Há coisa de um mês, ou
dois, sei lá, reuniam-se uns rapazes de Belas-Artes. No princípio
do século, o brasileiro era o mais desacompanhado dos seres. (Não
havia multidão, e repito: - a multidão foi inventada pelo
Fla-Flu.) Vejam um retrato da Avenida Rio Branco, em 1910. E verificaremos
o que acima foi dito: - o brasileiro andava fatalmente só.
E, quando três patrícios
se juntavam, as instituições tremiam. Eis o que eu
queria dizer: - os rapazes de Belas-Artes que se reuniam, em 1968, não
queriam derrubar nenhuma bastilha. Imaginavam uma singular cerimônia
e escolheram a doce paisagem da Cinelândia. Ora, a Cinelândia,
mal comparando, é a nossa Praça de São Marcos.
E, portanto, os jovens de Belas-Artes se reuniam, provavelmente, com o
seguinte e Francisco propósito: - dar milho aos pombos.
E seria, realmente, uma cena linda:
- estudantes de ambos os sexos, com um pombo em cada ombro! E desfilariam,
irmanados, pombos e estudantes. O povo aplaudiria e pediria bis,
como na ópera. Infelizmente eram outros, e mais ferozes, os
desígnios dos rapazes. A cerimônia, que eles premeditavam,
era uma queima de livros. Em suma: - tratavam de exumar uma antiga,
obsoleta, mumificada solenidade nazista.
Eu disse "livros" e não precisavam
ser, obrigatoriamente, livros. Os jovens queriam queimar poemas de
amor e porque eram amor. E, depois, sapateariam sobre as cinzas dos
versos. Cabe então a pergunta: - o que é que se escondia
por trás de um gesto tão limpidamente hitlerista? Eis
a surpreendente resposta: - o ódio à palavra.
Os rapazes já odiavam o amor
e já odiavam a poesia. Mas o grande ódio era mesmo
à palavra. Disse eu, mais acima, que eles não pretendiam
derrubar nenhuma bastilha. Engano. Tinham, sim, uma bastilha
em mira. Essa bastilha era a palavra. Os peraltas vinham anunciar,
justamente, a morte da palavra.
Diga-se, em desfavor dos inconfidentes,
que eles se arrependeram. A última hora deu-lhes uma salubérrima
pusilanimidade. Em vez de queimar os versos, e de entregar as cinzas
aos abutres, rasgaram uma meia dúzia de páginas. Esperava-se
que dissessem, de fronte alta: - "Somos nazistas, sim! E vocês
vão para os diabos que os carreguem!" Teríamos todo o, direito
de admirar essa coragem suicida.
Em vez disso, mandaram uma circular para
os jornais, na qual se diziam democratas. Essa covardia mimeografada bem
merecia a nossa náusea. Bem. Eu não diria que
a palavra morreu. Diria que devemos salvá-la, com toda urgência
e sem perda de um minuto. Realmente, nunca a degradamos tanto.
Mas há pior e, repito, há
pior. Falo de um editorial do "Jornal do Brasil", assim intitulado:
- "Imagem Falsa." Os estudantes negam a palavra. E vem o "Jornal
do Brasil" e nega também o fato. Senão, vejamos.
Escreve o velho órgão
que a televisão projetou uma "imagem falsa" do carnaval. Como
falsa e por que falsa? Durante os quatro dias, eis o que o vídeo
nos mostrou: - uma massa inédita de nus. Escrevi que, na quarta-feira
de Cinzas, todo mundo acordou com uma atroz ressaca de umbigos. Um
vizinho meu acordou, alta madrugada, aos berros. A família
pulou: acenderam as luzes. Simplesmente, ele tivera um pesadelo de
umbigos.
Pergunto eu: foram as câmeras
e os microfones que inventaram a nudez unânime? Os umbigos
eram apócrifos? Várias senhoras ou mocinhas tinham
cicatrizes de apendicite. E, na paisagem abdominal, estava, nítida,
a Lembrança do bisturi. Insisto: - também a cicatriz
foi uma fantasia das câmeras e microfones?
A televisão saía de
um baile para outro baile. E era o mesmo nu multiplicado e obsessivo.
O vídeo continuava mostrando, ora a nudez individual de uma ou outra
figura ora a nudez coletiva das panorâmicas. Que devia fazer
a televisão? Apresentar cavalheiros de fraque, damas de espartilho
ou escafandro ?
De mais a mais, lá estava a
imagem, com a sua veracidade insuportável. E o "Jornal do
Brasil", em vez de ficar furioso com os umbigos, as cicatrizes, os bustos,
os quadris, aplica a sua ira na televisão. Como se vê,
é uma fúria errada, que lembra aquele marido da anedota.
Vocês devem lembrar-se e, se não se lembram, vou contar.
Imaginem vocês que certo marido
soube que tinha sido traído. E pior: - na sala. E, então,
o santo virou-se, não contra a adúltera, não contra
o amigo indigno, mas contra o divã. Havia lá um divã,
que a vítima mandou retirar, incontinente. Como a infiel insinuasse
uma objeção, o marido impôs-lhe a opção
fatal: - "Ou eu ou o divã!" Tão inadequada é a revolta
do "Jornal do Brasil" contra as câmaras e os microfones.
Também não concordo
quando o gravíssimo órgão diz que as varias estações
competiam entre si no "comentário chulo" às imagens vulgares.
Ora, nenhum locutor ganha para ser um Flaubert, um Proust. Por outro
lado, um pouquinho de modéstia assentaria bem no editorialista do
"Jornal do Brasil": - ele também não é nenhum estilista.
Mas, o que me assombra é o
ódio ao fato.. Os nus, os umbigos, os bustos, as cicatrizes, as
brotoejas, são fatos sólidos, e mais: exaustiva e monotonamente
documentados, gravados, filmados, esfregados na cara do telespectador.
Pois o "Jornal do Brasil" limpa o pigarro, empossa a voz, alça a
fronte e diz, como o português da girafa: - "Isso não existe!"
Vejam vocês: - de um lado, os rapazes juram que a palavra morreu.
De outro lado, o "Jornal do Brasil" trata o fato como se fosse outro defunto.
Mas, o editorialista tem sutilezas
imprevisíveis. Ao mesmo tempo que condena o nu ele o justifica
e consagra. Diz mesmo: - "Ninguém há de esperar que,
num instante em que nas praias do mundo inteiro os costumes de banho chegaram
a uma expressão mínima." Paro com a transcrição,
que já está me dando cãibras no pescoço.
Mas o que quer dizer o editorialista é que as nossas carnavalescas
têm todo o direito à exibição do umbigo, do
busto, da cicatriz. Bem, se o próprio "Jornal do Brasil" concorda
com a nudez promíscua, frenética e ululante, vamos cair nos
braços um do outro, aos soluços. E vamos, como agora
se diz, parabenizar a televisão, que se limitou a dar uma forma
visual e auditiva à verdade inapelável e crudelíssima.
Mas, onde o editorial atinge as culminâncias
do próprio cinismo é quando usa uma voz cava de pai de ópera
e fala nos "lares da cidade". Eu sei que há lares deslumbrantes,
Mas, de onde pensa o "Jornal do Brasil" que saíram os umbigos, as
cicatrizes, os quadris, os nus? Eram extras das tvs, pagas a tanto
por cabeça? Ou ainda: - seriam escravas-brancas? Não,
duzentas mil vezes não. Vamos reconhecer que oitenta por cento
desses nus saíam, precisamente, dos lares, sim, dos lares.
E não saem dos lares o umbigo, o seio, a cicatriz do biquíni
?