O sogro era um santo e patusco cidadão.
Assim que o viu arremessou-se, de braços abertos:
- Como vai essa figura? Bem?
Filadelfo abraçou e deixou-se
abraçar. E rosnou, lúgubre:
- Essa figura vai mal.
Espanto do sogro:
- Por que, carambolas? - E insistia:
- Vai mal por quê?
Caminhando pela calçada, lado
a lado com o velho bom e barrigudo, Filadelfo foi enumerando as suas provações,
só comparáveis ás de Job:
- É o gênio de sua filha.
Sou desacatado, a três por dois Qualquer dia apanho na cara!
Dr. Magarão assentiu, grave
e consternado:
- Compreendo, compreendo. - Suspira,
admitindo: - Puxou à mãe. Gênio igualzinho. A mãe
também é assim!
Súbito Filadelfo estaca. Põe
a mão no ombro do outro; interpela-o:
- Quero que o senhor me responda o
seguinte: isso está certo? É direito?
O velho engasga:
- Bem. Direito, propriamente, não
sei. - Medita e pergunta: - Você quer uma opinião sincera?
Batata? Quer?
- Quero.
E o sogro:
- Então, vamos tomar qualquer
coisa ali adiante. Vou te dizer umas coisas que todo homem casado devia
saber.
TEORIA
Entram num pequeno bar, ocupam uma
mesa discreta. Enquanto o garçon vai e vem, com uma cerveja e dois
copos, dr.Magarão comenta:
- Você sabe que eu sou casado,
claro. Muito bem. E, além da minha experiência, vejo a dos
outros. Descobri que toda mulher honesta é assim mesmo.
Espanto de Filadelfo:
- Assim como?
O gordo continua:
- Como minha filha. Sem tirar, nem
pôr. Você, meu caro, desconfie da esposa amável, da
esposa cordial, gentil. A virtude é triste azeda e neurastênica.
Filadelfo recua na cadeira:
- Tem dó! Essa não!
- E repetia, de olhos esbugalhados, lambendo a espuma da cerveja: - Essa,
não!
Mas o sogro insistiu. Pergunta:
- Sabe qual foi a esposa mais amável
que eu já vi na minha vida? Sabe? Foi uma que traia o marido com
a metade do Rio de Janeiro, inclusive comigo! - Espalmou a mão no
próprio peito, numa feroz satisfação retrospectiva:
- Também comigo! E
tratava o marido assim, na palma da mão!
Uma hora depois, saiam os dois do
pequeno bar. Dr. Magarão, com sua barriga de ópera-bufa e
bêbado, trovejava:
- Você deve se dar por muito
satisfeito! Deve lamber os dedos! Dar graças a Deus!
O genro, com as pernas bambas, o olho
injetado, resmunga:
- Vou tratar disso!
O DESGRAÇADO
Não mentira ao sogro. Sua vida
conjugal era, de fato, de uma melancolia tremenda. Descontado o período
da lua-de-mel, que ele estimava em oito dias, nunca mais fora bem tratado.
Sofria as mais graves desconsiderações, inclusive na frente
de visitas. E, certa vez, durante um jantar com outras pessoas, ela o fulmina,
com a seguinte observação,
em voz altíssima:
- Vê se pára de mastigar
a dentadura, sim?
Houve um constrangimento universal.
O pobre do marido, assim desfeiteado, só faltou atirar-se pela janela
mais próxima. Após três anos de experiência matrimonial,
eleja não esperava mais nada da mulher, senão outros desacatos.
E só não compreendia que Jupira, amabilíssima com
todo mundo, fizesse uma exceção para ele, que era, justamente,
o marido. Depois de Ter deixado o sogro, voltou para casa desesperado.
Chega, abre a
porta, sobe a escada e quando entra no quarto recebe
a intimação:
- Não acende a luz!
Obedeceu. Tirou a roupa no escuro
e, depois, andou caçando o pijama, como um cego. E quando, afinal,
pôde deitar-se, fez uma reflexão melancólica: há
dez meses ou mesmo um ano que o beijo na boca fora suprimido entre os dois.
O máximo que ele, intimidado, se permitia, era roçar com
os lábios a face da esposa. Se queria ser carinhoso demais, ela
o desiludia: "Na boca não! Não quero!".
Outra coisa que o amargurava era o seguinte: a negligência da mulher
no lar. Não se enfeitava, não se perfumava. Deitado ao seu
lado, ele pensava agora, lembrando-se da teoria do sogro: - "Será
que a esposa honesta também precisa cheirar mal?".
