Tinha um linguajar difícil,
o Latricério. Já de nome era ruinzinho, que Latricério
não é lá nomenclatura muito desejada. E era aí
que começavam os seus erros.
Foi porteiro lá do prédio
durante muito tempo. Era prestativo e bom sujeito, mas sempre com o grave
defeito de pensar que sabia e entendia de tudo. Aliás, acabou despedido
por isso mesmo. Um dia enguiçou a descarga do vaso sanitário
de um apartamento e ele achou que sabia endireitar. O síndico do
prédio já ia chamar um bombeiro, quando Latricério
apareceu dizendo que deixassem por sua conta.
Dizem que o dono do banheiro protestou,
na lembrança talvez de outros malfadados consertos feitos pelo serviçal
porteiro. Mas o síndico acalmou-o com esta desculpa excelente:
— Deixe ele consertar, afinal são quase xarás e lá se entendem.
Dono da permissão, o nosso amigo
— até hoje ninguém sabe explicar por quê — fez um rápido
exame no aparelho em pane e desceu aos fundos do edifício, avisando
antes que o defeito era "nos cano de orige".
Lá embaixo, começou a mexer
na caixa do gás e, às tantas, quase provoca uma tremenda
explosão. Passado o susto e a certeza de mais esse desserviço,
a paciência do síndico atingiu o seu limite máximo
e o porteiro foi despedido.
Latricério arrumou sua trouxa
e partiu para nunca mais, deixando tristezas para duas pessoas: para a
empregada do 801, que era sua namorada, e para mim, que via nele uma grande
personagem.
Lembro-me que, mesmo tendo sido, por
diversas vezes, vítima de suas habilidades, lamentei o ocorrido,
dando todo o meu apoio ao Latricério e afirmando-lhe que fora precipitação
do síndico. Na hora da despedida, passei-lhe às mãos
uma estampa do American Bank Note no valor de quinhentos cruzeiros, oferecendo
ainda, como prêmio de consolação, uma horrenda gravata,
cheia de coqueiros dourados, virgem de uso, pois nela não tocara
desde o meu aniversário, dia em que o Bill — o americano do 602
— a trouxera como lembrança da data.
Mas, como ficou dito acima, Latricério
tinha um linguajar difícil, e é preciso explicar por quê.
Falava tudo errado, misturando palavras, trocando-lhes o sentido e empregando
os mais estranhos termos para definir as coisas mais elementares. Afora
as expressões atribuídas a todos os "malfalantes", como "compromisso
de cafiaspirina", "vento encarnado", "libras estrelinhas", etc., tinha
erros só seus.
No dia em que estiveram lá
no prédio, por exemplo, uns avaliadores da firma a quem o proprietário
ia hipotecar o imóvel, o porteiro, depois de acompanhá-los
na vistoria, veio contar a novidade:
— Magine, doutor! Eles viero avalsá as impoteca!
É claro que, no princípio, não foi fácil compreender as coisas que ele dizia mas com o tempo, acabei me acostumando. Por isso não estranhei quando os ladrões entraram no apartamento de Dona Vera, então sob sua guarda, e ele veio me dizer, intrigado:
— Não compreendo como eles entraro. Pois as portas tava tudo "aritmeticamente" fechadas.
Tentar emendar-lhe os erros era em
pura perda. O melhor era deixar como estava. Com sua maneira de falar,
afinal, conseguira tornar-se uma das figuras mais populares do quarteirão
e eu, longe de corrigir-lhe as besteiras, às vezes falava como ele
até, para melhor me fazer entender.
Foi assim no dia em que, com a devida
licença do proprietário, mandei derrubar uma parede e inaugurei
uma nova janela, com jardineira por fora, onde pretendia plantar uns gerânios.
Estava eu a admirar a obra, quando surgiu o Latricério para louvá-la.
— Ainda não está completa — disse eu — falta colocar umas persianas pelo lado de fora.
Ele deu logo o seu palpite:
— Não adianta, doutor. Aí bate muito sol e vai morrê tudo.
Percebi que jamais soubera o que vinha a ser persiana e tratei de explicar à sua moda:
— Não diga tolice, persiana é um negócio parecido com venezuela.
— Ah, bem, venezuela — repetiu.
E acrescentou:
— Pensei que fosse "arguma pranta".