O dia seguinte era de trovoada e chuvoso.
Isto não me dissuadiu de visitar a montanha. Caminhos escorregadios
e torrente lamacentas não eram obstáculos ao propósito
que eu tinha concebido. Embrulhei-me, e a um saco de provisões,
numa capa de lona pintada, e apressei-me para a morada de meu amigo Clitero.
Atravessei a caserna e alcancei a ponte que a minha própria ingenuidade
tinha imaginado. No mesmo momento, torrentes de chuva caindo de cima, e
fortes rajadas de vento reboavam por estes desolados recessos e precipícios.
Em vez de lamentar a duração desta tempestade, comecei agora
a olhá-la com prazer. Conferia novas formas de grandeza e magnificência
a esta cena. Como eu me segurasse de mãos e pés ao longo
da ponte, um repentino tufão quase me despenhou do terrível
abismo. Para me salvar, fui obrigado a largar meu fardo, que caiu na voragem.
Este incidente desconcertou-me e afligiu-me. Tão depressa efetuei
a minha perigosa passagem, abriguei-me por trás de um rochedo e
entreguei-me a reflexões. O propósito desta arriscada jornada
foi derrotado pela perda das provisões que tinha trazido.
No entanto, esta falta era facilmente
preenchida. Tinha só que voltar a casa e abastecer-me novamente.
Não havia tempo a perder; mas antes queria ficar debaixo deste abrigo
até que a tempestade passasse. Demais, não tinha ainda a
certeza se Clitero se tinha refugiado novamente ali...
Enquanto me ocupava com estas reflexões,
os meus olhos fixaram-se no precipício oposto. Os cimos das árvores
ondeando de uma lado para o outro, na mais selvagem confusão; os
seus troncos, curvando-se de vez em quando com o tufão, que nesta
elevada região soprava com uma violência desconhecida nas
regiões baixas, exibiam um espetáculo horrível. Por
fim, a minha atenção foi atraída para a árvore
que estava deitada através do precipício, e que eu tinha
convertido em ponte. Percebi que ela já rodara de sua primitiva
posição, que cada rajada de vento lhe quebrava ou desconjuntava
alguns dos filamentos pelos quais as suas raízes estavam em comunicação
com o oposto valado e que, se a tempestade não se acalmasse, havia
perigo iminente de ser arrancada do rochedo, e precipitada no vácuo.
Assim me seria cortada a retirada,
e os males dos quais forcejava por salvar outrem também eu os sofreria.
Não refleti então que Clitero teria achado acesso nesta montanha
por outros meios, e que o caminho pelo qual viria me seria igualmente cômodo.
Acreditei que o meu destino estava realmente suspenso da maneira como tornasse
a atravessar este precipício. Os momentos gastos nestas deliberações
eram realmente críticos, e estremeci ao observar que a árvore
estava segura no seu lugar por um ou dois filamentos, já tão
esticados que quase quebravam. Passar por cima do tronco, tornado escorregadio
pela chuva e desequilibrado pelo vento, era extremamente perigoso. Suster-me
ao passar desafiando o furacão, requeria os mais vigorosos esforços.
Para este fim era necessário
que eu me desfizesse da minha capa e do volume que levava na algibeira
dela. Julguei não haver motivos para recear que qualquer destes
objetos fosse destruído ou roubado, se o deixasse, por poucas horas,
ou por um dia, neste recesso. Justamente quando me tinha desembaraçado
destes estorvos e levantado do meu lugar, minha atenção foi
novamente atraída para o precipício oposto, pelo mais desagradável
objeto que neste momento eu podia imaginar, qualquer coisa que se avistava
e se movia entre as sarças e os rochedos, e por algum tempo tive
a esperança de não ser senão um pequeno urso ou um
canguru, mas breve reconheci ser uma pantera.
O seu pelo cinzento, as unhas estendidas,
os olhos fosforescentes e um grito que naquele momento ouvi, e que pela
sua semelhança com a voz humana é mais particularmente aterrorizador,
designou-me o animal como o mais feroz e indomável dos daquela detestada
raça.