MUDANÇA
Um mês depois, ele chega em casa,
do trabalho, e acontece uma coisa sem precedentes: a mulher, pintada, perfumada,
se atira nos seus braços. Foi uma surpresa tão violenta que
Filadelfo perde o equilíbrio e quase cai. Em seguida, ela aperta
entre as mãos o seu rosto e o beija na boca, num arrebatamento de
namorada, de noiva ou de esposa em lua-de-mel. Ele apanha o jornal, que
deixara cair. Maravilhado, pergunta:
- Mas que é isso? Que foi que
houve?
Jupira responde com outra pergunta:
- Não gostou?
Ele senta confuso
- Gostar, gostei, mas... - Ri: - Você
não é assim, você não me beija nunca.
Jupira tem um gesto de uma petulância
que o delícia: vem sentar-se no seu colo, encosta o rosto no dele.
Filadelfo é acariciado. Acaba perguntando:
- Explica este mistério. Aconteceu
alguma coisa. Aconteceu?
Ela suspira:
- Mudei ora!
SOFRIMENTO
A princípio, Filadelfo conjeturou:
"É hoje só". No dia seguinte, porém, houve a mesma
coisa. Ele coçava a cabeça: "Aqui há dente de coelho!".
Coincidiu que, por essa ocasião, os seus sogros aparecessem para
jantar. Dr.Magarão, enquanto a mulher conversava com a filha, levou
o genro para a janela: "Como é? Como vai o negócio aqui?"
Filadelfo exclama:
- Estou besta! Estou com a minha cara
no chão!
O velho empina a barriga de ópera-bufa:
- Por quê?
E o genro:
- Tivemos aquela conversa. Pois bem.
Jupira mudou. Está uma seda; e me trata que só o senhor vendo!
Ao lado, mascando o charuto apagado, o velho balança a cabeça:
- Ótimo!
- O negócio está tão
bom, tão gostoso, que eu já começo a desconfiar!
O sogro põe-lhe as duas mãos
nos ombros:
- Queres um conselho? De mãe
pra filho? Não desconfia de nada, rapaz. Te custa ser cego? Olha!
O marido não deve ser o último a saber, compreendeu? O marido
não deve saber nunca!
LUA DE MEL
Seguindo a sugestão do sogro,
de não quis investigar as causas da mudança da esposa. Tratou
de extrair o máximo possível da situação, tanto
mais que passara a viver num regime de lua-de-mel. Dias depois, porém,
recebe uma minuciosíssima carta anônima, com dados, nomes,
endereços, duma imensa verossimilhança. O missivista desconhecido
começava assim: "Tua mulher e o Cunha...". O Cunha era, talvez,
o seu maior amigo e jantava três vezes por semana ou, no mínimo,
duas, com o casal. A carta anônima dava até o número
do edifício e o andar do apartamento em Copacabana onde os amantes
se
encontravam. Filadelfo lê aquilo, relê e
rasga, em mil pedacinhos, o papel indecoroso. Pensa no Cunha, que é
solteiro, simpático, quase bonito e tem bons dentes. Uma conclusão
se impõe: sua felicidade conjugal, na última fase, é
feita à base do Cunha.
Filadelfo continuou sua vida, sem se dar por achado,
tanto mais que Jupira revivia, agora, os momentos áureos da lua-de-mel.
Certa vez jantavam os três, quando cai o guardanapo de Filadelfo.
Este abaixa-se para apanhar e vê, insofismavelmente, debaixo da mesa,
os pés da mulher e do Cunha, numa fusão nupcial, uns por
cima dos outros. Passa-se o
tempo e Filadelfo recebe a notícia: o Cunha ficara
noivo! Vai para casa, preocupadíssimo. E lá, encontra a mulher
de bruços, na cama, aos soluços. Num desespero obtuso, ela
diz e repete:
- Eu quero morrer! Eu quero morrer!
Filadelfo olhou só: não
fez nenhum comentário. Vai numa gaveta, apanha o revólver
e sai á procura do outro. Quando o encontra, cria o dilema:
- Ou você desmancha esse noivado
ou dou-lhe um tiro na boca, seu cachorro!
No dia seguinte, o apavorado Cunha
escreve uma carta ao futuro sogro, dando o dito por não dito. À
noite, comparecia, escabreado, para jantar com o casal. E, então,
à mesa, Filadelfo vira-se para o amigo e decide:
- Você, agora, vem jantar aqui
todas as noites!
Quando o Cunha saiu, passada a meia-noite,
Jupira atira-se nos braços do marido:
- Você é um amor!