Quem são os juizes? Ora, meu
amigo, os juizes são aqueles meritíssimos senhores que não
viveram suas próprias aventuras. Coadjuvantes da vida, porta-vozes
do Tudo, são os homens infelizes.
Passaram a vida em belos mosteiros
de topázio em um gigantesco complexo urbano sem habitantes num planeta
dissecado nos confins de uma galáxia sem vida do outro lado do universo
que, para eles, tem o formato de um cubo.
E lá aprendem a julgar.
Os olhos se fecham, a voz seca, o olfato morre, o amor amarga.
E lá envelhecem.
Quando já bem velhos, chegam
aqui e constróem castelos de pó. Empilham criaturas
vivas em montanhas de papéis mofados, cultivam nossos atos heróicos
em relatos desencantados.
E seus livros, narrados por uma pessoa
que não existe.
Eles mesmos, repetindo o que ninguém
disse.
E vão entogados, sisudos e
enfileirados para o seu chazinho. Escutam céticos os nossos dramas,
soltam risinhos pomposos quando falamos do lendário Tiamek, resmungam
recalcados sua sentenças.
Não perdoam nosso prazer.
Mas fala-se a boca miúda que,
à noite, ao voltarem para suas gavetas de frente para o mar, retiram
dos armários inanimados manequins. Então derramam sua
lágrimas sobre as frias coxas de fibra de vidro.
Quem pode julgá-los?