Doces Lembranças, Triste Realidade
Fernando Francisca

    Ainda me lembro dos meus primeiros dias na escola, a caminho de um futuro que, naquela época, diziam as vozes que cercavam a minha vida, só dependeria de mim.

    Hoje, quando passo pela escola da minha vida, vejo, com muita clareza, como tudo mudou.  O muro já erguido não dá mais chance para as fugas escolares, que, mesmo não tendo um bom reflexo, eram as melhores de nossas aventuras, e não traziam grandes problemas.  O máximo que dava era uma bronca carinhosa dos professores mais chegados.  Vejo com ternura os olhares lançados para as garotas que mereciam atenção redobrada na hora do intervalo. E algumas receberam tanta atenção que o padre teve de abençoar a união. Outras nem chegaram lá, mas torço por elas.  Foi também lá que tive a grande surpresa da vida, descobri a força que uma amizade com sexo oposto pode ter em nossas vidas.  Afinal é difícil ser amigo delas sem antes desejá-las.  Assim é a minha amizade com a Valéria, uma amizade que atravessou a tão temida barreira masculina.  Depois disso  foi fácil.

    Aquela escola foi palco para os muitos encontros e desencontros que a vida nos dá.

    Hoje a vida não dá tempo para ver e reconhecer aquele que será seu grande amigo, como nos tempos de escola, onde a força da economia ou de ideologia não figurará como um interventor partidário sobre a nossa amizade, assim também como o seu Partido ou a sua preferência por loiras ou morenas.

    As escolas mudaram muito, ou mudaram os alunos?

    Não acho a resposta, a verdade é que o tempo é impiedoso, não deixa nada no lugar, o que estava aqui jamais estará quando você acordar, e é só isso.

    Teremos que conviver com a lembrança dos melhores anos de nossas vidas e ansiado para que ele se repita uma vez ou outra para que possamos acreditar que tudo valeu a pena.

    Olhar para trás e ver o quanto a vida mudou em torno de simples lembranças como essas é positivo e ao mesmo tempo triste, pois cada dia que passa é a confirmação de que aquela velha brincadeira de criança, da nossa santa ignorância de querer ser adulto, na verdade, é um grande engano, e que ser criança é uma das melhores aspirações que deveríamos ter.


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