Almoço em Família
Otto Lara Resende

    Como tínhamos ido às compras em Ipanema, o realejo se impunha: está tudo subindo.  Os remédios que não sumiram dobraram de preço.  E a carne?  E o peito de frango?  O televisor deu um salto de vinte por cento, em sete dias.  Vocês vão ver Bonitinha hoje à noite?  Pauta variada de assuntos.  A filha mais velha acabou a Megera domada, versão Falabella.  A mais nova está com pressa.  Tem que sair para o trabalho na TV Manchete.
    Estão querendo entrevistar a sua amiga que já foi assaltada vinte e nove vezes.  Quase sempre no ônibus.  E a secretária eletrônica?  Deve ser do Paragual: compro ou não compro?  No camelô está muito mais em conta.  O diabo é a manutenção.  Ninguém conserta mais nada.  Uns técnicos de fancaria.  Ao menos vêm aí os cruzados de volta, pingando mês a mês.  Dólares?  Nunca!  Deixar na poupança.  Sejamos patriotas.
    A neta só queria comer batata frita.  Coca-cola no sábado, disse a mãe.  Para não estragar os dentes.  Mas quem pode com uma criança?  E com todo esse charme.  Coitada da Tais, chantageada pelo Ladislau.  A conversa tinha deslizado para outro plano.  Sim, a Olga está esplêndida.  Segura sozinha a novela.  Também, uma gênia como a Fernanda.  Estão castigando a Malu Mader, coitadinha.  Muito antipática, a Márcia.  Claro que o Filipe vai operar o Ladislau. É doido por dinheiro.  São dois bandidos.
    O telefone.  Poxa, só toca na hora do almoço. É porque almoçamos cedo, disse a caçula.  Quedê o queijo da serra da Estrela?  Cremoso assim é que é bom.  Nisso, pipocam os tiros.  Epa, é muito tiro.  Na certa outro assalto ao banco da esquina.  O sétimo ou oitavo.  Chego à varanda.  Um ônibus escolar no meio do trânsito engarrafado.  Atiram de dentro do carro-forte.  Um carro fura o sinal a toda, embica à esquerda.  Todo mundo parado.  Nenhum pânico.  Rotina.  Mas é um tiroteio!
    Corro à portaria.  Aos poucos, vão aparecendo os curiosos.  E a notícia vai sendo bateada entre suposições e boatos.  Dois seguranças morreram.  Um bandido também.  Outro está morrendo.  Muito sangue. Na esquina de Maria Angélica, a confusão é geral.  Soa a sirene da polícia.  Coitado do Nilo Batista.  Faz o que pode.  Finalmente, a notícia: o objetivo era um seqüestro.  E a menininha se queixa, frustrada.  Queria ver a Xuxa.  O seqüestro falhou.  Que pena!

Rio de Janeiro, 09/08/1991


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