R.C. é sempre o último
a sair, à noite, da ampla sala climatizada, sem janelas, com paredes
de aço lixado, onde .está o grande computador. Ele
é o supervisar, a responsabilidade é sua. A rotina
nunca varia. A pesada porta que veda a única passagem entre
a grande sala e o resto do prédio é fechada por um assistente
que fica esperando do lado de fora enquanto R.C. percorre minuciosamente
a sala, examinando todos os cantos e por baixo de todos os painéis.
Nem um mosquito pode ficar dentro da grande sala durante a noite.
Uma vez R.C. descobriu no chão polido um grampo de cabelo que uma
das programadoras deixou cair. Despediu a programadora e deu ordens
para que todas as outras usassem toucas de enfermeira para trabalhar.
A assepsia devia ser absoluta na grande sala.
O sonho de R.C. era substituir os
programadores do grande computador por pequenos computadores, para que
nada na grande sala fosse tocado por mãos humanas. R.C. preferia
que nada fosse tocado por mãos humanas. Inclusive ele mesmo.
Nessa noite R.C. examina a sala, assegura-se
que a chave principal do grande computador está desligada e comunica-se
com o seu assistente do outro lado da porta pelo interfone. O assistente
deve abrir a porta apenas o tempo suficiente para R.C. sair e fechá-la
de novo, antes que um mosquito possa entrar. Mas dessa vez a porta
não abre. O que houve? O assistente diz que está
fazendo tudo certo, mas a porta não se mexe. R.C. dá
ordens para o assistente ir para casa. Ele dormirá dentro
da sala e no dia seguinte um dos técnicos da firma consertará
a porta. O assistente vai embora, R.C. faz um travesseiro com o paletó
e deita no chão. Dorme. Não sonha.
No dia seguinte, os técnicos
da firma falam com R.C. pelo interfone. Não podem fazer nada.
A porta é americana, um modelo especial. Só um americano
no mundo sabe consertá-la. Ele já foi chamado, mas
demorará seguramente uns três dias para chegar. Tudo
bem, diz R.C. Ele pode agüentar. Como se alimentará?
Desenvolvem, com arames e pequenos potes, uma maneira de fazer chegar comida
a R.C. através de um dos condutos de ar condicionado. A comida
sempre chega fria, mas tudo bem, O ar não pode ser desligado porque
a temperatura do grande computador deve ser constante. R.C. usa os
mesmos potes em que recebe a comida para as suas evacuações,
e os manda de volta pelo conduto. Pelo mesmo trajeto chegam a R.C.
os trabalhos mais urgentes para submeter ao computador. O próprio
R.C. insistiu para alho do computador continuasse. Ele sozinho, que
o trabalho do computador continuasse. Ele sozinho controla o computador.
Assim passam-se três dias. R.C. não chega a pensar a
respeito, mas se pensasse, concluiria: estava feliz como nunca estivera
em sua vida. Intocado por mãos humanas.
No fim do terceiro dia, uma notícia. O técnico
americano, o único homem do mundo que sabe abrir a porta, caiu da
escada do avião ao desembarcar na cidade e morreu. Só
há uma coisa a fazer. Abrir um túnel numa das paredes
de aço para resgatar R.C. Mas R.C. não admite isto.
Diz que continuará dentro da grande sala, e trabalhando, até
que entrem em contato com os fabricantes da porta e descubram como abri-la.
Passa-se uma semana. Duas. Os técnicos da fábrica
americana chegam, examinam a porta, sacodem a cabeça e dizem que
só com dinamite. R.C. protesta. A explosão desregulará
o grande computador, talvez irremediavelmente. Deve haver outra solução.
Enquanto isto, ele permanecerá no seu posto.
Os superiores de R.C. não podem
se queixar. O trabalho está indo bem. Pelo conduto de
ar condicionado, R.C. recebe o input para o grande computador e a comida.
Devolve as suas evacuações e o print-out. Perguntam
se ele quer receber jornais, revistas, livros. Ele recusa.
Tudo bem. Só pede água, sabonete, uma esponja, cuecas
e camisas. Passa-se um ano. Dois.
Um dia, chamam R.C. pelo interfone
e ele não responde. Mandam a sua comida e ele não devolve
nada. O silêncio dura três dias. No quarto dia,
quando o diretor tenta mais uma vez se comunicar com R.C., ouve apenas
um gemido. Grita: "O que está acontecendo? Por que R.C.
não responde? Por que não manda mais os print-outs?" R.C.
responde que precisa deles. "Para quê?"
- Estou fazendo uma barraca - diz R.C. e à uma gargalhada.
Dinamitam a porta. Encontram
R.C. de olhos arregalados, a barba comprida, tiritando de frio, tentando
acender uma fogueira com tiras de gráficos e a chispa de peças
do computador que ele bate uma na outra, na frente de uma barraca feita
de print-outs e cartões perfurados. Por toda a sala, há
árvores feitas com cadeiras giratórias, mesas de aço
e fios coloridos arrancados do computador. Muitas árvores.
Mais tarde, restabelecido, R.C. conta
que uma noite sentiu uma coisa quente subindo pela sua calça e quando
viu, era um rato. Um sujo e desprezível rato na sala do grande
computador! Mas, quando ia matá-lo, sentiu o calor do seu
pêlo e o seu sangue latejando e sentiu que podia ser um amigo.
Chamou-o Eurico. Construiu a cabana para que pudessem ser felizes
para sempre, no meio do pomar, naquela ilha deserta.