O Barófilo
Antônio Maria

    O meu médico, amigo e leitor, Nelson Vidal, acaba de me dar mais um diagnóstico: sou um barófilo, isto é, sofro influências e mutações, de acordo com a pressão atmosférica. Gosto do frio (é verdade) e, com o frio (diz ele), fico mais inteligente.  Vidal acredita na minha inteligência e está certo de que eu limiaria as raias da genialidade, se morasse num clima frio.
    A coisa não é bem essa. Na realidade, sou um burrinho esforçado, ousado mesmo e, sob a ação das temperaturas mais amenas, sou visitado por inspirações bem razoáveis. Na Europa, por exemplo, na primavera, no outono e no inverno, sou capaz de escrever uma crônica. quase igual às que o Braga fazia, em quatro ou cinco minutos. Como também uma música, com letra e tudo, sem precisar puxar por mim.
    Mas aqui, de um modo geral, sou burro. Não tanto quanto a média local, mas sou burro. A verdade é que o burro no Brasil passa, pois a burrice e, particularmente, a besteira são condições exigidas ao jornalista, antes de botar os pés na redação e as mãos na máquina de escrever. É imprescindível ser-se burro, em matéria de arte, religião e política, principalmente. Fora da redação e longe da máquina, o burro, se souber manter um bom tempo de silêncio, durante as conversas, criará fama de "talento calado". É muitas vezes repetida, como elogio, esta observação: "Enquanto falávamos, fulano, que é muito esperto, não disse uma só palavra".
    Ora, o homem que não fala é aquele que raciocina com dificuldade. O que não ri, então, carece de qualquer possibilidade de raciocinar. Quando vejo uma pessoa muito séria e muito calada, procuro sair de perto, porque dentro dela efervescem, num só caldo, burrice, amargura, inveja, ódio e avareza.
    Hoje é um dia, com o perdão da palavra, fresco. Um sol magnífico, e uma brisa que me está entrando camisa adentro, enquanto escrevo esta crônica.  Habito uma cidade governada por um homem trabalhador, realizador, que está sempre em Brocoió, Petrópolis e São Paulo. Sou tido e havido como comunista eu, Dom Hélder e Tristão de Athayde. Na rua, as mulheres fenecidas se cutucam e cospem à minha passagem. Os homens pálidos e ricos não têm coragem para tanto, mas me rogam surdas pragas. E por quê?  Por nada.
    Então sou feliz, porque, como bom barófilo, "não quero nada do acaso, senão a brisa na face". O verso não é meu e, sim, de Fernando Pessoa, que nasceu em Lisboa, em 1888, e morreu em Lisboa, em 1935. O maior poeta da língua portuguesa, maior que Camões, foi odiado em vida, justamente porque não queria nada do acaso, senão a brisa na face.

06/11/1963


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