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Os Sarneys e o Charme da Mis�ria Inebriada pelo decantado "crescimento nas pesquisas" da charmosa governadora maranhense - fruto da antecipa��o ilegal de um maci�o lan�amento televisual, sem o necess�rio contradit�rio cr�tico dos concorrentes -, a m�dia tem deixado de concentrar-se num assunto que, pelas circunst�ncias, se tornou de grande interesse p�blico nacional, ou seja, a situa��o de atraso, de defici�ncia estrutural cr�nica e de mis�ria em que se encontra um Estado - que j� teve grande import�ncia no cen�rio cultural e hist�rico do Pa�s - dominado h� mais de tr�s d�cadas por um retr�grado sistema olig�rquico, mantido pelo coronelismo eletr�nico - cuja l�dima representante pretende agora governar o Brasil. Os dados do Censo 2000 do IBGE s�o, realmente, acachapantes. Das 27 unidades da Federa��o, o Maranh�o n�o apenas ocupa um dos piores lugares. Ocupa, precisamente, o pior lugar, o �ltimo, nos �ndices mais importantes de aferi��o de desenvolvimento humano - s� em alguns itens subindo ao pen�ltimo, perdendo (o �ltimo lugar) para Estados mais novos e sem tradi��o. Desde 1985 o Maranh�o mant�m o pior PIB per capita de todos os Estados brasileiros. Al�m de ser o Estado onde existe a maior quantidade de pessoas, respons�veis pela manuten��o de domic�lios, que recebem a vergonhosa remunera��o de meio sal�rio m�nimo - isso mesmo, meio sal�rio! -, a renda m�dia dos homens e mulheres, chefes de fam�lia no Maranh�o, que n�o ultrapassa R$343 mensais, corresponde a apenas 44,6% da m�dia nacional (que � de R$769). No item saneamento b�sico, enquanto o abastecimento de �gua aumentou substancialmente no Pa�s inteiro, atingindo a m�dia nacional de 89%, no Maranh�o 39,8% das casas n�o t�m sequer banheiro ou sanit�rio! Semelhante calamidade higi�nica, que n�o encontra paralelo nas outras regi�es mais pobres do Brasil, se repete quanto � aus�ncia de coleta de lixo, ao uso de formas inadequadas de esgoto, ao lan�amento de res�duos em fossas rudimentares, valas, rios, lagos e no mar - o que transforma a outrora bela S�o Lu�s num verdadeiro esgoto a c�u aberto, com todas as suas praias polu�das. Aquela que j� foi chamada de "Atenas Brasileira", onde "se falava o melhor portugu�s no Pa�s", regi�o que j� produziu figuras do estofo de Gon�alves Dias, Coelho Neto, Alo�sio de Azevedo, Humberto de Campos, Vespasiano Ramos e tantos outros, que j� abrigou um dos melhores jornais do Imp�rio - o Timon, editado pelo insigne Lu�s Francisco Lisboa -, h� muito vive uma situa��o de absoluta decad�ncia, abandono e mis�ria. Sua bela arquitetura colonial n�o conservada - e freq�entemente transformada em sujos corti�os -, a aus�ncia de infra-estrutura, a falta de boas estradas que pudessem facilitar o acesso a lugares de interesse cultural ou tur�stico, tudo isso apenas aumenta a j� grande desola��o do visitante, ante a ostensiva presen�a da pobreza, espalhada por suas ruas e pra�as p�blicas. Comenta-se que l� � comum professores (registrados em outras fun��es) receberem um sal�rio m�nimo. � como se todo o progresso conquistado pelo Brasil na �ltima d�cada, inclusive por Estados nada ricos como Cear�, Rio Grande do Norte, Para�ba, Pernambuco, Alagoas, Bahia, etc., no Maranh�o ficasse apenas em menos da metade. Como se explica isso? Qual o fen�meno que gerou t�o especial�ssima decad�ncia? H� 36 anos - isto �, em 1965 - Jos� Sarney se elegeu governador do Maranh�o. Depois dele, o amigo e correligion�rio de Jos� Sarney Pedro Neiva de Santana assumiu o governo do Maranh�o. Depois dele, o amigo e correligion�rio de Jos� Sarney Jo�o Castelo Ribeiro Gon�alves assumiu o governo do Maranh�o. Depois dele, o amigo e correligion�rio de Jos� Sarney Oswaldo Nunes Freyre assumiu o governo do Maranh�o. Depois dele, o amigo e correligion�rio de Jos� Sarney Lu�s Rocha assumiu o governo do Maranh�o. Depois dele, o amigo e correligion�rio de Jos� Sarney Epit�cio Cafeteira assumiu o governo do Maranh�o. Depois dele, o amigo e correligion�rio de Jos� Sarney Jo�o Alberto assumiu o governo do Maranh�o. Depois dele, o amigo e correligion�rio de Jos� Sarney �dison Lob�o assumiu o governo do Maranh�o. Depois dele, a amiga, correligion�ria (e filha) de Jos� Sarney Roseana Sarney assumiu o governo do Maranh�o e est� para completar um segundo mandato. Como se explica que algu�m que j� ocupou o poder supremo da Na��o (embora n�o tenha conseguido cumprir a promessa do discurso de posse de ser maior do que ele mesmo) e h� mais de tr�s d�cadas manda em tudo no Estado, sendo dono das emissoras de televis�o e r�dio de maior audi�ncia e do principal jornal, tenha deixado que o Maranh�o chegasse a tais vergonhosos �ndices, apontados pelo Censo 2000 do insuspeito Instituto Brasileiro de Geografia e Estat�stica? Como se explica que algu�m que mandou edificar, em vida, o pr�prio mausol�u, numa iniciativa literalmente fara�nica (e, convenhamos, de supremo mau gosto) que nenhum caudilho latino-americano ou soba africano (pelo menos conhecido) j� ousou tomar, n�o tenha canalizado, nestes �ltimos 36 anos, seu poder, suas energias e sua ineg�vel criatividade em benef�cio da popula��o miser�vel de seu Estado? Ao contr�rio do que dizem alguns que n�o o leram, Jos� Sarney � um bom escritor regionalista e seu melhor livro, Norte das �guas, � quase uma obra-prima. � como se, ao menos em n�vel inconsciente, o escritor n�o pretendesse mudar o cen�rio da regi�o onde t�m desfilado seus personagens antol�gicos, como os irm�os Bonsdias, os Boastardes e os Boasnoites. Seria o caso do sacrif�cio da �tica pela est�tica, semelhante - mal comparando, � claro - ao do imperador romano que, para dar maior realismo ao sofrimento da cidade que inspirava suas can��es, mandou queim�-la? N�o tem sentido cobrar id�ias da charmosa Roseana Sarney - a n�o ser, talvez, o maior respeito � condi��o feminina, poupando-a da barata explora��o eleitoral. Afinal de contas, � muito f�cil encomendar "id�ias", at� originais, para repeti-las em campanha. O problema est� num tipo de mentalidade, forjada nesse longo processo olig�rquico, e de atrasado coronelismo, que nada tem que ver com o processo de moderniza��o socio-econ�mica e estrutural que se pretende para o Brasil do s�culo 21. Muitos podem estar se perguntando, com certa perplexidade: se, de todos os Estados brasileiros, o Maranh�o � o que apresenta a situa��o social mais calamitosa, mantendo (desde 1985) o pior PIB per capita do Pais; se o Maranh�o tem hoje a maior parcela da popula��o (62,37%) vivendo abaixo da linha de mis�ria (menos de R$80 por pessoa, por m�s), de acordo com o Mapa da Fome da Funda��o Get�lio Vargas (FGV); se, nas duas gest�es da governadora Roseana Sarney, a pobreza s� cresceu no Maranh�o, pois, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat�stica (IBGE), o n�mero de fam�lias que l� vivem com at� meio sal�rio m�nimo aumentou 37% enquanto no resto do Pa�s diminuiu 22%; se, nas duas gest�es da governadora Roseana Sarney, cresceram tanto a mortalidade infantil quanto a evas�o escolar - segundo dados da mesma respeitada institui��o, contidos no Censo 2000; se, segundo a �ltima medi��o do �ndice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU, o Maranh�o est� no mesmo patamar de mis�ria de na��es africanas como Gana e Congo - e basta lembrar que 39,8% das casas maranhenses n�o t�m sequer banheiro ou sanit�rio; como se explica, ent�o, o fato de a governadora Roseana Sarney alcan�ar um bom �ndice de aprova��o em seu Estado? E como se explica o fato de, nos �ltimos 36 anos - isto �, desde 1965, quando Jos� Sarney se elegeu governador do Maranh�o -, o eleitorado maranhense ter escolhido, para o governo do Estado, uma seq��ncia ininterrupta de correligion�rios e amigos diletos de Jos� Sarney (Jo�o Castelo Ribeiro Gon�alves, Oswaldo Nunes Freyre, Luiz Rocha, Epit�cio Cafeteira, Jo�o Alberto, �dison Lob�o e a filha Roseana Sarney), se nesse tempo todo o Maranh�o, que no passado fora um marco cultural e hist�rico do Pa�s, entrou em franca decad�ncia econ�mica, social e cultural? Decifremos o enigma. Antes de mais nada, a fam�lia Sarney exerce dom�nio absoluto sobre todo o sistema de comunica��o do Maranh�o. � dona do principal jornal - O Estado do Maranh�o - e do principal sistema de r�dio e televis�o - o Sistema Mirante e o Mirante Sat, que recebem o sinal da Rede Globo. Os outros dois sistemas de TV mais importantes do Estado pertencem a correligion�rios e/ou dilet�ssimos aliados da fam�lia, como � o caso do dono da Difusora (que recebe o sinal do SBT), senador �dison Lob�o, e do dono da TV Praia Grande (que recebe o sinal da Bandeirantes), deputado estadual Manuel Ribeiro, h� oito anos presidente da Assembl�ia Legislativa do Maranh�o (onde a governadora tem 36 dos 42 membros). Interagindo com o governo, num processo de publicidade institucional massificada, intensa e constante, os sistemas de comunica��o social maranhense exercem, com perfei��o, um duplo papel. Primeiro � o de manter um clima permanentemente festivo, com a divulga��o diuturna das promo��es governamentais, dentro da estrat�gia de programa��o pol�tico-espetacular denominada "Viva". Trata-se do seguinte: o governo maranhense organiza, permanentemente, festejos p�blicos em diferentes locais, com ampla concentra��o popular, tendo como p�lo de atra��o artistas famosos, dan�as, farta venda de bebidas, etc. Batiza-se a grande festa de acordo com o nome do bairro ou da regi�o escolhida: por exemplo, "Viva Renascen�a!", ou "Viva Maiob�o!", ou "Viva Liberdade", ou "Viva Bairro de F�tima", ou "Viva Madre Deus", ou "Viva Anjo da Guarda". Certamente � uma iniciativa inspirada na velha pr�tica dos imperadores romanos, denominada panem et circenses (embora sem panem, pelo que talvez mais apropriado fosse denominar cacha�orum et circenses). O segundo papel fundamental do integrad�ssimo sistema de comunica��o controlado pela fam�lia Sarney consiste em abafar tanto fracassos administrativos quanto irregularidades apontadas ou investigadas - seja pelos Tribunais de Contas, pela Pol�cia Federal ou pelo Minist�rio P�blico -, que acabam deixando de se tornar, pela absoluta desinforma��o popular, objeto de press�o por parte da opini�o p�blica maranhense. Dentre os in�meros exemplos de atua��o dessa morda�a comunicol�gica, poder�amos mencionar o caso do P�lo de Confec��es de Ros�rio, um ambicioso projeto de U! 20 milh�es - a cerca de 100 km de S�o Lu�s -, inaugurado pomposamente (com a presen�a de FHC), para gerar 4 mil empregos. Na verdade, tratava-se do conto-do-vig�rio de um chin�s de Taiwan interessado em vender m�quinas de costura - e que acabou preso em Manaus, por estelionato. E o que era para ser uma moderna cooperativa, alardeada pela governadora, se tornou uma minguada produ��o artesanal, que s� emprega cerca de 400 pessoas, ganhando em torno de R$100 por m�s (por falta de coisa melhor). Ou o caso da Usimar, projeto or�ado em R$1,3 bilh�o, que teve aprova��o recorde (com o empenho total da governadora e de seu marido) na Sudam, levantou com rapidez in�dita R$44 milh�es e evaporou (pelo que o Minist�rio P�blico entrou com a��o civil contra Roseana e Jorge Murad). Ou o caso Salang�, projeto de irriga��o destinado � produ��o de arroz e c�tricos, que recebeu cerca de R$60 milh�es h� anos, n�o produz nada e est� eivado de graves irregularidades (inclusive superfaturamento), segundo o TCU. Ou o caso do projeto de despolui��o da Lagoa de Jansen (centro de S�o Lu�s), que tamb�m gastou R$60 milh�es (federais) para n�o despoluir nada, al�m das graves irregularidades (inclusive superfaturamento) apontadas pelo TCU. Ou o caso da "estrada fantasma" Paulo Ramos-Arame, onde foram gastos U! 33 milh�es em obras inexistentes. Ou o caso da duplica��o do Projeto Italuis - R$300 milh�es -, obra de saneamento tamb�m com graves irregularidades (inclusive superfaturamento) apontadas pelo TCU. Nada disso � trazido � discuss�o p�blica pelos ve�culos de comunica��o maranhenses. E, convenhamos, uma popula��o em que 39,8% de seus integrantes n�o podem nem dispor de chuveiros e privadas na pr�pria resid�ncia, e para a qual n�o foram constru�das novas salas de aula nos �ltimos sete anos, que tipo de esp�rito cr�tico poder� ter desenvolvido nas �ltimas tr�s d�cadas e nos �ltimos sete anos - dentro da anestesiante festividade com que tem sido embromada a sua sensa��o de real (mesmo que charmosa) mis�ria? Mauro Chaves é jornalista, |
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