O Mito dos Juízes
Fábio François

    Quem são os juizes? Ora, meu amigo, os juizes são aqueles meritíssimos senhores que não viveram suas próprias aventuras. Coadjuvantes da vida, porta-vozes do Tudo, são os homens infelizes.
    Passaram a vida em belos mosteiros de topázio em um gigantesco complexo urbano sem habitantes num planeta dissecado nos confins de uma galáxia sem vida do outro lado do universo que, para eles, tem o formato de um cubo.
    E lá aprendem a julgar.  Os olhos se fecham, a voz seca, o olfato morre, o amor amarga.
    E lá envelhecem.
    Quando já bem velhos, chegam aqui e constróem castelos de pó.  Empilham criaturas vivas em montanhas de papéis mofados, cultivam nossos atos heróicos em relatos desencantados.
    E seus livros, narrados por uma pessoa que não existe.
    Eles mesmos, repetindo o que ninguém disse.
    E vão entogados, sisudos e enfileirados para o seu chazinho. Escutam céticos os nossos dramas, soltam risinhos pomposos quando falamos do lendário Tiamek, resmungam recalcados sua sentenças.
    Não perdoam nosso prazer.
    Mas fala-se a boca miúda que, à noite, ao voltarem para suas gavetas de frente para o mar, retiram dos armários inanimados manequins.  Então derramam sua lágrimas sobre as frias coxas de fibra de vidro.
    Quem pode julgá-los?


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