Olhando-me
bem no fundo dos olhos, disse-me, claramente, que não era mais possível
esperar. Quase lhe entrego a tesoura, para que ele cortasse a minha singularíssima
pessoa. E pensei na sublime categoria dos homens que não podem esperar.
Vi a fila dos lotações - um hino à espera... a procissão
dos homens dentro da vida, nada mais que uma espera, uma maneira de fazer
hora, enquanto a mulher da foice vem em caminho. Vi-me esperando, desde
que nasci, inclusive a meia hora que esperei para ser atendido por aquele
homem, que fazia uma força enorme para ser ríspido e não
ceder ao meu triste olhar de indefensável. Vi-me andando, desde
menino, esperando e andando mais, com o sacrifício dos meus joelhos
juntos, que me fizeram gastar uma fortuna em polvilhos, contra rachaduras
e irritações da pele. Mas, quando o gerente sentiu que havia
vencido, que seria uma covardia estar catucando a minha ferida, resolveu
perguntar pelas minhas cantigas, queixou-se da dificuldade com que tem
lutado para comprar o "Ninguém me ama" e perguntou qual seria a
próxima. Disse-lhe, com o meu jeito mais triste, que a próxima
não haveria; que um homem, em meu estado, não pode fazer
versos e melodias. Todo gerente, no coração, é um
bom sujeito. Renovei a promisória.