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O novo relatório do Bird (Banco Mundial) divulgado dia 15/09/1999, mostra que no período de maior adesão ao neoliberalismo aumentaram a pobreza e o protecionismo em escala internacional.
A receita liberal ganhou força nos anos 80 e os países em desenvolvimento aderiram rapidamente aos seus três principais ingredientes: abriram seus mercados, reduziram o papel do Estado e estimularam a entrada de investimentos estrangeiros.
Em números absolutos, a quantidade de pessoas vivendo com menos de US$ 1 por dia passou de 1,2 bilhão em 1987 para 1,5 bilhão hoje (1999). Segundo o Banco Mundial, se as tendências recentes persistirem, em 2015 haverá 1,9 bilhão de pessoas nessas condições. Como proporção da população, a América Latina está entre as regiões onde a pobreza mais cresce.
O relatório lembra ainda que a relação entre melhoria na renda média e redução da pobreza nem sempre andam juntas, pois, mesmo quando a renda média aumenta, a redução da pobreza pode não ocorrer no mesmo ritmo (por exemplo, se só os ricos ficarem mais ricos, isto não ajuda a diminuir a pobreza).
De 4,4 bilhões de pessoas vivendo em países em desenvolvimento, cerca de 60% não têm acesso a condições básicas de saneamento, um terço não sabe o que é água limpa, 25% não têm moradia adequada e 20% estão sem acesso a serviços médicos. Entre as crianças, 20% não completam cinco anos de escolaridade nem se alimenta de modo adequado.
O futuro seria menos assustador se houvesse razões para crer na liberalização do comércio internacional, há quatro séculos cantada em prosa e verso pelos economistas como um fator essencial de desenvolvimento.
Mas o Banco Mundial alerta para as reações protecionistas cada vez mais intensas, em especial nos países industrializados. O número de processos antidumping (ou seja, contra práticas comerciais consideradas desleais por produtores domésticos) tem aumentado desde os anos 80. Para o Bird, no futuro vai ser cada vez mais difícil manter o apoio às reformas liberais. As dificuldades são previstas para os próximos 25 anos.
A última esperança talvez esteja no investimento estrangeiro direto. O Banco Mundial aponta um estoque de poupança global da ordem de US$ 13,7 trilhões no ano 2000. Em tese, todo esse dinheiro está em busca de retornos atraentes, típicos das regiões em desenvolvimento. O lado frustrante está não apenas na volatilidade dos capitais, mas no fato de que no máximo 25% dos recursos vão para países em desenvolvimento. Ou seja, o investimento é tão concentrado quanto a riqueza mundial.
O relatório chama a atenção para formas menos discutidas de promoção do desenvolvimento, como o planejamento nas grandes cidades, a preocupação com os efeitos da destruição do meio ambiente e os desafios das novas formas de inovação, especialmente nas tecnologias de informação.

Liberdade de capitais gera polêmica

Até dois anos atrás, o consenso entre os países mais pobres era em favor da liberalização das entradas e saídas de capitais, vista como um passaporte para abocanhar uma parte daquela poupança trilhonária.
Agora o Banco Mundial faz eco a indagações incômodas: qual o papel dos controles sobre fluxos de capitais? Quais as formas encontradas pelos especuladores para escapar desses controles?
Ainda não há respostas claras. O consenso liberal, no entanto, perdeu força na razão direta dos seus efeitos perversos sobre as condições de vida em todo o planeta. A questão da pobreza está de volta à agenda.
Além do alerta deste ano, o Banco Mundial já iniciou os preparativos para o relatório do ano que vem, que será dedicado ao tema (leia no site www.worldbank.org/poverty/wdrpoverty).
Está de volta o velho debate sobre o crescimento e a distribuição de renda.

Gilson Schwartz

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Autor: Gilson Schwartz
Fonte: Jornal Folha de São Paulo do dia 16/09/1999
(com adaptações)
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