Cena I: Chacina
Sob o sólido e silábico assovio, guardas
guardam ruas, mas não há quem guarde o Rio.
Sob o sol que bronzeia o redentor, menores guardam o
riso, mas não há quem guarde a dor.
Fome se mata com cola, criança se mata com bala.
A farda passeia na esquina.
A farda se cala,
quando faz chacina.
Cena II: Fim
No calor do Quênia os elefantes
agonizam a perda do marfim.
No calor do Quênia os homens
comemoram a venda do marfim,
anunciando o preço, especulando o lucro,
iniciando o fim.
Cena III: Fotografia
As mãos estendem-se pela janela,
É preciso sentir a chuva.
As mãos sacodem a cela,
É preciso achar a chave.
Do presídio ecoa a ordem do dia:
Quem não é soldado morre,
não interessa a quantia.
Quem não é soldado,
alimenta a matilha.
Lá fora sangra o jornal e lágrimas clamam
saída.
Lá dentro um sinal: talvez a última vida.