A indústria dos nossos caçadores
quase tem banido os ferozes destes sítios. As solidões de
Norwalk, no entanto, não podiam senão fornecer refúgio
a alguns deles. Ultimamente, tinha-os encontrado tão raras vezes
que os meus receios quase nunca estavam despertos, percorria sem precauções
os mais escabrosos e solitários recessos. Contudo, quase nunca
estava desprovido, nas minhas excursões, de meios de defesa.
O meu temperamento nunca se deleitou
com carnificinas ou sangue. Nunca achei prazer em mergulhar em pântanos,
andar sobre riachos, penetrar em balsas, só pelo gosto de matar
galos bravos ou esquilos. Olhar os seus saltos e vôos e chamá-los
para a minha mão eram o meu mais querido divertimento quando me
entretinha pelos bosques e rochedos. O caso era, porém, muito
diferente, tratando-se de cobras, de cascavel e panteras.
Quanto a estes, pensava não
faltar ao meu dever exterminando-os onde quer que os encontrasse. Estes
perniciosos e sanguinários destruidores são igualmente inimigos
do homem e da inofensiva raça que se recreia nas árvores,
e tenho ainda conservadas, como troféus das minhas proezas juvenis,
as suas peles. Como a caça nunca foi o meu negócio nem o
meu divertimento, nunca me sobrecarreguei com espingarda ou bacamarte.
O exercício assíduo tinha-me tornado mestre de uma arma ofensiva
mais destruidora e infalível. Refiro-me ao meu tomahawk ou
hacha índia. Com esta arma, muitas vezes separei ramos de carvalho
e cortei músculos de gatos monteses à distancia de sessenta
pés.
A pouca freqüência com
que eu tinha ultimamente encontrado este inimigo e o embaraço das
provisões fizeram-me esquecer de trazer comigo as minhas habituais
armas. A fera agora na minha frente, quando estimulada pela fome, costuma
atacar seja o que for que possa fornecer-lhe um banquete de sangue. Atirar-se-ia
ao homem e ao veado com irresistível e igual ferocidade. A sua sagacidade
está à altura de sua força, e parece ser capaz de
descobrir quando o seu adversário está armado e preparado
para a defesa.
A minha passada experiência
tinha-me posto em estado de compreender o alcance do perigo. A fera estava
sentada cume do despenhadeiro, olhando a ponte e deliberando aparentemente
se sim ou não devia atravessá-la. Era provável
que ela tivesse farejado minhas pegadas até ali, e, mesmo que passasse
adiante, dificilmente sua vigilância poderia falhar em surpreender
o meu asilo. A cova que fizera desaparecer Clitero de minha vista estava
a alguma distancia. Atingi-la foi o primeiro impulso que meu medo me sugeriu,
mas não poderia fazê-lo sem excitar a observação
e perseguição deste inimigo. Lamentei profundamente o meu
azar, que me tinha levado a um diferente abrigo à primeira vez que
ali vinha. Mesmo que a fera se conservasse naquele lugar, não
diminuiria muito isso meu perigo.
Passar em frente da esfomeada pantera
era entregar-me à sorte. A queda da árvore, que tinha sido
tão lamentada, não era agora desejada com menos solicitude.
Eu esperava que cada pé de vento que se levantava cortasse os últimos
suportes, e tirando toda a comunicação entre os dois opostos
precipícios, me colocasse em segurança. As minhas esperanças,
no entanto, estavam destinadas a ser frustradas. As fibras da árvore
caída seguravam-se obstinadamente, e, presentemente, o animal descia
o rochedo e dispunha-se a atravessar. De todas as qualidades de morte,
a que agora me ameaçava era a mais horrorosa! Morrer de doença,
ou receber a morte de um ser humano seria benigno e um lenitivo em comparação
de ser dilacerado em bocados pelas garras deste feroz animal. Morrer neste
retiro obscuro e duma maneira tão imprevista pela ansiosa curiosidade
de meus amigos, perder a minha parte de existência por um azar tão
caprichoso e ignóbil, era insuportável. Deplorei amargamente
a minha precipitação, que me fizera vir ali sem defesa para
um encontro dessa ordem. O pior de minha presente situação
consistia principalmente na incerteza. A morte era inevitável, mas
a minha imaginação teve tempo para se atormentar, antecipando-a.
