A Revolta das Mulheres Um ano depois, em 1995, decidi voltar para lá para trabalhar com grupos de mulheres. Em 94, as organizações que eu tinha frequentado eram muito hierarquizadas e em maioria compostas por homens. o Partido passava antes de tudo e a organização comunitária apenas servia para transmitir a ideologia do Partido. Eu queria agora ver como funcionavam as coisas do lado das mulheres. Nessa altura, as organizações femininas reivindicavam a sua independência e autonomia para com os partidos. Em 95, a FMLN estava a transformar-se em partido e formavam-se tendências. Os grupos de mulheres aproveitaram a ocasião para reclamar mais autonomia e a possibilidade de trabalharem no seio das organizações comunitárias sem estarem ligadas ao partido. O grupo de mulheres que nos recebeu estava organizado na ADEMUSA (Associação das Mulheres de El Salvador) e punha a seguinte questão: serão compatíveis o grupo de mulheres e o grupo político? Por seu intermédio, encontrámos duas militantes do Partido Comunista que eram mulheres com uma formidável experiência política. Sentiam-se algo decepcionadas com o processo de paz que permitira a desmobilização da guerrilha e do movimento social. O trabalho deste grupo consistia em sensibilizar as mulheres do meio urbano para os problemas da violência, da saúde e da educação. O nosso grupo fazia uma abordagem feminista muito antropológica, ou seja, não reivindicávamos a defesa das mulheres contra os homens mas sim a luta por um género humano diferente, com atitudes diferentes. Com as comunidades camponesas, a ADEMUSA pusera de pé um original sistema de ajuda. As camponesas podiam pedir dinheiro emprestado a uma caixa comunitária para financiarem as suas plantações. Não era a organização de cooperativas, era uma forma de entreajuda que me parecia justa. Se uma determinada camponesa não podia devolver o dinheiro, por causa da seca ou de outra coisa, a terra era partilhada igualitariamente entre todas. Punha-se, no entanto, um problema: as mulheres recebiam o dinheiro e os homens gastavam-no. Ora, a prazo, o equilíbrio do sistema ficava assim ameaçado. Também nisso a relação de poder entre os homens e as mulheres se tornava determinante. A contragosto, a ADEMUSA viu-se obrigada a pedir aos homens que co-assinassem os empréstimos, para eles se comprometerem também. Neste segundo ano, encarei a sociedade de modo diferente. Ao trabalhar com os grupos de mulheres e com os camponeses, homens e mulheres, apercebi-me de que nem tudo ia por bom caminho. As pessoas começavam a criticar a ideia duma polícia civil, dizendo abertamente que as tinham enganado. A esperança de 94 esfumara-se. Ao viver com as mulheres, uma pessoa sente os problemas da sobrevivência no quotidiano, ou seja, aquilo a que chamo a dupla ou tripla opressão. A revolta das mulheres é menos intelectualizada e passa por menos mediações, é mais espontânea e mais directa. Por exemplo, eu tinha encontrado uma mulher que estivera na guerrilha nos anos 70 e a quem tinham dado uma leira de terra. Esta mulher era muito crítica. Segundo dizia, a situação agravara-se após os acordos de paz. Dizia até que tinha saudades da época da guerrilha, da comunidade de luta e do funcionamento igualitário que então imperava. Não acreditava na política oficial, eleitoralista, da FMLN. «Os que dantes tinham tudo, continuam a ter tudo, e os que não tinham nada, hoje ainda menos têm!» Sentia-se também muito revoltada com a reforma agrária, porque só quem tinha algum dinheiro podia pagar as terras pretensamente distribuídas. Na realidade, isso era conforme as regiões. Onde a guerrilha fora poderosa e onde o campesinato se mostrara muito combativo, as terras haviam sido ocupadas. Tendo em conta a relação de forças nestas zonas, os membros da FMLN tinham podido negociar a distribuição das terras com o governo e os proprietários. Mas estávamos longe duma reforma agrária. Em três comunidades próximas do P.C., situadas em sítios diferentes, uma comunidade conquistara as terras, uma outra ocupava-as, esperando que lhe fossem concedidas, e a terceira comprava-as. Nesta última, as pessoas podiam escolher entre comprar as terras de modo colectivo ou individualmente. É claro, iam endividar-se, mourejar e a seguir perder novamente as terras em proveito dos bancos, porque nunca conseguiriam pagar os créditos. Nunca poderiam tornar-se competitivas. Na comunidade onde estávamos, o Partido Comunista incitava os camponeses a trabalharem a terra colectivamente. Mas ninguém queria saber. A mentalidade era muito individualista, mesmo quando a comunidade conseguia construir uma escola. Para isto, cada família dava umas tantas horas de trabalho por semana. Eram na maioria refugiados, camponeses, homens e mulheres, vindos de outras regiões. Havia também antigos combatentes de ambos os sexos, bem como pessoas da região que tinham apoiado a guerrilha e se viram obrigadas a fugir. Em 1994, a comunidade tinha acabado de se instalar e eu não tinha visto nenhumas separações entre as casas, nenhumas vedações. Um ano depois, cada família vedara o seu lar, o seu terreno, instalara portas e ferrolhos. Aquilo espantou-me. A comunicação no espaço já não existia. Os únicos que o não tinham feito eram os homens e as mulheres que partilhavam a ideia da colectivização. Quanto aos outros, nada se passara no seu espírito. Sempre aquela ideia de que uma pessoa pode viver mais facilmente na sociedade se agir individualmente.
