R.C.
Luis Fernando Veríssimo

    R.C. é sempre o último a sair, à noite, da ampla sala climatizada, sem janelas, com paredes de aço lixado, onde .está o grande computador.  Ele é o supervisar, a responsabilidade é sua.  A rotina nunca varia.  A pesada porta que veda a única passagem entre a grande sala e o resto do prédio é fechada por um assistente que fica esperando do lado de fora enquanto R.C. percorre minuciosamente a sala, examinando todos os cantos e por baixo de todos os painéis.  Nem um mosquito pode ficar dentro da grande sala durante a noite.  Uma vez R.C. descobriu no chão polido um grampo de cabelo que uma das programadoras deixou cair.  Despediu a programadora e deu ordens para que todas as outras usassem toucas de enfermeira para trabalhar.  A assepsia devia ser absoluta na grande sala.
    O sonho de R.C. era substituir os programadores do grande computador por pequenos computadores, para que nada na grande sala fosse tocado por mãos humanas.  R.C. preferia que nada fosse tocado por mãos humanas.  Inclusive ele mesmo.
    Nessa noite R.C. examina a sala, assegura-se que a chave principal do grande computador está desligada e comunica-se com o seu assistente do outro lado da porta pelo interfone.  O assistente deve abrir a porta apenas o tempo suficiente para R.C. sair e fechá-la de novo, antes que um mosquito possa entrar.  Mas dessa vez a porta não abre.  O que houve?  O assistente diz que está fazendo tudo certo, mas a porta não se mexe.  R.C. dá ordens para o assistente ir para casa.  Ele dormirá dentro da sala e no dia seguinte um dos técnicos da firma consertará a porta.  O assistente vai embora, R.C. faz um travesseiro com o paletó e deita no chão.  Dorme.  Não sonha.
    No dia seguinte, os técnicos da firma falam com R.C. pelo interfone.  Não podem fazer nada.  A porta é americana, um modelo especial.  Só um americano no mundo sabe consertá-la.  Ele já foi chamado, mas demorará seguramente uns três dias para chegar.  Tudo bem, diz R.C. Ele pode agüentar.  Como se alimentará?  Desenvolvem, com arames e pequenos potes, uma maneira de fazer chegar comida a R.C. através de um dos condutos de ar condicionado.  A comida sempre chega fria, mas tudo bem, O ar não pode ser desligado porque a temperatura do grande computador deve ser constante.  R.C. usa os mesmos potes em que recebe a comida para as suas evacuações, e os manda de volta pelo conduto.  Pelo mesmo trajeto chegam a R.C. os trabalhos mais urgentes para submeter ao computador.  O próprio R.C. insistiu para alho do computador continuasse.  Ele sozinho, que o trabalho do computador continuasse. Ele sozinho controla o computador.  Assim passam-se três dias.  R.C. não chega a pensar a respeito, mas se pensasse, concluiria: estava feliz como nunca estivera em sua vida.  Intocado por mãos humanas.
No fim do terceiro dia, uma notícia.  O técnico americano, o único homem do mundo que sabe abrir a porta, caiu da escada do avião ao desembarcar na cidade e morreu.  Só há uma coisa a fazer.  Abrir um túnel numa das paredes de aço para resgatar R.C. Mas R.C. não admite isto.  Diz que continuará dentro da grande sala, e trabalhando, até que entrem em contato com os fabricantes da porta e descubram como abri-la.  Passa-se uma semana.  Duas.  Os técnicos da fábrica americana chegam, examinam a porta, sacodem a cabeça e dizem que só com dinamite.  R.C. protesta.  A explosão desregulará o grande computador, talvez irremediavelmente.  Deve haver outra solução.  Enquanto isto, ele permanecerá no seu posto.
    Os superiores de R.C. não podem se queixar.  O trabalho está indo bem.  Pelo conduto de ar condicionado, R.C. recebe o input para o grande computador e a comida.  Devolve as suas evacuações e o print-out.  Perguntam se ele quer receber jornais, revistas, livros.  Ele recusa.  Tudo bem.  Só pede água, sabonete, uma esponja, cuecas e camisas.  Passa-se um ano.  Dois.
    Um dia, chamam R.C. pelo interfone e ele não responde. Mandam a sua comida e ele não devolve nada.  O silêncio dura três dias.  No quarto dia, quando o diretor tenta mais uma vez se comunicar com R.C., ouve apenas um gemido.  Grita: "O que está acontecendo?  Por que R.C. não responde? Por que não manda mais os print-outs?" R.C. responde que precisa deles.  "Para quê?"

    - Estou fazendo uma barraca - diz R.C. e à uma gargalhada.

    Dinamitam a porta.  Encontram R.C. de olhos arregalados, a barba comprida, tiritando de frio, tentando acender uma fogueira com tiras de gráficos e a chispa de peças do computador que ele bate uma na outra, na frente de uma barraca feita de print-outs e cartões perfurados.  Por toda a sala, há árvores feitas com cadeiras giratórias, mesas de aço e fios coloridos arrancados do computador.  Muitas árvores.
    Mais tarde, restabelecido, R.C. conta que uma noite sentiu uma coisa quente subindo pela sua calça e quando viu, era um rato.  Um sujo e desprezível rato na sala do grande computador!  Mas, quando ia matá-lo, sentiu o calor do seu pêlo e o seu sangue latejando e sentiu que podia ser um amigo.  Chamou-o Eurico.  Construiu a cabana para que pudessem ser felizes para sempre, no meio do pomar, naquela ilha deserta.
 

Hosted by www.Geocities.ws

1