Do Diário
Antônio Maria

"Os homens tristes, geralmente, fazem graça."
Antia Marônio


    Já esperava. A continuação da chuva iria trazer uma porção de lembranças. As que envelhecem.
    Chovia assim, quando fizemos a casa. Eu não tinha a menor idéia de como se fazia uma casa. Ensinaram-me.
    Com um barbante, desenha-se no chão o formato da casa. Depois, na linha do barbante, cavam-se os alicerces, levantam-se as paredes. Depois é só fazer o telhado e cobrir o chão com lajotas. Caiam-se as paredes e pintam-se as janelas de azul. A casa fica linda e todas as pessoas se beijam. As mais íntimas, na boca. Então, faz-se a cerca de casuarina e plantam-se os coqueirinhos no derredor da casa. Compram-se os móveis, a geladeira, as roupas de cama e mesa, as louças, os talheres e as redes. Aí, habita-se a casa. Com as melhores intenções. Feito isto, a família se reúne e todos se olham, com os olhos em brasa.
    As redes ficam no terraço, vazias. Os peixes pulam na água para divertir as crianças, crentes que elas ainda estão.
    Continua chovendo. A cal das paredes escorre sobre os canteirinhos de "marias-sem-vergonha". O azul das janelas esmaece. Quem passa ouve vozes, lá dentro. São fantasmas, cantando uma canção que não viveu:

Somente nós
Nós dois, nosso amor e a vida...

    Triste de quem tem memória. Envelhece antes do tempo. Chora sem ter de quê (pobre chora à toa). Dramatiza tudo.
    Continua chovendo. Uma chuva que se adensa nos corações e a eles lembra o que era para esquecer.

(Sábado, 10/10/1964)

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    Chovia igual a hoje, quando fomos ver a casa onde viveu Van Gogh. Anver-sur-l'Oise. O domingo cinzento. A praça. As mulheres passando para a missa. A caminho do cemitério, uma velha igreja, onde fomos fotografados, "sorrindo para a nossa objetiva". O cemitério e, lado a lado, Téo e Vicente. Algumas flores mortas. Além, o muro e o trigal, onde o artista se matou.
    Voltamos à casa. O pequeno quarto onde Van Gogh dormia dava para um muro cinzento e sujo.  A cadeira.  Aquela cadeira, que ele pintou tantas vezes.
    Eu e Cícero Dias. Cícero, lendo um jornal, ria sem parar, porque um casque-bleu tinha sido comido, via oral, por um africano.  Levantei-me e pedi à patronme que me vendesse três fotografias em cores. Ela começou a rir. Em meu triste francês, tinha lhe pedido três fotografias "em cólera".
    Voltamos a Paris, no anoitecer. Chovia igual a hoje e o porteiro do hotel me esperava com um telegrama.  De amor ou de morte? De amor. Aquele amor de que se fez a casa, desde o barbante, que lhe desenhou o formato.
    Recebo uma cartinha de Dona Diva, a voz que chama, a mão que se estende nos meus momentos suicidas.  "Soube ter estado você doente. Fico muito cuidadosa sabendo você aí tão sem mim. Rogo encarecidamente, quando se sentir doente, vir se tratar aqui. Os médicos são meus amigos de infância, e sua velha mãe, também, sua enfermeira de infância."
    Mentira, Dona Diva, minha saúde é tanta que a farmácia aqui de Fernando Mendes foi à falência.  Tinha sido aberta em minha intenção.  Muitos beijos.

    Nota: Peço aos leitores desta crônica não me perguntarem se ando triste, ou se ao escrevê-la estive triste.  Há uma grande confusão entre seriedade e tristeza. Eu me considero um homem sério, que encontra graves dificuldades para viver num mundo onde é preciso fazer graça.  Triste é aquele que conta anedotas.

(Terça, 13/10/1964)


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