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O Movimento Punk no Brasil
Novos ares tomaram conta do país no início da década
de 80. Só se falava na abertura política a liberdade parecia
ter chegado para ficar. Ainda se comemoravam o fim do ato inconstitucional
número cinco e a sanção da anistia no final da década
passada.
Um acontecimento trágico, porém, veio abalar o processo
de democratização do país. No dia trinta de abril
de 1981, duas bombas explodiram dentro de um carro no estacionamento do
Rio centro (RJ), durante um show promovido pelo Centro Brasil Democrático,
apoiado pelo pelo Partido Comunista Brasileiro. Foi o mais grave em uma
seqüência de ataques, até então, dirigidos a
bancas de jornal que vendiam publicações de esquerda. Ainda
assim haviam mais espaço para quem quisesse mostrar suas idéias.
A censura permanecia, mas não era tão pesada. Pelo menos
era o que os roqueiros que fundavam suas bandas no underground, sonhando
em expor ao público suas idéias contestadoras. Aos poucos,
o rock deixava de engatinhar e se apoiava nas próprias pernas.
Era preciso dar um fim a discriminação sofrida pelos roqueiros
dos anos 70 e criar uma alternativa para os monstros sagrados da MPB (Caetano
Veloso, Chico Buarque, etc.) E para as cantoras (Simmone, Maria Betânia,
etc.) que dominavam as programações das rádios.
Antes da explosão, porém, havia mais alguns caminhos a serem
percorridos. Com apenas dois anos de atraso, o Movimento Punk havia chegado
a São Paulo em 1987. Mas no início, resumia-se a pequenas
gangues de adolescentes que imitavam a roupa e as atitudes dos punks ingleses,
mas não a música. Na Inglaterra, os jovens haviam começado
a exibir seu descontentamento com os dinossauros do rock progressivo em
1975. Eles queriam uma música que refletisse seu dia-a-dia e que
pudesse ser tocada por qualquer um, e não por instrumentais virtuosos.
Resultado o Punk Music, um rock de três acordes, rápido,
cru e agressivo. Grupos como Sex Pistols e The Clash serviriam de inspiração
para as primeiras bandas punks brasileiras que pipocavam em São
Paulo e Brasília nos idos de 1978. Tudo ainda acontecia, porém,
no underground, onde os grupos como AI-5, Lixomania ou Restos de Nada
apresentavam-se para os iniciados.
Em 1982, o público, finalmente, tomaria conhecimento da nova tendência.
Primeiro com o lançamento do primeiro disco de punk do brasileiro:
Grito Suburbano, que reuniria: Os Inocentes, Cólera e Olho Seco.
Depois, com a realização do festival O Começo Do
Fim Do Mundo, o primeiro grande evento de punk realizado no Brasil.
O acontecimento, que terminou em confronto com a polícia, teve
ampla cobertura da imprensa. Em manifesto aberto ao público, os
punks declararam: "Nosso movimento surgiu numa época de crise
e desemprego com tal força que logo se espalhou pelo mundo, e cada
um, a sua realidade, adotou esse tipo de protesto, punk ...", dizia
o folheto. Clemente Tadeu, o vocalista de Os Inocentes, era mais direto:
"Nós estamos aqui para revolucionar a música popular
brasileira, pintar de negro a asa branca, atrasar o trem das onze, pisar
sobre as flores do Geraldo Vandré e fazer da Amélia uma
mulher qualquer".
Não seria fácil, porém. O caso de Os Inocentes é
exemplar. Apesar de terem fundado o grupo em 1981, Clemente Tadeu (guitarra
e vocal), Ronaldo Passos (guitarra), André Parlato (baixo) e Tonhão
Parlato (bateria) só conseguiram gravar seu primeiro disco em 1986.
Pânico em São Paulo, lançado pela WEA, mantinha a
energia do grupo, que contava com a produção de Branco Mello,
dos Titãs, e Pena Schimidt. Daí para frente o grupo teria
uma Carreira estável, com mais cinco discos lançados por
gravadoras grandes. O mesmo não se pode dizer de outros grupos
paulistas da mesma geração.
O Cólera, um dos mais representativos do movimento, gravaria em
1985 ( Tente Mudar o Mundo ), mas ainda de maneira independente. Já
o Olho Seco lançaria discos apenas esporadicamente - seu último
trabalho é Haverá Futuro?, gravado no ano passado. A influência
dos grupos paulistas, porém, ficaria para sempre em grupos como
Ira (que fez seu primeiro show em um festival de punk, na PUC de São
Paulo, em 1981), RPM (seu guitarrista Fernando Deluqui, passou pela banda
de punk Ignoze), Legião Urbana (herdeira dos punks de Brasília)
ou Titãs, o grupo que incorporou a influência punk em suas
música.
A origem era outra, mas os ideais os mesmo. Também no início
dos anos 80, um bando de rapazes de classe média começou
a se reunir em bandas. Tinham formação universitária
e estavam mais ligados a MPB do que ao rock. O que os unia não
era o conteúdo, mas a forma: todos gravaram de maneira independente,
longe das grandes gravadoras. Realizavam, assim, um dos ideais punks mais
importantes: o "do yourself", ou, traduzindo "faça
você mesmo".
O selo, no caso, era o Lira Paulista, mesmo nome do lugar onde a maioria
das bandas se apresentavam - entre eles, Arrigo Barnabé, Sabor
de Veneno, Língua e Banda Performática (de onde saíram
dois integrantes dos Titãs, Aranaldo Antunes e Paulo Miklos). Com
a sucessão de acontecimentos desagradáveis com os punks,
como os confrontos com a polícia e com a volta da tetra entre as
gangues, o punk perdeu a sua força.
Poucas bandas conseguiram sobreviver a todos esses acontecimentos. Mas
um dia os punks sonham que aconteça uma verdadeira revolução
desmacificada.
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