DGolpe: Fale um pouco como sobre a foto da capa do novo álbum, Guerra Civil Canibal.

João Gordo: Essa é a foto mais linda do mundo! Foi tirada na Indonésia, onde os muçulmanos estavam apavorando os cristãos. Aquele japonês que está comendo a perna é um muçulmano e a perna é o que sobrou de um cristão.

Isso é para mostrar que até hoje, no ano 2000, existe canibalismo e guerra por religião, que é uma coisa ridícula.

DG: Logo na primeira faixa, você fala da doença, pela qual passou. O que isso mudou na sua vida?

João: Não mudou nada. Pensei que ia mudar, que ia ficar bonzinho, mas fiquei mais louco ainda, na verdade.

DG: Você não abandonou o cigarro?

João: O cigarro abandonei. Foi a única coisa que eu deixei de fazer. Fiquei traumatizado, não fumei mais e pretendo, pelo resto da minha vida, não voltar a fumar. Me considero já um ex-fumante.

Quase morri, passei um aperto, que não foi por causa da gordura e do coração, mas do pulmão, insuficiência respiratória com pneumonia. Lógico que a gordura ajudou a atrapalhar, mas o grande culpado disso tudo foi mesmo o cigarro.

DG: Você diz na música que viu a morte. Não se arrepende do que o fez chegar a esse estado?

João: Não, faria tudo de novo. Todo o mesmo barato e doideira, todas as c... que fiz, faria tudo de novo. Todos os cigarros, que fumei, fumaria tudo de novo.

DG: No CD, foi incluída também uma música, em que você fala da banda inglesa The Varukers, com quem o Ratos excursionou em 1998

João: O Varukers é uma banda clássica inglesa dos anos 80, que influenciou muita gente. Eu adoro essa banda!

Quando a gente conseguiu armar uma tour com eles, eu não acreditei. Foi a primeira vez que a gente tocou na Inglaterra e foi um sucesso. Ficamos em Londres e no show, tinha muita gente. Foi uma surpresa saber que os caras são fãs nossos do mesmo que a gente é deles.

A gente não tinha consciência de que lá o Ratos é uma banda clássica, igual a eles. É muito legal isso! A gente conseguiu que eles viessem para o Brasil, onde fizeram uma turnê com a gente também. Foi muito bom!

DG: Há alguns anos, o Ratos chegou a lançar dois álbuns de uma só vez. Por que agora um CD com apenas 7 músicas?

João: Na verdade, saíram três de uma vez só. A coletânea, Só Crássicos (cobrindo todos os discos dos dezoito anos de carreira), o Guerra Civil Canibal (que tem músicas novas) e uma regravação do primeiro álbum, Crucificados Pelo Sistema, que foi lançado em 1983 e a gente regravou, faz um ano e pouco, do mesmo jeito que a gente toca hoje.

É um disco clássico, foi o primeiro álbum de uma banda desse estilo lançado na América Latina. A gente regravou do jeito que a gente faz hoje, isto é, mais agressivo.

DG: Como está a agenda de shows de vocês?

João: Tem muita coisa marcada. Vamos tocar aqui em São Paulo, abrindo show para o Planet Hemp, que são nossos amigos. Vamos tocar em Piracicaba, no Chile, em BH, no Rio e depois, em outubro, a gente embarca para uma turnê européia e na América, onde a gente nunca tocou.

DG: Como está o novo programa na MTV? Você tem mais liberdade do que nos outros?

João: As pessoas gostam, mas eu não sou muito fã, porque não tem muita música.

DG: Lembro que você reclamou que não tinha espaço para dar dicas de bandas.

João: Agora eles conseguiram tirar o espaço total disso, não posso dar dica nenhuma. Eu não estou gostando muito disso. É f..., mas fazer o quê?

DG: E o Rock In Rio, que vai ter uma nova edição agora?

João: De rock não tem nada, né? Por acaso, Elba Ramalho é rock? Rock não tem! É uma farsa isso daí, só o nome que é do rock mesmo. Devia chamar M...In Rio.

DG: Você gostaria de tocar?

João: Não faço questão, não. Geralmente as bandas nacionais pequenas são tratadas que nem m... . Você não tem direito nem a respirar. Tem que levar o ar de casa, porque não pode respirar o ar dos gringos.

DG: O que você acha da Internet ser utilizada como um canal para distribuir música?

João: A Internet mudou o mundo. Eu não tenho ainda, porque não sei por que cargas d’água eu não consegui comprar computador. Minha tecnologia é ainda dos anos 80, mas eu acho a Internet o máximo!

O Napster também. Sou contra a interrupção do site, porque quem gosta de comprar CD, compra o CD. Eu sou um que posso ter o Napster na minha casa, mas que vou continuar a comprar disco, porque eu gosto da capinha e de um monte de coisa.

Eu acho que não atrapalha muito, não. É a ganância das gravadoras, que faz o bicho pegar.

DG: Retornando ao Rock Iin Rio, o Ratos foi sondado para tocar?

João: Acho que nuca vai acontecer isso, porque a gente não tem gravadora, somos independentes. O Ratos de Porão nunca tocou em nenhum festival de rock internacional. Isso aí é só interesse de gravadoras: quem pagar mais entra. É tudo uma panelona e tudo que fizer parte disso, eu estou fora.

DG: Há um boato correndo de que as bandas nacionais iriam tocar sem cachê.

João: Isso é óbvio. Grupo nacional é lixo, ainda mais para os gringos. Eu acho que tocar em grande festival é a maior roubada, só se tiver uma p... estrutura.

Esse “Rock In Rio por um mundo melhor” é só para o mundo Medina melhor.

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