Está sendo representada, em
São Paulo, a minha "farsa irresponsável", "Viúva,
Porém Honesta". O autor é velho, a peça é velha
e há personagens bem idosos e, eu diria mesmo, gagás.
Um dêsses personagens, clínico famoso, chega a dizer: - "Estou
na idade em que os médicos começam a vender amostras." O
leitor pode imaginar uma velhice unânime, a tropeçar nas cadeiras
do cenário.
Nem tanto, nem tanto. Alguém
se salva da esclerose abjeta, quase unânime. Refiro-me ao "jovem
diretor" Líbero Ripoli Filho. Foi com maliciosa intenção
que eu coloquei aspas na sua juventude. Em nossa época, ser ou não
ser jovem, eis a questão. Na minha infância, o jovem tinha
vergonha de o ser. Todo mundo queria ser velhíssimo. E havia casos,
como o do Conselheiro Rui Barbosa, de setuagenários natos.
Em nossos dias acontece exatamente
o inverso. Diz-se "o jovem" como se diria "o engenheiro", "o arquiteto",
"o médico", "o advogado", "o magistrado" etc. etc. Há também,
por toda a parte, o "Poder jovem". E conheço um rapaz, dentista,
que mandou fazer assim o seu cartão de visitas: - "Zézinho
dos Anzóis Carapuça", e, por baixo, em tipo maior, estava
escrito: - "JOVEM".
Para o nosso tira-dentes era mais funcional
ser jovem do que dentista. Por aí se vê que o culto da personalidade
foi substituído, em boa hora, pelo culto da idade. Minto. Não
e bem assim. O que há, em todos os idiomas, é "o culto da
imaturidade". O nosso tempo exige das pessoas plena imaturidade. Não
pensem que exagero. Neste final de século, a Imaturidade é
a musa perfeita, sereníssima, universal.
E aqueles que, por azar, atingiram
a maturidade, trataram de assumir atitudes de ginasiano em gazeta. Se o
Dr. Alceu for visto jogando bola de gude com os moleques, ou brincando
de amarelinha, não me admirarei nada, nada. Seria uma maneira
de parecer jovem ou, na pior das hipóteses, espiritualmente jovem.
Do mesmo modo, o D. Hélder. Se o querido Arcebispo pular muros para
roubar goiabas - ficaremos eucantadíssimos com a sua imaturidade.
Bem. Fiz toda a
reflexão acima para voltar ao Líbero
Ripoli Filho. O fato de ser ele um "jovem diretor" já
desencadeou em mim um processo de pânico.
Desgraçadamente, não tenho, como
vários sacerdotes meus conhecidos, o "culto da Imaturidade".
Claro que o jovem Líbero podia ser um Rimbaud. Aos 17 anos, Rimbaud
já era Rimbaud.
Eu não o
conhecia pessoalmente, senão de informação.
Tremi quando soube que seguia a mesma linha, exatamente, do
José Celso. Sou amigo e admirador deste último. Mas
a sua direção nada tem a ver com o autor, nem com o teatro.
Como o Vianinha, o nosso Zé acha que só a platéia
existe. Em suma: - para ele e o Líbero o mistério teatral
reduz-se a duzentas senhoras gordas comendo pipocas.
Dirá o leitor: - "É
uma idéia". E eu concordo. "É uma idéia." Mas aí
começa o cavo e afetuoso abismo entre mim e o Zé Celso, entre
mim e o Ripoli. Assim como o Zé Celso acha que o espetáculo
nada tem a ver com o autor, eu entendo que o teatro nada tem a ver com
a platéia. Só reconheço na platéia
uma função estritamente pagante. Não devia ter
nem o direito do aplauso. O aplauso já me parece uma exorbitância.
Vou um pouco mais longe: - também
acho que, por causa da platéia, o
teatro é a mais incriada das artes. Mesmo os maiores poetas
dramáticos escrevem para a platéia. A rigor, não existe
o autor dramático absoluto, já que todos aceitam a co-autoria
das duzentas senhoras gordas. Elas não sabem de nada, não
entendem de nada, não pensam nada. Mas o espetáculo é
feito para elas e, repito, feito à sua imagem e semelhança.
E, porque existe uma co-autoria bastarda, o teatro ainda não conseguiu
ser arte.
Até que estreou, em São
Paulo, a "Viúva, Porém Honesta". As primeiras
notícias pareciam justificar os meus terrores. A primeira
informação foi a de Osmar Pimentel, adimirável espírito,
homem de lucidez prodigiosa. Em carta um amigo, Dr. Thalino,
fala o nosso Osmar dos "jovens diretores"
que "misturando Brecht com Chacrinha, confundem
comunicação em arte, com a participação física
do auditório no cricri da encenação". Entre parênteses,
nada tenho a objetar contra o Chacrinha. Digo mais: - Chacrinha,
como tal, é um artista maravilhoso. Ao mesmo tempo,
tenho que reconhecer o óbvio, isto
é, que o José Celso ou
Ripoli não podem fazer Chacrinha com Shakespeare, ou lbsen,
ou Sófocles.
Em seguida, leio a crítica do Sabato Magaldi.
Ora, nem a cambaxirra tem uma estrutura
tão doce quanto o Sabato. Até sua restrição
é um arrulho. E ele tem o medo, o remorso, a vergonha, a pena de
não gostar. Apesar de todo o seu escrúpulo crítico
e de toda a doçura de sensibilidade, sente-se que o Sabato achou
abominável o espetáculo. Não chega a tanto,
mas a sua insinuação é límpida.
No próprio "Jornal da Tarde",
onde o Sabato escreve, está dito tudo. Antes de ser mostrada ao
público. "Viúva, Porém Honesta" teve
quarenta representações para estudantes.
E, durante o espetáculo, em plena ação, os personagens
desciam para a platéia e corriam bandejas com
sanduíches, salgadinhos, Coca-Colas, guaranás,
guardanapo de papel. Os estudantes não queriam outra vida.
No Rio, fechava-se o Calabouço; em São Paulo, abria-se outro
Calabouço. Em suma: eu sou o novo Calabouço, eu!
Eu falara nas duzentas senhoras comendo pipocas.
Era uma metáfora. Mas vem o Líbero e transforma a metáfora
em realidade concreta, sim, em realidade de comer. Comia-se
a realidade com direito a Coca-Cola e guaraná. Só que
as pipocas foram substituídas por sanduíches. E os
estudantes, nas primeiras representações, tomaram o lugar
das gorduchas.
Pelo amor de Deus, ninguém pense
que eu esteja aqui fazendo uma restrição intelectual ao Zé
Celso e ao Líbero. De modo algum. São inteligentes,
modernos, revolucionários. Mas o mal reside, precisamente,
em tais méritos, em tais virtudes. A inteligência está
liquidando o teatro brasileiro. Daqui por diante, só darei uma peça
minha ao diretor que provar a sua imbecibilidade profunda.