Tiamek, O Tigre
Fábio François

Dos cadernos de alquimia, Tomo 8: 8:8, página 0010:

    "Diz a lenda que para o Universo se manter coeso é necessário que se proceda a opressão contínua dos seres; do contrário, a explosão de zilhões de liberdades fragmentaria o continííiíní.  Tiamek seria então uma manifestação monstruosa da Unidade com uma finalidade bem definida: caminhar colossal por entre os campos e as cidades, esmagando as criaturas e suas esperanças para nunca ser esquecido.
    Uma versão mais simples relata que o Universo naturalmente cria a sua face mais monstruosa, não por um objetivo específico, mas em decorrência da lei enunciada pelo Teorema de Lúcifer, que entende que todas as coisas se desfiguram.  Sendo Tiamek desfiguração do próprio Universo, é capaz de assumir existência distinta do objeto do qual é horrenda deformação.
    Outra ainda, comum entre os escribas, parte também da desfiguração universal mas entende que Tiamek seria um apêndice deliberado em que a realidade concentrou todas as suas degradações para que estas não a impregnassem.
    Muitas outras teses são levantadas por alquimistas, contadores ou andarilhos.  Somente os magistrados do Reino não acreditam em sua existência, estando inclusive o prodigioso tigre catalogado na Medicina Legal como cínico delírio escusatório típico de indivíduos de comportamento anti-social.
    Como se sabe, aos nossos juizes não é permitido transitar pelas ruas.  Tiamek está longe de ser um mito, em verdade um paradoxo metafisico.  No que pese ter sua existência inequivocamente comprovada, as controvérsias  que tem suscitado não param em sua origem, finalidade ou natureza.
    Todos os que já o viram não conseguem entrar em acordo quanto à sua aparência.  Resguardadas sua ferocidade e suas dimensões imensas, Tiamek varia nos relatos em formato, cor, consistência ou comportamento.
    Para uns, a fera assume a forma de ruidoso arcabouço metálico.  Para outros, é recoberta de plantas, e florestas.  Tiamek está também presente nas crônicas de famosos navegadores sob a tez colossal e hídrico leão marinho.  Há quem o perceba sempre em repouso, como uma plácida montanha, ou então voando, ou correndo, ou mesmo dançando.  E outros ainda que, por incrível que pareça, o imaginam mero tigre comum.
    Relatos ainda mais extraordinários nos dão andarilhos que dizem ter adentrado as entranhas do animal e lá encontrado uma cidade habitada por pessoas que, pasmem!, ignoram a existência da criatura ou mesmo estarem vivendo dentro dela.
    Todas estas descrições poderiam denunciar um delírio vicioso que se propaga entre os habitantes. Mas tal teoria não subsiste perante as crateras que surgem pelo reino, sucessivas e lado a lado, sugerindo pesadas pegadas; perante construções outrora inamovíveis lançadas ao chão como poeira ao vento; perante feudos inteiros adubados no passar de uma noite; perante demorados eclipses cada vez mais freqüentes a que todos rendem hipnótico maravilhar.
    Fosse Tiamek uma lenda, e não uma evidência, estaria desprovido de todo o seu poder de arruinar e confundir.  Desterrando peremptoriamente qualquer possibilidade de explicação racional para a fera, sua única imagem com a qual todos concordam é a mais paradoxal: todos os relatos confirmam que a fera, após desmoronar lares e utopias, após humilhar nossos milagres urbanos, após sulcar quilômetros de desertos com sua cauda infinita, queda seduzida ao primeiro pôr-do-sol.  Alguns dizem ter observado que, neste momento, pode-se vislumbrar seus olhos como luas apaixonadas que nunca se encontram, e que a fera se mostra então genuinamente sentimental, como se vivesse a nostalgia de um tempo em que, pequena, rolava por jardins imensos, acalentada por mãos cósmicas de que só ela lembra".


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