar sempre em turnê... Se você joga
num mesmo ônibus quatro pessoas durante um ano inteiro, alguém
pode ficar um tanto pirado. Agora estou desenvolvendo um ótimo
relacionamento com Aryk. É um cara superlegal, doce.
Você teria ficado com muita raiva da Rolling Stone
porque John havia sido eliminado da foto de capa que a banda
ganhou em 92 (Frusciante tinha acabado de sair da banda e a
direção da revista temia parecer atrasada nas fotos deixando o
guitarrista aparecer na foto). Por quê?
Aquilo foi muito injusto! Não sei o que passou pela
cabeça deles quando fizeram aquilo, mas o que nos levou (à capa
da revista) foi o enorme sucesso de Blood Sugar Sex Magik e John
teve uma participação enorme nesse disco. Não colocá-lo na
foto foi uma injustiça e me magoou. Mas tenho certeza de que
John cagou para o lance.
Antes da entrada de John na banda, houve uma formação
relâmpago dos Peppers, com Blackbird McKnight (ex-P-Funk) na
guitarra e D.H. Peligro (ex-Dead Kennedys) na bateria. O que
aconteceu co essa formação, que nunca chegou a gravar nada?
Que loucura, não (risos)? Primeiro era Blackbird com
Jack Irons na bateria. Aí Irons pirou e foi embora. Chamamos
D.H. para fazer alguns shows e decidimos que a coisa não estava
andando bem com Blackbird, por várias razões. Decidimos
substituí-lo por John Frusciante. Daí tivemos problemas com
D.H., o demitimos e entrou Chad Smith.
Quando o grupo começou, na é poca em que você, Anthony, Irons
e Hillel Slovak estudavam na Fairfax High School, vocês se
chamavam Los Faces, que nem chegava a ser uma banda musical, mas
quase um grupo humorístico, não é?
Era mais uma piada, Anthony, Hillel e eu éramos amicíssimos,
fazíamos tudo juntos. Costumávamos nos transformar em
"vatos" (o malandro chicano), falando "ese"o
tempo todo e nos denominávamos Los Faces. Era uma piada que a
gente fazia enquanto bebia cerveja. Tínhamos quinze, dezesseis
anos.
Quanto à banda, propriamente dita, Hillel eu e Jack Irons e um
cara chamado Allen Johannes tínhamos uma banda chamada Anthem
que, mais tarde, virou What Is This. Daí entrei para o Fear,
onde tive o meu aprendizado de punk rock (risos).
Nessa época, Anthony, que nunca tinha estado numa banda antes,
havia assistido o primeiro show de rap da vida dele, Grandmaster
Flash And The Furious Five. curtio tanto que pegou um poema seu
chamado "Out in L.A.", e transformou num rap.
Então, ele, Hillel e Jack formaram uma banda para tocar abrindo
o show de um amigo nosso. Entrei no bolo e juntamos à letra de
Anthony um groove que eu tinha bolado. Fomos tocar só essa
música, "Out in L.A.". Não ensaiamos nem nada, mas
fomos para o palco e tocamos. Nos chamávamos Tony Flo And The
Miraculously Majestic Masters Of Mayhem. Foi divertido.
Daí começamos a compor mais canções, fazer shows, fomos
contratados por uma gravadora...
- Você vê muitas diferenças entre aqueles tempos e
hoje em dia?
Acho que a situação hoje é verdadeiramente
melancólica. Não sei se é porque antigamente eu era mais
jovem, mais entusiasmado... Não me considero blasé, me acho
ainda bastante entusiasmado sobre música. Mas antigamente o punk
rock era tão energizante! Saíamos todas as noites para ver as
bandas de punk rock, íamos aos lugares de funk, tinham pessoas
dançando pop locking. Hoje em dia o melhor da cultura jovem é o
hip hop: Public Enemy, Ice Cube, esse tipo de coisa.
Para a garotada, parece que a melhor coisa do mundo são as
raves. É disso que eles gostam, de música tecno. Para mim, é
tão estéril e maçante, que não consigo entender qual é. Mas
tem um monte de pessoas que eu respeito que gostam muito desse
tipo de coisa...
Por exemplo, outro dia mesmo estava conversando com um cara que
era baterista dos Germs, que era a minha banda favorita de punk
rock. hoje em dia ele curte tecno e era meu ídolo nos tempos de
garoto! Aí falei: "Que porra é esse negócio de
tecno?". Ele me disse que eu parecia as pessoas que
reclamavam de punk rock antigamente! "Isso aí não é
música!", era o que diziam. E estão dizendo a mesma coisa
das raves agora. Rick Rubin me disse a mesma coisa, me chamou de
old fart ("peido velho", ultrapassado).
Não sei como as pessoas conseguem dançar conforme o ritmo de
uma máquina! gosto de música orgânica, humana: Jimi Hendrix,
punk rock, jazz, Lee Morgan, Miles Davis, John Coltrane, Charlie
Parker.
- O show que vocês apresentarão no Brasil será
diferente, em alguma coisa, do que foi visto no Lollapalooza?
Para ser honesto, não será drasticamente diferente.
Mas estou tão animado com essa viaem! Não temho muita vontade
de excursionar, no momento. quero compor, criar música, mas
tenho certeza que será lindo. E espero conhecer uma mulher linda
por lá. Mal posso esperar. quem sabe eu consigo uma nova esposa
por lá (risos). As meninas de L.A. são tão complicadas...