Era ainda noite fechada e "cumpadre Manel" acordou
com um barulho que lhe cheirava a felicidade.
Escutou com atenção e aí é que soube o que o havia despertado. A chuva caia forte no telhado da casinha da roça, onde
vivia com a mulher.
"Acorda Bia, tá chovendo."
"Oxente Manel! Em Janeiro?"
Saltaram da cama correram à porta e viram. A chuva caia lá fora. As pinguelas da casa pareciam cascatas.
Havia muito mais de 10 anos que não chovia em Janeiro.
A terra, ressecada de seis meses do sol do sertão, soltava vapor e o cheiro gostoso da sede saciada.
Os dois ficaram vendo chover.
A chuva, nem forte nem fraca, boa p'rá terra, não parava de cair.
Abriu o dia e já depois do almoço "cumpadre Manel"
pegou a enxada e foi p'rá roça.
A Bia seguiu-o. Iam ajeitando. Um capim cortado aqui, uma vala desfeita ali e, enquanto sentiam na pele resseca pelo sol do
sertão, o doce cair da chuva, ambos pensavam sem nada dizer um ao outro.
Chovendo em Janeiro? Será p'ra durar?
Ia acabando o dia quando parou de chover.
"Será que chove mais? Que veio p'ra ficar?"
"Amanhã se vê!!!"
"Cumpadre Manel" e sua Bia não dormiam, dormitavam, ouvidos à escuta.
Será que vem mais chuva?
Começava o sol a romper a noite, o galo a cantar e, quando o "cumpadre Manel" colocou os pés no chão para ir tratar dos bichos, os primeiros pingos voltaram a soar no telhado.
Sorrindo, pensando o que iria fazer, deu milho às galinhas, capim ao gado, um pouco de mandioca cortada ao porquinho e foi
p'rá roça.
Pouco depois a Bia chamou-o p'ró café.
Enquanto bebiam o café com um pouquinho de cuscuz a Bia falou:
"Será que vai dar?"
"Oh mulher, plantar em Janeiro?"
Sem falar passaram o dia na roça. Prontinha p'ra receber semente.
No final à tarde, na hora da janta, a cacimba estava meia de água e o açude começava a encher.
"Cumpadre Manel" nada dizia e foi dormir.
''De noite voltou a chover. De madrugada quando tratou os bichos, aquela chuva constante que agúa a roça sem lavar, continuava a cair.
Voltou a casa, trocou de roupa, procurou aquela nota de 50 reais a muito escondida no fundo do colchão e falou:
"Vou à cidade."
Seu António da agrária mal o viu entrar logo falou:
"Madrugou Cumpadre? Que é que o traz aqui?"
"Seu Antonio vim comprar semente e um saco de adubo."
"Em Janeiro cumpadre?"
"O Homem é que sabe e, se Ele tá mandando água é p'ra gente usar."
"Ele vai ajudar."
Comprou 3 kgs de feijão, 3 de milho, o saco de adubo e, na hora do almoço, estava em casa.
"Vamos plantar Manel?"
"Vamos Bia ... seja o que Deus quiser."
Toda a tarde a semente ia entrando na terra. Ele abria o buraco, ela colocava o feijão ou milho e um pouco de adubo.
No outro dia, entremeado de sol e chuviscos, estava tudo acabado.
"Agora seja o que o Homem quiser."
O resto de Janeiro fazia sol e chovia, a cacimba estava cheia e o açude quase a sangrar.
O milho e o feijão davam gosto ver.
No entrudo choveu mais um pouco, veio na hora boa.
O Homem "tava" a tratar bem o seu povo. Mandava a água na hora certa.
O açude sangrou, dava gosto ver aquele mar d'água que havia anos não se via.
Já havia peixe por lá.
Em Março, São José deu outra aguadinha e quando, nos princípios de
Abril "cumpadre Manel" e sua Bia comeram o primeiro milho assado, colhido na roça, "cumpadre Manel" falou: