Uma Noite Com Uma Pantera
Charles Brockden Brown

    O dia seguinte era de trovoada e chuvoso. Isto não me dissuadiu de visitar a montanha. Caminhos escorregadios e torrente lamacentas não eram obstáculos ao propósito que eu tinha concebido. Embrulhei-me, e a um saco de provisões, numa capa de lona pintada, e apressei-me para a morada de meu amigo Clitero. Atravessei a caserna e alcancei a ponte que a minha própria ingenuidade tinha imaginado. No mesmo momento, torrentes de chuva caindo de cima, e fortes rajadas de vento reboavam por estes desolados recessos e precipícios. Em vez de lamentar a duração desta tempestade, comecei agora a olhá-la com prazer. Conferia novas formas de grandeza e magnificência a esta cena. Como eu me segurasse de mãos e pés ao longo da ponte, um repentino tufão quase me despenhou do terrível abismo. Para me salvar, fui obrigado a largar meu fardo, que caiu na voragem. Este incidente desconcertou-me e afligiu-me. Tão depressa efetuei a minha perigosa passagem, abriguei-me por trás de um rochedo e entreguei-me a reflexões. O propósito desta arriscada jornada foi derrotado pela perda das provisões que tinha trazido.
    No entanto, esta falta era facilmente preenchida. Tinha só que voltar a casa e abastecer-me novamente. Não havia tempo a perder; mas antes queria ficar debaixo deste abrigo até que a tempestade passasse. Demais, não tinha ainda a certeza se Clitero se tinha refugiado novamente ali...
    Enquanto me ocupava com estas reflexões, os meus olhos fixaram-se no precipício oposto. Os cimos das árvores ondeando de uma lado para o outro, na mais selvagem confusão; os seus troncos, curvando-se de vez em quando com o tufão, que nesta elevada região soprava com uma violência desconhecida nas regiões baixas, exibiam um espetáculo horrível. Por fim, a minha atenção foi atraída para a árvore que estava deitada através do precipício, e que eu tinha convertido em ponte. Percebi que ela já rodara de sua primitiva posição, que cada rajada de vento lhe quebrava ou desconjuntava alguns dos filamentos pelos quais as suas raízes estavam em comunicação com o oposto valado e que, se a tempestade não se acalmasse, havia perigo iminente de ser arrancada do rochedo, e precipitada no vácuo.
    Assim me seria cortada a retirada, e os males dos quais forcejava por salvar outrem também eu os sofreria. Não refleti então que Clitero teria achado acesso nesta montanha por outros meios, e que o caminho pelo qual viria me seria igualmente cômodo. Acreditei que o meu destino estava realmente suspenso da maneira como tornasse a atravessar este precipício. Os momentos gastos nestas deliberações eram realmente críticos, e estremeci ao observar que a árvore estava segura no seu lugar por um ou dois filamentos, já tão esticados que quase quebravam. Passar por cima do tronco, tornado escorregadio pela chuva e desequilibrado pelo vento, era extremamente perigoso. Suster-me ao passar desafiando o furacão, requeria os mais vigorosos esforços.
    Para este fim era necessário que eu me desfizesse da minha capa e do volume que levava na algibeira dela. Julguei não haver motivos para recear que qualquer destes objetos fosse destruído ou roubado, se o deixasse, por poucas horas, ou por um dia, neste recesso. Justamente quando me tinha desembaraçado destes estorvos e levantado do meu lugar, minha atenção foi novamente atraída para o precipício oposto, pelo mais desagradável objeto que neste momento eu podia imaginar, qualquer coisa que se avistava e se movia entre as sarças e os rochedos, e por algum tempo tive a esperança de não ser senão um pequeno urso ou um canguru, mas breve reconheci ser uma pantera.
    O seu pelo cinzento, as unhas estendidas, os olhos fosforescentes e um grito que naquele momento ouvi, e que pela sua semelhança com a voz humana é mais particularmente aterrorizador, designou-me o animal como o mais feroz e indomável dos daquela detestada raça.
    A indústria dos nossos caçadores quase tem banido os ferozes destes sítios. As solidões de Norwalk, no entanto, não podiam senão fornecer refúgio a alguns deles. Ultimamente, tinha-os encontrado tão raras vezes que os meus receios quase nunca estavam despertos, percorria sem precauções os mais escabrosos e solitários recessos.  Contudo, quase nunca estava desprovido, nas minhas excursões, de meios de defesa.
    O meu temperamento nunca se deleitou com carnificinas ou sangue. Nunca achei prazer em mergulhar em pântanos, andar sobre riachos, penetrar em balsas, só pelo gosto de matar galos bravos ou esquilos.  Olhar os seus saltos e vôos e chamá-los para a minha mão eram o meu mais querido divertimento quando me entretinha pelos bosques e rochedos.  O caso era, porém, muito diferente, tratando-se de cobras, de cascavel e panteras.
    Quanto a estes, pensava não faltar ao meu dever exterminando-os onde quer que os encontrasse. Estes perniciosos e sanguinários destruidores são igualmente inimigos do homem e da inofensiva raça que se recreia nas árvores, e tenho ainda conservadas, como troféus das minhas proezas juvenis, as suas peles. Como a caça nunca foi o meu negócio nem o meu divertimento, nunca me sobrecarreguei com espingarda ou bacamarte. O exercício assíduo tinha-me tornado mestre de uma arma ofensiva mais destruidora e infalível. Refiro-me ao meu tomahawk ou hacha índia. Com esta arma, muitas vezes separei ramos de carvalho e cortei músculos de gatos monteses à distancia de sessenta pés.
    A pouca freqüência com que eu tinha ultimamente encontrado este inimigo e o embaraço das provisões fizeram-me esquecer de trazer comigo as minhas habituais armas. A fera agora na minha frente, quando estimulada pela fome, costuma atacar seja o que for que possa fornecer-lhe um banquete de sangue. Atirar-se-ia ao homem e ao veado com irresistível e igual ferocidade. A sua sagacidade está à altura de sua força, e parece ser capaz de descobrir quando o seu adversário está armado e preparado para a defesa.
    A minha passada experiência tinha-me posto em estado de compreender o alcance do perigo. A fera estava sentada cume do despenhadeiro, olhando a ponte e deliberando aparentemente se sim ou não devia atravessá-la.  Era provável que ela tivesse farejado minhas pegadas até ali, e, mesmo que passasse adiante, dificilmente sua vigilância poderia falhar em surpreender o meu asilo. A cova que fizera desaparecer Clitero de minha vista estava a alguma distancia. Atingi-la foi o primeiro impulso que meu medo me sugeriu, mas não poderia fazê-lo sem excitar a observação e perseguição deste inimigo. Lamentei profundamente o meu azar, que me tinha levado a um diferente abrigo à primeira vez que ali vinha.  Mesmo que a fera se conservasse naquele lugar, não diminuiria muito isso meu perigo.
    Passar em frente da esfomeada pantera era entregar-me à sorte. A queda da árvore, que tinha sido tão lamentada, não era agora desejada com menos solicitude. Eu esperava que cada pé de vento que se levantava cortasse os últimos suportes, e tirando toda a comunicação entre os dois opostos precipícios, me colocasse em segurança. As minhas esperanças, no entanto, estavam destinadas a ser frustradas. As fibras da árvore caída seguravam-se obstinadamente, e, presentemente, o animal descia o rochedo e dispunha-se a atravessar.  De todas as qualidades de morte, a que agora me ameaçava era a mais horrorosa! Morrer de doença, ou receber a morte de um ser humano seria benigno e um lenitivo em comparação de ser dilacerado em bocados pelas garras deste feroz animal. Morrer neste retiro obscuro e duma maneira tão imprevista pela ansiosa curiosidade de meus amigos, perder a minha parte de existência por um azar tão caprichoso e ignóbil, era insuportável. Deplorei amargamente a minha precipitação, que me fizera vir ali sem defesa para um encontro dessa ordem. O pior de minha presente situação consistia principalmente na incerteza. A morte era inevitável, mas a minha imaginação teve tempo para se atormentar, antecipando-a. Uma pata do animal movia-se devagar e com precaução, depois da outra. Enterrava as suas garras tão profundamente na árvore que com dificuldade se levantavam. Por fim, saltou para o chão. Está vamos agora separados apenas por um intervalo de uns oito pés.  Deixar o sítio onde me agachava era impossível. A meu lado e por trás de mim, levantava-se perpendicularmente o rochedo escarpado, e na minha frente tinha esse hediondo e terrível focinho. Encolhi-me ainda mais e fechei os olhos. Fui tirado desta horrível suspensão pelo barulho causado por um segundo salto do animal.  Saltou para a cova onde eu lamentara não me haver refugiado, e desapareceu.  A minha salvação foi tão súbita e tanto além de tudo quanto eu pensava ou esperava que por um momento julguei ainda que meus sentidos me tinham enganado.
    Esta ocasião de me escapar não devia ser desprezada. Deixei o meu lugar e rastejei pela árvore com uma precipitação que me poderia ter sido fatal. O tronco abanava e gemia debaixo de mim, o vento soprava com uma violência sem exemplo, e apenas eu chegara ao precipício oposto quando as raízes se separaram do rochedo, caindo tudo no abismo, com enorme estrondo.  O meu terror não se dissipou facilmente para trás, maravilhado pela minha salvação e pela concorrência de acontecimentos que, num curto  espaço de tempo, me tinham posto em absoluta segurança.
    Se tivesse caído um momento mais cedo, eu teria ficado preso no monte ou sido arremessado impetuosamente. Se a sua queda se tivesse demorado um momento perseguido, pois a fera saía agora de sua cova e testemunhava sua surpresa e desapontamento por sinais cuja vista me gelava o sangue nas veias. Viu-me. Agachou as pernas traseiras e assumiu a posição de se preparava para saltar. De novo a consternação me tomou por essas aparências. Parecia à primeira vista que grande demais para permitir que qualquer par de músculos a galgasse de um salto; mas eu conhecia a agilidade sem confronto deste animal, e a sua experiência tinha-o colocado. No entanto, havia mais do que a mim, à altura de julgar a possibilidade desta façanha. No entanto, havia ainda que ela desistisse do seu intento. Esta esperança teve depressa o seu fim. A fera saltou, e as pernas da frente tocaram a borda do rochedo onde eu estava. A despeito seu veemente esforço, a superfície era demasiado unida e firme para permitir-lhe agarrar-se. Caiu, e um grito estridente se elevou, mostrando que nada impedira a sua queda até ao fundo.
    Assim, mais uma vez fui salvo da morte; só o aperto da fome podia ter impelido esta fera a um tão audaz esforço; mas, seguindo o seu impulso, tinha tornado futuras visitas aquele sítio isentas de perigo. Clitero também tinha ficado, desta forma, livre de um perigo iminente e improviso.
    Vagueando por estes lugares, dificilmente poderia a pantera ter falhado em encontrar este fugitivo solitário. Se o animal vivesse, a minha obrigação teria sido pro atacá-lo com o meu tomahawk. Mas nenhuma empresa seria mais arriscada. Oculta na relva ou nos ramos das árvores, a sua vista podia ter descoberto a minha aproximação; e, saltando-me improvisa e imperceptivelmente em cima, a minha arma seria inútil.
    Com o coração a palpitar com extraordinária rapidez, desci mais uma vez a escarpada rocha, entrei na caserna e cheguei ao casal de Huntly, alagado pela chuva e exausto pela fadiga.


Hosted by www.Geocities.ws

1