Havia mesmo um debate sobre os prós e os contras da colectivização, ou isso não passava duma palavra de ordem política vinda de cima? Estou a pensar naquela magnífica passagem do filme de Ken Loach, Tierra y Libertad, quando os camponeses e os milicianos discutem juntos sobre a opção da colectivização. Onde eu estava, nunca assisti a tais debates. Sei que em 95 alguns camponeses, homens e mulheres, se tinham agrupado para comercializarem os seus produtos. Visto daqui, isto parece não valer grande coisa, por continuar no contexto mercantil, mas eu vejo nisso um começo de associação entre as pessoas. Como por acaso, eram pessoas que tinham participado na guerrilha. Estive também numa outra comunidade onde as terras tinham sido ocupadas pelos camponeses. Nesta, só alguns membros tinham participado na guerra, mas todos tinham vivido uma experiência de solidariedade, escondendo em suas casas pessoas da FMLN. Emanava de tudo isso um forte espírito comunitário e tinham mesmo ocorrido realizações colectivas concretas: uma creche, uma escola, um posto de saúde. Segundo percebi, as terras não eram colectivizadas, sendo-o todavia as sementes e a comercialização dos produtos. Estas experiências deram-me muito que pensar. No primeiro ano, fui convidada a falar em público, em nome da solidariedade internacional. Pedi aos camponeses, mulheres e homens, que trabalhassem com a FMLN. Naquela altura, a direita também prometia fundos para a agricultura, fundos esses que nunca chegariam às mãos das pessoas. Com a FMLN, o dinheiro apesar de tudo chegava às mãos do povo. Mas no segundo ano disse a mim mesma que já não podia falar às pessoas daquela maneira, visto conhecer melhor a situação e ter menos ilusões. É certo que precisamos sempre de esperança, de acreditar nalguma coisa Mas o que é que me tinha levado a mudar de opinião? Em 95, a FMLN estava a atolar-se nos compromissos do acordo de paz. O que estava em jogo, cada vez mais, eram arranjos políticos e a população continuava a viver na mais absoluta miséria. A esperança na FMLN já não existia. Continuavam a dizer às pessoas que era preciso acreditarem e terem confiança, quando os próprios dirigentes já não acreditavam. O choque veio em 95, quando vi a FMLN votar com a direita, no parlamento, a repressão duma greve! Só um deputado da FMLN, Dagoberto, um comunista, votou contra. Houve prisões, operárias e operários foram atirados para a cadeia e eu soube por amigos e amigas que nas fábricas e nas associações de bairro os trabalhadores, homens e mulheres, pediam contas à FMLN. Exactamente o que eu receara em 1994: «Um dia destes vai haver uma greve e vocês vão reprimi-la com a polícia nacional civil. O antigo combatente, agora polícia, irá prender o trabalhador, estando ambos no mesmo partido político, pretensamente oposto ao regime.» Tudo isso me perturbou imenso. Hoje, seja qual for a guerrilha, já nem sequer ponho a mim mesma a questão, sei como a coisa funciona e aonde leva: tomarem o poder para fazerem a mesma sujeira. Deixei de acreditar nisso. Hei-de mesmo bater-me contra isso!
