Nós saíamos os dois do Vogue, e depois de deixar
Aracy no táxi que a levava ao seu subúrbio, seguíamos
de carro até o Leblon, às vezes acompanhando a matilha madrugadora
de vira-latas a transitar entre as calçadas do Jardim de Alá;
havia sempre um que parava para fazer pipi, o que provocava o reflexo dos
outros, e era aquela mijação feliz - que eu nunca vi raça
de bicho mais contente da vida que vira-lata carioca ao nascer do sol.
Parecia, mal comparando, uma fileira de lingüíças semoventes,
uma a cheirar o rabinho da outra.
Você ria uma grande gargalhada,
contente com o seu Cadillac velho, com a explosão da aurora no mar,
com os vira-latas transeuntes e com seu novo amigo e poeta. E depois de
passar pela casa de Caymmi, para ver se o baiano ainda relentava a noite,
acabávamos nos Pescadores, enfrentando um filé com fritas,
ou uns ovos com presunto, os melhores de Copacabana, porque eram feitos
para a nossa grande fome. O pão era fresco, a cerveja bem gelada.
Depois você me deixava em casa, eu dilacerado de saudades de tudo:
de você, das conversas na boate amiga, onde dois barões, Von
Schiller e Von Stuckart, disputavam em carinho e gentileza. E sobretudo
da mulher amada ainda não tida. Você, maciste ao volante,
cantava a marcha que tinha feito para a minha infinita dor-de-corno:
É muito trade para esperar
por ela
Ela não vem ouvir a tua
voz
Esquece, amigo, porque a vida
é bela
A noite é grande e cabe
a todos nós...
Um elo forte e viril se fizera entre nossas almas, e nós passamos
a ser imprescindíveis um ao outro. A noite - que esperança!
- não era grande, era pequena para a nossa gula de vivê-la
em toda a sua plenitude. Tudo passava tão rápido, nós
olhávamos as moças dançando. Aracy cantava, surgia
a figura amiga de Fernando Ferreira, de repente a porta da boate deixava
filtrar a luz da manhã. "Ele", como dizia Américo Marques
da Costa, tinha despontado. Mais um dia, mais uma morte. Muitas mortes
morremos nós, meu Maria, antes que a sua acontecesse para deixar-me
mais só vivendo as minhas.
Tantos já se foram, atraídos pela Grande Noite... Evaldo
Rui, Bicudo, Stuckart, Waldemarzinho, Louis Cole, Alzirinha, Mauro, Dolores,
Ozorinho, Ismael Filho, Ari... Mas em compensação aí
estão Paulinho Soledade, Carlos Niemeyer, respirando por um fole
só, mas cada dia fazendo mais viração; Verinha, esse
amor de Verinha, uma graça total; a nossa boa Araça, rainha
das vagotônicas, e o querido Rinaldinho, que neste particular nada
lhe fica a dever, ele e sua gargalhada que o rádio silenciou. E
de vez em quando ainda acontece uma grávida, em geral moça
do Norte. Porque a verdade, meu Maria, é que depois da pílula,
moça carioca quase não muda de silhueta.
Às Vezes eu fico pensando. Não sei se você gostaria
de estar vivo agora, meu Maria, depois de 1964. Tudo piorou muito, o governo,
o meu caráter, a música. Agora só se faz música
para Festival e perdeu-se aquela criatividade boa e gratuita da década
de 50. Todo mundo faz música com objetivo: comprar apartamento,
ter um carrinho, ganhar popularidade, dobrar o cachê, vencer Festival,
namorar as moças, bater papo furado. Isso não quer dizer
que os caras sejam ótimos compositores: eles o são. Mas tudo
é feito com espírito muito toma-lá-dá-cá,
cada-um-por-si-e-Deus-por-todos. Assim, a meu ver, perde a graça.
Aliás, não é culpa deles, em absoluto. É "o
esquema", como está na moda falar. Eles têm que estar na onda,
senão não tem apartamento, não tem carro, não
tem cachê, não tem Festival, o papo micha e as moças
não dão. Ficam, por assim dizer, marginalizados, e aí
nem o Globo nem a Record querem nada com os infelizes. Em resumo, meu Maria,
não se perdeu a música; perdeu-se a sua dignidade.
Mas por um motivo eu sei que você gostaria de estar vivo: as moças.
Elas estão, meu Maria, cada dia mais lindas e esportivas, havendo
mesmo uns espécimes de se espetar na parede com alfinete. E acho
que você iria gostar do Antônio's, um restaurante novo do Leblon
onde todo mundo vai, e tem de certo modo o espírito do velho Maxim's
dos anos 51/53.
De vivo mesmo, meu bom Maria, há Oscar Niemeyer e Di Cavalcanti,
certamente os dois maiores homens do atual Brasil. Di está, nos
seus setenta, a coisa mais jovem, trêfega, inteligente e lírica
do mundo, pintando cada dia mais lindo e batendo o melhor papo da República.
E Oscar então, desse nem se fala. Elevou-se muito acima de todos,
pelo gênio, pela consciência política, pela compreensão
humana, pela simplicidade autêntica.
E há os estudantes. Estão maravilhosos, e dando lição
de cultura aos pais e professores. Saem à rua como um fogo que se
alastra, fazendo comícios relâmpagos, topando as paradas com
a polícia e conseguindo unir todas as camadas da população,
com exceção dos milicos. Outro dia nós saímos
em passeata cívica, e éramos 100 mil na Avenida Rio Branco:
estudantes, intelectuais, clero, donas de casa, protegidos por um extraordinário
esquema de segurança bolado pelos próprios garotos. Uma beleza.
Se alguma coisa de bom tem que sair deste país, vai ser à
base do novo movimento estudantil.
E, naturalmente, Chico Buarque de Hollanda.