Nessa primeira crônica para o
DARC (Diretório Acadêmico Roberto Carlos), vou matar um pouco
da curiosidade dos calouros de comunicação da manhã
que poderiam estar interessados por um motivo qualquer em mudar de turno
(ter menos mulheres maravilhosas na ESPM, conhecer a fauna noturna do centro
da cidade e outras coisas igualmente agradáveis).
Uma das maravilhas de se estudar a
noite na ESPM é o fato de que após uma fantástica
sexta-feira a noite, regada por aulas de economia no último tempo,
você nem precisa ir para casa e dormir. É que no dia seguinte,
as oito da manhã temos aula de informática! Não é
maravilhoso? Eu que fui beneficiado com esse esquema, mas como sou extremamente
caseiro, fiz as contas:
Saio cerca de dez horas da noite (ontem
foi dez e quinze) da sala, levo uns vinte e cinco minutos para chegar em
casa. Quando me dou conta que não posso sair pra noite em plena
sexta-feira são umas onze horas. Depois verifico emails, tomo banho
e tomo um copo d'água. Jantar não, porque é um luxo
que não posso me dar em prol de dormir as sete horas de sono que
a ESPM tão caridosamente me cedeu. Acordo as sete da manhã
com um gosto de cabo de guarda-chuva na boca e com a sensação
de que há algo errado no eixo cósmico da minha existência
enquanto carne.
As sete e meia estou no ônibus
e apesar de totalmente acordado, a sensação não some
mas se torna suportável. Dez para as oito chego ao décimo-primeiro
andar do prédio da ESPM e me deparo com alguns como eu que vieram
até de mais longe ou passaram a noite ali. Lá estão
eles... felizes... dormindo no macio e acarpetado piso que nossa querida
escola deve ter instalado em seus primórdios pensando justamente
em nós. É por essas e outras que eu não largo a ESPM.
Uma instituição que só pensa no bem dos seus alunos
e faz tudo ao seu alcance para que nós possamos ter o conforto que
merecemos. Afinal, nós pagamos por esse serviço.
E quem está no segundo ano
também se beneficia pelo incrível sistema de videokê
do barzinho da Rua do Rosário próximo ao prédio da
ESPM e acusticamente "ao lado" da sala.
Imagine você, diurno aluno,
fazer uma prova de estatística ao som de "A Pulga e o Percevejo"
cantada por um estivador fanho. Não é uma maravilha? Pena
que, assim como todo o turno da manhã, nós do oitavo andar
não possamos apreciar tal expressão artística tão
fortemente vinculada com as camadas menos culturalmente favorecidas da
sociedade local.
Hoje é sábado e eu fui
à aula de informática pelo aprazível trajeto do Aterro
do Flamengo. Olhei para o Pão-de-açúcar e contemplei
o espetáculo ímpar de um dos cartões postais mais
manjados de nossa cidade. Uma leve névoa se despedia do frio da
manhã acima da Urca, dando espaço aos primeiros raios de
sol do dia. Olhei para a Glória e em sua homônima denominação,
vi a mesma neblina que se dissipava como as brumas das longínquas
florestas nórdicas. Voltei meus olhos para a Rio Branco e, surpreso,
avistei a mesma névoa se misturando à fumaça dos ônibus.
Limpei os óculos com a camisa.