Hoje é
sábado, o primeiro dia de um feriado prolongado. Um dia esperado,
desejado e disputado a tapa nas empresas que praticam plantões.
Como sempre, na noite de ontem e na manhã de hoje a cidade presenciou
uma fuga de proporções bíblicas.
Algum observador
desavisado poderia supor que uma guerra civil ou uma catástrofe
natural é esperada para as próximas horas.
Finda a diáspora,
a cidade fica à mercê daqueles que não viajaram, ou
por falta de dinheiro, ou por compromissos profissionais ou por detestar
multidões.
Sim, porque
o paulistano quando viaja leva a cidade inteira junto. Hoje em dia os destinos
preferidos dos viajantes recebe, além dos milhares de fugitivos,
congestionamentos, filas, shopping centers sazonais e filiais das lojas
e bares da moda. Só falta o rio Tietê e o rodízio de
veículos.
Quem permanece
em São Paulo nestas ocasiões vive por alguns dias numa cidade
ideal: com todas as coisas boas que a cidade oferece (restaurantes, bares,
cinemas, etc.), sem muitas das coisas ruins (trânsito, filas, Celso
Pitta, etc.).
A única
desvantagem é o silêncio.
Não
estou falando do silêncio de "na calada da noite". Estou falando
do silêncio à luz do dia, em pleno horário comercial.
Este tipo
de silêncio não faz parte de nosso cotidiano, e a maioria
dos paulistanos só tem contato com ele quando vai visitar um tia
em Piracaia.
O estranho
é que muita gente reclama do barulho, da poluição
sonora e coisa e tal, mas pouca gente conhece o seu oposto. O silêncio
então é mais ou menos como aquele primo distante que foi
trabalhar nos Estados Unidos: todo mundo ouviu falar, comenta-se muito,
mas conhecê-lo que é bom...
Hoje eu estava
caminhando pela rua quando fui surpreendido por ele. Surpreendido mesmo,
ele chegou de repente sem nem ao menos dar uma buzinadinha. Quando me dei
conta, estava cercado pelo silêncio: nenhum carro na rua, nenhuma
caminhão de gás por perto, nenhum bar aberto com batucada
na porta, nenhuma manifestação de perueiros ou do MST.
Estaquei no
meio de um passo e ouvi, ou melhor não ouvi. Me deu uma vontade
incontrolável de voltar correndo para o carro
e ligar o rádio bem alto, só para espantar essa assombração.
Durou apenas
alguns minutos (ou foram segundos?) e foi embora. Ainda bem que
na quarta tudo volta ao normal...