Uma pata do animal movia-se devagar e com precaução, depois
da outra. Enterrava as suas garras tão profundamente na árvore
que com dificuldade se levantavam. Por fim, saltou para o chão.
Está vamos agora separados apenas por um intervalo de uns oito pés.
Deixar o sítio onde me agachava era impossível. A meu lado
e por trás de mim, levantava-se perpendicularmente o rochedo escarpado,
e na minha frente tinha esse hediondo e terrível focinho. Encolhi-me
ainda mais e fechei os olhos. Fui tirado desta horrível suspensão
pelo barulho causado por um segundo salto do animal. Saltou para
a cova onde eu lamentara não me haver refugiado, e desapareceu.
A minha salvação foi tão súbita e tanto além
de tudo quanto eu pensava ou esperava que por um momento julguei ainda
que meus sentidos me tinham enganado.
Esta ocasião de me escapar
não devia ser desprezada. Deixei o meu lugar e rastejei pela árvore
com uma precipitação que me poderia ter sido fatal. O tronco
abanava e gemia debaixo de mim, o vento soprava com uma violência
sem exemplo, e apenas eu chegara ao precipício oposto quando as
raízes se separaram do rochedo, caindo tudo no abismo, com enorme
estrondo. O meu terror não se dissipou facilmente para trás,
maravilhado pela minha salvação e pela concorrência
de acontecimentos que, num curto espaço de tempo, me tinham
posto em absoluta segurança.
Se tivesse caído um momento
mais cedo, eu teria ficado preso no monte ou sido arremessado impetuosamente.
Se a sua queda se tivesse demorado um momento perseguido, pois a fera saía
agora de sua cova e testemunhava sua surpresa e desapontamento por sinais
cuja vista me gelava o sangue nas veias. Viu-me. Agachou as pernas traseiras
e assumiu a posição de se preparava para saltar. De novo
a consternação me tomou por essas aparências. Parecia
à primeira vista que grande demais para permitir que qualquer par
de músculos a galgasse de um salto; mas eu conhecia a agilidade
sem confronto deste animal, e a sua experiência tinha-o colocado.
No entanto, havia mais do que a mim, à altura de julgar a possibilidade
desta façanha. No entanto, havia ainda que ela desistisse do seu
intento. Esta esperança teve depressa o seu fim. A fera saltou,
e as pernas da frente tocaram a borda do rochedo onde eu estava. A despeito
seu veemente esforço, a superfície era demasiado unida e
firme para permitir-lhe agarrar-se. Caiu, e um grito estridente se elevou,
mostrando que nada impedira a sua queda até ao fundo.
Assim, mais uma vez fui salvo da morte;
só o aperto da fome podia ter impelido esta fera a um tão
audaz esforço; mas, seguindo o seu impulso, tinha tornado futuras
visitas aquele sítio isentas de perigo. Clitero também tinha
ficado, desta forma, livre de um perigo iminente e improviso.
Vagueando por estes lugares, dificilmente
poderia a pantera ter falhado em encontrar este fugitivo solitário.
Se o animal vivesse, a minha obrigação teria sido pro atacá-lo
com o meu tomahawk. Mas nenhuma empresa seria mais arriscada. Oculta
na relva ou nos ramos das árvores, a sua vista podia ter descoberto
a minha aproximação; e, saltando-me improvisa e imperceptivelmente
em cima, a minha arma seria inútil.
Com o coração a palpitar
com extraordinária rapidez, desci mais uma vez a escarpada rocha,
entrei na caserna e cheguei ao casal de Huntly, alagado pela chuva e exausto
pela fadiga.