Cinema Morto
Edmilson Felipe

Cena I: Chacina

Sob o sólido e silábico assovio, guardas guardam ruas, mas não há quem guarde o Rio.
Sob o sol que bronzeia o redentor, menores guardam o riso, mas não há quem guarde a dor.
Fome se mata com cola, criança se mata com bala.
A farda passeia na esquina.
A farda se cala,
quando faz chacina.

Cena II: Fim

No calor do Quênia os elefantes
agonizam a perda do marfim.
No calor do Quênia os homens
comemoram a venda do marfim,
anunciando o preço, especulando o lucro,
iniciando o fim.

Cena III: Fotografia

As mãos estendem-se pela janela,
É preciso sentir a chuva.
As mãos sacodem a cela,
É preciso achar a chave.
Do presídio ecoa a ordem do dia:
Quem não é soldado morre,
não interessa a quantia.
Quem não é soldado,
alimenta a matilha.
Lá fora sangra o jornal e lágrimas clamam saída.
Lá dentro um sinal: talvez a última vida.


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