Gerente do Banco
Antônio Maria

        Olhando-me bem no fundo dos olhos, disse-me, claramente, que não era mais possível esperar. Quase lhe entrego a tesoura, para que ele cortasse a minha singularíssima pessoa. E pensei na sublime categoria dos homens que não podem esperar. Vi a fila dos lotações - um hino à espera... a procissão dos homens dentro da vida, nada mais que uma espera, uma maneira de fazer hora, enquanto a mulher da foice vem em caminho. Vi-me esperando, desde que nasci, inclusive a meia hora que esperei para ser atendido por aquele homem, que fazia uma força enorme para ser ríspido e não ceder ao meu triste olhar de indefensável. Vi-me andando, desde menino, esperando e andando mais, com o sacrifício dos meus joelhos juntos, que me fizeram gastar uma fortuna em polvilhos, contra rachaduras e irritações da pele. Mas, quando o gerente sentiu que havia vencido, que seria uma covardia estar catucando a minha ferida, resolveu perguntar pelas minhas cantigas, queixou-se da dificuldade com que tem lutado para comprar o "Ninguém me ama" e perguntou qual seria a próxima. Disse-lhe, com o meu jeito mais triste, que a próxima não haveria; que um homem, em meu estado, não pode fazer versos e melodias. Todo gerente, no coração, é um bom sujeito. Renovei a promisória.


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