Foste depois para o Brasil. Fui para lá em 1996, com um grupo de Organizações Não Governamentais alternativas que trabalhavam com o Movimento dos Sem Terra (MST). Fomos ter a uma cooperativa agrícola situada no Estado de São Paulo. A cooperativa, formada por cinco comunidades agrícolas, preparava-se para ocupar terras com vista a formarem uma sexta, chamada Comunidade Chico Mendes, do nome do militante camponês e ecologista assassinado. Para evitarem uma eventual acção policial, as camponesas e os camponeses tinham instalado as suas cabanas nas terras da cooperativa já existente. Do outro lado da estrada estava a terra que iam ocupar. Uma noite, a assembleia camponesa decidiu proceder à ocupação manhã cedo. Perguntaram-nos: «Vocês querem participar?» E nós dissemos que sim. A maneira como eles procedem à ocupação não consiste em colocar uma bandeira no terreno nem em construírem casas. Ocupar significa cultivar a terra. Era época de sementeiras e por isso impunha-se agir com presteza. Mal as pessoas tinham começado a trabalhar, chega um tipo, representante do proprietário. «Esperem aí! O processo legal ainda não foi concluído, tem de seguir seus trâmites, pode ser que vos vão ceder a terra, etc » Deixaram-no falar, o tipo falou durante uma boa meia hora, as pessoas ouviram-no calmamente, de braços cruzados. No fim, um dos camponeses do MST retorquiu-lhe: «O processo jurídico é uma coisa. Vocês têm seus advogados, nós temos os nossos. Isso passa por onde tem de passar, seguindo seus trâmites normais. Mas nós, se queremos comer, temos de cultivar já essa terra.» Era tão simples como isto. Muito concreto.
A Distribuição Segundo as Necessidades Fiquei desde logo impressionada com o forte sentimento de solidariedade. Em cada ocupação, os membros das diversas comunidades vinham prestar assistência à nova comunidade ocupante. Os membros da cooperativa onde nós estávamos viviam bastante bem; comiam carne, tinham leite e cereais. Além disso, forneciam víveres ao acampamento Chico Mendes. Pessoas do acampamento trabalhavam por fora, nas propriedades da aldeia mais próxima, trazendo um rendimento complementar para a colectividade. A maior parte eram camponeses pobres, homens e mulheres daquela região, mas havia também pessoas vindas das favelas de São Paulo. É o resultado da acção desencadeada pelo MST nas favelas: «Vocês são antigas camponesas e antigos camponeses. Nunca vão achar trabalho na cidade. Venham ocupar terras!» Isso faz que as pessoas que tomam essa decisão são muito decididas e motivadas. Segundo o espírito do movimento, cada família fica depois livre de participar ou não na cooperativa. Uma pessoa pode perfeitamente participar numa ocupação sem por isso ficar obrigada a fazer parte da cooperativa. Todos os militantes do MST me diziam que nunca tentam convencer as pessoas a colectivizar as terras. Após cada ocupação, havia um debate sobre esta questão, mas as opções eram livres. Na maioria das comunidades onde estive, as terras eram colectivizadas, apesar de cada família ficar com um quintalzinho. Mas lembro-me também duma comunidade onde algumas famílias tinham recusado a colectivização e mantido as suas leiras. Convém lembrar que todas estas experiências são recentes. As primeiras ocupações datam de há uma dúzia de anos e as terras só são colectivizadas desde há três ou quatro anos. Tudo isso significa um enorme trabalho de organização. Antes da ocupação, um acampamento é a confusão. Uma cooperativa tem uma vida colectiva bem organizada: animais, plantações de árvores e de flores, colmeias. Não direi que as comunidades eram ecológicas, mas há nelas respeito pela natureza. Cada família ou indivíduo tem a sua representação no comité da cooperativa. Todos levam a peito que as pessoas se possam exprimir. Tenta-se de respeitar este princípio: a cada família o seu sustento. Uma família com quatro filhos terá com que os alimentar, mesmo no caso de apenas fornecer a mesma quantidade de trabalho que uma família com dois filhos. A distribuição faz-se segundo as necessidades de cada casa. Tudo isto em quatro anos! Disse para comigo que valia mesmo a pena fazer tais ocupações! |
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