Dos cadernos de alquimia, Tomo 8: 8:8, página 0010:
"Diz a lenda que para o Universo se
manter coeso é necessário que se proceda a opressão
contínua dos seres; do contrário, a explosão de zilhões
de liberdades fragmentaria o continííiíní.
Tiamek seria então uma manifestação monstruosa da
Unidade com uma finalidade bem definida: caminhar colossal por entre os
campos e as cidades, esmagando as criaturas e suas esperanças para
nunca ser esquecido.
Uma versão mais simples relata
que o Universo naturalmente cria a sua face mais monstruosa, não
por um objetivo específico, mas em decorrência da lei enunciada
pelo Teorema de Lúcifer, que entende que todas as coisas se desfiguram.
Sendo Tiamek desfiguração do próprio Universo, é
capaz de assumir existência distinta do objeto do qual é horrenda
deformação.
Outra ainda, comum entre os escribas,
parte também da desfiguração universal mas entende
que Tiamek seria um apêndice deliberado em que a realidade concentrou
todas as suas degradações para que estas não a impregnassem.
Muitas outras teses são levantadas
por alquimistas, contadores ou andarilhos. Somente os magistrados
do Reino não acreditam em sua existência, estando inclusive
o prodigioso tigre catalogado na Medicina Legal como cínico delírio
escusatório típico de indivíduos de comportamento
anti-social.
Como se sabe, aos nossos juizes não
é permitido transitar pelas ruas. Tiamek está longe
de ser um mito, em verdade um paradoxo metafisico. No que pese ter
sua existência inequivocamente comprovada, as controvérsias
que tem suscitado não param em sua origem, finalidade ou natureza.
Todos os que já o viram não
conseguem entrar em acordo quanto à sua aparência. Resguardadas
sua ferocidade e suas dimensões imensas, Tiamek varia nos relatos
em formato, cor, consistência ou comportamento.
Para uns, a fera assume a forma de
ruidoso arcabouço metálico. Para outros, é recoberta
de plantas, e florestas. Tiamek está também presente
nas crônicas de famosos navegadores sob a tez colossal e hídrico
leão marinho. Há quem o perceba sempre em repouso,
como uma plácida montanha, ou então voando, ou correndo,
ou mesmo dançando. E outros ainda que, por incrível
que pareça, o imaginam mero tigre comum.
Relatos ainda mais extraordinários
nos dão andarilhos que dizem ter adentrado as entranhas do animal
e lá encontrado uma cidade habitada por pessoas que, pasmem!, ignoram
a existência da criatura ou mesmo estarem vivendo dentro dela.
Todas estas descrições
poderiam denunciar um delírio vicioso que se propaga entre os habitantes.
Mas tal teoria não subsiste perante as crateras que surgem pelo
reino, sucessivas e lado a lado, sugerindo pesadas pegadas; perante construções
outrora inamovíveis lançadas ao chão como poeira ao
vento; perante feudos inteiros adubados no passar de uma noite; perante
demorados eclipses cada vez mais freqüentes a que todos rendem hipnótico
maravilhar.
Fosse Tiamek uma lenda, e não
uma evidência, estaria desprovido de todo o seu poder de arruinar
e confundir. Desterrando peremptoriamente qualquer possibilidade
de explicação racional para a fera, sua única imagem
com a qual todos concordam é a mais paradoxal: todos os relatos
confirmam que a fera, após desmoronar lares e utopias, após
humilhar nossos milagres urbanos, após sulcar quilômetros
de desertos com sua cauda infinita, queda seduzida ao primeiro pôr-do-sol.
Alguns dizem ter observado que, neste momento, pode-se vislumbrar seus
olhos como luas apaixonadas que nunca se encontram, e que a fera se mostra
então genuinamente sentimental, como se vivesse a nostalgia de um
tempo em que, pequena, rolava por jardins imensos, acalentada por mãos
cósmicas de que só ela lembra".