O meu médico, amigo e leitor,
Nelson Vidal, acaba de me dar mais um diagnóstico: sou um barófilo,
isto é, sofro influências e mutações, de acordo
com a pressão atmosférica. Gosto do frio (é verdade)
e, com o frio (diz ele), fico mais inteligente. Vidal acredita na
minha inteligência e está certo de que eu limiaria as raias
da genialidade, se morasse num clima frio.
A coisa não é bem essa.
Na realidade, sou um burrinho esforçado, ousado mesmo e, sob a ação
das temperaturas mais amenas, sou visitado por inspirações
bem razoáveis. Na Europa, por exemplo, na primavera, no outono e
no inverno, sou capaz de escrever uma crônica. quase igual às
que o Braga fazia, em quatro ou cinco minutos. Como também uma música,
com letra e tudo, sem precisar puxar por mim.
Mas aqui, de um modo geral, sou burro.
Não tanto quanto a média local, mas sou burro. A verdade
é que o burro no Brasil passa, pois a burrice e, particularmente,
a besteira são condições exigidas ao jornalista, antes
de botar os pés na redação e as mãos na máquina
de escrever. É imprescindível ser-se burro, em matéria
de arte, religião e política, principalmente. Fora da redação
e longe da máquina, o burro, se souber manter um bom tempo de silêncio,
durante as conversas, criará fama de "talento calado". É
muitas vezes repetida, como elogio, esta observação: "Enquanto
falávamos, fulano, que é muito esperto, não disse
uma só palavra".
Ora, o homem que não fala é
aquele que raciocina com dificuldade. O que não ri, então,
carece de qualquer possibilidade de raciocinar. Quando vejo uma pessoa
muito séria e muito calada, procuro sair de perto, porque dentro
dela efervescem, num só caldo, burrice, amargura, inveja, ódio
e avareza.
Hoje é um dia, com o perdão
da palavra, fresco. Um sol magnífico, e uma brisa que me está
entrando camisa adentro, enquanto escrevo esta crônica. Habito
uma cidade governada por um homem trabalhador, realizador, que está
sempre em Brocoió, Petrópolis e São Paulo. Sou tido
e havido como comunista eu, Dom Hélder e Tristão de Athayde.
Na rua, as mulheres fenecidas se cutucam e cospem à minha passagem.
Os homens pálidos e ricos não têm coragem para tanto,
mas me rogam surdas pragas. E por quê? Por nada.
Então sou feliz, porque, como
bom barófilo, "não quero nada do acaso, senão a brisa
na face". O verso não é meu e, sim, de Fernando Pessoa, que
nasceu em Lisboa, em 1888, e morreu em Lisboa, em 1935. O maior poeta da
língua portuguesa, maior que Camões, foi odiado em vida,
justamente porque não queria nada do acaso, senão a brisa
na face.
06/11/1963