Aí está, meu Maria...
Acabou. Acabou o seu eterno sofrimento por tudo, e acabou o meu sofrimento
por sua causa. Na madrugada deste mesmo 15 de outubro em que, em frente
aos pinheirais destas montanhas tão queridas, eu me sento à
máquina para lhe dar este até-sempre, seu imenso coração,
que a vida e a incontinência já haviam uma vez rompido de
dentro, como uma flor de sangue, não resistiu mais à sua
grande e suicida vocação para morrer.
Acabou, meu Maria. Você
pode descansar em sua terra, sem mais amores e sem mais saudades, despojado
do fardo de sua carne e bem aconchegado no seu sono. Acabou o desespero
com que você tomava conta de tudo o que amava demais: o crescimento
harmonioso de seus filhos, o bem- estar de suas mulheres e a terrível
sobrevivência de um poeta que foi o seu melhor personagem e o seu
maior amigo. Acabou a sua sede, a sua fome, a sua cólera.
Acabou a sua dieta. Aqui, parado em frente a estas montanhas onde,
há trinta anos atrás, descobri maravilhado que eu tinha uma
voz para o canto mais alto da poesia, e para onde, neste mesmo hoje, você
deveria chamar porque (dizia o recado) não agüentava mais de
saudades - aprendo, sem galicismo e sem espanto, a sua morte. Quando
a caseira subiu a alegre ladeirinha que traz ao meu chalé para me
chamar ao telefone eram nove da manhã - eu me vesti rápido
dizendo comigo mesmo: "É o Maria!". E ao descer correndo para
a pensão fazia planos: "Porei o Maria, no quarto de solteiro ao
lado, de modo a podermos bater grandes papos e rir muito, como gostamos...”.
E ainda a caminho fiquei pensando: "Será que ltatiaia não
é muito alto para o coração dele?...”. Mas você,
há uma semana - quando pela primeira e última vez estivemos
juntos depois de minha chegada da Europa, numa noitada de alma aberta -,
me tinha tranqüilizado tanto que eu achei melhor não me preocupar.
Eu sabia que seu peito ia explodir um dia, meu Maria, pois por mais forte
e largo que fosse, a morte era o seu guia.
Outra noite, pelo telefone, ao perguntar
eu se você estava cuidando de sua saúde, você me interpelou:
"Você tem medo de morrer, Poesia?". "Medo normal, meu Maria",
respondi. "Pois olhe: eu não tenho nenhum", retorquiu você
sem qualquer bravata na voz. "Só queria que não doesse
demais, como na primeira crise. Aquela dor, Poesia, desmoraliza."
Mas como eu descesse - dizia - para
atender à sua chamada, e atravessasse o salão da casa-grande,
e entrando na cabine ouvisse (como há catorze anos atrás
ouvi a voz materna) a voz paternal de meu sogro que me falava, preparando-me:
"Você sabe, Antônio Maria está muito mal...": e eu instantaneamente
soubesse... - justo como naquela época soube também, quando
a voz materna, em sinistras espirais metálicas, me disse do Rio
para Los Angeles: "Sabe, meu filho, seu pai está muito mal..." -
o nosso encontro marcado deu-se numa dimensão nova, entre o mundo
e a eternidade: eu aqui; você... onde, meu Maria? - onde?
Ah, que dor! Agora correm-me
as lágrimas, e eu choro embaçando a vista do teclado onde
escrevo estas palavras que nem sei o que querem dizer...
Há uma semana apenas conversamos
tanto, não é, meu Maria? Você ainda não
conhecia minha mulher, foi tão carinhoso com ela... Tomamos uma
garrafa de Five Stars no Cháteau, depois fomos até o jirau
e terminamos no Bossa Nova. Eu ainda disse: "Você pode estar
bebendo e comendo desse jeito?". "Por que, Poesia? Não
há de ser nada... Qualquer dia eu vou morrer é assim mesmo,
num bar..."
Eu só espero que não
tenha doído muito, meu Maria. Que tenha sido como eu sempre desejei
que fosse: rápido e sem som. Mas é uma pena enorme.
Você tinha prometido à minha mulher, a pedido dela, que recomeçaria
hoje, nesta quinta-feira do seu recesso, no seu "Jornal de Antônio
Maria", o seu "Romance dos pequenos anúncios", que foi uma de suas
melhores invenções jornalísticas e onde eu era personagem
cotidiano: você sempre a querer fazer de mim, meu pobre Maria, o
herói que eu não sou.
Mas por outro lado, sei lá...
Você disse nessa noite, à minha mulher e a mim, que nem podia
pensar na idéia de sobreviver às pessoas que mais amava no
mundo: sua mãe, seus dois filhos, suas irmãs e este seu poeta.
"E Rubem Braga...”, acrescentou você depois, brincando com ternura.
"Eu não queria estar aí para ler quanta besteira se ia escrever
sobre o Braguinha..."
Não irei ao seu enterro, meu
Maria. Daria tudo para ter estado ao seu lado na hora, para lhe dar
a mão e recolher seu último olhar de desespero, de maldição
para esta vida a que você nunca negou nada e o fez sofrer tanto.
Daqui a pouco o sino da casa-grande tocará para o almoço.
Verei minha mulher descer, triste de eu lhe ter dito (porque ela dorme
ainda, meu Maria ... ) e de me deixar assim sozinho, sentado à máquina
de escrever, com a sua morte enorme dentro de mim.