O Livro de Fra. Gondicário
Álvares de Azevedo

I

    Era em Veneza. O sol descaía, no manto rubro do crepúsculo, como um rajá da Índia fulgente de jóias nos estofos de damasco do seu divã—e o mar ao longe cintilava numa esteira de rubis e lantejoulas como o fagulhar da queimada a estorcer-se pelos verdumes crepitantes da montanha. E o céu sorria vermelho como os lábios de uma rosa aberta, e as nuvens passavam lentas como galeotas desertas nas praias de Stambul a Soberana, e as brisas roçavam pelas águas suspirosas como os beijos a furto dos lábios vermelhos da Odalisca pela fronte escura do Califa adormecido à sombra dos romaes de Granada a Mourisca, e como o correr da pátena d'oiro nos festins Romanos pelos lábios das Bacantes coroadas das eras de saturnal—e as falas da mulher no devassar da orgia, pelos ouvidos indiferentes do ébrio de vinho e volúpias.
    E a tarde era louçã como o amanhecer de fadas e um anoitecer de lua quando o corpo de Febe a nua desmaia no lençol azul dos mares. E a tarde era louçã como esses beijos a furto nos carnavais Italianos no lacre de uns lábios risonhos dentre as rendas bordadas da máscara de veludo—era louçã e bela com seu dossel carmesim e seus lírios roxos, com seu horizonte de fogos furta-cores—e suas nuvens de púrpura e crisólito—de neves e
sangue—e seu mar cintilante como o manto de veludos estrelados da rainha do Adria, se alvoroçando ao desflorar das aragens da tarde, que aí se perdia no além azulado das montanhas.
    Era numa dessas belas ruas de Veneza, onde por entre as casarias vermelhas espelha-se o ondular das águas, como a lamina de um montante de Damasco . .. Não lhe sei o nome. Entrevia-a apenas no deslumbre de um devaneio, sonhei-a, criei-a pelo meu sonho com suas visões de mulheres, seus suspiros de alaúde e de mandara, seus hálitos embalsamados.
    Era numa rua de Veneza.—À porta de um palácio estava sentado um vulto embuçado num manto branco. Era uma dessas feições soberbas do mar além do Me" diterrâneo desses Almogávares denegridos que nas horas do combate ao reluzir da folha curva do Iatagã aos raios do meio-dia, aos brados guerreiros pelo Alá dos Bárbaros, se acardumam soberbos em torno dos Adaís do deserto. Um daqueles bustos altivos que o mancebo poeta talvez entreviu no sonho de Otelo, o negro. Era uma fronte larga e abassanada avultando sob as pregas do Caftã branco, uns olhos vivos como os dos chacais nas noites sem estrelas, uivando ao redor das tendas da caravana, —o bigode basto e negro— e a barba longa ondando sobre o embuço do albornoz selvagem.
    O que aí fazia o Árabe nem o sei talvez—o sonho não m'o preveniu. Parecia-me apenas que uma nuvem negra lhe corria pela fronte como uma sombra na face cor de aço de um lago em noites pardacentas—e seus olhos inquietos se perdiam nos longes do Canal. Sonhava? E entrevia nos aléns as paragens do oásis, com seu manto de relvas e seus quiosques de sombrios palmares onde o Bulbul Z da Arábia gorjeia os amores das rosas? e entre os verdumes o branquear das tendas da tribo, o reluzir das lanças dos Spahis Cavaleiros, o relinchar das éguas
reluzidas esquias dos Agas valentes.
    Sonhava? E entrevia no fresco de algum arvoredo, na margem sombria da cisterna do deserto, o roupão branco e o turbante caído, e o manto acetinado de cabelos pelos seios nus,—alguma Gulnare ou Rachyma, Iantha ou Juana a Espanhola—flor de romã aberta mais viva no transplantar do harém, pérola colhida nas praias floridas da Espanha, Grécia ou Itália?
    Sonhava? E entrevia nuns olhos úmidos de mulher lágrimas por eles, nos seios torneados e altivos onde um suspiro flutua e morre, algum anseio de volúpia, algum rever lânguido das ebriedades no aperto do seio do amante?
    Mas não.—Não era talvez o colo envolto de pérolas da escrava, e os olhares longos da Espanhola, e o cravo dos lábios da Grega na sesta do palmar—Não era talvez o amor da filha das barracas nômadas do Islamita, nem saudades bélicas da terra dos tamareiras.
    A noite caía—e o céu faiscava de aljôfares—e a lua se erguia atrás dos desenhos fantásticos, e das cúpulas brancas da catedral de S. Marcos—como a noiva ao través do seu véu de virgem—fitando seus longos olhares sobre a cidade dormida num leito de pedra.

II

A lua se erguera, pálida como a Febe antiga, a ninfa desmaiada de Delos, depois das longas noites em que ao fresco dos arvoredos ela contemplava o sossegado dormir de Céfalo — e seus raios brancos escorriam pela frente dos palácios como a melena das algas gotejantes nos penhais.
    Um vulto apareceu numa das sacadas do palácio. Dava-lhe o luar em cheio no rosto pálido.—A fronte alta e descarada sombreavam-lha os longos cabelos negros e reluzentes.—Um manto de veludo o embucava—Havia aí nessa figura escura um não sei que de belo; havia ai nessa descor desfeita, no desalinho dos cabelos, umas sombras misteriosas, que travavam de vencida o olhar.— Disséreis Childe Harold... a unidade convergente de todos os sonhos do poeta—a sombra de Byron que lhe corria em todas as idéias—como a imagem pensativa e melancólica de Karl Moor em todas as criações de Schiller.

