O domingo, que, há muitos anos,
vinha sendo o meu dia sem graça, fez-me redescobrir o seu bom ar
e convenceu-me de sua alegria, como na meninice. Vou a pé
por uma rua de Ipanema, vou andando sozinho, sentindo a tarde fresca e
me interessando pelas pessoas que encontro. O prazer físico
de andar e estar só. O conforto de estar vestindo urna camisa
muito maior que eu, só a camisa, sobre uma calça grande também
e desvincada. A maravilha de não precisar falar.
Passa urna mulher bonita, alta, com
um "pêlo-de-arame" pela corrente. Mais adiante, uma outra espera
alguém, que a levará para uma mesa de biriba, ou que seja
para uma cartada mais séria. Depois, um jovem casal de mãos
dadas, rindo alto, segurando-se um no outro, para não cair da gargalhada.
Um senhor com uma máquina fotográfica, à bandoleira.
Aquele antigo ar dos domingos, voltando da infância, facilitava-me
a intimidade que cada homem deve manter consigo mesmo.
As crianças são íntimas
de si mesmas. Depois, quando vão engrossando a voz e criando
buço, começam a fazer-se cerimônia. Às vezes,
entre os trinta e quarenta anos, perderam tanto os pontos de referência
que a noção dos pés e das mãos é um
acontecimento estranho e transfigurado. Passa-se a não dizer,
e sim a ouvir as próprias palavras. Pobre de quem se ouve!
Que bom não ter agora com quem
falar. Foi sempre a palavra que enganou todas as coisas. Enquanto
estou calado, podem fazer de mim todas as suposições erradas
e absurdas. Mas não fui eu que menti ou enganei. Há
pessoas que nos obrigam a mentir. São as que nos pedem aqui
e ali um julgamento que lhes seja agradável. Alguém
seguro de si não nos pede jamais uma opinião sobre o seu
feito. Espera, ou pouco se importa com a idéia que estamos
formando a seu respeito.
Os homens que não se confiam
perguntam-nos constantemente: "Você não acha que agi muito
bem? Você, em meu lugar, não faria exatamente a mesma
coisa?". E nunca duas pessoas reagem exatamente da mesma maneira
em face do mesmo acontecimento. Porque não existem duas pessoas
rigorosamente iguais. Na melhor das hipóteses, uma teria a
gravata de outra cor.
Que bom ser domingo outra vez, depois
de trinta anos!
Entra uma moça clara, da idade
das outras, e senta à mesa em frente à minha. Jovem.
Linda. E eu, não.