Silêncio
Renato Lellis


        Hoje é sábado,  o primeiro dia de um feriado prolongado. Um dia esperado, desejado e disputado a tapa nas empresas que praticam plantões. Como sempre, na noite de ontem e na manhã de hoje a cidade presenciou uma fuga de proporções bíblicas.
        Algum observador desavisado poderia supor que uma guerra civil ou uma catástrofe natural é esperada para as próximas horas.
        Finda a diáspora, a cidade fica à mercê daqueles que não viajaram, ou por falta de dinheiro, ou por compromissos profissionais ou por detestar multidões.
        Sim, porque o paulistano quando viaja leva a cidade inteira junto. Hoje em dia os destinos preferidos dos viajantes recebe, além dos milhares de fugitivos, congestionamentos, filas, shopping centers sazonais e filiais das lojas e bares da moda. Só falta o rio Tietê e o rodízio de veículos.
        Quem permanece em São Paulo nestas ocasiões vive por alguns dias numa cidade ideal: com todas as coisas boas que a cidade oferece (restaurantes, bares, cinemas, etc.), sem muitas das coisas ruins (trânsito, filas, Celso Pitta, etc.).
        A única desvantagem é o silêncio.
        Não estou falando do silêncio de "na calada da noite". Estou falando do silêncio à luz do dia, em pleno horário comercial.
        Este tipo de silêncio não faz parte de nosso cotidiano, e a maioria dos paulistanos só tem contato com ele quando vai visitar um tia em Piracaia.
        O estranho é que muita gente reclama do barulho, da poluição sonora e coisa e tal, mas pouca gente conhece o seu oposto. O silêncio então é mais ou menos como aquele primo distante que foi trabalhar nos Estados Unidos: todo mundo ouviu falar, comenta-se muito, mas conhecê-lo que é bom...
        Hoje eu estava caminhando pela rua quando fui surpreendido por ele. Surpreendido mesmo, ele chegou de repente sem nem ao menos dar uma buzinadinha. Quando me dei conta, estava cercado pelo silêncio: nenhum carro na rua, nenhuma caminhão de gás por perto, nenhum bar aberto com batucada na porta, nenhuma manifestação de perueiros ou do MST.
        Estaquei no meio de um passo e ouvi, ou melhor não ouvi. Me deu uma vontade
incontrolável de voltar correndo para o carro e ligar o rádio bem alto, só para espantar essa assombração.
        Durou apenas alguns minutos (ou foram segundos?) e foi embora. Ainda bem que
na quarta tudo volta ao normal...


 
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