Domingo
Antônio Maria

    O domingo, que, há muitos anos, vinha sendo o meu dia sem graça, fez-me redescobrir o seu bom ar e convenceu-me de sua alegria, como na meninice.  Vou a pé por uma rua de Ipanema, vou andando sozinho, sentindo a tarde fresca e me interessando pelas pessoas que encontro.  O prazer físico de andar e estar só.  O conforto de estar vestindo urna camisa muito maior que eu, só a camisa, sobre uma calça grande também e desvincada.  A maravilha de não precisar falar.
    Passa urna mulher bonita, alta, com um "pêlo-de-arame" pela corrente. Mais adiante, uma outra espera alguém, que a levará para uma mesa de biriba, ou que seja para uma cartada mais séria.  Depois, um jovem casal de mãos dadas, rindo alto, segurando-se um no outro, para não cair da gargalhada.  Um senhor com uma máquina fotográfica, à bandoleira.  Aquele antigo ar dos domingos, voltando da infância, facilitava-me a intimidade que cada homem deve manter consigo mesmo.
    As crianças são íntimas de si mesmas.  Depois, quando vão engrossando a voz e criando buço, começam a fazer-se cerimônia. Às vezes, entre os trinta e quarenta anos, perderam tanto os pontos de referência que a noção dos pés e das mãos é um acontecimento estranho e transfigurado.  Passa-se a não dizer, e sim a ouvir as próprias palavras.  Pobre de quem se ouve!
    Que bom não ter agora com quem falar.  Foi sempre a palavra que enganou todas as coisas.  Enquanto estou calado, podem fazer de mim todas as suposições erradas e absurdas.  Mas não fui eu que menti ou enganei.  Há pessoas que nos obrigam a mentir.  São as que nos pedem aqui e ali um julgamento que lhes seja agradável.  Alguém seguro de si não nos pede jamais uma opinião sobre o seu feito.  Espera, ou pouco se importa com a idéia que estamos formando a seu respeito.
    Os homens que não se confiam perguntam-nos constantemente: "Você não acha que agi muito bem?  Você, em meu lugar, não faria exatamente a mesma coisa?".  E nunca duas pessoas reagem exatamente da mesma maneira em face do mesmo acontecimento.  Porque não existem duas pessoas rigorosamente iguais.  Na melhor das hipóteses, uma teria a gravata de outra cor.
    Que bom ser domingo outra vez, depois de trinta anos!
    Entra uma moça clara, da idade das outras, e senta à mesa em frente à minha. Jovem.  Linda.  E eu, não.

21/5/1957

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