O
despertador tocou às 4:30 da manhã. Maria cansada, ainda suada do amor
consumado poucas horas antes, tirou o braço de baixo do lençol, parou o
infernal toque do despertador que a havia acordado e sacudiu o marido.
"Acorda
João, são horas"
"Tou
cansado mulher, deixa-me dormir. Deitei-me já passava da meia noite."
"João,
levanta-te amor, temos que fazer o suco, fazer o cachorro, arrumar a carroça e
levá-la para a praia. Como é que a gente vai comer amanhã?"
João,
cansado, uma velhice prematura começada aos 30 anos, jogou as cuecas em cima dacadeira e abriu o chuveiro para terminar de acordar. Pingando água por
todo lado gritou:
"Maria,
dá-me a toalha que estou morrendo de frio e vamos trabalhar."
Depois,
a rotina de todos os dias: espremer a fruta e fazer o suco. Abacaxi, caju,
carambola, goiaba, a que mais barata estivesse no mercado era o suco do dia.
Cozinhar o cachorro. O tomate depelado e bem esmagado, a cebola bem picada, um
pouquinho de óleo de soja, pois o dinheiro não dava para comprar azeite e o
cliente também não notava a diferença.
Carroça
bem lavada, bem pintada, sempre um brinco, foi reabastecida de copos descartáveis,
guardanapos, água para manter a limpeza sempre em dia. O cachorro acondicionado
no depósito de alumínio, onde uma lamparina de álcool o mantinha quente, o
suco cuidadosamente colocado em velhas garrafas de plástico, dentro do gelo, no
isopor e pronto. Impecavelmente vestidos de branco, roupas bem lavadas para
mostrar aomundo a higiene da
comida, lá vão os dois, saindo da favela "Entra a Pulso", empurrando
sua carroça em direcção à praia.
Primeira
parada na Padaria. Eram 5:30 da manhã. O Sr. Manuel, o português, já os
esperava: 50 pães de cachorro quente.
"Vai
João, bom negócio pra ti. Logo pagas na volta."
Pouco
mais de 10 minutos depois o João e a Maria pararam a sua carroça no lugar
habitual do calçadão de Boa Viagem.
Já
havia clientes esperando por eles, aguardando para tomar o desjejum.
João,
Maria, não precisavam apregoar, não precisavam gritar, nem sequer de falar: