Era uma Noite
Renato Lellis

Era uma noite de luar e eu estava só.

A próxima frase irá determinar o caráter do texto.

Se eu escrever "e ouvi o pio de uma coruja, na floresta escura...” será um texto de terror, se ao invés disso eu escrever "enquanto isso eu observava a esquina dentro de meu velho Studebaker...” será um policial Noir, e se escrever "e subitamente o rosto da mulher que não me amava me veio à mente" será um romance açucarado.

Muito já foi dito sobre as primeiras frases de romances célebres, mas quem já escreveu algo sobre a segunda?

Todo mundo se lembra de: “Todas as famílias felizes se parecem, mas as infelizes o são cada uma à sua maneira”, mas quem se lembra do que vem em seguida?

A grande verdade é que ninguém escreve a primeira frase. Ela vem pronta, nadando desde um plano habitado pelas obras nunca escritas, como um salmão em busca do local onde nasceu. Ao escritor competente cabe apenas continuar daí em diante.O trabalho de escrever começa na segunda frase.

E é um trabalho ingrato, já que o leitor foi conquistado pela primeira linha, ensaios e artigos serão escritos sobre a primeira linha, campanhas publicitárias irão usar a primeira linha como slogan.

E você não teve nada a ver com isto.

Todo o resto só será lembrado se for muito ruim e destoar daquela primeira linha perfeita e cristalina.

Isto não é justo, mas quem disse que a vida é justa?

Já que é assim, irei me rebelar:

“Era uma noite de luar e eu estava só. De dentro de meu studebaker observava a esquina e ao ouvir uma coruja me lembrei da mulher que não me amava”.

Agora, caro leitor, vire-se.


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