AO LUAR

Esperava, desperado.

III

    Era-a do vulto da janela — uma dessas feições que os Sóis do meio-dia parecem ter avivado com o primor de seus lumes — e o fogo de seus verdes. — Ler-se-lhe-ia em cada traço, nos cabelos corridos e ondados, no bigode negro, nos olhos acesos e até nessa morena descor, que pelas válvulas das veias desse homem borbulhavam os fervores de Sarraceno, fundidos na branquidão, de fleugma das raças loiras do Norte — e nos vestígios dos bustos varonis dos soberbos Romanos. — Não havia engranar-se: era um Espanhol ou um Siciliano.
    Ao certo contudo ninguém sabia quem era o Conde Tancredo. — Donde vinha, onde ia, como vivia — calava-o ele. — Sua vida era um mistério — para uns era um doidejar de mancebo leviano, rebuçado nas orgias dormindo nos haréns venais do lupanar, embriagado nos seios torneados na fluidez de cores de um corpo que freme nos abraços seminus das cinturas acetinadas no fresco dos cabelos das Frinés belas.
    Para outros essa vida louca e perdulária — o isolado de seu palácio fechado durante o dia, o frenesi dos banquetes, o tumultuar das ceias fascinantes pelo quedar das horas mortas — a figura desse palácio mudo, como um fantasma de pedra, durante o dia — e refletindo de noite nas águas esverdeadas seus vinte olhos de luz — parecia acobertar algum crime: era um tapete de felpos séricos e flores turcas sobre uma nódoa ainda úmida de sangue.
    Era contudo de nobre raça, uma dessas feições onde logo se adivinha a nobreza de herança — frontes soberbas onde melhor que nos brasões heráldicos se lê o senho do orgulho dinástico. O Conde Tancredo era assim.
    Era um homem de estranhas usanças. — Muitos o viram passar do riso mais alegre à spleenalgia mais sombrosa, do volver mais doce de olhos ao cintilar injetado de sangue de um olhar de cólera muda. E quando dormia — muitas vezes a amante das noites se erguera de seu lado, fria e pávida, — ao ouvir os gemidos cavernosos de seu peito, e os gritos de raiva rangendo entre seus dentes cerrados — no volver da mão negra de um pesadelo.
    Isso que uns chamavam sonambulismo acordava em outros idéias de que a palidez desse homem podia ser um crime, e seus pesadelos um remorso.

IV

    O mancebo desaparecia às vezes do balcão da sacada — e suas passadas ressoavam pelo salão escuro — outras reaparecia na janela, estendendo olhares ávidos aos aléns do Canal.
    O Árabe sentado no mármore da escadaria, parecia também esperar.
    Disséreis contudo que a pessoa que ele esperava parecia não ser a mesma que inquietava tanto o Conde. A direção de seus olhares era oposta inteiramente. Cada vez, contudo, que o rosto do mancebo embranquecido pela chuva de luzes lívidas da lua aparecia na sombra de seu manto negro, como no fundo escuro de um painel de Téniers ou Van-Dyck — a fronte escura do escravo se erguia — seu olhar brilhava mais ardente — e ele parecia dizer:

    —Ele espera também!

V

    A noite ia límpida e bela—as virações corriam medo no deslizar das ondas. Fazia-se tarde — só se ouvia às vezes o estalar das águas no cair dos remos reluzentes de umidez, dalguma gôndola solitária, passando muda e negra nas águas.
    A noite ia-se límpida e bela. — O ar respirava a bafagem dos laranjais em flor. Entre o ramalhar das folhas, ao sussurrar das ondas, exalava-se às vezes a cantilena monótona do barqueiro—ou o descante ao longe de alguma barca iluminada.

VI

    O céu se escurecia sob o crepe das nuvens que avultavam no horizonte, em ondas negras. A lua sumira seu fantasma ebúrneo sob as cortinas da escuridão. Gotas mornas de chuva começavam a cair…
    Davam nesse instante 10 horas em S. Marcos.
    Os dois vultos — o da janela e o da escadaria — permaneciam ansiosos.
    Uma gôndola escura dobrou o canal — e aproximava-se lenta como uma ave negra aquática, com a cabeça sob a asa, resvalando em seu dormir pelo vidro das águas.
    A gôndola vinha sempre — o mancebo permanecia imóvel na escada.
    A gôndola parou no cais defronte do palácio

    —Aí - aí — disse uma voz argentina de mulher...

    O conde ficou imóvel como bebendo a doçura daquela voz—o Árabe como despertado por ela foi até o cais…
Nesse momento uma forma peregrina de mulher saltava em terra com seus pés mimosos nuns mágicos e curtos sapatos de cetim, envolta numa manta de seda, cujas franjas lhe cobriam o rosto como uma máscara, mas não tanto que algumas doiradas mechas de cabelo lhe não sobressaíssem entre elas…

    —É ela — disse o moço pálido, desaparecendo da janela.
    —Não é ela — murmurou em sua língua bárbara o selvagem filho do deserto, voltando a embuçar-se no albornoz e a recostar a fronte escura no frio das pilastras de pedra.
    —Ide—disse ela ao gondoleiro, atirando-lhe uma moeda de oiro...

    A gôndola partia quando ela passava o peristilo do palácio.

    —Adeus, Ali — disse ela, batendo-lhe com o leque. — Não falas, estátua?

    A face queimada do estrangeiro não se moveu.
    Sonhava? Esperava?
    Talvez ambas as coisas.


Hosted by www.Geocities.ws

1